terça-feira, 18 de julho de 2017

Acervo da Teologia

Missão Entre os Vulneráveis - Igor Miguel


Missão Entre os Vulneráveis 
Por: Igor Miguel 

Tenho muita dificuldade com a retórica de messianização do pobre (muito presente em determinadas tendências missiológicas). Trabalho há quase cinco anos com crianças e adolescentes em contextos de alta vulnerabilidade. Pela graça de Deus, faço parte de uma equipe e de uma ONG1 profundamente interessadas na garantia do desenvolvimento humano. Porém, jamais me deixei envenenar por qualquer ufanismo triunfalista nem, tampouco, por uma antropologia rousseauniana ingênua.

Não tenho nenhuma pretensão de transformação estrutural ou de mudanças revolucionárias. Também não acho que o pobre seja privilegiado, em termos morais, em relação ao rico, simplesmente por causa de sua condição pobre. Porém, admito que a maioria esmagadora dos eleitos de Deus são pobres materialmente: a história e as Escrituras comprovam. Logo, de forma bíblica e histórica, Deus favorece misteriosamente os mais vulneráveis, mas não acho que seja um critério soteriológico, mas uma forma particular em que Deus opera para evidenciar Sua glória.

Não acho que eu mereça – nem nenhum cristão – algum tipo de admiração por tal tarefa. Essa afirmação não se baseia em uma postura demagógica. Esse é um fato experimentado por qualquer missionário/profissional realmente interessado nos mais vulneráveis: jamais serviríamos tais indivíduos por nossa competência. Somos arrastados ao serviço e ao amor, pois o próprio Cristo os ama e quer servi-los. Raras vezes sou reconhecido por meus educandos ou seus pais por qualquer esforço em vê-los melhorando em inúmeras competências socioemocionais e cognitivas. E, de fato, não tenho nenhuma expectativa de reconhecimento. O que faço é ínfimo e, depois, não é o reconhecimento que me encoraja. Sendo assim, que Deus nos livre de um farisaísmo performático. Que Deus nos livre de uma admiração desproporcional e desnecessária.

 Somos arrastados ao serviço e ao amor, pois o próprio Cristo os ama e quer servi-los.

Um cristão se move no sentido dos mais vulneráveis por causa de dois grandes mandatos divinos: a Grande Comissão, ide (Mt 28.19), e o Grande Mandamento, amar (Jo 13.34). Para mim, cristãos precisam amar mais e dar um passo mais consistente na direção dos mais pobres e vulneráveis. Nosso país é marcado por profundas desigualdades, violência, fracasso institucional, impunidade e empobrecimento moral. Para mim, é simplesmente inquietante que cristãos fiquem indiferentes ao sofrimento alheio. Claro que não estou aqui, sustentando a tese de “encontrar Deus nos pobres” e longe de apresentar uma “abordagem ideológica” em relação à pobreza. Antes simplesmente evoco o Grande Mandamento: amar!

Cristãos precisam de um choque de realidade. Eles precisam deixar suas vidas cômodas e entrar numa cracolândia, subir o morro, visitar presídios, servir em desastres ou ter ações semelhantes. De fato, não há como continuarmos sendo cristãos da mesma forma depois de uma imersão na realidade dos que sofrem.

Sou favorável ao fortalecimento da sociedade civil. Temos que superar essa dependência estatal e, por incrível que pareça, nós todos, como comunidade cristã, deveríamos nos envolver com a tarefa de dignificar mais brasileiros empobrecidos e vulneráveis. Deveríamos assumir isso como tarefa. Não falo que a igreja local deva fazê-lo. Não acho que igrejas devam ser ONGs. Mas penso que igrejas devem ensinar sobre o amor, a compaixão e a generosidade a seus membros. Que eles se envolvam, que doem e compartilhem seus bens e suas capacidades a serviço dos que precisam.

Cristãos precisam de um choque de realidade. Eles precisam deixar suas vidas cômodas e entrar numa cracolândia, subir o morro, visitar presídios, servir em desastres ou ter ações semelhantes. De fato, não há como continuarmos sendo cristãos da mesma forma depois de uma imersão na realidade dos que sofrem.

Timothy Keller chama a atenção para outro ponto importante, “Fazer justiça está ligado de modo inseparável à pregação da graça de Deus. Isso é verdade de duas maneiras: o Evangelho produz interesse pelo pobre e as obras de justiça dão credibilidade à pregação do Evangelho. Em outras palavras, justificação pela fé nos leva a fazer justiça, e fazer justiça leva muitos a buscar a justificação pela fé.” Sustento que uma tensão entre os dois mandatos mencionados é desnecessária. Que continuemos anunciando Jesus Cristo, ensinando sobre sua obra salvadora e justificadora. Mas que igualmente amemos de maneira incondicional os mais vulneráveis, servindo-os em suas necessidades concretas. Estamos diante de uma oportunidade singular de testemunharmos um cristianismo robusto pela pregação e pelo serviço sem sobreposição nem confusão entre evangelizar e servir.

Gostaria ainda de salientar que nosso conceito de pobreza também carece de uma definição mais sofisticada. De fato, há muitos tipos de pobreza e de riqueza. Há os materialmente pobres, mas ricos em outros aspectos. Há os emocional e socialmente pobres, cativos por entorpecentes e por doenças graves, ainda que financeiramente ricos. Em Apocalipse, a Igreja de Laodiceia, mesmo com sua riqueza material, foi chamada de pobre pelo próprio Cristo. Precisamos de critérios mais elaborados sobre pobreza – uma abordagem complexa e multidimensional para mapearmos a vulnerabilidade humana. Sem tais critérios, cairemos fatalmente em uma espécie de ufanismo ideológico revolucionário ou em uma espécie de quietismo que fica esperando a caridade alheia.

Recentemente o teólogo e pensador cristão Guilherme de Carvalho dirigiu sérias e honestas críticas à chamada Teologia da Missão Integral. Uma leitura honesta evidencia que precisamos superar a tentação de abraçar qualquer ideologia secular como solução para a transformação do mundo. Devemos renunciar a qualquer pretensão de que podemos instaurar o Reino de Deus por nossas ações. Considere a seguinte afirmação de Carvalho: “As obras de fé e de justiça que realizamos no mundo hoje, incluindo os trabalhos de transformação social, econômica, política e cultural, só podem ser, por sua natureza, sinais ‘subescatológicos’ do reino. Eles não são o reino, mas a evidência da presença do reino. O reino é ‘justiça, paz, e alegria no Espírito Santo’. O reino está onde está o poder da nova criação, e ele só é presente onde há fé, esperança e amor.”

Na atual conjuntura política de polaridades entre esquerda e direita devemos nos concentrar na superação entre teoria e prática, entre ortodoxia (doutrina correta) e ortopraxia (prática correta), como sugere o amigo e filósofo Pedro Dulci: “Mostra-se urgente no contexto brasileiro que recuperemos uma teologia do reino de Deus para que nossa missão seja realmente ortodoxa e profundamente integral.” Penso que estamos precisamente nesta virada missiológica: uma missiologia que integra teologia ortodoxa e prática consistente com esse fundamento. Do contrário, seremos mais uma vez presas fáceis de ídolos seculares.

A convocação final é que amemos, que Cristo se manifeste em palavras e obras, que corações se convertam. Se não se converterem, que sejam servidos, cuidados e dignificados. E que tais obras sejam como luzeiros em um mundo cínico em relação ao compromisso de cristãos com Cristo e com as pessoas.


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