terça-feira, 5 de abril de 2016

Acervo da Teologia

* Porque ser Certinho não Basta! / Luciano Bruno

Porque ser certinho não basta!



A maioria das religiões do nosso mundo exige de seus adeptos um comportamento exterior impecável. Observado de modo despretensioso, esse tipo de exigência comportamental às vezes parece até engraçado. Os judeus ortodoxos de Israel programaram elevadores que param em todos os andares aos sábados porque eles acham que apertar um botão equivale a “trabalhar”; pela mesma razão, alguns hotéis preparam papel higiênico devidamente cortado para seus hóspedes do sábado. Do lado de cá, na religião cristã, não é diferente. Há também um zelo pelos bons costumes e obediência cega às doutrinas que quando se mostram excessivos, de fato, não adiantam em nada quando o assunto é refrear os impulsos da carne. Foi o que disse o apóstolo Paulo:
Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que é que vocês, então, como se ainda pertencessem a ele, se submetem a regras: “Não manuseie!” “Não prove!” “Não toque!”? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne. (Colossenses 2.20-23)
O que Paulo dizia era que essa ânsia de ser certinho não provocava uma busca sensata e despretensiosa pela santificação, mas na verdade representava tão somente um perigoso rumo ao legalismo. Isso porque, infelizmente, o legalismo oferece a alguns cristãos um jeito conveniente de transmitir superioridade. Essa mania de advertir sem amor e exortar sem a graça nada mais revela que uma vontade de dizer “eu sou mais santo que você”. O legalismo em excesso solapa a graça e causa dissensão entre pessoas que deveriam andar juntas e abraçadas.
Há quem pregue a pureza sexual acima de tudo, mas não tem uma só palavra a dizer quando o assunto é, por exemplo, sonegação fiscal. Há quem se escandalize ao ouvir palavrões, mas conviva em paz com o consumismo exagerado e as compras fúteis. Há quem critique pessoas com vícios como bebida e cigarro, mas nunca fala nada sobre a gula, por exemplo, que em termos gerais é muito mais prejudicial a saúde. Nos tempos de Paulo, os cristãos debatiam violentamente questões como o vegetarianismo, festividades pagãs, carnes sacrificadas a ídolos, circuncisão e a adoração a anjos.
Paulo não mediu palavras em seus ataques contra os legalistas. Isso porque, anteriormente legalista, o apóstolo dos gentios jamais conseguiu resistir ao amor furioso de Deus e à sua graça, que é ilimitada. Ler os ensinos dos evangelhos, das cartas paulinas e de todo o novo testamento deixa bem claro que, diferente da maioria das religiões do mundo, a fé cristã não exige nenhum bom comportamento moral, mas sim uma pureza de motivos. De acordo com Jesus, não basta fazer a coisa certa, é necessário fazê-lo com a motivação correta. É por isso que ser certinho por fora não basta. Foi sobre isso que Jesus esbravejou contra os fariseus em Mateus 23.
O legalismo rebaixa os padrões de Deus, em vez de elevá-los. Os preceitos mais fundamentais do evangelho, como amar o próximo como a si mesmo, cuidar dos pobres, fazer justiça, perdoar os inimigos, não podem e nem devem ser reduzidos a um conjunto de regras. Qualquer lista de regras rigorosas delimita a amplitude do que Deus quer que se faça no mundo, afastando a ênfase da distribuição da graça de Deus em prol de pecadores e aproximando-a de uma competição sem sentido entre pseudossantos. Isso torna a fé mesquinha e irrelevante, não algo de importância premente. Que jamais caiamos no legalismo de apenas viver a apontar falhas alheias. Que saibamos que ser certinho exteriormente não vale de nada, antes, o evangelho de Cristo exige de nós pureza de motivos para que Sua graça seja espelhada e Seu nome sempre glorificado!

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