terça-feira, 23 de maio de 2017

Acervo da Teologia

* Cristianismo & Liberalismo / Resumo / John Gresham Machen



  Cristianismo e liberalismo / John Gresham Machen
   Josaías Jr.

Liberais são aqueles caras que negam o sobrenatural e a inspiração da Bíblia, não? Eles não estão por perto, certo? Nós, conservadores e fundamentalistas, nada temos com eles, não é? Hoje a maioria está confinada a suas igrejas pequenas e seus escritórios empoeirados nos seminários. Correto?

Não é bem assim. Um dos possíveis títulos para esse post seria “você também é um liberal”. Mas, para evitar generalizações e injustiças, melhor ficar apenas na possibilidade. Você pode ser um liberal. E é por isso que a obra de Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, que completa 94 anos em 2017, merece ser lançada, lida, relida, discutida e relançada. Mesmo que o movimento liberal não pareça ter a força de outrora, seus slogans e defensores ainda existem entre nós, conscientes ou não, coerentes ou não.

Um pouco de história

É possível afirmar que o movimento liberal tem suas origens em diversos movimentos humanistas que surgem no século XVII. Cientificismo, naturalismo, iluminismo, empirismo, racionalismo, romantismo e por aí vai – todos dão sua colaboração na formação do que passamos a chamar de pensamento moderno, ou modernismo. Quem assistiu um pouco de história no ensino médio sabe que, aos poucos, uma cosmovisão fundamentada no sobrenatural e/ou na revelação (ainda que o catolicismo medieval tenha seu pezinho no homem, também) deu lugar a uma mentalidade que tinha o homem como medida de todas as coisas.

A partir daí, alguns pensadores e teólogos perceberam que a mensagem da igreja deveria mudar ou, pelo menos, ela deveria tentar adaptar-se a esses novos tempos. Outros, menos conscientes do sincretismo que defendiam e em que nasceram, simplesmente misturam a mensagem anti-revelação ao pensamento anti-intelectual  também popular e negam a necessidade de verdades proposicionais. (Nem sempre modernismo = racionalismo. O homem é o centro, e as emoções dele podem ser mais confiáveis que a razão, para alguns). Alguns, empolgados com a iluminação e evolução alcançadas pela humanidade, entendem que chegamos a uma nova era, em que o homem alcançará paz e harmonia não por doutrinas, mas pela ética, do qual Cristo é o maior representante. Em outro texto, tentei resumir desta forma:

Assim, a conclusão dos liberais era a seguinte: percebemos que o homem não é mau como os cristãos tradicionais afirmaram. Ele é bom, está um pouco desorientado, é verdade, mas é bom. E está evoluindo! Ele não precisa do sacrifício sangrento de um Messias para salvá-lo (uma ideia repugnante e bárbara!), pois Deus (não necessariamente aquele dogmatizado pelos cristãos antigos) não deseja sequer condená-lo. A humanidade precisa de orientação. E para isso a Bíblia e os ensinamentos de Jesus servem – para orientar-nos a uma vida melhor.

No início do século XX, com o liberalismo ganhando força na grandes denominações e seminários dos EUA, John Gresham Machen se destacou por suas convicções conservadoras dentro da igreja presbiteriana. Machen combateu o movimento moderno a ponto de fundar o Westminster Theological Seminary, na Filadélfia (deixando, assim, o outrora reformado Seminário de Princeton) e a Orthodox Presbyterian Church (abandonando a crescentemente liberal PCUSA). Entre tantos escritos famosos do autor, a pequena obra Cristianismo e Liberalismo ganha destaque por ser uma defesa firme da fé cristã e por expressar de maneira mais concisa e didática as diferenças entre duas mensagens completamente distintas.

Duas religiões

Machen não gasta muito tempo buscando explicar as origens do movimento. Seu foco é comparar o que os liberais propõem com aquilo que o Cristianismo bíblico e histórico pregou. Não há ponto de contato. Para ele, a divisão é óbvia: o liberalismo não é cristianismo. São duas religiões completamente diferentes, sem qualquer ligação. Enquanto o Catolicismo Romano é uma distorção do cristianismo e pode até (de modo geral) ser considerado um movimento cristão, este não é o caso com o movimento liberal.

As propostas são terrivelmente diferentes. Um é uma religião de redenção. O outro é uma religião de auto-aperfeiçoamento. Um é a religião de Deus. Outro é a religião do homem. “Liberalismo é totalmente imperativo, enquanto o Cristianismo começa com um indicativo; o Liberalismo apela ao arbítrio do homem, enquanto o Cristianismo, em primeiro lugar, anuncia o ato gracioso de Deus”. O Cristianismo apresenta uma história, uma narrativa, uma notícia sobre um Deus que salva pecadores por meio de seu Filho. O liberalismo cita princípios éticos, morais, e um Jesus desassociado de sua divindade, uma cruz que não expia pecados e um Deus que não tem justiça. Parece familiar? Se não, continue acompanhando.

Nos sete capítulos que compõem o livro, Machen destrincha a mensagem do liberalismo em sete temas: Doutrina, Deus e o homem, a Bíblia, Cristo, Salvação e Igreja. Não há como expor todas as diferenças que o autor apresenta num espaço limitado desse texto, apenas destacar alguns pontos que me chamaram mais a atenção. E daí vem aquela afirmação mencionada no início do artigo: Você também pode ser um liberal. E o livro de Machen lhe ajudará a livrar-se da falsa doutrina que se disfarça de verdade bíblica.

Gentileza gera gentileza. Doutrina gera divisão.

Tudo isso me lembra da moda atual de citar os conselhos que He-Man dava no final de cada episódio. Para aqueles que são jovens demais (ou velhos demais) para saber do que falo: após cada aventura, o personagem He-Man ensinava uma lição de moral a seus telespectadores mirins. 

O curioso é que muitas vezes a mensagem do musculoso personagem lembra os sermões pregados em igrejas.¹ Por quê? He-man era convertido? Não. A mensagem de aperfeiçoamento pessoal, de moralidade rasa e de lição de vida é o que resta como religião quando o homem abandona Deus, a Bíblia e a mensagem de salvação em Cristo.

Assim, diante da possibilidade sempre presente de cairmos em uma religião humanista (mesmo que não a chamemos de “liberalismo teológico”), uma série de perguntas pode ajudar a identificar essa tendência em sua vida ou em sua igreja.

A igreja deveria abandonar ao máximo tudo o que a liga ao passado – credos, práticas, doutrinas?

Ou você ama a tradição e expressões teológicas históricas da igreja, ainda que as utilize com significados ligeiramente diferentes? Ex.: Deus é a experiência religiosa do homem.
Você concorda com a frase “cristianismo é estilo de vida, não doutrina”?

Doutrina não é importante e cada um pode crer no que quiser? Os fatos históricos ensinados no Evangelho são irrelevantes se comparados à ética de Cristo?

Você acha que a religião simples de Jesus Cristo foi a) esquecida pela igreja; b) alterada por Paulo; ou c) distorcida pelos credos ecumênicos/reformadores/fundamentalistas?

Essa religião simples foi redescoberta hoje e envolve livrar-se de instituições históricas e antigas?
Sentir a presença de Deus é mais importante e tem mais peso que conhecê-lo por meio da Bíblia e as proposições que ela apresenta?

Você crê que Deus é o pai universal de todos e que a humanidade é uma grande e única família?

Você teme ou evita mencionar o pecado ao anunciar a mensagem bíblica?

Um chamado à ação é mais eficaz e importante que um chamado ao arrependimento?

Você critica aqueles que “amam a Bíblia acima de Deus” por defenderem a autoridade, suficiência e inspiração plena da Escritura?

Você considera as palavras de Jesus ou o Novo Testamento como mais autoritativos que o Antigo Testamento? Em outras palavras, para você o A.T é apenas um registro judaico dos atos de Deus ou das experiências religiosas do povo judeu?

Em caso de muitas respostas positivas, há o que se questionar. Essa não é uma lista exaustiva nem propõe uma caça às bruxas. O objetivo dela é lhe levar a observar o poder que um movimento supostamente morto ainda tem sobre a igreja de hoje. Vale a pena conseguir o pequeno livro de Machen e distribuir por aí.

Para finalizar, recentemente foi noticiada a existência de uma “igreja ateísta” na Inglaterra. As pessoas reúnem-se semanalmente para ouvir mensagens, cantar e divertir-se. O enfoque dessa comunidade é humanista, e as mensagens envolvem o crescimento pessoal e testemunhos de jornadas espirituais. As pessoas são ensinadas a ajudar mais, viver melhor e por aí vai. Poderíamos falar sobre a necessidade do ser humano em transformar tudo em religião, mesmo o ateísmo. Mas, parece-me que há outro ponto aqui: a igreja que se esquece de Deus entroniza o homem. Foi isso que aconteceu com a igreja liberal. É isso que acontece com igrejas antropocêntricas. Que as palavras finais de Machen nos lembrem qual deveria ser nossa mensagem e quem é o nosso foco.

“Sou mui grato pela obediência ativa de Cristo. Sem ela, não há esperança.”

Fonte: iPródigo 



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