quinta-feira, 1 de julho de 2010

Acervo da Teologia

* A Doutrina do Homem / Resumo do livro Wayne Grudem

Resumo - Teologia Sistemática. Wayne Grudem, Edições Vida Nova.
Parte 3 - A Doutrina do Homem – p. 361 – 434



ÍNDICE

A. O uso da palavra homem como referência à raça humana 3
B. Por que o homem foi criado? 3
1. Deus não precisava criar o homem, mas nos criou para a sua própria glória. 3
2. Qual o nosso propósito na vida? 3
C. O homem à imagem de Deus 4
1. O significado de “imagem de Deus”. 4
2. A queda: a imagem de Deus se distorce, mas não se perde. 4
3. A redenção em Cristo: a recuperação gradual da imagem de Deus. 4
4. Na volta de Cristo: a completa restauração da imagem de Deus. 4
5. Aspectos específicos da nossa semelhança a Deus. 5
O Ser Humano como Homem e Mulher 8
A. Relacionamentos pessoais 8
B. Igualdade em termos de pessoalidade e importância 8
C. Diferenças de papéis 8
1. A relação entre a Trindade e a liderança masculina no casamento. 8
2. Indicações de papéis distintos antes da queda. 9
3. Efésios 5.21-33 e a questão da submissão mútua. Lemos em Efésios 5: 10
D. Nota sobre a aplicação no casamento 11
A Essência da Natureza do Homem 11
A. Introdução: tricotomia, dicotomia e monismo 11
B. Dados bíblicos 12
1. As Escrituras usam “alma” e “espírito” indistintamente. 12
2. Na morte, as Escrituras dizem tanto que a “alma” parte quanto que o “espírito” parte. 12
3. O homem é tido tanto como “corpo e alma” quanto como “corpo e espírito”. 12
4. A “alma” pode pecar, ou o “espírito” pode pecar. 13
5. Tudo o que se diz que a alma faz, diz-se que o espírito também faz; e tudo o que se diz que o espírito faz, diz-se que a alma também faz. 13
C. Argumentos em favor da tricotomia 13
1. 1 Tessalonicenses 5.23. 13
2. Hebreus 4.12. 14
3. 1 Coríntios 2.14-3.4. 14
4. 1 Coríntios 14.14. 14
5. O argumento da experiência pessoal. 14
6. É nosso espírito que nos faz diferentes dos animais. 14
7. O espírito é aquilo que recebe vida na regeneração. 14
D. Respostas aos argumentos em favor da tricotomia 15
1. 1 Tessalonicenses 5.23. 15
2. Hebreus 4.12. 15
3. 1 Coríntios 2.14-3.4. 15
4. 1 Coríntios 14.14. 15
5. O argumento da experiência pessoal. 15
6. O que nos faz diferentes dos animais? 16
7. Será que o espírito recebe vida na regeneração? 16
8. Conclusão. 16
E. As Escrituras falam realmente de uma parte imaterial do homem que pode existir sem o corpo 16
F. De onde vem nossa alma? 16
O Pecado 17
A. Definição de pecado 17
B. A origem do pecado 17
C. A doutrina do pecado herdado 18
1. Culpa herdada: 18
2. Corrupção herdada: 18
D. Pecados reais que cometemos 20
1. Todas as pessoas são pecadoras perante Deus. 20
2. Será que nossa capacidade limita a nossa responsabilidade? 20
3. Será que as crianças são culpadas mesmo antes de pecar efetivamente? 21
4. Existem graus de pecado? Serão alguns pecados piores do que outros? 23
5. O que acontece quando um cristão peca? 24
6. Qual é o pecado imperdoável? 24
E. O castigo do pecado 25
As Alianças entre Deus e o Homem 25
A. A aliança das obras 25
B. A aliança da redenção 26
C. A aliança da graça 26
1. Elementos essenciais. 26
2. Várias formas de aliança. 26


Resumo
Teologia Sistemática. Wayne Grudem, Edições Vida Nova.
Parte 3 - A Doutrina do Homem – p. 361 - 434


A. O uso da palavra homem como referência à raça humana

Antes de discutir o assunto mesmo deste capítulo, é preciso ponderar brevemente se é correto usar a palavra homem para referir-se a toda a raça humana (como no título deste capítulo). Algumas pessoas hoje contestam veementemente o uso da palavra “homem” para representar a raça humana em geral (incluindo homens e mulheres), pois alegam que tal costume desrespeita as mulheres. Os que fazem essa objeção preferem que, para nos referir à raça humana, usemos exclusivamente termos “neutros” como “humanidade”, “seres humanos” ou “pessoas”.

B. Por que o homem foi criado?

1. Deus não precisava criar o homem, mas nos criou para a sua própria glória.

Deus nos criou para a sua própria glória. Na análise da independência divina, observamos que Deus se refere aos seus filhos e filhas das extremidades da terra como aqueles “que criei para minha glória” (Is 43.7; cf. Ef 1.11-12). Portanto, devemos fazer “tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31).

Esse fato garante a relevância da nossa vida. Percebendo que Deus não precisava nos criar, e que não precisa de nós para nada, poderíamos concluir que nossa vida não tem a menor importância. Mas as Escrituras nos dizem que fomos criados para glorificar a Deus, indicando que somos importantes para o próprio Deus.

2. Qual o nosso propósito na vida?

O fato de Deus nos ter criado para a sua própria glória determina a resposta correta à pergunta: “Qual o nosso propósito na vida?” Nosso propósito deve ser cumprir a meta para que Deus nos criou: glorificá-lo. Quando falamos com respeito ao próprio Deus, eis aí um bom resumo do nosso propósito. Mas quando pensamos nos nossos próprios interesses, fazemos a feliz descoberta de que devemos nos alegrar em Deus e encontrar prazer no nosso relacionamento com ele. Diz Jesus: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10). Davi diz a Deus: “Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl 16.11).

C. O homem à imagem de Deus

1. O significado de “imagem de Deus”.

De todas as criaturas que Deus fez, só de uma delas, o homem, diz-se ter sido feita “à imagem de Deus”. O que isso significa? Podemos usar a seguinte definição: o fato de ser o homem à imagem de Deus significa que ele é semelhante a Deus e o representa.

2. A queda: a imagem de Deus se distorce, mas não se perde.
Podemos nos perguntar se é possível conceber que o homem, mesmo depois de pecar, ainda é como Deus. Essa pergunta é respondida ainda no início de Gênesis, onde Deus dá a Noé a autoridade de estabelecer a pena de morte para o homicídio logo depois da enchente; Deus diz: “Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem” (Gn 9.6). Mesmo sendo os homens pecadores, ainda resta neles bastante semelhança a Deus, tanto que assassinar outra pessoa (“derramar o sangue” é uma expressão do Antigo Testamento que significa tirar a vida humana) é atacar a parte da criação que mais se parece com Deus, e revela uma tentativa ou desejo (se isso fosse possível ao homem) de atacar o próprio Deus.

3. A redenção em Cristo: a recuperação gradual da imagem de Deus.
No entanto, é animador abrir o Novo Testamento e ver que nossa redenção em Cristo significa que podemos, mesmo nesta vida, gradualmente crescer cada vez mais na semelhança de Deus. Por exemplo, Paulo diz que como cristãos temos uma nova natureza, que “se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.10). À medida que vamos crescendo no verdadeiro conhecimento de Deus, da sua Palavra e do seu mundo, começamos a pensar cada vez mais os pensamentos que o próprio Deus tem.
4. Na volta de Cristo: a completa restauração da imagem de Deus.

A admirável promessa do Novo Testamento é que, assim como somos hoje como Adão (sujeitos à morte e ao pecado), também seremos como Cristo no futuro (moralmente puros, jamais sujeitos à morte de novo): “Assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial” (1 Co 15.49). A plena medida da nossa criação à imagem de Deus não se vê na vida de Adão, que pecou, nem na nossa própria vida hoje, pois somos imperfeitos.

5. Aspectos específicos da nossa semelhança a Deus.

Embora tenhamos argumentado acima que seria difícil definir todos os aspectos em que somos semelhantes a Deus, podemos assim mesmo mencionar vários aspectos que nos revelam mais parecidos com Deus do que todo o restante da criação.
Aspectos morais

a.Somos criaturas moralmente responsáveis pelos nossos atos perante Deus. Correspondente a essa responsabilidade, temos

b.um senso íntimo de certo e errado que nos separa dos animais (que têm pouco ou nenhum senso inato de moralidade ou justiça, mas simplesmente reagem ao medo do castigo ou à esperança da recompensa). Quando agimos segundo os parâmetros morais divinos, nossa semelhança a Deus se espelha numa

c.conduta santa e justa perante ele, mas, por outro lado, nossa dessemelhança a Deus se revela sempre que pecamos.

Aspectos espirituais

(4) Não temos somente corpos físicos, mas também espíritos imateriais, e podemos portanto agir de modos significativos no plano de existência imaterial, espiritual. Isso significa que temos
(5) uma vida espiritual que possibilita que nos relacionemos pessoalmente com Deus, que oremos a ele e o louvemos, e ouçamos as palavras que ele nos diz. Animal nenhum jamais passou uma hora absorto em oração intercessória pela salvação de um parente ou de um amigo! Vinculado a essa vida espiritual está o fato de possuirmos
(6) imortalidade; não cessaremos de existir, mas viveremos para sempre.
Aspectos mentais.
(7) Temos a capacidade de raciocinar e pensar logicamente e de conhecer o que nos distingue do mundo animal. Os animais às vezes exibem conduta admirável na solução de complicações e problemas no mundo físico, mas certamente não se ocupam do raciocínio abstrato — não há algo como a “história da filosofia canina”, por exemplo, nem nenhum animal desde a criação evoluiu na compreensão de problemas éticos ou no uso de conceitos filosóficos, etc.
(8) O uso que fazemos da linguagem complexa, abstrata, nos distingue dos animais. Pude pedir ao meu filho de quatro anos de idade que fosse pegar a chave de fenda grande e vermelha lá na caixa de ferramentas no porão. Mesmo que jamais a tivesse visto antes, poderia facilmente executar a tarefa, pois já conhecia os significados de “ir”, “pegar”, “grande”, “vermelha”, “chave de fenda”, “caixa de ferramentas” e “porão”.
(9) Outra diferença intelectual entre seres humanos e animais é que temos uma noção de futuro distante, até um senso íntimo de que sobreviveremos à nossa morte física, senso que a muitos proporciona o desejo de tentar mostrar-se retos diante de Deus antes de morrer (Deus “pôs a eternidade no coração do homem”, Ec 3.11).
(10) Nossa semelhança a Deus também se percebe na criatividade humana em áreas como a arte, a música e a literatura, e na engenhosidade científica e tecnológica. Não devemos pensar que essa criatividade se restringe aos músicos ou artistas mundialmente famosos; também se reflete de maneira muito bela nas peças ou brincadeiras inventadas pelas crianças, na destreza que há no preparo de uma refeição, na decoração de um lar ou no cultivo de um jardim, e na criatividade exibida por todo ser humano que conserta algo que simplesmente não funcionava bem. (11) No aspecto das emoções, nossa semelhança a Deus se percebe numa grande diferença de grau e complexidade. É claro que os animais também exibem algumas emoções (qualquer pessoa que já tenha tido um cachorro certamente se lembra de evidentes expressões de alegria, tristeza, medo de castigo diante do erro, raiva se outro animal invade seu “território”, contentamento e afeto, por exemplo). Mas na complexidade das emoções que vivenciamos, novamente somos bem diferentes do resto da criação.

Aspectos relacionais

Além da capacidade única de nos relacionarmos com Deus, há outros aspectos relacionais ligados à imagem de Deus.

(12) Embora os animais sem sombra de dúvida tenham alguma noção de comunidade, a profundeza de harmonia interpessoal que se vivencia no casamento humano, numa família humana que funcione segundo os princípios divinos, e numa igreja em que a comunidade de crentes ande em comunhão com o Senhor e uns com os outros, é muito maior do que a harmonia interpessoal vivenciada pelos animais. Na nossas relações familiares e na igreja também somos superiores aos anjos, que não se casam nem geram filhos nem vivem na companhia dos filhos e filhas remidos de Deus.
(13) No próprio casamento, espelhamos a natureza de Deus no fato de os homens e as mulheres gozarem de igualdade de importância mas diversidade de papéis, desde que Deus nos criou.
(14) O homem é como Deus no seu relacionamento com o restante da criação. Especificamente, o homem recebeu o direito de reger a criação, e quando Cristo voltar receberá até autoridade para julgar os anjos (1Co 6.3; Gn 1.26, 28; Sl 8.6-8).

Aspectos físicos

Será que em algum aspecto o corpo humano faz também parte daquilo que significa ser criado à imagem de Deus? Certamente não devemos pensar que nosso corpo físico implica que Deus também tem um corpo, pois “Deus é espírito” (Jo 4.24), e é pecado concebê-lo ou retratá-lo de algum modo que sugira que ele tem um corpo material ou físico (ver Êx 20.4; Sl 115.3-8; Rm 1.23). Mas ainda que não devamos em hipótese nenhuma considerar que nosso corpo físico implica que Deus também tem corpo físico, será que assim mesmo em alguns aspectos nosso corpo não reflete algo do caráter do próprio Deus, constituindo portanto parte daquilo que significa ser criado à imagem de Deus? Isso é certamente verdadeiro em alguns aspectos.
(15) nosso corpo físico, em vários aspectos, reflete também algo do próprio caráter de Deus. Além disso, muitos movimentos físicos e demonstrações das habilidades recebidas de Deus se fazem por meio do uso do corpo. E certamente
(16) a capacidade física que Deus nos dá de gerar e criar filhos semelhantes a nós (ver Gn 5.3) é um reflexo da própria capacidade divina de criar seres humanos semelhantes a ele.

6. Nossa grande dignidade como portadores da imagem de Deus. Seria bom se refletíssemos mais freqüentemente na nossa semelhança com Deus. É provável que fiquemos surpresos ao descobrir que quando o Criador do universo quis fazer algo “à sua imagem”, algo mais semelhante a si do que todo o resto da criação, ele nos criou. Essa descoberta nos dá um profundo senso de dignidade e importância, pois passamos a refletir sobre a excelência de todo o restante da criação divina: o universo estrelado, a terra abundante, o mundo das plantas e dos animais e os reinos dos anjos são admiráveis, magníficos mesmo.

O Ser Humano como Homem e Mulher

A criação do ser humano como homem e mulher revela a imagem de Deus em (1) relações interpessoais harmoniosas, (2) igualdade em termos de pessoalidade e de importância e (3) diferença de papéis e autoridade.

A. Relacionamentos pessoais

Deus não criou os seres humanos como pessoas isoladas, mas, aos nos fazer à sua imagem, criou-nos de forma tal que podemos alcançar unidade interpessoal de várias formas em todos os modos de sociedade humana. A unidade interpessoal pode ser especialmente profunda na família, e também na nossa família espiritual, a igreja. Entre o homem e a mulher, nesta era atual, a unidade interpessoal atinge a sua expressão mais plena no casamento, em que marido e mulher se tornam, em certo sentido, duas pessoas em uma: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.24).

B. Igualdade em termos de pessoalidade e importância

Assim como os membros da Trindade são iguais na sua importância e na sua plena existência como pessoas distintas, também homens e mulheres foram criados por Deus iguais na sua importância e na sua pessoalidade. Quando Deus criou o homem, os criou “homem e mulher” à sua imagem (Gn 1.27; 5.1-2). O homem e a mulher foram feitos igualmente à imagem de Deus, e tanto homens como mulheres refletem o caráter divino. Isso significa que devemos enxergar os aspectos do caráter de Deus uns nos outros.

C. Diferenças de papéis

1. A relação entre a Trindade e a liderança masculina no casamento.

Entre os membros da Trindade sempre houve igualdade de importância, pessoalidade e divindade por toda a eternidade. Mas sempre houve também diferenças de papéis entre os membros da Trindade. Deus Pai sempre foi o Pai, e sempre se relacionou com o Filho como um Pai se relaciona com seu Filho. Embora os três membros da Trindade sejam iguais em poder e em todos os outros atributos, o Pai tem a autoridade mais elevada. Ele exerce um papel de liderança entre os membros da Trindade, papel esse que nem o Filho nem o Espírito Santo têm.

2. Indicações de papéis distintos antes da queda.

Mas será que essas distinções entre os papéis masculinos e femininos faziam parte da criação original de Deus, ou será que foram introduzidas como parte do castigo da queda? Será que foi quando Deus disse a Eva: “O teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16), que ela passou a estar sujeita à autoridade de Adão?

Examinando a narrativa da criação em Gênesis, percebemos várias indicações de diferenças de papéis entre Adão e Eva mesmo antes do surgimento do pecado no mundo.
a. Adão foi criado primeiro, depois Eva. O fato de ter Deus criado primeiro Adão, e só depois de certo tempo, Eva (Gn 2.7, 18-23), sugere que Deus tinha Adão como líder dentro da família. Não se menciona procedimento desse tipo, em duas etapas, na criação de nenhum dos animais, mas aqui parece haver um propósito especial. A criação primeiro de Adão é compatível com o padrão da “primogenitura” no Antigo Testamento, a idéia de que o primogênito de cada geração de uma família humana detém a liderança dentro da família naquela geração.

b. Eva foi criada como auxiliadora de Adão. As Escrituras especificam que Deus fez Eva para Adão, não Adão para Eva. Disse Deus: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gn 2.18). Paulo dá a esse versículo tanta importância que nele baseia a exigência de diferenças entre homens e mulheres no culto. Diz ele: “Também o homem não foi criado por causa da mulher, e sim a mulher, por causa do homem” (1Co 11.9). Não se deve supor aqui uma sugestão de importância menor, mas sim que existe uma diferença de papéis desde o princípio.

c. Adão deu nome a Eva. O fato de ter Adão dado nomes a todos os animais (Gn 2.19-20) indica a autoridade de Adão sobre o reino animal, pois no pensamento do Antigo Testamento o direito de dar nome a alguém implicava autoridade sobre essa pessoa (isso se percebe tanto quando Deus dá nomes a pessoas como Abraão e Sara como quando os pais dão nomes aos seus filhos). Como o nome hebraico designava o caráter ou a função da pessoa, Adão especificava as características ou as funções dos animais ao atribuir-lhes nomes.

d. Deus chamou “homem” a raça humana, e não “mulher”. O fato de ter Deus denominado “homem” a raça humana, e não “mulher” ou algum termo neutro em relação ao gênero, já foi explicado no capítulo 21. Gênesis 5.2 especifica que “no dia em que foram criados” Deus “os chamou pelo nome de homem” (ibb). A denominação da raça humana com um termo que também se referia a Adão em particular, ou ao homem em distinção da mulher, sugere o papel de liderança do homem.

e. A serpente aproximou-se primeiro de Eva. Satanás, depois de ter pecado, tentava distorcer e minar tudo o que Deus havia planejado e criado bom. É provável que Satanás (na forma de uma serpente), ao aproximar-se primeiro de Eva, tentasse instituir um papel inverso ao incitar Eva a tomar a liderança na desobediência a Deus (Gn 3.1).

f. Deus falou primeiro a Adão depois da queda. Assim como Deus falou a Adão quando este estava só antes da criação de Eva (Gn 2.15-17), também, depois da queda, ainda que Eva tivesse pecado primeiro, Deus primeiro foi ter com Adão e pediu a ele explicações sobre os seus atos: “E chamou o Senhor Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás?” (Gn 3.9). Deus tinha Adão como líder da família, aquele que primeiro deveria ser convocado a explicar o que acontecera na família.

g. Adão, não Eva, representava a raça humana. Ainda que Eva tenha pecado primeiro (Gn 3.6), somos tidos como pecadores por causa do pecado de Adão, e não por causa do pecado de Eva. Diz-nos o Novo Testamento: “Em Adão todos morrem” (1Co 15.22; cf. v. 49) e “Pela ofensa de um só [homem], morreram muitos” (Rm 5.15; cf. v. 12-21). Isso indica que Deus dera a Adão a chefia ou liderança da raça humana, papel que não foi dado a Eva.

h. A maldição inseriu uma distorção nos papéis anteriores, sem no entanto introduzir novos papéis. Nos castigos que Deus impôs a Adão e Eva, não introduziu, ele, novos papéis ou funções, mas simplesmente a dor e a distorção nas funções já previamente estabelecidas. Assim, Adão ainda teria a responsabilidade primária de arar o solo e cultivar as lavouras, mas o solo produziria “cardos e abrolhos” e no suor do seu rosto ele comeria o seu pão (Gn 3.18, 19). Do mesmo modo, Eva ainda teria a responsabilidade de gerar filhos, mas isso se tornaria doloroso: “Em meio de dores darás à luz filhos” (Gn 3.16).

i. A redenção de Cristo reafirma a ordem da criação. Se está correta a argumentação precedente sobre introdução da distorção dos papéis na queda, então seria de esperar que encontrássemos no Novo Testamento a reversão dos aspectos dolorosos do relacionamento resultante do pecado e da maldição. Seria de esperar que em Cristo, a redenção incentivasse as esposas a não se rebelar contra a autoridade do marido e estimulasse também os maridos a não impor a autoridade com aspereza. De fato, é exatamente isso que encontramos: “Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor. Maridos, amai vossa esposa e não a trateis com amargura” (Cl 3.18-19; cf. Ef 5.22-33; Tt 2.5; 1Pe 3.1-7).

3. Efésios 5.21-33 e a questão da submissão mútua. Lemos em Efésios 5:
As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido (Ef 5.22-24).

Embora na superfície isso pareça confirmar aquilo que argumentamos acima a respeito da ordem da criação para o casamento, nos últimos anos tem havido algum debate acerca do significado da expressão “ser submisso a” (gr. ) nessa passagem. Algumas pessoas a interpretam como “ser solícito e atencioso; agir com amor [um para com o outro]”. Entendido assim, o texto não prega que a esposa tem a singular responsabilidade de ser submissa à autoridade do marido, pois tanto marido quanto esposa precisam ser atenciosos e amorosos um para com o outro, e segundo essa opinião não se tem nessa passagem submissão à autoridade.

D. Nota sobre a aplicação no casamento

Se nossa análise está correta, então há algumas aplicações práticas, especialmente dentro do casamento, e também nos relacionamentos entre homens e mulheres em geral.
Quando os maridos passam a agir de modo egoísta, áspero, dominador, ou mesmo violento e cruel, devem se dar conta de que isso é resultado do pecado, resultado da queda e, portanto, destrutivo e contrário aos desígnios de Deus para eles. Agir assim gera grande destruição na vida, especialmente no casamento.

A Essência da Natureza do Homem

A. Introdução: tricotomia, dicotomia e monismo

De quantas partes compõe-se o homem? Todos concordam que temos um corpo físico. A maioria das pessoas (tanto cristãos quanto não cristãos) sente que também tem uma parte imaterial — uma “alma” que sobreviverá à morte do corpo.

Mas aqui termina a concordância. Algumas pessoas creem que, além do “corpo” e da “alma”, temos uma terceira parte, um “espírito” que se relaciona mais diretamente com Deus. A concepção de que o homem é constituído de três partes (corpo, alma e espírito) chama-se tricotomia.

B. Dados bíblicos

Antes de perguntar se as Escrituras entendem “alma” e “espírito” como partes distintas do homem, precisamos desde já deixar claro que a ênfase bíblica está na unidade global do homem como criatura de Deus. Quando Deus fez o homem, “lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn 2.7). Adão é aqui uma pessoa unificada, com corpo e alma vivendo e agindo juntos.

1. As Escrituras usam “alma” e “espírito” indistintamente.

Quando analisamos o uso das palavras bíblicas traduzidas como “alma” (heb. nephesh e gr. psychÂ)e “espírito” (heb. rõach e gr. pneuma), parece-nos que às vezes são usadas indistintamente. Por exemplo, em João 12.27, diz Jesus: “Agora, está angustiada a minha alma”, enquanto num contexto muito parecido, no capítulo seguinte, João diz que Jesus “angustiou-se [...] em espírito” (Jo 13.21). Do mesmo modo, lemos as palavras de Maria em Lucas 1.46-47: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador”. Esse parece um exemplo bem evidente de paralelismo hebraico, o artifício poético em que a mesma idéia é repetida com o uso de palavras diferentes mas sinônimas.

2. Na morte, as Escrituras dizem tanto que a “alma” parte quanto que o “espírito” parte.
Quando da morte de Raquel, diz a Bíblia: “Ao sair-lhe a alma (porque morreu)...” (Gn 35.18). Elias ora para que a “alma” da criança morta volte ao corpo (1Rs 17.21), e Isaías prediz que o Servo do Senhor derramaria “a sua alma [heb. Nephesh} na morte” (Is 53.12). No Novo Testamento, Deus diz ao rico insensato: “Esta noite te pedirão a tua alma [gr. psychÂ]” (Lc 12.20). Por outro lado, às vezes a morte é tida como o retorno do espírito a Deus. Por isso Davi ora, em palavras mais tarde citadas por Jesus na cruz: “Nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Sl 31.5; cf. Lc 23.46). Na morte, “o espírito volte a Deus, que o deu” (Ec 12.7).5 No Novo Testamento, na hora da sua morte, Jesus, “inclinando a cabeça, rendeu o espírito” (Jo 19.30) e, do mesmo modo, Estevão orou antes de morrer: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” (At 7.59).

3. O homem é tido tanto como “corpo e alma” quanto como “corpo e espírito”.
Jesus nos exorta a não temer aqueles que “matam o corpo e não podem matar a alma”, mas sim “aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10.28). Aqui a palavra “alma” claramente se refere à parte da pessoa que persiste após a morte. Não pode significar “pessoa” ou “vida”, pois não faria sentido falar daqueles que “matam o corpo e não podem matar a pessoa”, ou que “matam o corpo e não podem matar a vida”, a menos que haja algum aspecto da pessoa que continue vivo depois da morte do corpo.

4. A “alma” pode pecar, ou o “espírito” pode pecar.
Aqueles que defendem a tricotomia geralmente concordam que a “alma” pode pecar, pois creem que a alma inclui o intelecto, as emoções e a vontade. (Vemos que nossa alma pode pecar em versículos como 1 Pe 1.22; Ap 18.14.)

O tricotomista, porém, geralmente considera que o “espírito” é mais puro do que a alma e, quando renovado, livre do pecado e sensível ao chamado do Espírito Santo. Essa concepção (que às vezes se insinua na pregação e nos escritos cristãos populares) não encontra realmente apoio no texto bíblico. Quando Paulo encoraja os coríntios a se purificar “de toda impureza, tanto da carne como do espírito” (2 Co 7.1), ele sugere nitidamente que pode haver impureza (ou pecado) no espírito. Do mesmo modo, fala da mulher solteira que se preocupa em ser santa “assim no corpo como no espírito” (1 Co 7.34).

5. Tudo o que se diz que a alma faz, diz-se que o espírito também faz; e tudo o que se diz que o espírito faz, diz-se que a alma também faz.
Os defensores da tricotomia enfrentam um problema difícil na definição clara e exata da diferença entre alma e espírito (segundo o seu ponto de vista). Se as Escrituras dessem claro apoio à ideia de que o espírito é a parte de nós que diretamente se relaciona com Deus em adoração e oração, enquanto a alma abarca o intelecto (pensamentos), as emoções (sentimentos) e a vontade (decisões), então os tricotomistas teriam em mãos um forte argumento. Todavia, a Bíblia parece não dar apoio a tal distinção.

C. Argumentos em favor da tricotomia

Os que adotam a posição tricotomista buscam apoio em várias passagens das Escrituras. Relacionamos abaixo as mais comumente usadas.

1. 1 Tessalonicenses 5.23.
“O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23). Esse versículo porventura não fala claramente que o homem tem três partes?

2. Hebreus 4.12.
“A palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12). Se a espada das Escrituras divide a alma e o espírito, esses não seriam então elementos distintos do homem?

3. 1 Coríntios 2.14-3.4.
Essa passagem trata de diferentes tipos de pessoas, daqueles que são “carnais” (gr. sarkinos, 1Co 3.1); do que é “não espiritual” (gr. psychikos, lit. “almal”, 1 Co 2.14); e daquele que é “espiritual” (gr. pneumatikos, 1Co 2.15). Acaso essas categorias não sugerem tipos diferentes de pessoas — os não cristãos “carnais”, os cristãos “naturais” que seguem os desejos da alma e os cristãos mais maduros que seguem os desejos do espírito? Será que isso não sugere que alma e espírito são elementos distintos da nossa natureza?

4. 1 Coríntios 14.14.
Quando Paulo diz: “Se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera” (1Co 14.14), não sugere ele que a mente faz algo diferente do espírito, e não sustentaria isso o argumento tricotomista de que a mente e o pensamento devem ser atribuídos à alma, não ao espírito?

5. O argumento da experiência pessoal.
Muitos tricotomistas dizem que têm uma percepção espiritual, uma consciência espiritual da presença de Deus, que os afeta de um modo que eles sabem ser diferente do pensamento comum e também das emoções.

6. É nosso espírito que nos faz diferentes dos animais.
Alguns tricotomistas argumentam que homens e animais têm alma, mas sustentam que é a presença do espírito que nos faz diferentes dos animais.

7. O espírito é aquilo que recebe vida na regeneração.
Os tricotomistas também afirmam que, quando nos tornamos cristãos, nosso espírito recebe vida: “Se, porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito é vida, por causa da justiça” (Rm 8.10).

D. Respostas aos argumentos em favor da tricotomia

1. 1 Tessalonicenses 5.23.
Em 1 Tessalonicenses 5.23, Paulo não diz que a alma e o espírito são entidades distintas, mas simplesmente que, seja qual for o nome que se dê à nossa parte imaterial, ele quer que Deus continue a nos santificar em tudo até o dia de Cristo.

2. Hebreus 4.12.
Esse versículo, que fala que a Palavra de Deus “penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas”, deve ser compreendido como 1 Tessalonicenses 5.23. O autor não diz que a Palavra de Deus pode dividir “a alma do espírito”, mas lança mão de vários termos (alma, espírito, juntas, medulas, pensamentos e propósitos do coração) que falam dos profundos elementos íntimos do nosso ser que não se ocultam ao poder penetrante da Palavra de Deus.
3. 1 Coríntios 2.14-3.4.
Paulo certamente distingue a pessoa “natural” (gr. psychikos, lit. “almal”) da “espiritual” (gr. pneumatikos, “espiritual”) em 1Coríntios 2.14-3.4. Mas nesse contexto, “espiritual” parece significar “influenciado pelo Espírito Santo”, pois toda a passagem fala da obra do Espírito Santo de revelação da verdade aos crentes. Nesse contexto, “espiritual” pode praticamente ser traduzido como “Espiritual”.

4. 1 Coríntios 14.14.
Quando Paulo diz: “Meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera”, quer dizer que não compreende aquilo que está orando. Sugere sem dúvida que há um elemento não físico no seu ser, um “espírito” dentro dele que pode orar a Deus. Mas nada nesse versículo sugere que ele considere o seu espírito como algo distinto da sua alma.

5. O argumento da experiência pessoal.
Os cristãos têm uma “percepção espiritual”, uma consciência íntima da presença de Deus vivenciada na adoração e na oração. Nesse profundo nível íntimo podemos também às vezes nos sentir espiritualmente angustiados, ou deprimidos, ou quem sabe ter a sensação da presença de forças demoníacas hostis. Muitas vezes essa percepção se distingue da nossa consciência, dos processos mentais racionais. Paulo percebe que às vezes seu espírito ora sem que sua mente compreenda (1Co 14.14).

6. O que nos faz diferentes dos animais?
É verdade que temos capacidades espirituais que nos fazem diferentes dos animais: somos capazes de nos relacionar com Deus por meio de adoração e oração e gozamos de vida espiritual em comunhão com Deus, que é espírito. Mas não devemos supor que temos um elemento distinto chamado “espírito” que nos possibilita fazê-lo, pois com a mente podemos amar a Deus, ler e compreender as suas palavras e crer que sua Palavra é verdadeira.
7. Será que o espírito recebe vida na regeneração?
O espírito humano não é algo morto num descrente, mas recebe vida quando a pessoa professa fé em Cristo, pois a Bíblia fala que os descrentes têm um espírito evidentemente vivo, mas rebelde diante de Deus — seja Seom, rei de Hesbom (Dt 2.30: o Senhor endureceu “o seu espírito”), seja Nabucodonosor (Dn 5.20: “o seu espírito se tornou soberbo e arrogante”), seja o povo infiel de Israel (Sl 78.8: seu “espírito não foi fiel a Deus”). Quando Paulo diz que seu “espírito é vida, por causa da justiça” (Rm 8.10), aparentemente quer dizer “vivo para Deus”, mas não sugere que antes nosso espírito estivesse completamente “morto”; apenas que vivia afastado da comunhão com Deus, e nesse sentido estava morto.

8. Conclusão.

Embora os argumentos a favor da tricotomia tenham alguma força, nenhum deles proporciona prova concludente que supere o amplo testemunho bíblico que mostra serem os termos alma e espírito muitas vezes intercambiáveis e em muitos casos sinônimos.

E. As Escrituras falam realmente de uma parte imaterial do homem que pode existir sem o corpo

Vários filósofos não cristãos têm contestado veementemente a idéia de que o homem tem alguma parte imaterial, como a alma ou o espírito. Talvez respondendo parcialmente a essa crítica, alguns teólogos evangélicos parecem hesitantes em afirmar a dicotomia na existência humana. Em vez disso, afirmam repetidamente que a Bíblia considera o homem como uma unidade — fato verdadeiro, mas que não deve ser usado para negar que as Escrituras também consideram que a natureza unificada do homem se compõe de dois elementos distintos.

F. De onde vem nossa alma?

Qual a origem da alma? Duas teses são comuns na história da igreja.

O criacionismo é a concepção de que Deus cria uma nova alma para cada pessoa e a envia ao corpo da pessoa em algum momento entre a concepção e o nascimento. O traducionismo, por outro lado, sustenta que a alma e o corpo da criança são herdados dos pais no momento da concepção. Ambas as teses tiveram defensores numerosos ao longo da história da igreja, tendo afinal prevalecido o criacionismo na Igreja Católica Romana. Lutero era a favor do traducionismo, enquanto Calvino favorecia o criacionismo. Por outro lado, alguns teólogos calvinistas posteriores, como Jonathan Edwards e A. H. Strong, favorecem o traducionismo (como o faz a maioria dos luteranos hoje). O criacionismo também tem muitos defensores evangélicos modernos.
Há outra ideia popular, chamada preexistencialismo, que preconiza que as almas das pessoas existem no céu muito antes dos corpos serem concebidos no ventre das mães, e que Deus depois traz a alma à terra, unindo-a ao corpo do bebê enquanto ele se desenvolve no útero.
O Pecado
A. Definição de pecado

Podemos partir da seguinte definição: pecado é deixar de se conformar à lei moral de Deus, seja em ato, seja em atitude, seja em natureza. O pecado é aqui definido em relação a Deus e sua lei moral. Inclui não só atos individuais, como roubar, mentir ou cometer homicídio, mas também atitudes contrárias àquilo que Deus exige de nós. Percebemos isso já nos Dez Mandamentos, que não só proíbem ações pecaminosas, mas também atitudes errôneas: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem cousa alguma que pertença ao teu próximo” (Êx 20.17). Aqui Deus especifica que o desejo de roubar ou cometer adultério é também pecado aos olhos dele.

B. A origem do pecado

De onde veio o pecado? Como ele penetrou no universo? Primeiro, precisamos afirmar claramente que Deus não pecou e não deve ser culpado pelo pecado. Foi o homem quem pecou, os anjos quem pecaram, e nos dois casos o fizeram por escolha intencional e voluntária. Culpar a Deus pelo pecado seria blasfemar contra o caráter de Deus. “Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto” (Dt 32.4). Abraão pergunta com verdade e força nas palavras: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18.25). E Eliú diz com justiça: “Longe de Deus o praticar ele a perversidade, e do Todo-Poderoso o cometer injustiça” (Jó 34.10). De fato, para Deus é impossível sequer desejar a injustiça: “Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13).

C. A doutrina do pecado herdado

Como o pecado de Adão nos afeta? As Escrituras ensinam que herdamos o pecado de Adão de dois modos.

1. Culpa herdada:
Somos considerados culpados por causa do pecado de Adão. Paulo explica os efeitos do pecado de Adão da seguinte maneira: “Portanto [...] por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim [...] a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). O contexto mostra que Paulo não está falando dos pecados que as pessoas efetivamente cometem no dia-a-dia, pois todo o parágrafo (Rm 5.12-21) trata da comparação entre Adão e Cristo.

2. Corrupção herdada:
Temos uma natureza pecaminosa por causa do pecado de Adão. Além da culpa legal que Deus nos imputa por causa do pecado de Adão, também herdamos uma natureza pecaminosa como conseqüência do pecado dele. Essa natureza pecaminosa herdada é às vezes denominada simplesmente “pecado original”, e às vezes, mais precisamente, “poluição original”. Uso, em vez disso, o termo “corrupção herdada”, pois parece exprimir com mais clareza a idéia em vista.

a. Na nossa natureza, carecemos totalmente de bem espiritual perante Deus. Não é certo dizer que algumas partes de nós são pecaminosas, e outras puras. Antes, cada parte do nosso ser está maculada pelo pecado — o intelecto, as emoções e desejos, o coração (o centro do desejos e dos processos decisórios), as metas e motivos e até o corpo físico. Diz Paulo: “Sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum” (Rm 7.18) e “para os impuros e descrentes, nada é puro. Porque tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas” (Tt 1.15).

b. Nos nossos atos, somos totalmente incapazes de fazer o bem espiritual perante Deus. Essa idéia está ligada à anterior. Não só em nós, pecadores, falta o bem espiritual, mas também a capacidade de fazer qualquer coisa que agrade a Deus, e ainda a capacidade de nos aproximar de Deus por nossas próprias forças. Paulo diz que “os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Rm 8.8). Além disso, a respeito de dar fruto para o reino de Deus e fazer o que lhe agrada, diz Jesus: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). De fato, os descrentes não são agradáveis a Deus, senão por outra razão qualquer, simplesmente porque seus atos não advêm da fé em Deus e do amor por ele, e “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11.6). Paulo, falando da época em que seus leitores eram descrentes, diz-lhes que estavam “mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora” (Ef 2.1-2). Os descrentes estão num estado de servidão ou escravidão ao pecado, pois “todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34). Embora, do ponto de vista humano, as pessoas possam ser capazes de fazer o bem, Isaías afirma que “todas as nossas justiças, [são] como trapo da imundícia” (Is 64.6; cf. Rm 3.9-20). Os incrédulos nem sequer são capazes de compreender corretamente as coisas de Deus, pois “o homem natural não recebe os dons [lit. “coisas”] do Espírito de Deus, pois lhe são insensatez, e não consegue compreendê-los, pois só se pode discerni-los espiritualmente” (1Co 2.14 rsv mg.). Tampouco podemos nós nos aproximar de Deus por nossas próprias forças, pois diz Jesus: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6.44).

Mas se nos vemos em total incapacidade de fazer qualquer bem espiritual aos olhos de Deus, então será que ainda temos alguma liberdade de escolha? Sem dúvida aqueles que estão alheios a Cristo ainda tomam decisões voluntárias — ou seja, decidem o que querem fazer, depois agem. Nesse sentido, existe afinal algum tipo de “liberdade” nas decisões que as pessoas tomam. Porém, em virtude da sua incapacidade de fazer o bem e fugir da sua rebeldia fundamental contra Deus e da sua preferência fundamental pelo pecado, os descrentes não têm liberdade no sentido mais importante do termo — ou seja, a liberdade de agir corretamente e de fazer o que é agradável a Deus.

A aplicação disso à nossa vida é bastante óbvia: se Deus dá a alguma pessoa o desejo de se arrepender e confiar em Cristo, ela não deve se demorar nem endurecer seu coração (cf. Hb 3.7-8; 12.17). Essa capacidade de se arrepender e desejar ter fé em Deus não é naturalmente nossa, mas vem pela atuação do Espírito Santo e não dura para sempre. “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração” (Hb 3.15).

D. Pecados reais que cometemos

1. Todas as pessoas são pecadoras perante Deus.

As Escrituras em muitas passagens dão testemunho da pecaminosidade universal da humanidade. “Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14.3). Diz Davi: “À tua vista não há justo nenhum vivente” (Sl 143.2). E diz Salomão: “Não há homem que não peque” (1Rs 8.46; cf. Pv 20.9).

No Novo Testamento, Paulo tece uma extensa argumentação em Romanos 1.18-3.20, mostrando que todas as pessoas, tanto judeus como gregos, apresentam-se culpados perante Deus. Diz ele: “Todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.9-10). Ele está certo de que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). Tiago, o irmão do Senhor, admite: “Todos tropeçamos em muitas coisas” (Tg 3.2), e se ele, que era apóstolo e líder da igreja primitiva, admitiu que cometia muitos erros, então também nós devemos nos dispor a admiti-lo. João, o discípulo amado, que era especialmente íntimo de Jesus, disse:

Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós (1Jo 1.8-10).

2. Será que nossa capacidade limita a nossa responsabilidade?

Pelágio, popular mestre cristão que pregou em Roma por volta de 383-410 d.C., e mais tarde (até 424 d.C.) na Palestina, ensinava que Deus responsabiliza o homem só pelas coisas que este é capaz de fazer. Logo, como Deus nos exorta a fazer o bem, temos necessariamente a capacidade de fazer o bem que Deus exige. A posição pelagiana rejeita a doutrina do “pecado herdado” (ou “pecado original”) e sustenta que o pecado consiste somente em atos pecaminosos isolados.
Contudo, essa idéia de que somos responsáveis perante Deus somente por aquilo que podemos fazer contraria o testemunho bíblico, que afirma tanto que estávamos “mortos nos [...] delitos e pecados” nos quais andávamos antes (Ef 2.1) quanto que somos incapazes de fazer qualquer bem espiritual, e também que somos todos culpados diante de Deus. Além do mais, se nossa responsabilidade perante Deus se limitasse à nossa capacidade, então pecadores extremamente empedernidos, sob pesado jugo do pecado, poderiam ser menos culpados diante de Deus do que cristãos maduros que se esforçam diariamente por obedecer-lhe. E o próprio Satanás, que eternamente só é capaz de fazer o mal, estaria completamente livre de culpa — sem dúvida nenhuma uma conclusão equivocada.

A verdadeira medida da nossa responsabilidade e da nossa culpa não é a nossa capacidade de obedecer a Deus, mas antes a perfeição absoluta da lei moral de Deus e a sua própria santidade (que se reflete nessa lei). “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5.48).

3. Será que as crianças são culpadas mesmo antes de pecar efetivamente?

Segundo alguns, as Escrituras pregam determinada “idade da imputabilidade”, antes da qual as crianças pequenas não são responsáveis pelo pecado nem tidas como culpadas perante Deus. Porém, as passagens citadas acima, na seção C, sobre o “pecado herdado”, indicam que mesmo antes do nascimento as crianças já são culpadas perante Deus e dotadas de uma natureza pecaminosa, o que não só lhes confere a tendência ao pecado, mas também faz que Deus as veja como “pecadoras”. “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5). As passagens que concebem que no juízo final se considerarão os atos pecaminosos efetivamente cometidos (e.g., Rm 2.6-11) nada dizem sobre o fundamento do juízo nos casos em que não houve atos individuais certos ou errados, como ocorre com as crianças que morrem muito novas. Nesses casos, devemos aceitar as passagens bíblicas que afirmam que temos uma natureza pecaminosa antes do momento do nascimento. Além do mais, precisamos compreender que a natureza pecaminosa da criança se manifesta já bem cedo, certamente nos primeiros dois anos de vida, como qualquer um que já criou filhos pode confirmar. (Diz Davi, noutra passagem: “Desviam-se os ímpios desde a sua concepção; nascem e já se desencaminham”, Sl 58.3.)
Mas então o que dizer das crianças que morrem antes de ter idade bastante para compreender e aceitar o evangelho? Será que podem ser salvas?

Aqui só nos resta dizer que, se essas crianças forem salvas, não será pelos seus próprios méritos, nem com base na sua justiça ou inocência, mas inteiramente com base na obra redentora de Cristo e na regeneração operada pela ação do Espírito Santo dentro delas. “Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3).

Todavia, certamente é possível que Deus conceda regeneração (ou seja, nova vida espiritual) a uma criança mesmo antes que ela nasça. Isso aconteceu a João Batista, pois o anjo Gabriel, antes de João nascer, disse: “Ele [...] será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno” (Lc 1.15). Podemos dizer que João Batista “nasceu de novo” antes de nascer! (Veja Nota dos Editores no final deste capítulo.) Encontramos exemplo semelhante em Salmos 22.10, onde diz Davi: “Desde o ventre de minha mãe, tu és meu Deus”. É evidente, portanto, que Deus é capaz de salvar as crianças de um modo incomum, sem que ouçam e compreendam o evangelho, concedendo-lhes regeneração bem cedo, às vezes antes mesmo do nascimento. É provável que imediatamente depois dessa regeneração surja, em idade bastante precoce, uma consciência incipiente e intuitiva de Deus e a fé nele, mas isso é algo que simplesmente não podemos entender.

Devemos, entretanto, afirmar bem claramente que essa não é a maneira normal de Deus salvar as pessoas. A salvação geralmente ocorre quando a pessoa ouve e compreende o evangelho, e então passa a ter fé em Cristo. Mas em casos incomuns como o de João Batista, Deus concede salvação mesmo antes dessa compreensão. E isso nos leva a concluir que é certamente possível que Deus também o faça ao saber que a criança morrerá antes de ouvir o evangelho.
Quantas crianças Deus salva dessa forma? Como as Escrituras não nos dão resposta para isso, simplesmente não temos como saber. Quando a Bíblia cala, não é sensato fazer declarações taxativas. No entanto, devemos reconhecer que Deus, nas Escrituras, freqüentemente salva os filhos daqueles que crêem nele (ver Gn 7.1; cf. Hb 11.7; Js 2.18; Sl 103.17; Jo 4.53; At 2.39; 11.14(?); 16.31; 18.8; 1Co 1.16; 7.14; Tt 1.6). Essas passagens não mostram que Deus automaticamente salva os filhos de todos os crentes (pois conhecemos filhos de pais piedosos que, crescendo, rejeitaram ao Senhor, e as Escrituras nos dão exemplos, como Esaú e Absalão), mas indicam realmente que a conduta habitual de Deus, seu modo “normal” ou esperado de agir, é aproximar de si os filhos dos crentes. Com respeito aos filhos dos crentes que morrem muito novos, não temos razão para pensar de outra maneira.

Especialmente relevante aqui é o caso do primeiro filho que Bate-Seba deu ao rei Davi. Depois da morte da criança, disse Davi: “Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim” (2Sm 12.23). Davi, que ao longo da sua vida exibiu grande confiança de que viveria para sempre na presença do Senhor (ver Sl 23.6 e muitos dos salmos de Davi), também acreditava que voltaria a ver seu filhinho depois de morrer. Isso só pode implicar que ele estaria com o seu filho na presença do Senhor para sempre.2 0 Essa passagem, ao lado de outras mencionadas acima, deve servir igualmente como garantia, para todos os crentes que perderam filhos pequenos, de que um dia os verão novamente na glória do reino celeste.

Com respeito aos filhos dos descrentes que morrem em idade muito tenra, as Escrituras se calam. Simplesmente devemos deixar a questão nas mãos de Deus, confiando na sua justiça e misericórdia. Se forem salvos, não será com base em algum mérito próprio, nem na inocência que lhes possamos atribuir. Se forem salvos, será com base na obra redentora de Cristo; e sua regeneração, como a de João Batista antes do nascimento, será pela misericórdia e graça de Deus. A salvação sempre vem em virtude da misericórdia divina, e não por causa dos nossos méritos (ver Rm 9.14-18). As Escrituras não nos permitem dizer nada além disso.
4. Existem graus de pecado? Serão alguns pecados piores do que outros?

A pergunta pode ser respondida de modo afirmativo ou negativo, dependendo do sentido que se lhe dê.

a. Culpa legal. No tocante à nossa posição legal perante Deus, qualquer pecado, mesmo aquilo que nos pareça um pecado leve, torna-nos legalmente culpados perante Deus e, portanto, dignos de castigo eterno. Adão e Eva aprenderam isso no jardim do Éden, onde Deus lhes disse que um só ato de desobediência resultaria na pena de morte (Gn 2.17). E Paulo afirma que “o julgamento derivou de uma só ofensa, para a conde-nação” (Rm 5.16). Esse único pecado tornou Adão e Eva pecadores perante Deus, já incapazes de permanecer na santa presença divina.
Essa verdade permanece válida durante toda a história da raça humana. Paulo (citando Dt 27.26) a confirma: “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da Lei, para praticá-las” (Gl 3.10). E Tiago declara:

Qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Porquanto, aquele que disse: Não adulterarás também ordenou: Não matarás. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei (Tg 2.10-11).

Portanto, em termos de culpa legal, todos os pecados são igualmente maus, pois nos fazem legalmente culpados perante Deus e nos constituem pecadores.

b. Conseqüências na vida e no relacionamento com Deus. Por outro lado, alguns pecados são piores do que outros, pois trazem conseqüências mais danosas para nós e para os outros e, no tocante ao nosso relacionamento pessoal com Deus Pai, provocam-lhe desprazer e geram ruptura mais grave na nossa comunhão com ele.

As Escrituras às vezes falam de níveis de gravidade do pecado. Estando Jesus diante de Pôncio Pilatos, disse ele: “Quem me entrega a ti maior pecado tem” (Jo 19.11). A referência é aparentemente a Judas, que convivera com Jesus durante três anos e, no entanto, deliberadamente o traía entregando-o à morte. Embora Pilatos tivesse autoridade sobre Jesus em virtude do seu cargo no governo, mesmo sendo errado permitir que um homem inocente fosse condenado à morte, o pecado de Judas era bem “maior”, provavelmente por causa do conhecimento bem maior e da malícia associada e esse conhecimento.

5. O que acontece quando um cristão peca?

a. Nossa posição legal perante Deus fica inalterada. Embora esse assunto pudesse ser abordado adiante, juntamente com a adoção ou a santificação dentro da vida cristã, convém certamente abordá-lo aqui.
Quando o cristão peca, sua posição legal perante Deus permanece inalterada. Ele ainda assim é perdoado, pois “já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). A salvação não se baseia nos nossos méritos, mas é dádiva gratuita de Deus (Rm 6.23), e a morte de Cristo sem dúvida nenhuma expiou todos os nossos pecados — passados, presentes e futuros; Cristo morreu “pelos nossos pecados” (1Co 15.3), sem distinção. Em termos teológicos, conservamos assim nossa “justificação”.2 4

b. Nossa comunhão com Deus se interrompe e nossa vida cristã se prejudica. Quando pecamos, ainda que Deus não deixe de nos amar, ele se desgosta conosco. (Mesmo o homem pode amar alguém e ao mesmo tempo se desgostar com esse alguém, como qualquer pai pode confirmar, ou qualquer esposa, ou qualquer marido.) Paulo nos diz que os cristãos podem entristecer “o Espírito de Deus” (Ef 4.30); quando pecamos, lhe causamos pesar e ele se desgosta conosco. O autor de Hebreus nos lembra que “o Senhor corrige a quem ama” (Hb 12.6, citando Pv 3.11-12) e que o “Pai espiritual [...] nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.9-10).

c. O perigo dos “evangélicos não convertidos”. Embora o cristão genuíno que peca não perca a sua justificação ou adoção perante Deus (ver acima), convém deixar bem claro que a mera associação a uma igreja evangélica, a mera conformidade exterior aos parâmetros “cristãos” de conduta esperados, não garante a salvação. Especialmente em sociedades e culturas em que para as pessoas é fácil (ou mesmo natural) ser cristão, existe a possibilidade real de que alguns que na verdade não nasceram de novo entrem na igreja. Se essas pessoas acabam cada vez mais revelando desobediência a Cristo na sua conduta, não devem se deixar iludir acreditando que ainda contam com justificação ou adoção na família de Deus.

6. Qual é o pecado imperdoável?

Várias passagens bíblicas falam de um pecado que não será perdoado. Jesus diz Mt 12.31-32, e Mc 3.29; cf. Lc 12.10. Essas passagens talvez falem do mesmo pecado, talvez de pecados diferentes; para decidir, é preciso fazer um exame das passagens dentro dos seus contextos.

E. O castigo do pecado

Embora o castigo divino do pecado funcione realmente como elemento inibidor contra novos pecados e como alerta àqueles que o testemunham, não é essa a razão principal pela qual Deus pune o pecado. A razão primeira é que a justiça de Deus o exige, para que ele seja glorificado no universo que criou. Ele é o Senhor que pratica “misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor” (Jr 9.24).


As Alianças entre Deus e o Homem

Como Deus se relaciona com o homem? Desde a criação do mundo, o relacionamento entre Deus e o homem tem sido definido por promessas e requisitos específicos. Deus revela às pessoas como ele deseja que ajam e também faz promessas de como agirá com eles em várias circunstâncias. A Bíblia contém vários tratados a respeito das provisões que definem as diferentes formas de relacionamento entre Deus e o homem que ocorrem nas Escrituras, e freqüentemente chama esses tratados de “alianças”. Podemos apresentar a seguinte definição das alianças entre Deus e o homem nas Escrituras: “Uma aliança é um acordo imutável e divinamente imposto entre Deus e o homem, que estipula as condições do relacionamento entre as partes”.

Apesar de esta definição incluir a palavra acordo para indicar que há duas partes, Deus e o homem, que precisam ingressar nas provisões do relacionamento, a frase “divinamente imposto” também é incluída para mostrar que o homem jamais pode negociar com Deus ou alterar os termos desse acordo: ele apenas pode aceitar as obrigações da aliança ou rejeitá-las.

A. A aliança das obras

Alguns têm questionado se é apropriado falar de uma aliança de obras entre Deus e Adão e Eva no jardim do Éden. A própria palavra aliança não é utilizada no relato de Gênesis. Todavia, as partes essenciais da aliança estão todas lá — uma definição clara das partes envolvidas, um conjunto de provisões que compromete legalmente e estabelece as condições do relacionamento, a promessa de bênçãos pela obediência e a condição para obter aquelas bênçãos.

B. A aliança da redenção

Teólogos falam de outro tipo de aliança, uma aliança que não é entre Deus e o homem, mas entre os membros da Trindade. A essa aliança chamam “a aliança da redenção”. É um acordo entre Pai, Filho e Espírito Santo, no qual o Filho concordou em tornar-se homem, ser nosso representante, obedecer às exigências da aliança das obras em nosso favor e pagar o preço do pecado, que merecemos. As Escrituras ensinam de fato sua existência? Sim, pois falam de um plano específico e do propósito de Deus como um acordo entre Pai, Filho e Espírito Santo para obter nossa redenção.

C. A aliança da graça

1. Elementos essenciais.

Quando o homem falhou e não conseguiu obter as bênçãos oferecidas pela aliança das obras, foi necessário que Deus criasse um novo caminho, caminho este pelo qual o homem pudesse ser salvo. O restante das Escrituras após o relato da queda em Gênesis 3 narra como Deus operou na história um surpreendente plano de redenção por meio do qual pessoas pecaminosas poderiam chegar a ter um relacionamento consigo.

2. Várias formas de aliança.

Apesar de os elementos essenciais da aliança da graça permanecerem os mesmos por toda a história do povo de Deus, os termos específicos da aliança variam conforme a ocasião. Na época de Adão e Eva havia apenas uma singela sugestão da possibilidade de um relacionamento com Deus na promessa da semente da mulher em Gênesis 3.15 e na provisão graciosa, da parte de Deus, de vestir Adão e Eva (Gn 3.21).

OUTROS RESUMOS DE WAYNE GRUDEM


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