"Ao contrário de muitos, não negociamos a Palavra de Deus visando a algum lucro; antes, em Cristo falamos diante de Deus com sinceridade, como homens enviados por Deus".
2 Coríntios 2.17


sábado, 18 de abril de 2015

* John Folmar / Biografia & Obras


John e sua esposa Keri se mudou para Dubai a partir de Washington DC em 2005, para servir UCCD como o Pastor Sênior. Depois de se formar a partir do Seminário Teológico Batista do Sul, John atuou na equipe de Capitol Hill Baptist Church, em Washington DC durante vários anos antes de ser chamado para servir UCCD. John e Keri têm três filhos: Ruth, Chloe, e André.
           

O Que Torna Possível a Reforma de Uma Igreja?

John Folmar
Plantar igrejas parece ser a obra mais importante em nossos dias. Mas eu diria que revitalizar igrejas existentes é, igualmente, importante para a causa do reino. De fato, revitalizar igrejas não saudáveis nos permite obter duas coisas como resultado de uma única obra. Não somente estabelecemos uma igreja reformada e vibrante para o evangelho, mas também eliminamos o testemunho medíocre que havia antes.
Igrejas doentes são, como Mark Dever o afirmou, "forças antimissionárias terrivelmente eficazes". Elas anunciam à comunidade: isto é o cristianismo! O cristão é assim! Esses falsos anúncios difamam o evangelho e, na realidade, impedem a evangelização nas áreas adjacentes. Mas, quando uma igreja é transformada, o evangelho prospera enquanto a comunidade é confrontada com um genuíno testemunho coletivo a favor de Cristo.
Já testemunhei duas reviravoltas em igrejas: uma em Louisville (Kentucky) e a outra em Dubai (Emirados Árabes). Em ambos os casos, as igrejas foram completamente transformadas, desde a pregação até a adoração coletiva, a cultura da igreja e ao impacto evangelístico na vizinhança. Em ambas as reviravoltas, ainda que eu não possa reivindicar crédito por nenhuma delas, desfrutei do privilégio de ver pessoalmente a mudança radical de uma igreja.
O que tornou possível a reforma dessas igrejas?
Pregação
A força impulsionadora que estará por trás de qualquer reforma verdadeira será a Palavra de Deus. À medida que a Palavra manifesta seu poder em uma congregação, ela amolece o solo endurecido e produz mudança espiritual. Em Dubai, havia membros fiéis que trabalharam por anos, mas obtiveram poucos resultados. Não eram nutridos consistentemente por sermões semanais. Tentativas ousadas foram feitas para fortalecer a congregação, mas faltava algo. No entanto, quando a pregação se tornou consistentemente expositiva e centrada no evangelho, foi como se alguém jogasse um fósforo acesso em gasolina. O ministério se multiplicou. Quando a igreja começou a mudar, um membro antigo comparou a pregação com um fogo de artilharia semanal. O bater constante da Palavra amoleceu a oposição e abriu caminhos para que um ministério mais frutífero acontecesse em todo o corpo de membros.
O púlpito tem de liderar um esforço de reforma de uma igreja. E isso implica em pregação expositiva com ênfase no evangelho e aplicação criteriosa à vida da igreja, especialmente àquelas áreas que precisam de mudança. Se o púlpito não estiver firmemente por trás deste esforço, os reformadores talvez estejam desperdiçando seu tempo. É melhor mudar para um lugar onde a Palavra já está sendo pregada corretamente e perceber como aquele ministério pode ser apoiado.
Providência
Igrejas moribundas serão vivificadas somente se Deus estiver em ação ali. Anos atrás, em Louisville, uni-me a uma igreja velha cujo ministério definhava por várias razões. Pessoas velhas predominavam na igreja, muitas delas ministrando com fidelidade, mas sem liderança pastoral. Os mais novos tinham desertado da igreja havia muito tempo; e eu podia entender o motivo. Além da lealdade familiar, poucas coisas os mantinham ali. A pregação consistia principalmente de histórias rústicas sem qualquer exposição bíblica séria. A igreja era mais norteada pela cultura do que pela teologia. E a cultura contemporânea se mudara para lá.
Na providencia de Deus, havia outra igreja nas proximidades (uma igreja que se reunia numa escola). Nesta o evangelho era proclamado com clareza. Esta igreja mais nova tinha vida, energia e sã doutrina, mas não tinha raízes na comunidade, nem prédios. A solução óbvia era unir as duas congregações. Inicialmente, a ideia de unir as duas igrejas foi rejeitada pela igreja mais velha e necessitada. Eles eram muito diferentes na teologia, na música, na cultura e em outros aspectos. Mas Deus começou a remover soberanamente os oponentes da união e mudou aos poucos o coração das pessoas, para que a nova igreja surgisse. Como noite e dia – de oposição rígida para aprovação quase unânime da congregação –, em sua providência Deus cuidou para que uma nova obra começasse ali, em Louisville, uma igreja que continua vibrante e unida até hoje.
Há muitas forças dispostas contra a reviravolta de uma igreja local, que nunca acontecerá se Deus não a fizer acontecer.  O cuidado providencial de Deus é essencial à reforma da igreja; é por isso que a oração é crucial.
Companheirismo
Procure não fazer isto sozinho. A reforma da igreja pode ser desgastante, ingrata e desencorajadora. O tempo para isso não é medido em meses, e sim em anos. E uma reforma espiritual profunda não é rápida. Deus usa os meios comuns de graça para dar crescimento e mudar seu povo. Igrejas melindrosas podem se tornar impacientes; e, em tempos difíceis, é bom ter amigos.
Quando comecei a pastorear em Dubai, havia um presbítero que pensava como eu e me encorajou bastante quando os tempos se tornaram árduos. Ele era perito em identificar evidências de graça, mesmo quando eu prosseguia com dificuldade em meio aos meus erros pastorais e às interrupções inevitáveis que acompanham a reforma da igreja. Quando elementos cruciais da reforma estavam em perigo, ele estava lá para dar ajuda na hora certa. Se possível, compartilhe com outros antes de atirar-se impetuosamente numa situação de reforma. Não vá sozinho.
Valorize o identificar homens que respondem ao ministério e integre sua vida à deles. Considere isto uma prioridade fundamental: treinar homens da congregação que um dia serão presbíteros e companheiros no ministério.
Paciência
Quantos pastores já foram demitidos porque introduziram mudanças antes que a igreja estivesse pronta? Quantos esforços de reforma já estiveram em perigo por conta da impaciência dos líderes que, talvez, sabiam a coisa certa a fazer, mas falharam em gastar tempo ensinando, orando e servindo as pessoas, para que ganhassem sua confiança e as convencessem dos pontos que necessitavam de reforma? Lembre a exortação de Paulo a Timóteo: "Corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina" (2 Tm 4.2). Somente porque você sabe quais são os problemas, isso não significa que eles devem ser resolvidos imediatamente.
Quando comecei a pastorear em Dubai, alguém me lembrou proveitosamente que a igreja não era "minha". Em outras palavras, as pessoas que estavam ali e seu estado de maturidade espiritual eram o fruto do ministério de outro pastor, e não de meu próprio ministério. Eu não podia chegar e esperar que a igreja adotasse imediatamente as minhas opiniões sobre a vida da igreja e o ministério. Isto me deixou livre para servir com alegria as pessoas que nem sempre compartilhavam de minhas convicções sobre a Bíblia ou sobre o ministério. Mas, depois de poucos anos, o quadro começou a mudar.
Adote uma perspectiva de longo prazo no que diz respeito à reforma da igreja. Ajuda-nos ter um horizonte de tempo de dez a vinte anos. Com uma perspectiva de longo prazo, podemos priorizar mais pacientemente as áreas da vida da igreja que necessitam de mudança. Podemos agir mais alegremente em um ambiente de ministério imperfeito quando pedimos às pessoas que tolerem as nossas fraquezas pessoais.
No entanto, existem duas coisas que um pastor pode mudar de imediato, ao chegar em uma nova igreja: a pregação e a recepção de membros na igreja. Num dia, você pode exaltar a autoridade das Escrituras pela maneira como você prega, extraindo os pontos explicitamente do próprio texto bíblico e mostrando que você se rege por ele. Segundo, você pode começar imediatamente a fazer entrevistas com os novos membros, quando eles chegam. Desta maneira, você pode:
  • Assegurar-se, no melhor de sua habilidade, de que eles são crentes genuínos;
  • Assegurar-se de que eles podem articular o evangelho;
  • Definir suas expectativas quanto ao membros da igreja;
  • Começar a estabelecer um relacionamento pastoral com os novos membros que estão chegando, um relacionamento que no decorrer do tempo afetará a complexão da igreja como um todo.
Poucas coisas são melhores do que ver pessoalmente uma reforma na igreja
Em conclusão, há poucas coisas que são melhores do que ver uma mudança na igreja, de igreja fraca e irrelevante para igreja vibrante e bíblica. A única maneira como isso pode ocorrer é pela pregação correta da Palavra de Deus. Contudo, alguns esforços de reforma fracassam apesar da fidelidade no púlpito; o Senhor tem de estar em ação para mudar o rumo das coisas. É provável que você seja bem sucedido a longo prazo se tiver alguns irmãos que labutam com você na obra. No entanto, mesmo com todas essas coisas, você tem de adotar a abordagem de longo prazo para a reforma da igreja. "Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas. Sede vós também pacientes e fortalecei o vosso coração, pois a vinda do Senhor está próxima" (Tg 5.7-8).
Traduzido por: Wellington Ferreira.
Editor: Tiago J. Santos Filho.


Três Lições sobre Evangelismo Transcultural

John Folmar
Na nossa igreja em Dubai, nós temos nos maravilhado em testemunhar conversões de pessoas da Eritreia e do Uzbequistão, da Síria e da África do Sul, da Escócia e da Espanha, do Irã e da Índia, da Holanda e da Bolívia, da Alemanha e da China e de outros países. Elas vêm de contextos religiosos e seculares, tradicionais e progressivos, muçulmanos e hindus, jovens e idosos.
Qual é a chave para abrir os corações dessas pessoas de contextos culturais e religiosos tão diversos?
A resposta é que não  “chave transcultural”. Em nosso evangelismo aqui, nós não fazemos nada diferente do que faríamos em qualquer outro lugar. Nossos métodos evangelísticos não têm qualquer criatividade. Sugerir que algumas pessoas são mais fáceis de se converter do que outras é avesso às Escrituras. Todos nós, por natureza, estamos longe do Senhor. Então, em nosso evangelismo devemos testemunhar, orar e aguardar o mover soberano do Espírito.
Não existe “chave” para entrar em um necrotério espiritual.
Mas isso não significa que a diversidade cultural seja irrelevante para o evangelismo. A maioria das cidades do mundo estão se tornando cada vez mais etnicamente diversas. Com 202 nacionalidades em seu mercado de trabalho, Dubai está adiantada nessa área. O mundo voltou os olhos para a Arábia, trazendo desafios e oportunidades para o evangelismo.
Três lições
Eis aqui três lições que aprendemos pelo fato de vivermos e ministrarmos em um ambiente ultra-multicultural:
1. Comunique-se claramente
Primeiro, comunique-se claramente. Muçulmanos são ensinados desde a infância que Deus não tem Filho algum. Os hindus negam a existência de um Criador transcendente que fundamenta toda a existência e moralidade. Humanistas seculares pensam que a verdade religiosa é relativa. Então, com quem quer que estejamos falando, devemos definir nossos termos de forma clara. Com muçulmanos, nós analisamos o que a Bíblia quer dizer a respeito do Filho de Deus: não que o Pai e Maria tenham fisicamente produzido descendentes, semelhante a Zeus e Dânae, mas que a imagem eterna do Deus invisível, cuja existência precedeu a do universo, veio por si mesmo e encarnou.
Com hindus, nós trabalhamos para explicar um universo moral, onde bem e mal são definidos pelo caráter de Deus e sua vontade revelada. É inútil falar sobre “pecado” (Rm 3.23) ou apontar as pessoas para o “Filho” (Jo 3.16), a menos e até que tenhamos explicado esses conceitos. Em contextos multiculturais, devemos, como D.A. Carson disse: “começar nosso evangelismo muito mais atrás para fornecer mais do enredo da Bíblia, a fim de que as boas novas tenham coerência [...] então temos que explicar mais da doutrina de Deus e, consequentemente, do Filho, para uma geração que não sabe nada a respeito da Trindade”.[1]
É por isso que quando Thabiti Anyabwile publicamente dialogou com o ativista muçulmano Shabir Ally em Dubai no ano passado, sua declaração de abertura foi um rápido panorama da teologia do Antigo Testamento, que os conduziu à vida e ao ministério de Jesus. A menos que os ouvintes tenham compreendido o enredo da Bíblia, o significado da expiação não faria sentido para eles.
Trata-se simplesmente de comunicação clara, que é de máxima importância quando vivemos entre pessoas que são iletradas biblicamente e vacinadas contra uma cosmovisão bíblica.
2. Proclame a Palavra
Segundo, proclame a Palavra. Tiago ensina que Deus “nos gerou pela palavra da verdade” (Tg 1.18). Onde quer que estejamos, o agente da regeneração é a revelação bíblica, lida e proclamada. É por isso que, em nosso evangelismo, se a pessoa sabe ler, nosso objetivo deve ser estudar a Bíblia com ela, independente de sua cultura.
O “evangelismo por amizade” está cada vez mais popular no Oriente Médio e em muitos outros lugares, devido à impressão (equivocada) de que não podemos ou não devemos comunicar direta e claramente o que é a mensagem cristã, mas, em vez disso, deveríamos fazer alusões e insinuações até que o nosso amigo demonstre uma abertura para ouvir mais. O evangelismo por amizade enfatiza que devemos conquistar o direito de falar do evangelho para outra pessoa. É claro, não devemos usar as pessoas meramente como projetos evangelísticos. Mas, como um evangelista me disse, existe o perigo de priorizar a amizade em detrimento do evangelismo. Uma preocupação excessiva quanto ao contexto e as técnicas tenderá a ofuscar o mandamento de simplesmente “pregar a Palavra”.
3. Use a igreja local
Terceiro, use a igreja local. Em qualquer continente que você esteja, a igreja é uma reunião de pessoas que habitam o Espírito de Deus, e que se reúnem semanalmente para a pregação, louvor, oração e ordenanças. Paulo esperava que a assembleia semanal não só edificasse os crentes, mas também convencesse os incrédulos que compareciam (1Co 14.25).
Ao longo dos anos, muitas pessoas de países de “acesso restrito” ou “fechados” silenciosamente frequentaram a nossa igreja ou, até mesmo, entraram em nosso prédio durante a semana, e pediram para aprender a respeito de Jesus. Ou ligaram para a secretaria da igreja, identificaram sua religião e pediram para encontrar com alguém a fim de considerar as reivindicações de Cristo. Nós todos ficávamos muito felizes em atender ao chamado — não a fim de pressionar ninguém, mas para oferecermos amizade, explicações claras e verdadeiras a respeito do evangelho, e a oportunidade de observar a exposição tridimensional do evangelho que é a igreja local.
Em muitos desses casos, tais pessoas nasceram de novo e se uniram a nós. Elas não só ouviram e entenderam o evangelho, mas viramcomo o poder de Cristo muda indivíduos e influencia comunidades inteiras que têm pouco em comum, exceto no que concerne a Cristo. A igreja, então, é o ressoar da confirmação do evangelho que está sendo proclamado.
Estranho a todas as culturas
Cada vez mais, cidades globais são o lar de igrejas multinacionais que adoram em inglês, a lingua franca do nosso tempo. Tais igrejas alcançam incontáveis grupos nacionais e étnicos, mesmo através do inglês como segunda língua. Quando expatriados retornam às suas terras, eles levam o evangelho com eles.
É verdade que o multiculturalismo impõe desafios para o evangelismo. Contudo, independentemente do lugar de onde viemos, devemos lembrar que o evangelho é estranho a todas as culturas. Independente de toda a nossa diversidade, ainda somos filhos e filhas de Adão e Eva, e necessitamos do único remédio que apenas Jesus pode garantir: redenção, o perdão dos pecados.
Igrejas em contextos multiétnicos devem trabalhar muito para se comunicarem de forma clara, respeitando cuidadosamente a teologia bíblica. Nós devemos estar centrados na verdade bíblica para que ultrapassemos toda espécie de barreira cultural e religiosa. E devemos sustentar a igreja como a exposição do evangelho para as nações.
Tradução: Alan Cristie
Revisão: Renata Cavalcanti

9 Dicas para Implementar Membresia de Igreja / John Folmar



“Como nós podemos nos envolver no ministério nesta igreja?”
O experiente casal desejava começar a servir naquele mesmo dia – realizando pequenos grupos em sua casa, liderando estudos bíblicos, qualquer coisa. Encorajado pelo entusiasmo deles, eu simplesmente os instei a continuarem visitando a igreja e conhecendo-a melhor. O fato é que novos frequentadores não devem servir a igreja de nenhuma maneira oficial, seja servindo café ou cuidando voluntariamente das crianças.
Isso não é porque nós somos mesquinhos ou hostis. É porque nós cremos que a pergunta mais importante que deve confrontar um novo frequentador em qualquer igreja é esta: Qual é o seu estado diante de Deus? Você foi perdoado de seus pecados e adotado em sua família? Até que você tenha abordado essas questões, o seu serviço na igreja pode simplesmente distraí-lo dessas perguntas mais importantes.
Nós não sabíamos quem “nós” éramos
Quando eu comecei a pastorear a United Christian Church of Dubai em 2005, nós não sabíamos quem “nós” éramos.
Não havia nenhuma lista atestando quem era e quem não era um membro em situação regular de nossa igreja. Havia apenas algumas centenas de pessoas que apareciam a cada semana, algumas regularmente, outras não. Pessoas que nunca haviam se comprometido com a igreja estavam não apenas servindo café, mas também liderando pequenos grupos. Os presbíteros não sabiam, mas alguns desses líderes oficiais nutriam visões heterodoxas, como o universalismo e o modalismo. Eles nunca haviam sido examinados por meio de qualquer processo de membresia.
Paulo instruiu os presbíteros em Éfeso: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos” (Atos 20.28). Sem membresia, como podemos nós saber quem é esse rebanho, a fim de que possamos orar por ele e cuidar dele? Os membros são simplesmente aqueles que por acaso aparecem em nossas reuniões semanais? Hebreus 13.17 diz que nós iremos “prestar contas” do rebanho que nos foi confiado. Assim, é importante saber quem é esse rebanho.
Foi por essa razão que minha igreja começou a adotar uma membresia de igreja formal, seis anos atrás. Ao estabelecerem a membresia, os presbíteros podem conhecer e cuidar do rebanho que lhes foi confiado.
Entrando em turbulência
Todos na igreja UCCD concordavam com a membresia enquanto ela permanecia opcional. Ninguém fazia objeção à membresia enquanto ela era apenas para os líderes, ou para os muito comprometidos, ou uma nova técnica de gerenciamento. Mas, quando nós apresentamos a membresia como uma expectativa para todos os crentes em nossa congregação, houve turbulência. Muitas pessoas não entendiam ou concordavam que a membresia era uma expectativa bíblica. Alguns até mesmo a consideravam legalista, facciosa ou excludente.
O processo de entrevista para novos membros foi especialmente contestado. Um indivíduo escreveu: “Eu nunca estive numa igreja onde você sente que precisa passar num teste como cristão para pertencer à família. A experiência de igreja como um todo deveria ser de amor e cuidado. [...] É óbvio que você primeiro convida amorosamente os membros para a igreja e, se percebe que eles necessitam de liderança ou mentoria adicionais para crescerem como cristãos, então você pode fazer alguma coisa. Nós temos sentido como se tivéssemos de ‘passar por média’ antes de podermos pertencer à igreja UCCD, e eu tenho certeza de que esse não é o modo como Deus planejou”.
Membresia: a segunda ferramenta mais importante da reforma
Seis anos depois, a despeito dessas objeções, nós descobrimos que a membresia bíblica de igreja tem sido vital para fortalecer a nossa igreja. De fato, além da pregação da Palavra, eu creio que o modo mais importante de reformar uma congregação é implantar uma membresia.
Lições aprendidas ao longo do caminho
Aqui estão algumas lições que aprendemos ao longo do caminho.
1. Primeiro, ensine a respeito.
O caminho mais eficaz para indispor uma congregação é começar a mudar a cultura da igreja sem apresentar um fundamento bíblico para a mudança. Paulo exortou Timóteo a ministrar “com toda a longanimidade e doutrina” (2 Timóteo 4.2). Se a sua igreja viveu por anos sem uma membresia bíblica, então pode levar anos para se ver uma mudança bíblica verdadeira.
2. Pregue expositivamente.
À medida que as pessoas crescem espiritualmente ao ouvirem a Palavra pregada a cada semana, elas se tornarão mais receptivas a argumentos bíblicos acerca do governo eclesiástico e, de fato, acerca de todas as áreas da vida. “O Espírito dá vida” (João 6.63, NVI) e ele usa a Palavra para fazê-lo.
3. Eleve o nível do que significa ser um cristão.
Enfatize em sua pregação a santidade de Deus, juntamente com a correspondente exigência de que o povo de Deus reflita o seu caráter (p. ex., 1 Pedro 1.16).
Por meio de uma dieta perseverante de pregação expositiva, aponte para a disciplina eclesiástica no Novo Testamento (ver, por exemplo, Gálatas 6.1-2; 2 Tessalonicenses 3.6-15; 1 Timóteo 5.19-20; Tito 3.10-11; Judas 22-23 etc.). No devido tempo, as pessoas podem se perguntar por que elas não têm visto a disciplina praticada em sua igreja. A disciplina eclesiástica é a evidência bíblica mais clara em favor da membresia de igreja (por exemplo, Mateus 18.15-20; 1 Coríntios 5; também 2 Coríntios 2.6).
Uma igreja é um grupo identificável de crentes que estão conscientemente comprometidos uns com os outros. As suas vidas não são perfeitas, mas pela graça de Deus eles são, de um modo substancial e observável, diferentes do mundo à sua volta. À medida que você sublinhe o significado de ser a “nação santa” de Deus (1 Pedro 2.9), a membresia começará a fazer mais sentido.
4. Faça aplicações corporativas em seus sermões.
Não aplique a Escritura apenas a crentes individuais. Peça às pessoas que considerem o que uma passagem diz à igreja como um todo. Com o passar do tempo, isso as direcionará para uma responsabilidade comunitária e pactual de uns para com os outros.
5. Dissemine essa visão entre os presbíteros e outros líderes.
Distribua o livreto Refletindo a glória de Deus, de Mark Dever,[1] aos potenciais líderes de sua igreja. Se os seus líderes preferirem comédia, tente o livro Plantar igrejas é para os fracos, de Mike McKinley.[2] Converse com eles sobre os argumentos para uma congregação biblicamente organizada.
6. Seja você mesmo um modelo robusto de vida comunitária.
Faça de sua vida um microcosmo da forte comunidade corporativa que você deseja ver em sua igreja. Seja hospitaleiro. Almoce com homens que estejam respondendo ao seu ministério. Comece a construir uma comunidade nuclear que reconheça o valor de prestar contas e ter comunhão. Comece pequeno, seja paciente em suas interações com outros e ore por elas.
7. Ore para que Deus enriqueça as relações em sua igreja, de modo que a membresia faça sentido.
Sem uma comunidade cristã genuína, a membresia é apenas uma casca. Nós dependemos do Espírito Santo para criar as afeições fraternais e manter a unidade que a membresia expressa de modo tão belo. Esteja em constante oração pela comunhão e pelos relacionamentos em sua igreja. Encoraje conversas espirituais. À medida que os relacionamentos em sua igreja se aprofundam, confissão de pecado e correção se tornarão mais comuns.
8. Implante um pacto eclesiástico para enfatizar a responsabilidade corporativa.
Um pacto é uma promessa que cada membro faz de amar e cuidar da igreja. Ele também especifica as obrigações que os crentes têm uns com os outros. Se a sua igreja tem mais de 50 anos, vocês provavelmente já têm um pacto perdido em algum lugar do armário. Desempoeire-o e o reintroduza em sua igreja, mas apenas depois de haver ensinado os conceitos o bastante. Se vocês não têm um pacto, considerem usar este aqui.[3]
A fim de se certificarem de que o pacto é de fato um documento “vivo” em sua igreja, recitem-no juntos antes da Ceia do Senhor ou das reuniões de membros. A verdadeira membresia é composta por aqueles que conscientemente fizeram um pacto com os demais em sua igreja. Sem um pacto e uma membresia, sua igreja pode ser apenas um ponto de pregação.
9. Prepare-se para objeções.
Objeção nº 1: Nós nunca fizemos isso antes.
Resposta: Deixe que a Bíblia, não a tradição, estabeleça o que você faz na igreja. Considere a prevalência da disciplina eclesiástica no Novo Testamento (p. ex., Mateus 18.15-17, 1 Coríntios 5, 2 Coríntios 2.6). Se é possível expulsar alguém de uma assembléia identificável, é possível também admitir alguém. Isso é membresia. E o Novo Testamento presume que todos os cristãos são membros de igrejas.
Objeção nº 2: Membresia é algo legalista e sem amor.
Resposta: Pode ser, mas não o é necessariamente nem deve sê-lo. De fato, permitir que alguém permaneça confortavelmente parte de sua igreja, sem nunca confrontá-lo com a questão de se ele ou ela está de pé diante de Deus, talvez seja a coisa menos amorosa que você jamais possa fazer. É preciso reconhecer que a membresia sozinha não tornará a sua congregação mais amorosa, mas ela deveria ser uma potente demonstração da comunidade forjada pelo Espírito.
Objeção nº 3: Consome tempo demais. 
Ao final de uma cansativa reunião de presbíteros, quem deseja dedicar atenção a uma dúzia de formulários de entrevista de novos membros e conversar sobre detalhes, vidas e testemunhos de indivíduos? Certa vez, um presbítero me perguntou: “Não podemos delegar isso a um diácono?”.
Resposta: O chamado primordial de um presbítero não é gerenciar programas, mas “[atender] por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos” (Atos 20.28). O que poderia ser mais inerente a esse chamado do que ver novos membros entrando e velhos membros saindo?
A membresia antecipa as questões mais importantes
Outra razão para praticar a membresia de igreja é que ela antecipa as mais importantes questões. O processo de triagem e o contato pastoral são vitais para a igreja.
Certo homem do Iêmen quis ser membro da UCCD, mas, baseado na entrevista, ele claramente não era um crente. Cientes desse fato, nós começamos a trabalhar com ele as verdades básicas do evangelho. Agora ele é um cristão frutífero que compartilha o evangelho com outros. Quando outro homem da África do Sul passou pelo processo de membresia, ele não podia explicar o evangelho claramente, embora parecesse crer na Verdade e desse evidência do fruto da fé. Após algumas conversas mais intencionais e o livro Cristianismo básico de John Stott,[4] a sua fé começou a se aprofundar e a florescer. Agora ele serve fielmente como diácono em nossa igreja. Muitas outras pessoas têm sido salvas e fortalecidas por meio do processo de membresia na UCCD.
É claro que nem todo mundo é persuadido.
Três anos atrás, um marido que estava descontente com nosso processo de membresia escreveu aos presbíteros acerca de sua esposa, que estava perturbada após a entrevista de membresia: “A experiência como um todo a fez questionar a fé cristã”, ele disse.
Ele não percebeu que é exatamente para isso que a membresia existe.
Ela existe para nos fazer examinar a nossa fé (2 Coríntios 13.5). Por quê? Não porque nós pastores somos abrasivos, insensíveis ou antipáticos. Não porque cremos ser melhores que os outros, ou porque estamos na posição de julgar a fé das pessoas. Em vez disso, nós devemos permitir que o processo de membresia da igreja nos faça examinar a nossa fé porque a pergunta “Eu sou mesmo um cristão?” é uma das questões mais importantes que jamais podemos enfrentar.
Fonte: 

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Phillip Holmes



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