quarta-feira, 7 de julho de 2010

Acervo da Teologia

* A Doutrina da Igreja / Resumo de Wayne Grudem

Resumo - Teologia Sistemática. Wayne Grudem, Edições Vida Nova.
Parte 6 - A Doutrina da Igreja – p. 715 – 930


ESTUDO SISTEMATIZADO DA BÍBLIA PARA UMA MELHOR COMPREENSÃO DOS TEMAS BÍBLICOS

ÍNDICE:
A. A natureza da igreja
1. Definição.
2. A igreja é invisível, ainda que visível.
3. A igreja é local e universal.
4. Metáforas da igreja.
5. A igreja e Israel.
6. A igreja e o reino de Deus.
B. As características distintivas da igreja
1. Existem igrejas verdadeiras e falsas igrejas.
2. Igrejas falsas e igrejas verdadeiras hoje.
C. Os propósitos da igreja
1. Ministério com relação a Deus: adorar.
2. Ministério com relação aos cristãos: edificar.
3. Ministério com relação ao mundo: evangelização e misericórdia.
4. Manter esses propósitos em equilíbrio.
Pureza e Unidade da Igreja
A. Igrejas mais puras e menos puras
B. Definições de pureza e unidade
C. Sinais de uma igreja mais pura
D. O ensino do Novo Testamento sobre a unidade da igreja
E. Breve história da separação organizacional na igreja
F. Razões para a separação
1. Razões doutrinárias.
2. Questões de consciência.
3. Considerações práticas.
4. Existem ocasiões quando cooperação e comunhão pessoal são proibidas?
O Poder da Igreja
A. A batalha espiritual
B. As chaves do reino
C. O poder da igreja e o poder do Estado
D. A disciplina eclesiástica
1. O propósito da disciplina eclesiástica
2. Por causa de quais pecados a disciplina eclesiástica deve ser exercida?
3. Como deve ser exercida a disciplina eclesiástica?
O Governo da Igreja
A. Os oficiais da igreja
1. Apóstolos.
2. Presbíteros (pastores / bispos)
3. Diáconos.
4. Outros cargos?
B. Como devem ser escolhidos os oficiais da igreja?
C. Formas de governo eclesiástico
1. Episcopal
2. Presbiteriano
3. Congregacional
4. Conclusões.
D. Devem as mulheres ser ministras da igreja?
Meios de Graça na Igreja
A. Quantos são os meios de graça à nossa disposição?
B. Análise dos meios
1. O ensino da Palavra.
2. O batismo.
3. A Ceia do Senhor.
4. A oração.
5. A adoração.
6. A disciplina da igreja.
7. A oferta.
8. Os dons espirituais.
9. A comunhão.
10. A evangelização.
11. O ministério individual.
12. Será que os cristãos devem usar o lava-pés como meio de graça na igreja?
C. Conclusões
Batismo
A. A forma e o significado do batismo
B. Quem deve ser batizado?
1. O argumento dos textos narrativos do Novo Testamento.
2. O argumento do significado do batismo.
3. Primeira alternativa: a posição católica.
4. Segunda alternativa: a posição protestante pedobatista.
C. O efeito do batismo
D. É o batismo necessário?
E. A idade adequada para o batismo
F. Questões finais
1. É necessário que as igrejas estejam divididas por causa do batismo?
2. Quem pode ministrar o batismo?
A Ceia do Senhor
A. Precedentes na história da redenção
B. O significado da ceia do Senhor
1. A morte de Cristo.
2. Nossa participação nos benefícios da morte de Cristo.
3. Alimento espiritual.
4. A unidade dos cristãos.
5. Cristo afirma seu amor por mim.
6. Cristo afirma que todas as bênçãos da salvação estão reservadas para mim.
7. Eu afirmo minha fé em Cristo.
C. Como Cristo está presente na ceia do Senhor?
1. A posição católica: transubstanciação.
2. A posição luterana: “em, com e sob”.
3. O restante das igrejas protestantes: presença simbólica e espiritual de Cristo.
D. Quem deve participar da ceia do Senhor?
E. Outras questões
Adoração
A. Definição e propósito da adoração
B. As conseqüências da adoração genuína
1. Alegramo-nos em Deus.
2. Deus alegra-se em nós.
3. Aproximamo-nos de Deus.
4. Deus aproxima-se de nós.
5. Deus ministra a nós.
6. Os inimigos do Senhor fogem.
7. Os descrentes sabem que estão na presença de Deus.
C. O valor eterno da adoração
D. Como podemos entrar em adoração genuína?
Os Dons do Espírito Santo:
A. Perguntas relacionadas aos dons espirituais em geral
1. Dons espirituais na história da redenção.
2. O propósito dos dons espirituais na era do Novo Testamento.
3. Quantos dons existem?
4. Os dons podem variar quanto ao poder.
5. Os cristãos possuem os dons por um tempo ou de modo permanente?
6. Os dons são miraculosos ou não miraculosos?
7. Descobrindo e buscando os dons espirituais.
8. Os dons são ferramentas para o ministério e não se relacionam necessariamente com a maturidade cristã.
B. Teriam alguns dons desaparecido? O debate cessacionista
Os Dons do Espírito Santo
A. Profecia
1. Os paralelos do Antigo Testamento no Novo Testamento.
2. O significado da palavra profeta na época do Novo Testamento.
3. Indícios de que os “profetas” não falavam com autoridade equivalente à das palavras das Escrituras.
4. Como falar da autoridade da profecia hoje?
5. Uma “revelação” espontânea tornava a profecia diferente dos outros dons.
6. A diferença entre profecia e ensino.
7. Objeção:
8. As profecias podiam incluir qualquer conteúdo edificante.
9. Muitas pessoas na congregação podem profetizar.
10. Devemos “procurar com zelo” a profecia.
11. Como incentivar e regulamentar a profecia na igreja local.
B. Ensino
C. Milagres
D. Cura
1. Introdução: doença e saúde na história da redenção.
2. Os propósitos da cura.
3. Que dizer do uso de remédios?
4. O Novo Testamento apresenta métodos comuns empregados na cura?
6. Mas, e se Deus não curar?
E. Línguas e Interpretação
1. As línguas na história da redenção.
2. Que é falar em línguas?
F. Palavra da sabedoria e palavra do conhecimento
G. Discernimento de espíritos e batalha espiritual


A. A natureza da igreja
1. Definição.


A igreja é a comunidade de todos os cristãos de todos os tempos. Essa definição compreende que a igreja é feita de todos os verdadeiramente salvos. Paulo afirma: “Cristo amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela” (Ef 5.25). Aqui o termo “a igreja” é usado para referir-se a todos aqueles pelos quais Cristo morreu para redimir, todos os salvos pela morte de Cristo. Isso, porém, inclui todos os verdadeiros cristãos de todos os tempos, tanto os salvos do Novo como os do Antigo Testamento. O plano de Deus para a igreja é tão grande que ele exaltou Cristo a uma posição de suprema autoridade por amor à igreja: “E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22-23).

2. A igreja é invisível, ainda que visível.

Em sua realidade verdadeiramente espiritual como a comunidade de todos os cristãos genuínos, a igreja é invisível. Isso se dá porque não podemos ver a condição espiritual do coração de ninguém. Podemos ver os que freqüentam a igreja e perceber sinais externos de uma mudança espiritual interior, mas não podemos de fato ver o coração das pessoas nem enxergar o estado espiritual em que se encontram – algo que só Deus pode fazer. Foi por isso que Paulo afirmou: “O Senhor conhece os que lhe pertencem” (2Tm 2.19). Mesmo em nossas igrejas e em nossa vizinhança só Deus sabe, com toda a certeza e sem errar, quem são os verdadeiros cristãos. Falando da igreja como invisível, o autor de Hebreus fala da “assembléia (literalmente, “igreja”) dos primogênitos arrolados no céu” (Hb 12.23) e diz que os cristãos do presente unem-se àquela assembléia em adoração.

3. A igreja é local e universal.

No Novo Testamento a palavra “igreja” pode ser aplicada a um grupo de cristãos de qualquer tamanho, desde um pequeno grupo que se reúne sempre em uma residência até o grupo de todos os cristãos na igreja universal. A igreja numa casa é chamada “igreja” em Romanos 16.5 (“saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles”) e 1Coríntios 16.19 (“No Senhor, muito vos saúdam Áqüila e Priscila e, bem assim, a igreja que está na casa deles”.) A igreja de uma cidade inteira é também chamada “igreja” (1Co 1.2; 2Co 1.1 e 1Ts 1.1). A igreja de determinada região é chamada “igreja” em Atos 9.31: “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria.” Finalmente, a igreja do mundo inteiro pode ser chamada “a igreja”. Paulo afirma: “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5.25)”, e diz: “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres...” (1Co 12.28). Nesse último versículo, a menção de “apóstolos”, os quais não foram dados a nenhuma igreja em particular, garante que a referência seja à igreja universal.
4. Metáforas da igreja.

Para ajudar-nos a entender a natureza da igreja, as Escrituras usam uma ampla variedade de metáforas e imagens que descrevem a igreja. Há diversas imagens de família: por exemplo, Paulo vê a igreja como uma família quando diz a Timóteo que agisse como se todos os membros da igreja fossem membros de uma família maior: “Não repreendas ao homem idoso; antes, exorta-o como a pai; aos moços, como a irmãos; às mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda a pureza” (1Tm 5.1-2).

Deus é o nosso pai celestial (Ef 3.14), e nós somos seus filhos e suas filhas, pois Deus nos diz: “Serei vosso Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso” (2Co 6.18). Somos, portanto, irmãos e irmãs uns dos outros na família de Deus (Mt 12.49-50; 1Jo 3.14-18). Uma metáfora de família um pouco diferente é vista quando Paulo refere-se à igreja como a noiva de Cristo. Ele diz que o relacionamento entre marido e mulher “refere-se a Cristo e à igreja” (Ef 5.32) e afirma que traz à tona o noivado entre Cristo e a igreja de Corinto e que isso se assemelha a um noivado entre uma noiva e seu futuro marido: “Visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo” (2Co 11.2) – aqui Paulo está olhando para a época da volta de Cristo como a ocasião quando a igreja será apresentada a ele como noiva.

5. A igreja e Israel.

Entre os protestantes evangélicos tem havido diferença de posição sobre a questão do relacionamento entre Israel e a igreja. Essa questão foi trazida à tona como proeminente pelos que defendem um sistema teológico “dispensacionalista”. A mais extensa teologia sistemática escrita por um dispensacionalista, a Systematic Theology de Lewis Sperry Chafer, destaca muitos aspectos distintos entre Israel e a igreja, e até mesmo entre o Israel fiel do Antigo Testamento e a igreja do Novo Testamento. Chafer argumenta que Deus tem dois planos distintos para dois diferentes grupos de pessoas que ele redimiu: os propósitos e as promessas de Deus para Israel são bênçãos terrenais e serão cumpridos nesse mundo em algum tempo no futuro. Por outro lado, os propósitos e as promessas de Deus para a igreja são bênçãos celestiais, as quais serão cumpridas no céu.

Essa distinção entre os dois diferentes grupos que Deus salva será vista especialmente no milênio, conforme Chafer, pois naquela ocasião Israel reinará na terra como povo de Deus e desfrutará o cumprimento das promessas do Antigo Testamento, mas a igreja já terá sido levada para o céu na ocasião da volta secreta de Cristo para os seus santos (“o arrebatamento”). Conforme essa posição, a igreja não começou antes do Pentecostes (At 2). E não é correto pensar nos salvos do Antigo Testamento com os do Novo Testamento como partes de uma igreja.

6. A igreja e o reino de Deus.

Qual é o relacionamento entre a igreja e o reino de Deus? As diferenças foram bem resumidas por George Ladd:

O reino é primeiramente o governo dinâmico ou o domínio real de Deus e, derivando dessa idéia, a esfera na qual o domínio é experimentado. Na linguagem bíblica, o reino não é identificado com os seus súditos. Eles são o povo do domínio de Deus que adentram o reino, nele vivem, e por ele são governados. A igreja é a comunidade do reino, mas nunca o reino em si. Os discípulos de Jesus pertencem ao reino assim como o reino pertence a eles; todavia, eles não são o reino. O reino é o domínio de Deus; a igreja é uma sociedade de homens.

Ladd prossegue até resumir cinco aspectos específicos do relacionamento entre o reino e a igreja:

(1) A igreja não é o reino (pois Jesus e os primeiros cristãos pregaram que o reino de Deus estava próximo e não que a igreja estava próxima; eles pregaram as boas novas do reino e não as boas novas da igreja: At 8.12; 19.8; 20.25; 28.23, 31).

(2) O reino cria a igreja (porque quando as pessoas entram no reino de Deus elas unem-se a uma comunhão humana da igreja).

(3) A igreja testemunha do reino (pois Jesus disse: “E será pregado esse evangelho do reino por todo o mundo”, Mt 24.14).

(4) A igreja é o instrumento do reino (porque o Espírito Santo, manifestando o poder do reino, age por meio dos discípulos para curar os enfermos e expulsar demônios, conforme fez no ministério de Jesus: Mt 10.8; Lc 10.17).

(5) A igreja é a guardiã do reino (porque à igreja foram dadas as chaves do reino dos céus: Mt 16.19).

B. As características distintivas da igreja


1. Existem igrejas verdadeiras e falsas igrejas.

O que faz de uma igreja uma igreja? O que é necessário para existir uma igreja? Pode um grupo que se diz cristão tornar-se tão diferente do que deve ser uma igreja que tal grupo não deva mais ser chamado igreja?

Nos primeiros séculos da igreja cristã, houve pouca polêmica sobre o que era uma verdadeira igreja. Havia apenas uma igreja em todo o mundo, a igreja “visível” espalhada em todo o mundo, que era, naturalmente, a verdadeira igreja. Essa igreja tinha bispos, clérigos locais e templos que todos podiam ver. Qualquer herege que fosse achado em algum sério erro doutrinário era simplesmente excluído da igreja.

2. Igrejas falsas e igrejas verdadeiras hoje.

Em vista da questão proposta durante a Reforma, o que dizer da Igreja Católica Romana hoje? É uma verdadeira igreja? Aqui parece que não podemos simplesmente tomar uma decisão com respeito à Igreja Católica Romana como um todo, pelo fato de sua grande diversidade. Perguntar se a Igreja Católica Romana é uma igreja verdadeira ou falsa hoje é como perguntar se as igrejas protestantes de hoje são falsas ou verdadeiras. Há uma grande variedade delas.

Algumas paróquias certamente não possuem as duas características: não há pregação pura da Palavra, e a mensagem de salvação somente pela fé em Cristo não é conhecida nem recebida pelo povo na paróquia. A participação nos sacramentos é vista como uma “obra” que pode alcançar mérito para com Deus. Um grupo como esse não é uma verdadeira igreja cristã.

C. Os propósitos da igreja


Podemos entender os propósitos da igreja em termos de ministério com relação a Deus, aos cristãos e ao mundo.

1. Ministério com relação a Deus: adorar.

No relacionamento com Deus o propósito da igreja é adorá-lo. Paulo ordena à igreja de Colossos que louve a Deus “com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão no coração” (Cl 3.16). Deus nos destinou e nos escolheu em Cristo “para sermos para louvor da sua glória” (Ef 1.12). A adoração na igreja não é simplesmente uma preparação para algo mais. Ela está em si mesma cumprindo o principal propósito da igreja com referência ao seu Senhor. Essa é a razão por que Paulo, depois de nos advertir de que devemos “remir o tempo”, acrescenta o mandamento de sermos cheios do Espírito e de estarmos “entoando e louvando de coração ao Senhor” (Ef 5.16-19).

2. Ministério com relação aos cristãos: edificar.

De acordo com as Escrituras, a igreja tem a obrigação de nutrir aqueles que já são cristãos e edificá-los à maturidade na fé. Paulo disse que seu próprio alvo não era apenas levar pessoas à fé salvífica inicial, mas sim “apresentar todo homem perfeito (maduro) em Cristo” (Cl 1.28). E ele escreveu à igreja de Éfeso que Deus havia concedido à igreja pessoas com dons “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.12-13). É evidentemente contrário ao modelo do Novo Testamento pensar que o nosso único alvo para com as pessoas é levá-las à fé salvífica inicial. Nosso alvo como igreja deve ser apresentar a Deus todo cristão “perfeito (maduro) em Cristo” (Cl 1.28).

3. Ministério com relação ao mundo: evangelização e misericórdia.

Jesus disse aos seus seguidores que eles deveriam “fazer discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). Essa obra evangelística de declarar o evangelho é o ministério principal da igreja com relação ao mundo.

Todavia, acompanhando a obra de evangelização há também o ministério de misericórdia, que inclui cuidado dos pobres e dos necessitados em nome do Senhor. Embora a ênfase do Novo Testamento esteja na ajuda material para os que fazem parte da igreja (At 11.29; 2Co 8.4; 1Jo 3.17), há ainda uma afirmação de que é correto ajudar os descrentes ainda que eles não respondam com gratidão nem aceitem a mensagem do evangelho. Jesus nos ensina:

Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai (Lc 6.35-36).

A questão central na explicação dada por Jesus é que devemos imitar a Deus, sendo bondosos para os que são ingratos e também egoístas. Além do mais, temos o exemplo de Jesus, que não tentou curar apenas os que o aceitaram como Messias. Em vez disso, quando grandes multidões o procuravam, “ele os curava, impondo as mãos sobre cada um” (Lc 4.40). Isso deve incentivar-nos a executar atos de bondade, a orar pela cura e por outras necessidades, tanto na vida de cristãos como de descrentes.

4. Manter esses propósitos em equilíbrio.

Uma vez relacionados esses propósitos para a igreja, alguém pode perguntar qual deles é o mais importante? Ou alguém mais pode perguntar se podemos negligenciar um desses três como menos importante do que os outros.

A isso devemos responder que os três propósitos da igreja foram ordenados pelo Senhor nas Escrituras; portanto, os três são importantes e nenhum deles pode ser negligenciado. De fato, uma igreja forte terá ministérios eficazes nas três áreas. Devemos acautelar-nos de quaisquer tentativas de reduzir o propósito da igreja a apenas um desses três e de dizer que um ou outro deve ser a nossa preocupação principal. De fato, tais tentativas de tornar um desses propósitos o principal sempre resultará em negligência dos outros dois.


Pureza e Unidade da Igreja


A. Igrejas mais puras e menos puras

No capítulo anterior vimos que existem “igrejas verdadeiras” e “falsas igrejas”. Neste capítulo é necessário aprofundar a discussão: há igrejas mais puras e menos puras.

Tal fato fica evidente quando se faz uma breve comparação entre as epístolas de Paulo. Quando olhamos para Filipenses ou para 1Tessalonicenses achamos prova da grande alegria de Paulo com essas igrejas e a relativa falta de problemas doutrinários importantes e de problemas morais (veja Fp 1.3-11; 4.10-16; 1Ts 1.2-10; 3.6-10; 2Ts 1.3-4; 2.13; cf. 2Co 8.1-5). Por outro lado, havia todo tipo de problemas morais e doutrinários sérios nas igrejas da Galácia (Gl 1.6-9; 3.1-5) e em Corinto (1Co 3.1-4; 4.18-21; 5.1-2, 6; 6.1-8; 11.17-22; 14.20-23; 15.12; 2Co 1.23-2.11; 11.3-5, 12-15; 12.20-13.10). Outros exemplos poderiam ser dados, mas deve ficar claro que entre igrejas verdadeiras existem igrejas mais puras e menos puras. Isso pode ser representado pela figura 45.1.

B. Definições de pureza e unidade


Podemos definir pureza da igreja da seguinte maneira: pureza da igreja é o seu grau de isenção de doutrina e de conduta errôneas e o seu grau de conformidade com a vontade de Deus revelada à igreja.

Como veremos na discussão adiante, é correto orar e trabalhar pela pureza maior da igreja. Mas pureza não pode ser a nossa única preocupação, senão os cristãos terão a tendência de separar-se em pequeninos grupos de cristãos muito “puros” e tenderão a excluir qualquer pessoa que mostre o menor desvio de doutrina ou de conduta. Portanto, o Novo Testamento também fala com freqüência sobre a necessidade de lutar pela unidade da igreja visível. Isso pode ser definido da seguinte maneira: unidade da igreja é o seu grau de isenção de divisão entre os verdadeiros cristãos.

C. Sinais de uma igreja mais pura


Entre os fatores que tornam uma igreja “mais pura” encontram-se:

1. Doutrina bíblica (ou pregação correta da Palavra)
2. Uso adequado dos sacramentos (ou ordenanças)
3. Aplicação correta da disciplina eclesiástica
4. Adoração genuína
5. Oração eficaz
6. Testemunho eficaz
7. Comunhão eficaz
8. Governo eclesiástico bíblico
9. Poder espiritual no ministério
10. Santidade de vida entre os membros
11. Cuidado pelos pobres
12. Amor por Cristo

D. O ensino do Novo Testamento sobre a unidade da igreja


Há uma grande ênfase no Novo Testamento sobre a unidade da igreja. O alvo de Jesus é que haja “um rebanho e um pastor” (Jo 10.16), e ele ora por todos os futuros cristãos “a fim de que todos sejam um” (Jo 17.21). Essa unidade será um testemunho para os descrentes, pois Jesus ora “a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo 17.23).

E. Breve história da separação organizacional na igreja


Às vezes, há razões por que a unidade visível ou externa da igreja não pode ser mantida. Um breve resumo da história da separação organizacional da igreja pode esclarecer algumas razões e ajudar a explicar de onde procedem as divisões denominacionais que temos hoje.

F. Razões para a separação


À medida que examinamos os motivos que levaram muitos a dividir a igreja através da história, comparando tais motivos com as exigências do Novo Testamento de que devemos buscar tanto a unidade quanto a pureza da igreja visível, podemos encontrar razões válidas e inválidas para a separação. Entre as razões inválidas encontram-se algumas como ambição e orgulho pessoal ou diferenças sobre práticas e doutrinas menos importantes (padrões doutrinários ou de comportamento que não afetam qualquer outra doutrina e que não têm nenhum efeito expressivo no modo como se vive a vida cristã).

1. Razões doutrinárias.

Pode surgir a necessidade de separação quando a posição doutrinária de uma igreja desvia-se seriamente dos padrões bíblicos. Tal desvio pode aparecer nas declarações oficiais ou nas crenças e nos costumes, até onde se pode determiná-los. Mas quando o desvio doutrinário torna-se sério o suficiente para que seja necessário sair de uma igreja ou formar outra igreja? Como observamos acima, não há mandamentos no Novo Testamento que ordenem a separação da igreja verdadeira, enquanto esta permanece como parte do corpo de Cristo. A resposta de Paulo até mesmo para os que estavam em igrejas cheias de erros (mesmo em igrejas como a de Corinto, que tolerava sérios erros doutrinários e morais e por certo tempo tolerou alguns que rejeitavam a autoridade apostólica de Paulo) não foi dizer aos cristãos fiéis que se separassem de tais igrejas; Paulo admoesta essas igrejas, trabalha para levá-las ao arrependimento e ora por elas. Naturalmente, há ordens para disciplinar os que provocam problemas dentro da igreja, às vezes por meio da exclusão deles da comunhão da igreja (1Co 5.11-13; 2Ts 3.14-15; Tt 3.10-11), mas não há instruções para deixar a igreja e provocar divisão se isso não puder ser feito imediatamente (veja Ap 2.14-16, 20-25; cf. Lc 9.50; 11.23).

2. Questões de consciência.

Quanto à consciência, se um cristão não teve liberdade de pregar ou de ensinar conforme a sua consciência baseada nas Escrituras, deve-se considerar a separação como necessária ou pelo menos sábia. Todavia, é necessário cautela e grande humildade aqui: o julgamento individual pode estar distorcido, especialmente se não estiver fundamentado no consenso dos cristãos fiéis da história e dos cristãos do presente.

3. Considerações práticas.

Os cristãos podem decidir separar-se de uma igreja se, depois de reflexão acompanhada de muita oração, parecer-lhes que parmanecer naquela igreja provavelmente resultará mais em mal do que em bem. Isso poderia acontecer porque o trabalho deles pelo Senhor tornar-se-ia frustrado e ineficaz devido à oposição que enfrentariam dentro da própria igreja, ou porque enfrentariam pouca ou nenhuma comunhão com os outros na referida igreja. Além disso, alguns podem decidir que ficar na igreja prejudicaria a fé de outros cristãos ou impediriam os descrentes de chegar à fé verdadeira pelo fato de que a permanência como membros naquela igreja poderia ver-se em situações nas quais eles aprovam as falsas doutrinas de lá.

4. Existem ocasiões quando cooperação e comunhão pessoal são proibidas?

Finalmente, quando os cristãos devem dar passos mais sérios do que os já mencionados e empenhar-se em um tipo de separação que anteriormente chamamos “recusa de cooperação” ou “recusa de comunhão”? Os textos bíblicos que consideramos parecem exigir que os cristãos “não cooperem” em tais atividades com outro grupo somente quando este é incrédulo, ou, parece-me, somente quando um grupo incrédulo assume o controle da referida atividade (isso está implícito na metáfora de estar sob “jugo desigual” de 2Co 6.14). Naturalmente, pode-se achar sábio e prudente, sobre outras bases, decidir não cooperar numa função particular, mas a recusa à cooperação não parece ser uma exigência, exceto quando o outro grupo é um grupo incrédulo. Certamente, oposição a atividades tais como campanhas evangelísticas realizadas por outros cristãos verdadeiros são vistas pelos autores do Novo Testamento como divisoras e um fracasso em demonstrar a unidade do corpo de Cristo.


O Poder da Igreja


Quando olhamos para os governos do mundo e para outras organizações educacionais e empresariais que possuem grande influência, e então consideramos nossas igrejas locais, ou até mesmo nossas sedes denominacionais, a igreja pode parecer-nos fraca e ineficiente. Além disso, quando reconhecemos o rápido crescimento do mal visto diariamente em nossa sociedade, podemos duvidar se a igreja tem poder para fazer quaisquer mudanças.

Por outro lado, em alguns países a igreja oficialmente reconhecida tem grande influência sobre o andamento das questões nacionais. Isso é certamente verdadeiro no caso da influência da Igreja Católica Romana em tempos passados em alguns países do sul da Europa e da América Latina (e até certo ponto isso ocorre ainda hoje). Tal foi o caso da Igreja da Inglaterra nos séculos anteriores e da igreja de João Calvino em Genebra, na Suíça, enquanto ele era vivo, e da igreja fundada pelos peregrinos em 1620 na colônia da baía de Massachusetts. Situações como essas nas quais a igreja parece ter grande influência levam-nos a perguntar se as Escrituras colocam alguma limitação sobre o poder da igreja.

A. A batalha espiritual


Paulo lembra aos coríntios: “Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas” (2Co 10.3-4). Entre essas armas usadas contra forças demoníacas que impedem a propagação do evangelho e o avanço da igreja encontram-se oração, adoração, autoridade para repreender forças demoníacas, as palavras das Escrituras, fé e retidão de conduta por parte dos membros da igreja. (Paulo dá mais detalhes sobre o nosso combate espiritual e sobre a armadura própria para isso em Ef 6.10-18).

B. As chaves do reino


A frase “as chaves do reino” ocorre apenas uma vez na Bíblia, em Mateus 16.19, onde Jesus diz a Pedro: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus”. Qual é o significado dessas “chaves do reino dos céus”?

Em outras passagens do Novo Testamento, chave sempre implica autoridade para abrir uma porta e permitir entrada para certo lugar ou esfera. Jesus afirma: “Ai de vós, intérpretes da lei! Porque tomastes a chave da ciência; contudo vós mesmos não entrastes e impedistes os que estavam entrando” (Lc 11.52). Além disso, Jesus diz em Apocalipse 1.18: “Tenho as chaves da morte e do Inferno (Hades)”, indicando que ele tem autoridade para permitir a entrada e a saída dessas esferas. (Cf. também Ap 3.7; 9.1; 20.1; bem como a predição messiânica de Is 22.22.)

C. O poder da igreja e o poder do Estado


As seções anteriores discutiram o poder espiritual e a batalha espiritual que devem ser exercidos pela igreja. Mas deveria a igreja alguma vez usar da força física (armas e exércitos por exemplo) para levar a efeito suas missões? A frase normalmente usada para referir-se à idéia de luta física e desse mundo é “fazer uso da espada”.

Há diversas indicações nas Escrituras de que a igreja nunca deve fazer uso da espada para levar a efeito os seus propósitos na era da nova aliança. Esse foi um erro terrível cometido nas Cruzadas, quando os exércitos sustentados pela igreja marcharam pela Europa e pela Ásia para tentar reconquistar a terra de Israel. Nesses casos a igreja estava tentando usar a força física para conquistar vitórias em territórios deste mundo. Todavia Jesus afirmou: “O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam” (Jo 18.36 nvi). A igreja tem o poder das chaves, que é poder espiritual. Isso significa travar batalhas espirituais com armas espirituais, mas não usar o poder da espada para alcançar seus propósitos. “Porque as armas da nossa milícia não são carnais” (2Co 10.4).

D. A disciplina eclesiástica


Visto que a disciplina eclesiástica é um aspecto do uso do poder da igreja, é conveniente apresentar aqui uma discussão dos princípios bíblicos relevantes para a prática da disciplina eclesiástica.

1. O propósito da disciplina eclesiástica

a. Restauração e reconciliação do cristão que se está desviando.

O pecado impede a comunhão com outros cristãos e com Deus. Para que haja reconciliação, o pecado precisa ser tratado. Portanto, o propósito principal da disciplina eclesiástica é alcançar o duplo alvo de restauração (levar o pecador ao comportamento correto) e de reconciliação (entre cristãos e com Deus). Assim como pais sábios disciplinam seus filhos (Pv 13.24: “Mas o que o ama [o filho], cedo, o disciplina”), e assim como Deus, nosso pai, disciplina a quem ama (Hb 12.6; Ap 3.19), também a igreja em sua disciplina age em amor para trazer de volta um irmão ou irmã que se tenha desviado, estabelecendo de novo tal pessoa em comunhão e livrando-a dos caminhos destrutivos da vida. Em Mateus 18.15, a esperança é que a disciplina pare no primeiro passo, quando alguém vai sozinho: “Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão”. A frase “ganhaste a teu irmão” implica que aqueles que exercem a disciplina devem manter o alvo de reconciliação pessoal entre os cristãos sempre em mente. Paulo lembra-nos que devemos “restaurar” (nvi) o irmão (ou irmã) pecador “com espírito de brandura” (Gl 6.1), e Tiago incentiva-nos a “converter o pecador do seu caminho errado” (Tg 5.20).
b. Impedir que o pecado se espalhe, atingindo outros.

Embora o primeiro alvo da disciplina eclesiástica seja restauração e reconciliação do crente que está no erro, nessa presente era a reconciliação e restauração nem sempre acontecerão. Mas quer ocorra a restauração, quer não, a igreja está ordenada a exercer disciplina, pois dois outros propósitos também estão em vista.

c. Proteger a pureza da igreja e a honra de Cristo.

O terceiro propósito da disciplina eclesiástica é que a pureza da igreja deve ser protegida, para que Cristo não seja desonrado. Naturalmente, nenhum cristão, nessa era, tem o coração completamente puro, e todos nós temos algum pecado que permanece em nossa vida. Mas quando um membro da igreja permanece em pecado de maneira indubitavelmente óbvia para os outros, em particular para os descrentes, isso traz, sem dúvida, desonra a Cristo. É semelhante à situação dos judeus que desobedeciam à lei de Deus e levavam descrentes a ridicularizar e a blasfemar o nome de Deus (Rm 2.24: “O nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa”).

2. Por causa de quais pecados a disciplina eclesiástica deve ser exercida?

Por um lado, o ensino de Jesus em Mateus 18.15-20 fala-nos que se uma situação que envolve um pecado de alguém contra outrem não pode ser resolvido em uma reunião privada ou de um grupo pequeno, o assunto deve, então, ser levado à igreja:

Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano (Mt 18.15-17).

Nesse caso o assunto avançou de uma situação particular e informal para um processo de disciplina público e muito mais formal, feito pela igreja inteira.

3. Como deve ser exercida a disciplina eclesiástica?

a. O conhecimento do pecado deve ser preservado dentro do menor grupo possível. Esse parece ser o propósito de Mateus 18.15-17, que está por trás do avanço gradual que começa numa reunião privada, passa para uma reunião com duas ou três pessoas e chega à revelação a toda a igreja. Quanto menos pessoas souberem de algum pecado, melhor, pois é mais fácil haver arrependimento, um número menor de pessoas se desvia, e a reputação da pessoa envolvida, da igreja e de Cristo é menos prejudicada.

b. Medidas disciplinares devem ser cada vez mais severas até que haja uma solução. Uma vez mais em Mateus 18 Jesus nos ensina que não podemos parar simplesmente em uma conversa privada se essa não trouxer resultados satisfatórios. Ele exige que o pessoa ofendida vá primeiro sozinha, e então leve mais uma ou duas outras pessoas (Mt 18.15-16). Além disso, se um cristão acha que ofendeu alguém (ou se alguém acha que foi ofendido), Jesus exige que a pessoa que cometeu o erro (ou que se acredita ter errado) vá à pessoa que se considera vítima do erro cometido (Mt 5.23). Isso significa que se fomos ofendidos ou outros acham que foram ofendidos, sempre é nossa responsabilidade tomar a iniciativa e ir falar com a outra pessoa. Jesus não nos permite que esperemos a outra pessoa vir falar conosco.

c. A disciplina dos líderes da igreja. Em uma passagem Paulo apresenta diretrizes concernentes à disciplina dos líderes da igreja:

Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam. Conjuro-te, perante Deus, e Cristo Jesus, e os anjos eleitos, que guardes estes conselhos, sem prevenção, nada fazendo com parcialidade (1Tm 5.19-21).

Paulo apresenta aqui uma cautela especial a fim de proteger os líderes de ataques individuais: uma medida com respeito ao pecado, nesse caso, exige o depoimento de duas ou três testemunhas. “Os que vivem no pecado” devem ser repreendidos “na presença de todos”. A razão disso é que o mau exemplo da conduta pecaminosa dos líderes terá muito provavelmente o efeito negativo que se disseminará nos outros que vêem a vida deles. Assim Paulo aconselha Timóteo a “nada fazer com parcialidade” em tal situação, advertência muito útil, já que Timóteo era provavelmente muito amigo de vários líderes da igreja de Éfeso.


d. Outros aspectos da disciplina eclesiástica. Uma vez que a disciplina seja exercida, tão logo haja arrependimento em qualquer estágio do processo, os cristãos cientes da disciplina devem receber de coração o arrependido na comunhão da igreja com rapidez. Paulo afirma: “De modo que deveis, pelo contrário, perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza [...] Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor” (2Co 2.7-8; cf. 7.8-11). Uma vez mais, nosso propósito na disciplina eclesiástica nunca deve ser punir alguém com um desejo de vingança, mas sempre restaurá-lo e curá-lo.

O Governo da Igreja


As igrejas hoje têm muitas diferentes formas de governo. A Igreja Católica Romana tem um governo mundial sob a autoridade do papa. As igrejas episcopais têm bispos com autoridade regional e, acima deles, arcebispos. As igrejas presbiterianas dão autoridade regional aos presbitérios e autoridade nacional aos concílios. Todavia, as igrejas batistas e muitas outras igrejas independentes não têm uma autoridade oficial de governo além da congregação local, e a filiação a outras denominações é voluntária.

A. Os oficiais da igreja


Para os propósitos deste capítulo, usaremos a seguinte definição: um oficial da igreja é alguém publicamente reconhecido como detentor do direito e da responsabilidade de desempenhar certas funções para o benefício de toda a igreja.

Segundo essa definição, presbíteros e diáconos seriam considerados oficiais na igreja, bem como o pastor (se esse for um ofício distinto). O tesoureiro e o moderador também seriam oficiais (esses títulos podem variar de igreja para igreja). Todas essas pessoas tiveram reconhecimento público, geralmente em um culto no qual foram “empossados” ou “ordenados” em um ofício.

1. Apóstolos.

No início deste livro vimos que os apóstolos do Novo Testamento tinham um tipo singular de autoridade na igreja primitiva: autoridade para falar e escrever palavras que eram “palavras de Deus” em sentido absoluto. Não acreditar neles ou desobedecer a eles era o mesmo que não crer em Deus e desobedecer a Deus. Os após-tolos, portanto, tinham autoridade para escrever palavras que se tornaram palavras da Bíblia. Este fato por si só nos sugere que havia algo de singular no ofício de apóstolo, e não esperaríamos que ele continuasse hoje, porque atualmente ninguém pode acrescentar palavras à Bíblia e tê-las na conta de palavras de Deus ou como parte das Escrituras.

a. As qualificações de um apóstolo. As duas qualificações de um apóstolo eram:

(1) ter visto Jesus Cristo após a ressurreição (ser testemunha ocular da ressurreição) e
(2) ter sido especificamente comissionado por Cristo como seu apóstolo.
O fato de que um apóstolo tinha de ter visto o Senhor ressurreto é indicado em Atos 1.22, onde Pedro diz que o substituto de Judas deve “se tornar testemunha conosco de sua ressurreição”. Além disso foi “aos apóstolos que escolhera” que “depois de ter padecido se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias” (At 1.2-3; cf. 4.33).


b. Quem eram os apóstolos? O grupo inicial contava com doze – os onze discípulos originais que continuaram após a morte de Judas, e Matias, que o substituiu: “E os lançaram em sortes, vindo a sorte a recair sobre Matias, sendo-lhe então votado lugar com os onze apóstolos” (At 1.26). Tão importante era esse grupo original de doze apóstolos, os membros fundadores do ofício apostólico, que lemos que seus nomes estão escritos nos fundamentos da cidade celestial, a nova Jerusalém: “A muralha da cidade tinha doze fundamentos, e estavam sobre estes os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro” (Ap 21.14).

c. Resumo. A palavra apóstolo pode ser usada em um sentido amplo ou restrito. Em sentido amplo ela significa “mensageiro” ou “missionário pioneiro”. Mas em sentido restrito, que é o mais comum no Novo Testamento, refere-se a um ofício específico, “apóstolo de Jesus Cristo”. Esses apóstolos tinham autoridade única para fundar e liderar a igreja primitiva e podiam falar e escrever a palavra de Deus. Muitas de suas palavras escritas tornaram-se as Escrituras do Novo Testamento.

2. Presbíteros (pastores / bispos)

a. Pluralidade de presbíteros, padrão em todas as igrejas do Novo Testamento. O próximo ofício a ser considerado é o de “presbítero”. Embora se argumente que havia diferentes formas de governo eclesiástico no Novo Testamento, um panorama dos textos pertinentes mostra que o oposto é verdadeiro: há um padrão bastante coerente de vários presbíteros como o principal grupo de liderança das igrejas neotestamentárias. Por exemplo, em Atos 14.23 lemos: “E promovendo-lhes em cada igreja a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido”. Isso aconteceu na primeira viagem missionária de Paulo, quando retornava pelas cidades de Listra, Icônio e Antioquia, e indica que o procedimento normal de Paulo desde sua primeira viagem missionária era estabelecer um grupo de presbíteros em cada igreja que fundava. Sabemos que Paulo também estabeleceu presbíteros na igreja de Éfeso, porque lemos: “De Mileto mandou a Éfeso chamar os presbíteros da igreja” (At 20.17).

b. Outros títulos dos presbíteros: pastores ou bispos. Presbíteros também são chamados “pastores” ou “bispos” no Novo Testamento. A palavra menos usada (pelo menos na forma substantiva) é pastor (gr. poimÂn). Pode surpreender-nos descobrir que essa palavra, que se tornou tão comum, só ocorra, referindo-se a um oficial da igreja, uma vez no Novo Testamento. Em Efésios 4.11, Paulo escreve: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, outros para pastores e mestres”. O versículo provavelmente seria mais bem traduzido por “pastores-mestres” (um grupo) e não “pastores e mestres” (sugerindo dois grupos) por causa da construção grega (embora nem todo estudioso da área de Novo Testamento concorde com a tradução). A associação com o ensino sugere que esses pastores eram alguns presbíteros (ou talvez todos) que se encarregavam do ensino, porque um dos requisitos do presbítero era ser “apto para ensinar” (1Tm 3.12).

c. As funções dos presbíteros. Uma das principais funções dos presbíteros é dirigir as igrejas do Novo Testamento. Em 1Timóteo 5.17 lemos: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem”. Antes, na mesma epístola, Paulo diz que o bispo (ou presbítero) “deve governar bem a sua própria casa [...] pois, como cuidará da igreja de Deus?” (1Tm 3.4-5).

d. Qualificações dos presbíteros. Quando Paulo alista as qualificações dos presbíteros, é importante o fato de ele juntar requisitos concernentes a traços do caráter e atitudes íntimas com requisitos que não podem ser preenchidos em curto espaço de tempo, senão em um período de muitos anos de vida cristã fiel:
“E necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento; e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?); não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo” (1Tm 3.2-7).

e. Que significa “esposo de uma só mulher”? A qualificação esposo de uma só mulher” (1Tm 3.2; Tt 1.6) tem sido entendida de diferentes formas. Alguns pensam que exclui do ofício de presbítero aqueles que, tendo-se divorciado, casaram-se com outra mulher, porque, neste caso, seriam marido de duas mulheres. Mas essa não parece ser uma interpretação correta desses versículos. Uma interpretação melhor é que Paulo estava proibindo um polígamo (alguém que tem mais de uma esposa ao mesmo tempo) de ser presbítero. Há vários motivos para essa interpretação:


(1) Todas as outras qualificações alistadas por Paulo referem-se ao estado presente de um homem, não a toda sua vida passada. Por exemplo, 1Timóteo 3.1-7 não significa “aquele que nunca foi violento”, mas “aquele que não é violento agora, mas gentil”. Não significa “aquele que nunca foi amante do dinheiro”, mas “aquele que não é amante do dinheiro agora”. Não significa “aquele que sempre foi irrepreensível”, mas aquele que “agora é irrepreensível”. Se estendêssemos essas qualificações à vida pregressa das pessoas, excluiríamos quase todos que se tornaram cristãos quando adultos, porque é duvidoso que qualquer não cristão preenchesse esse requisitos.

(2) Caso quisesse, Paulo poderia ter dito “casado só uma vez”, mas não o fez.

(3) Não impedimos viúvos que se casaram de novo de serem presbíteros, mas deveríamos, se entendêssemos a frase como “casado só uma vez”. As qualificações para presbíteros são todas baseadas no caráter moral e espiritual, e nada há na Bíblia que dê a entender que um viúvo que se casou de novo seja moral ou espiritualmente inferior.

(4) A poligamia era possível no primeiro século. Embora não fosse comum, ela era praticada, especial-mente entre os judeus. O historiador judeu Josefo diz: “Porque é nosso costume antigo ter diversas esposas ao mesmo tempo”. A legislação rabínica também regulamentava costumes de herança e outros aspectos de poligamia.

f. A ordenação pública de presbíteros. Em relação com a discussão acerca dos presbíteros, Paulo diz: A ninguém imponhas precipitadamente as mãos” (1Tm 5.22). Embora o contexto não especifique um processo de seleção de presbíteros, todo o contexto imediatamente anterior (1Tm 5.17-21) trata de presbíteros; e a imposição de mãos seria uma cerimônia para separar alguém para o ofício de presbítero (observe a imposição de mãos para ordenar ou estabelecer pessoas em certos ofícios e tarefas em At 6.6; 13.3; 1Tm 4.14). Portanto, a consagração de presbítero parece a possibilidade mais provável para a ação que Paulo tem em mente. Nesse caso ele estaria dizendo: “A ninguém consagre precipitadamente como presbítero”. Isso seria coerente com um processo por onde os diáconos devem ser “primeiramente experimentados; e, se se mostrarem irrepreensíveis, exerçam o diaconato” (1Tm 3.10).

3. Diáconos.

A palavra diácono é tradução da palavra grega diakonos, que é o termo comum que se traduz por “servo”, quando usado em contextos não eclesiásticos.
Os diáconos são claramente mencionados em Filipenses 1.1: “... a todos os santos em Cristo Jesus, inclusive bispos e diáconos que vivem em Filipos”. Mas não há especificação de sua função, só a indicação de que são diferentes dos bispos (presbíteros). Os diáconos também são mencionados em 1Timóteo 3.8-13 em uma passagem mais extensa:


“Semelhantemente, quanto a diáconos, é necessário que sejam respeitáveis, de uma só palavra, não inclinados a muito vinho, não cobiçosos de sórdida ganância, conservando o mistério da fé com a consciência limpa. Também sejam estes primei-ramente experimentados; e, se se mostrarem irrepreensíveis, exerçam o diaconato. Da mesma sorte, quanto a mulheres [ou “esposas”; a palavra grega pode ter um desses significado], é necessário que sejam elas respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo. O diácono seja marido de uma só mulher, e governe bem seus filhos e a própria casa. Pois os que desempenharem bem o diaconato alcançam para si mesmos justa preeminência e muita intrepidez na fé em Cristo Jesus” (1Tm 3.8-13).

4. Outros cargos?

Em algumas igrejas hoje, há outros cargos, tais como tesoureiro, moderador (alguém com responsabilidade de presidir as reuniões administrativas da igreja), ou curador (em algumas formas de governo da igreja, alguém legalmente responsável pelas propriedades da igreja). Além disso, igrejas com uma equipe de direção com mais de um membro assalariado podem ter nessa equipe membros (tais como ministro de música, diretor de educação, conselheiro de jovens, etc.) “publicamente reconhecidos como detentores do direito e da responsabilidade de desempenhar certas funções na igreja” e que assim se encaixam em nossa definição de oficial da igreja, podendo até serem pagos para desempenhar tais funções em tempo integral, mas que podem não ser presbíteros nem diáconos na igreja.

B. Como devem ser escolhidos os oficiais da igreja?


Existem duas práticas principais no processo de seleção dos oficiais da igreja – a escolha feita por uma autoridade superior e a que se faz pela congregação local. A Igreja Católica Romana tem seus oficiais indicados por uma autoridade superior: o papa indica cardeais e bispos, e os bispos indicam sacerdotes para as paróquias locais. Essa é uma “hierarquia”, ou sistema de governo por sacerdócio, distinto dos leigos na igreja. Esse sistema indica uma linha ininterrupta de descendência que começa com Cristo e os apóstolos e alega que o sacerdócio atual é o representante de Cristo na igreja. Embora a Igreja Anglicana (Igreja Episcopal, nos Estados Unidos) não se submeta ao domínio de um papa nem tenha cardeais, ela possui algumas semelhanças com o sistema hierárquico da Igreja Católica Romana, já que é dirigida por bispos e arcebispos, e os membros de seu clero são considerados sacerdotes. Ela também alega estar na linha de sucessão direta a partir dos apóstolos, e os sacerdotes e bispos são indicados por uma autoridade superior, de fora da paróquia local.

C. Formas de governo eclesiástico


Na discussão das formas de governo eclesiástico há uma sobreposição com as seções anteriores sobre o método de escolha de oficiais, cuja seleção constitui um aspecto muito importante da autoridade na igreja. Diferentes filosofias de governo eclesiástico refletiram em diferentes métodos de escolha dos oficiais da igreja, como explicado acima.

Isso fica evidente no fato de que as formas de governo da igreja podem ser divididas em três grandes categorias, que podemos chamar de “episcopal”, “presbiteriana” e “congregacional”. As formas episcopais têm um governo exercido por uma categoria distinta de oficiais da igreja considerada um sacerdócio, e a autoridade final para a tomada de decisões encontra-se fora da igreja local. O sistema da Igreja Episcopal é o principal representante desse tipo de governo entre os protestantes. As formas presbiterianas têm um governo de presbíteros, alguns dos quais têm autoridade não só sobre suas congregações locais, mas também, através do presbitério e da assembléia geral, sobre todas as igrejas de uma região e, daí, na denominação como um todo. Todas as formas congregacionais de governo da igreja têm uma autoridade final baseada na congregação local, embora se percam vários graus de independência através da filiação denominacional e a forma real de governo possa variar consideravelmente. Examinaremos cada uma dessas formas na discussão que se segue.

1. Episcopal

No sistema episcopal, um arcebispo tem autoridade sobre muitos bispos. Estes, por sua vez, têm autoridade sobre uma “diocese”, o que significa simplesmente igrejas sob a jurisdição de um bispo. O oficial encarregado de uma paróquia local é um reitor (ou algumas vezes um vigário que é um “assistente” ou alguém que substitui um reitor). Arcebispos, bispos e reitores eclesiásticos são sacerdotes, já que todos foram em certa ocasião ordenados para o sacerdócio episcopal (mas, na prática, o reitor eclesiástico é mais freqüentemente chamado sacerdote).
2. Presbiteriano

Nesse sistema cada igreja local elege presbíteros para um conselho. O pastor da igreja é um dos presbíteros no conselho, com a mesma autoridade dos outros presbíteros. Esse conselho tem autoridade para dirigir a igreja local. Entretanto, os membros do conselho (os presbíteros) são também membros de um presbitério que tem autoridade sobre diversas igrejas locais em uma região. Esse presbitério consiste de alguns ou de todos os presbíteros das igrejas locais sobre as quais ele tem autoridade.

3. Congregacional

a. Um único presbítero (ou pastor).

Podemos agora considerar cinco variações de governo congregacional para a igreja. A primeira, atualmente mais comum entre as igrejas batistas nos Estados Unidos, é de “um único presbítero”. Nesse tipo de governo o pastor é considerado o único presbítero na igreja, e há um grupo de diáconos que atuam sob sua autoridade e lhe dão apoio.

b. Pluralidade de presbíteros na igreja local.

Há algum tipo de governo eclesiástico que preserve o modelo neotestamentário de pluralidade de presbíteros e que evite a expansão da autoridade destes para fora da igreja local? Embora não seja distintivo de nenhuma denominação atual, um sistema assim existe em muitas congregações. Usando as conclusões sobre esse ponto a partir dos dados do Novo Testamento

c. Junta.

As três formas restantes de governo eclesiástico congregacional não são comumente usadas, mas são às vezes encontradas em igrejas evangélicas. A primeira é modelada a partir do exemplo de uma empresa moderna, em que a diretoria contrata um executivo que tem então autoridade de dirigir os negócios conforme achar melhor. Essa forma de governo também pode ser chamada de estrutura “você trabalha para nós”.

d. Democracia absoluta.

Em tal sistema tudo precisa ser levado às reuniões da congregação. O resultado é que as decisões são discutidas com freqüência de maneira interminável, e, à medida que a igreja cresce, tomar decisões torna-se quase impossível. Embora tal estrutura sem dúvida faça justiça a alguns textos já citados com respeito à necessidade de a autoridade governante final estar na congregação como um todo, ela não é fiel ao modelo neotestamentário de líderes reconhecidos e designados detentores de verdadeira autoridade para dirigir a igreja na maioria das vezes.

e. “Sem governo, mas dirigida pelo Espírito Santo”.

Algumas igrejas, particularmente igrejas muito recentes, com tendências místicas ou extremamente pietistas, funcionam com um governo eclesiástico. Nesse caso, a igreja nega a necessidade de qualquer forma de governo; o governo depende inteiramente dos membros da igreja, sensíveis à direção do Espírito Santo na vida; as decisões são geralmente tomadas por consenso.

4. Conclusões.

Precisa ficar bem claro, na conclusão dessa discussão do governo eclesiástico, que a forma de governo adotada por uma igreja não é uma questão fundamental de doutrina. Os cristãos têm vivido muito bem e ministrado com muita eficácia dentro dos mais diversos tipos de sistema de governo, e em cada um desses sistemas mencionados há muitos que são evangélicos de fato. Além disso, alguns tipos diferentes de sistemas de governo eclesiástico parecem funcionar muito bem. Onde existam fraquezas aparentemente inerentes à estrutura governante, os indivíduos ali geralmente reconhecem tais fraquezas e procuram compensá-las de todas as formas permitidas pelo sistema.

D. Devem as mulheres ser ministras da igreja?


A maioria das teologias sistemáticas não inclui uma seção sobre poderem ou não as mulheres ser ministras da igreja, porque em toda a história da igreja o pressuposto é que, com bem poucas exceções, apenas os homens podem ser pastores ou atuar como presbíteros de uma igreja.

Precisamos afirmar de início que a narrativa da criação de Gênesis 1.27 vê homens e mulheres igualmente criados à imagem de Deus. Portanto, homens e mulheres têm valor igual para Deus, e devem ser vistos como de valor absolutamente igual para nós e para a igreja enquanto pessoas. Além disso, a Bíblia garante a homens e mulheres igual acesso a todas as bênçãos da salvação (veja At 2.17-18; Gl 3.28). Isso é notavelmente afirmado no elevado respeito e dignidade que Jesus dispensou às mulheres em seu ministério terreno.


Meios de Graça na Igreja


A. Quantos são os meios de graça à nossa disposição?

Todas as bênçãos que recebemos nesta vida são em última análise imerecidas — todas elas nos vêm pela graça. De fato, para Pedro, toda a vida cristã se vive pela graça (1Pe 5.12).

Mas será que Deus usa meios especiais para nos dispensar mais graça? Especificamente na comunhão da igreja, será que há determinados meios — ou seja, determinadas atividades, cerimônias ou funções — que Deus usa para nos dispensar mais graça? Outra maneira de formular essa pergunta é: será que o Espírito Santo se utiliza de certos meios para distribuir as bênçãos aos salvos? É claro que a oração particular, o culto, o estudo da Bíblia e a fé são meios de que Deus lança mão para dispensar graça a cada cristão. Mas neste capítulo estamos tratando da doutrina da igreja e perguntamos especificamente: na comunhão da igreja, que meios de graça Deus usa para nos dispensar bênçãos?

B. Análise dos meios


1. O ensino da Palavra.

Mesmo antes de as pessoas se tornarem cristãs, o ensino e a pregação da Palavra lhes dispensam a graça de Deus, pois esse é o instrumento que Deus usa para lhes conceder a vida espiritual e levá-las à salvação. Diz Paulo que o evangelho é o “poder de Deus para a salvação” (Rm 1.16) e que a pregação de Cristo é “poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Co 1.24). Deus nos fez nascer de novo ou “nos gerou pela palavra da verdade” (Tg 1.18), e Pedro diz: “Fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (1Pe 1.23). A Palavra escrita de Deus, a Bíblia, pode “tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2Tm 3.15).

2. O batismo.

Como Jesus ordenou que a igreja realizasse o batismo (Mt 28.19), é de esperar que haja bênçãos associadas ao batismo, pois toda obediência que os cristãos prestam a Deus lhes traz favor divino. Essa obediência é especificamente o ato público de confessar Jesus como Salvador, ato que por si mesmo traz alegria e bênção ao crente. Além disso, é um sinal da morte e ressurreição do crente com Cristo (ver Rm 6.2-5; Cl 2.12), e parece natural que o Espírito Santo aja por intermédio desse sinal para aumentar a nossa fé, a nossa percepção prática da morte para o poder e o amor do pecado e também para ampliar a nossa experiência do poder da nossa vida ressurreta em Cristo, vida que todos nós salvos temos. Como o batismo é um símbolo físico da morte e da ressurreição de Cristo e da nossa participação nelas, deve também dar garantia adicional de união com Cristo a todos os cristãos presentes. Por fim, como a água do batismo é um símbolo exterior do batismo espiritual do Espírito Santo, é de esperar que o Espírito Santo aja normalmente durante o batismo, dando aos cristãos uma maior consciência dos benefícios do batismo espiritual indicado pelo sinal da água.

3. A Ceia do Senhor.

Além do batismo, a outra ordenança ou cerimônia que Jesus instituiu como dever da igreja é a participação na ceia do Senhor. Embora esse assunto seja discutido mais a fundo nos próximos capítulos, convém observar aqui que a participação na ceia do Senhor é também muito claramente um meio de graça que o Espírito Santo usa para dispensar bênçãos à igreja. A ceia do Senhor não é simplesmente uma refeição comum partilhadada por seres humanos – é comunhão com Cristo, na sua presença e à sua mesa.

4. A oração.

Já estudamos a oração no capítulo 18; portanto, só precisamos aqui observar que tanto a oração coletiva na igreja reunida quanto a oração dos cristãos uns pelos outros são meios poderosos que o Espírito Santo usa cotidianamente para distribuir bênçãos aos salvos. Certamente devemos orar juntos e também individualmente, seguindo o exemplo da igreja primitiva. Quando os primeiros cristãos ouviram as ameaças dos líderes dos judeus, “unânimes, levantaram a voz a Deus” em oração (At 4.24-30), e “tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus” (At 4.31; cf. 2.42). Quando Pedro foi lançado na prisão, “havia oração incessante a Deus por parte da igreja a favor dele” (At 12.5).

5. A adoração.

A adoração genuína é a adoração “em espírito” (Jo 4.23-24; Fp 3.3), que provavelmente significa adoração que se dá na esfera espiritual (não meramente o ato físico de participar do culto, ou de cantar hinos). Quando penetramos na esfera espiritual e ministramos ao Senhor em oração, Deus também ministra a nós. Assim, por exemplo, na igreja de Antioquia, enquanto estavam “servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At 13.2).

6. A disciplina da igreja.

Como a disciplina da igreja é um meio pelo qual se fomenta a pureza da igreja e se estimula a santidade de vida, sem dúvida devemos contá-la também como “meio de graça”. Porém, a bênção não é concedida automaticamente: quando a igreja disciplina, aquele que está em pecado não recebe nenhum bem espiritual a menos que o Espírito Santo o convença do seu pecado e provoque uma “tristeza segundo Deus” que “produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar” (2Co 7.10); e a igreja também não recebe nenhum bem espiritual a menos que o Espírito Santo esteja atuante nos outros membros quando eles tomarem consciência desse processo. É por isso que a igreja deve executar a disciplina sabendo que ela se faz na presença do Senhor (1Co 5.4; cf. 4.19-20) e com a certeza de que ela traz em si a sanção celeste (Mt 16.19; 18-18.20).

7. A oferta.

As ofertas são normalmente feitas por intermédio da igreja: ela as recebe e distribui aos vários ministérios e necessidades que atende. Aqui, novamente, não há dispensação automática ou mecânica de benefícios aos que contribuem. Simão, o mágico, foi veementemente repreendido por pensar que podia “adquirir, por meio dele [do dinheiro], o dom de Deus” (At 8.20). Mas se a oferta é feita com fé, pela devoção a Cristo e por amor ao seu povo, então certamente haverá grandes bênçãos nela. Deus mais se agrada quando as ofertas em dinheiro vêm acompanhadas de uma intensificação da devoção do doador a Deus, como foi o caso dos macedônios, que “deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus” (2Co 8.5), e mais tarde ainda fizeram doações aos cristãos pobres de Jerusalém. Quando a contribuição se faz com alegria, “não com tristeza ou por necessidade”, vem com ela a grande recompensa do favor de Deus, “porque Deus ama a quem dá com alegria” (2Co 9.7).

8. Os dons espirituais.

Pedro considera os dons espirituais veículos pelos quais a graça de Deus vem à igreja. Diz ele: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). Quando os dons são usados em benefício uns dos outros na igreja, a graça de Deus é assim dispensada àqueles a quem Deus pretende concedê-la. Excelentes bênçãos virão à igreja com o uso correto dos dons espirituais, desde que a igreja siga a exortação de Paulo de usar os dons para procurar “progredir, para a edificação da igreja” (1Co 14.12; cf. Ef 4.11-16).

9. A comunhão.

Não devemos menosprezar a comunhão cristã comum como valioso meio de graça na igreja. Os membros da igreja primitiva “perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42). E o autor de Hebreus lembra aos cristãos: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.24-25). Na comunhão dos crentes, crescem a amizade e o afeto naturais uns pelos outros, e assim se cumpre o mandamento de Jesus: “que vos ameis uns aos outros” (Jo 15.12). Além disso, quando os crentes se importam uns com os outros, seguem o conselho de Paulo: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6.2).

10. A evangelização.

Em Atos, há um vínculo freqüente entre proclamar o evangelho (mesmo enfrentando oposição) e estar cheio do Espírito Santo (ver At 2.4 com v. 14-36; 4.8, 31; 9.17 com v. 20; 13.9, 52). A evangelização é então um meio de graça não só porque ministra graça salvífica aos que não estão salvos, mas também porque quem evangeliza vivencia mais a presença e a bênção do Espírito Santo. Às vezes a evangelização é realizada individualmente, outras vezes é uma atividade coletiva da igreja (como nas campanhas de evangelização). E mesmo a evangelização individual muitas vezes envolve outros membros da igreja, que acolhem um visitante descrente e atendem as suas necessidades. Portanto a evangelização é com justiça considerada um meio de graça na igreja.
11. O ministério individual.

Juntamente com os precedentes dez “meios de graça” da igreja, cabe relacionar mais um meio específico que o Espírito Santo usa com bastante freqüência para distribuir bênçãos a cada cristão. Esse meio de graça entra em ação quando um ou mais cristãos atendem, de modos diversos, necessidades bem específicas de outra pessoa da igreja.

12. Será que os cristãos devem usar o lava-pés como meio de graça na igreja?

De tempos em tempos alguns grupos cristãos fazem a cerimônia do lava-pés em reuniões da congregação. Baseiam eles essa prática no mandamento de Jesus: “Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13.14). Aqueles que defendem o lava-pés o consideram uma cerimônia instituída por Jesus, semelhante aos ritos do batismo e da ceia do Senhor.

C. Conclusões


Ao final deste exame dos meios de graça na igreja, convém perceber antes de tudo que quando qualquer um desses meios é utilizado com fé e obediência, os cristão devem esperar e procurar evidências de que o Espírito Santo está de fato ministrando às pessoas simultaneamente à utilização dos meios. Que nós cristãos “não deixemos de congregar-nos” (Hb 10.25), mas busquemos avidamente participar de qualquer reunião de crentes em que esses meios se façam presentes, esperando que Deus dispense bênçãos mediante cada um deles!

Batismo


Pelo fato de a Igreja Católica Romana chamar essas duas cerimônias “sacramentos” e de ensinar que esses sacramentos em si mesmos realmente concedem graça ao povo (sem exigir fé dos que deles participam), alguns protestantes (especialmente os batistas) recusaram-se a referir-se ao batismo e à ceia do Senhor como “sacramentos”. Eles preferiram em vez disso a palavra ordenança. Acredita-se que esse seria um termo apropriado porque o batismo e a ceia do Senhor foram “ordenados” por Cristo. Por outro lado, outros protestantes, como os pertencentes às tradições anglicana, luterana e reformada, estão dispostos a usar o termo “sacramentos” para referir-se ao batismo e à ceia do Senhor, sem endossar, porém, a posição católica.

A. A forma e o significado do batismo


A prática do batismo no Novo Testamento era realizada de um modo: a pessoa batizada era imersa ou posta completamente dentro da água e em seguida retirada. Batismo por imersão é, portanto, o modo ou a forma pela qual o batismo era realizado no Novo Testamento. Isso se evidencia pelas seguintes razões.

(1) A palavra grega baptizo significa “mergulhar, afundar, imergir” algo na água. Isso é normalmente reconhecido, sendo esse o significado padrão do termo na literatura grega antiga tanto na Bíblia como fora dela.

(2) O sentido “imergir” é adequado e provavelmente exigido para a palavra nos vários textos do Novo Testamento. Em Marcos 1.5, o povo era batizado por João “no rio Jordão” (o texto grego traz en, “em”, e não “ao lado” ou “próximo” ou “perto” do rio). Marcos também nos diz que quando Jesus foi batizado “ele saiu da água” (Mc 1.10). O texto grego especifica que ele saiu “para fora da” (ek) água, e não que ele veio da água (mais bem comunicado pelo gr. apo).

(3) O simbolismo da união com Cristo em sua morte, sepultamento e ressurreição parece exigir batismo por imersão. Paulo afirma:
Ou, porventura ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos pois sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida (Rm 6.3-4).

De maneira semelhante, Paulo diz aos colossenses:
“tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2.12).


B. Quem deve ser batizado?

O modelo revelado em vários textos do Novo Testamento mostra que somente os que fazem uma profissão de fé digna de crédito devem ser batizados. Essa posição é muitas vezes chamada “batismo de convertidos”, já que defende que somente os que creram em Cristo (ou, mais especificamente, os que deram provas razoáveis de terem crido em Cristo) devem ser batizados. A razão disso é que o batismo, que é um símbolo do início da vida cristã, deve ser ministrado apenas aos que de fato iniciaram a vida cristã.

1. O argumento dos textos narrativos do Novo Testamento.

Os exemplos dos que foram batizados, encontrados nas narrativas, sugerem que o batismo foi ministrado somente aos que fizeram uma profissão de fé digna de crédito. Depois do sermão de Pedro no Pentecostes: “Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados” (At 2.41). O texto especifica que o batismo foi ministrado aos que “aceitaram a palavra” e, portanto, tinham confiado em Cristo para receber a salvação.

2. O argumento do significado do batismo.

Além dessas indicações dos textos narrativos do Novo Testamento de que o batismo sempre se seguia à fé salvadora, há uma segunda consideração em favor do batismo de convertidos: o símbolo externo do início da vida cristã deve ser ministrado apenas aos que dão prova de já ter iniciado a vida cristã. Os autores do Novo Testamento escreveram com o nítido pressuposto de que todos os que eram batizados já tinham aceitado a Cristo pessoalmente e experimentado a salvação. Por exemplo, Paulo diz: “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes” (Gl 3.27). Aqui, Paulo trata o batismo como um símbolo externo de uma regeneração interna. Isso simplesmente não seria verdade no caso de crianças; Paulo não poderia ter dito “porque todas as crianças batizadas em Cristo de Cristo se revestiram”, pois as crianças ainda não chegaram à fé salvadora nem dão prova alguma de regeneração.

3. Primeira alternativa: a posição católica.

A Igreja Católica Romana ensina que o batismo deve ser ministrado às crianças. A razão disso é que a igreja católica crê que o batismo é necessário para a salvação e que o ato do batismo em si traz regeneração. Portanto, nessa posição, o batismo é um meio pelo qual a igreja confere graça. E, tratando-se de um canal de graça salvífica como esse, deve ser ministrado a todos.

4. Segunda alternativa: a posição protestante pedobatista.

Em contraste com a posição batista defendida na primeira parte desse capítulo e também com a posição católica que acaba de ser discutida, outro ponto de vista importante é que o batismo é corretamente ministrado a todas as crianças que sejam filhas de pais cristãos. Essa posição é muito comum em muitos igrejas protestantes (especialmente luteranas, episcopais, meto-distas, presbiterianas e reformadas).

O argumento de que crianças nascidas de cristãos devem ser batizadas depende principalmente destas três colocações:

a. As crianças eram circuncidadas na antiga aliança. No Antigo Testamento, a circuncisão era o sinal externo de ingresso na comunidade da aliança ou na comunidade do povo de Deus. A circuncisão era ministrada a todas as crianças israelitas (do sexo masculino) quando completavam oito dias de vida.

b. O batismo é paralelo à circuncisão. No Novo Testamento, o sinal externo de ingresso na “comunidade da aliança” é o batismo. Portanto, o batismo é o equivalente neotestamentário da circuncisão. Segue-se que o batismo deve ser ministrado a todas as crianças nascidas de pais cristãos. Negar-lhes tal benefício é privá-las de um privilégio e de um benefício que lhes pertence por direito – o sinal de pertencer à comunidade do povo de Deus, a “comunidade da aliança”.

c. O batismo de famílias. Outro apoio para a prática do batismo infantil é encontrado nos “batismos de famílias” relatados em Atos e nas epístolas, particularmente no batismo da casa de Lídia (At 16.15), da família do carcereiro de Filipos (At 16.33) e da casa de Estéfanas (1Co 1.16). Também se alega que Atos 2.39, que declara que a bênção prometida do evangelho é “para vós outros e para vossos filhos”, serve de base para tal prática.

C. O efeito do batismo

Acabamos de argumentar que o batismo simboliza regeneração ou novo nascimento espiritual. Mas será ele apenas um símbolo? Ou há nele, de alguma forma, também algo que o torna um “meio de graça”, isto é, um meio que o Espírito Santo usa para trazer bênção para o povo? Já discutimos essa questão no capítulo anterior, de modo que aqui será necessário apenas dizer que quando o batismo é adequadamente levado a efeito, é natural que também traga algum benefício espiritual aos cristãos. Há a bênção do favor de Deus que vem juntamente com toda obediência, bem como com a alegria que vem pela pública profissão de fé de alguém, e a segurança de haver representado um quadro físico claro da morte e ressurreição com Cristo e da purificação dos pecados. Com certeza o Senhor deu-nos o batismo para fortalecer e encorajar a nossa fé – e assim deve ser com todo o que é batizado e com todo cristão que é testemunha de um batismo.

D. É o batismo necessário?

Embora reconheçamos que Jesus ordenou o batismo (Mt 28.19), à semelhança do que fizeram os apóstolos (At 2.38), não devemos dizer que o batismo seja necessário para a salvação. Essa questão foi discutida até certo ponto anteriormente, quando respondemos à posição católica do batismo. Dizer que o batismo ou qualquer outra obra é necessário para a salvação equivale a dizer que não somos justificados somente pela fé, mas sim pela fé e determinada “obra”, a obra do batismo. O apóstolo Paulo se oporia à idéia de que o batismo é necessário para salvação tanto quanto ele se opôs à idéia semelhante de que a circuncisão era necessária à salvação (veja Gl 5.1-12).

E. A idade adequada para o batismo

Os que estão convencidos pelos argumentos em favor do batismo de convertidos precisam começar a perguntar: “Com que idade uma criança pode ser batizada?”.
A resposta mais direta é que a criança deve ter idade suficiente para fazer uma profissão de fé digna de crédito. É impossível estabelecer uma idade precisa aplicável a toda criança, mas quando os pais vêem prova convincente de vida espiritual genuína e também algum grau de compreensão do significado de aceitar Cristo, o batismo é apropriado. Naturalmente, isso exige uma administração cuidadosa por parte da igreja, bem como boa orientação por parte dos pais em casa. A idade exata do batismo varia de criança para criança, e também um pouco de igreja para igreja.

F. Questões finais

1. É necessário que as igrejas estejam divididas por causa do batismo?

Apesar de muitos anos de divisão por causa dessa questão entre os protestantes, há algum modo pelo qual os cristãos que divergem quanto ao batismo podem mostrar maior unidade de comunhão? E há alguma maneira pela qual se possa progredir em levar a igreja a uma unidade maior nessa questão?

2. Quem pode ministrar o batismo?

Finalmente, podemos perguntar: “Quem pode realizar a cerimônia de batismo? Somente o clero ordenado pode realizar essa cerimônia?”
Devemos reconhecer aqui que as Escrituras simplesmente não especificam quaisquer restrições sobre quem pode realizar a cerimônia do batismo. As igrejas que possuem um sacerdócio especial por meio do qual certas ações (e bênçãos) acontecem (tais como os católicos e até certo ponto os anglicanos) desejarão insistir que somente o clero devida-mente ordenado deve batizar em circunstâncias normais (embora sejam aceitas exceções em casos especiais). Todavia, se de fato cremos no sacerdócio de todos os crentes (veja 1Pe 2.4-10), parece não haver necessidade em princípio de restringir o direito de ministrar o batismo apenas ao clero ordenado.

A Ceia do Senhor

O Senhor Jesus instituiu duas ordenanças (ou sacramentos) a serem observadas pela igreja. O capítulo anterior discutiu o batismo, ordenança observada uma só vez por todo indivíduo, como sinal do início de sua vida cristã. Este capítulo discute a ceia do Senhor, ordenança que deve ser observada repetidamente por toda a vida de um cristão, como sinal de comunhão contínua com Cristo.

A. Precedentes na história da redenção

Há precedentes dessa cerimônia no Antigo Testamento? Parece que sim, pois na antiga aliança também há exemplos em que se come e se bebe na presença de Deus. Por exemplo, quando o povo de Israel estava acampado diante do monte Sinai, logo depois de receber os Dez Mandamentos, Deus chamou os anciãos de Israel para subirem o monte, ao encontro dele: E subiram Moisés, e Arão, e Nadabe, e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel [...] porém eles viram a Deus, e comeram, e beberam (Êx 24.9-11).

B. O significado da ceia do Senhor

O significado da ceia do Senhor é complexo, rico e pleno. Há vários aspectos simbolizados e afirmados na ceia do Senhor.

1. A morte de Cristo.

Quando participamos da ceia do Senhor há nisso um símbolo da morte de Cristo, pois nossas ações ali formam um quadro de sua morte por nós. Quando partido, o pão simboliza o partir do corpo de Cristo, e, quando derramado (bebido), o cálice simboliza o derramar do sangue de Cristo em nosso favor. Essa é a razão por que participar da ceia do Senhor é também uma espécie de proclamação: “Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (1Co 11.26).

2. Nossa participação nos benefícios da morte de Cristo.

Jesus ordenou aos seus discípulos: “Tomai, comei; isto é o meu corpo” (Mt 26.26). Quando individualmente pegamos o cálice e nós mesmos o tomamos, cada um de nós está proclamando por meio de tal ato: “Estou tomando os benefícios da morte de Cristo para mim mesmo”. Quando assim procedemos mostramos um símbolo do fato de que participamos dos benefícios conquistados em nosso favor pela morte de Jesus.

3. Alimento espiritual.

Assim como o alimento comum nutre o nosso corpo, também o pão e o vinho da ceia do Senhor nos alimentam. Mas eles também representam o fato de que há alimento e refrigério espirituais que Cristo está concedendo à nossa alma – de fato, a cerimônia que Jesus instituiu, por sua própria natureza, tem a finalidade de ensinar-nos isso.

4. A unidade dos cristãos.

Quando os cristãos participam juntos da ceia do Senhor dão também um sinal nítido de unidade de uns para com os outros. Na verdade, Paulo diz: “Porque nós, embora muitos, somos unicamente um só pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão” (1Co 10.17)

5. Cristo afirma seu amor por mim.

O fato de que posso participar da ceia do Senhor – na verdade, de que Jesus convida-me para tanto – é um lembrete vívido e um sinal visível e seguro de que Jesus Cristo me ama como indivíduo e como pessoa. Quando venho tomar a ceia do Senhor reafirmo constantemente a segurança do amor pessoal de Cristo por mim.

6. Cristo afirma que todas as bênçãos da salvação estão reservadas para mim.

Quando atendo ao convite de Cristo para participar da ceia do Senhor, o fato de que ele me convidou à sua presença assegura-me de que Cristo tem abundantes bênçãos para mim. Na ceia, estou de fato comendo e bebendo num antegozo da mesa do grande banquete do Rei. Venho à sua mesa como membro de sua eterna família. Quando o Senhor recebe-me nessa mesa, ele me assegura de que me receberá para desfrutar de todas as outras bênçãos da terra e dos céus também, especialmente da grande ceia das Bodas do Cordeiro, para a qual está reservado um lugar para mim.

7. Eu afirmo minha fé em Cristo.

Por fim, quando tomo o pão e o cálice, por meu ato estou proclamando: “Preciso de ti e em ti confio, Senhor Jesus, para perdoar os meus pecados e dar vida e saúde à minha alma, pois somente pelo teu corpo partido e teu sangue derramado eu posso ser salvo”. De fato, quando participo do partir do pão, dele comendo, e do derramar do cálice, dele bebendo, proclamo constantemente que meus pecados constituíram parte do motivo do sofrimento e da morte de Jesus. Assim, tristeza, alegria, gratidão e profundo amor por Cristo são ricamente mesclados na beleza da ceia do Senhor.

C. Como Cristo está presente na ceia do Senhor?

1. A posição católica: transubstanciação.

Conforme a doutrina da Igreja Católica Romana, o pão e o vinho tornam-se realmente o corpo e o sangue de Cristo. Isso acontece quando o padre diz “isto é o meu corpo”, durante a celebração da missa. Quando o padre diz isso, o pão é levantado (elevado) e adorado. Esse ato de elevar o pão e de pronunciá-lo corpo de Cristo só pode ser feito por um sacerdote.

Quando isso acontece, segundo a doutrina católica, concede-se graça aos presentes ex opere operato, isto é, “realizada por obra”, mas a quantidade de graça dispensada ocorre em proporção à disposição subjetiva de quem recebe a graça. Além disso, toda vez que se celebra a missa, o sacrifício de Cristo é repetido (em algum sentido), e a igreja católica é cautelosa em afirmar que se trata de um sacrifício real, embora não corresponda ao sacrifício que Cristo fez na cruz.

2. A posição luterana: “em, com e sob”.

Martinho Lutero rejeitou a posição católica sobre a ceia do Senhor, mas insistiu em que a frase “isto é o meu corpo” tinha de ser entendida, em algum sentido, como uma declaração literal. Sua conclusão não foi que o pão torna-se de fato o corpo físico de Cristo, mas que o corpo físico de Cristo está presente “em, com e sob” o pão da ceia do Senhor. A ilustração dada às vezes para explicar é que o corpo de Cristo está presente assim como a água está presente em uma esponja – a água não é a esponja, mas está presente “em, com e sob” a esponja e onde quer que a esponja esteja. Outra ilustração é a do magnetismo de um imã, ou ainda a de uma alma em um corpo.

3. O restante das igrejas protestantes: presença simbólica e espiritual de Cristo.

De modo distinto de Martinho Lutero, João Calvino e outros reformadores argumentaram que o pão e o vinho da ceia do Senhor não se transformam no corpo e no sangue de Cristo, nem contêm, de algum modo, o corpo e o sangue de Cristo. Em vez disso, o pão e o vinho simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, um sinal visível do fato de que o próprio Cristo estava verdadeiramente presente.

D. Quem deve participar da ceia do Senhor?

Apesar das diferenças sobre alguns aspectos da ceia do Senhor, a maioria dos protestantes iria concordar, em primeiro lugar, que somente os que crêem em Cristo devem participar da ceia, porque trata-se de um sinal de conversão e de permanência na fé cristã. Paulo adverte que os que comem e bebem indignamente enfrentarão sérias conseqüências: “Pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem” (1Co 11.29-30).

E. Outras questões

Quem deve ministrar a ceia do Senhor? As Escrituras não apresentam um ensina-mento explícito sobre a questão, de modo que compete a nós decidir quem é sábio e adequado para assim beneficiar os cristãos na igreja. Para que não haja abusos na ceia do Senhor, um líder responsável deve ser encarregado de ministrá-la, mas não parece que as Escrituras exigem que apenas os pastores ordenados ou oficiais especiais se encarreguem disso. Em situações normais, é claro, o pastor ou outro líder que normalmente dirige os cultos de adoração da igreja deve atuar também na comunhão. Mas, além disso, não parece haver razão por que somente oficiais ou líderes, ou apenas homens, devem distribuir os elementos. Será que não comunicaríamos muito mais claramente a nossa unidade e igualdade espiritual em Cristo, se homens e mulheres, por exemplo, auxiliassem na distribuição da ceia do Senhor?

Adoração

O termo adoração é às vezes aplicado a tudo na vida cristã, e diz-se corretamente que tudo em nossa vida deve ser um ato de adoração e tudo o que a igreja faz deve ser considerado adoração, pois tudo o que fazemos deve glorificar a Deus. No entanto, neste capítulo não estou usando a palavra nesse sentido abrangente. Ao contrário, uso adoração em um sentido mais específico para referir-me às músicas e às palavras que os cristãos dirigem a Deus em louvor, juntamente com a atitude de coração que acompanha tal louvor, especialmente quando os cristãos se reúnem. Visto que os capítulos desta parte do livro tratam da doutrina da igreja, é apropriado dar atenção neste capítulo às atividades de adoração da igreja reunida.

A. Definição e propósito da adoração

Adoração é a atividade de glorificar a Deus em sua presença com nossa voz e com nosso coração.

Nessa definição podemos observar que adorar é um ato que glorifica a Deus.

Apesar de se esperar que todos os aspectos de nossa vida glorifiquem a Deus, essa definição especifica que adoração é algo que fazemos especialmente quando entramos na presença de Deus, quando estamos conscientes que o cultuamos de coração e quando o louvamos com a voz e dele falamos para que outros o ouçam. Paulo incentiva os cristãos de Colossos, dizendo: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração (Cl 3.16).

B. As conseqüências da adoração genuína

Quando adoramos a Deus no sentido descrito acima, verdadeiramente tributando-lhe glória no coração e com nossa voz, há diversas conseqüências disso:

1. Alegramo-nos em Deus.

Deus criou-nos não somente para glorificá-lo mas também para alegrar-nos nele e regozijar-nos em sua grandeza. Nós provavelmente experimentamos alegria em Deus mais plenamente na adoração do que em qualquer outra atividade na vida.

Davi confessa que “uma coisa” que ele buscou acima de tudo foi, conforme disse: “que eu possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo” (Sl 27.4). Ele também afirma: “Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl 16.11).

2. Deus alegra-se em nós.

O que Deus faz quando o adoramos? A impressionante verdade das Escrituras é que enquanto a criação glorifica a Deus, ele também alegra-se nela. Quando Deus fez o universo, no princípio, contemplou tudo com alegria e viu que “era muito bom” (Gn 1.31). Deus tem alegria especial nos seres humanos aos quais ele criou e remiu. Isaías lembrou ao povo do Senhor:

3. Aproximamo-nos de Deus.

A maravilhosa realidade invisível da adoração na nova aliança. Na antiga aliança era possível aproximar-se de Deus só de maneira limitada através das cerimônias do templo; na verdade, a maior parte do povo de Israel não podia entrar no próprio templo, mas tinha de permanecer no pátio. Até mesmo os sacerdotes podiam adentrar apenas o átrio externo do templo, o “Lugar Santo”, quando estavam designados para tal tarefa. Mas no recinto mais interior do templo, no “Santo dos Santos”, ninguém podia entrar exceto o sumo sacerdote, que o fazia apenas uma vez por ano (Hb 9.1-7).

4. Deus aproxima-se de nós.

Tiago diz-nos: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós” (Tg 4.8). Esse tem sido o padrão com que Deus trata o seu povo em toda a Bíblia, e devemos estar confiantes que isso também é verdade hoje.

5. Deus ministra a nós.

Embora o propósito principal da adoração seja glorificar a Deus, as Escrituras ensinam que também acontece algo conosco na adoração: nós mesmos somos edificados. Até certo ponto, isso acontece, naturalmente, quando aprendemos dos ensinos bíblicos ministrados ou das palavras de incentivo dirigidas a nós; Paulo afirma: “Seja tudo feito para edificação” (1Co 14.26), e diz “instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria” (Cl 3.16), e também “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais” (Ef 5.19; cf. Hb 10.24-25).

6. Os inimigos do Senhor fogem.

Quando o povo de Israel começava a adorar, Deus, em certas ocasiões, lutava por eles contra os seus inimigos. Por exemplo, quando os moabitas, os edomitas e os sírios atacaram Judá, o rei Josafá colocou os cantores em frente do exército louvando a Deus:

Aconselhou-se com o povo e ordenou cantores para o Senhor, que, vestidos de ornamentos sagrados e marchando à frente do exército, louvassem a Deus [...] Tendo eles começado a cantar e a dar louvores, pôs o Senhor emboscadas contra os filhos de Amom e de Moabe e os do monte Seir que vieram contra Judá, e foram desba-ratados (2Cr 20.21-22).

7. Os descrentes sabem que estão na presença de Deus.

Ainda que as Escrituras não enfatizem a evangelização como propósito principal quando a igreja se reúne para adorar, Paulo ordena aos coríntios que se preocupem com os descrentes e com os de fora que comparecem aos cultos, para que eles tenham certeza de que os cristãos falam de maneira que se pode entender (veja 1Co 14.23). Ele também lhes diz que se o dom de profecia estiver sendo usado adequadamente, os descrentes terão eventualmente os segredos do seu coração descobertos, e se prostrarão sobre o rosto e “adorarão a Deus, testemunhando que, Deus está, de fato, no meio de vós” (1Co 14.25; cf. At 2.11).

C. O valor eterno da adoração

Pelo fato de glorificar a Deus e cumprir o propósito para o qual ele nos criou, a adoração é uma atividade de significado eterno e de grande valor. Quando Paulo adverte os efésios de que não desperdicem o tempo, mas que o usem bem, ele o faz no contexto do viver como os sábios: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus” (Ef 5.15-16).

D. Como podemos entrar em adoração genuína?

Finalmente, a adoração é uma atividade espiritual e precisa ser efetuada pelo poder do Espírito Santo em nós. Isso quer dizer que devemos orar para que o Espírito Santo capacite-nos a adorar corretamente.


Os Dons do Espírito Santo:

(1) Perguntas Gerais

A. Perguntas relacionadas aos dons espirituais em geral

Nas gerações passadas, os livros de teologia sistemática não tinham capítulos sobre dons espirituais, pois havia poucas perguntas relacionadas à natureza e ao uso dos dons espirituais na igreja. Mas o século XX tem visto um notável crescimento do interesse pelos dons espirituais, principalmente por causa da influência dos movimentos pentecostais e carismáticos dentro da igreja. Neste capítulo vamos examinar primeiro algumas perguntas genéricas relacionadas a dons espirituais e, depois, estudar de forma mais específica se alguns dons (miraculosos) teriam desaparecido. No próximo capítulo, vamos analisar o ensino do Novo Testamento sobre dons específicos.

1. Dons espirituais na história da redenção.

Com certeza o Espírito Santo agia no Antigo Testamento, conduzindo as pessoas à fé e atuando de maneira notável em alguns poucos indivíduos como Moisés e Samuel, Davi e Elias. Mas em geral havia atividade menos poderosa do Espírito Santo na vida da maioria dos crentes. A evangelização eficaz das nações havia sido reduzida, a expulsão de demônios era desconhecida, as curas miraculosas eram incomuns (embora tenham acontecido de modo especial no ministério de Elias e Eliseu), a profecia era restrita a poucos profetas ou a pequenos grupos de profetas, e o “poder da ressurreição” sobre o pecado no sentido de Romanos 6.1-14 e Filipenses 3.10 era raramente experimentado.

2. O propósito dos dons espirituais na era do Novo Testamento.

Os dons espirituais são dados para equipar a igreja a fim de que ela desenvolva seu ministério até que Cristo volte. Paulo diz aos coríntios: “não lhes falta nenhum dom espiritual, enquanto vocês aguardam que o nosso Senhor Jesus Cristo seja revelado” (1Co 1.7 nvi). Aqui ele relaciona a posse dos dons espirituais e a situação deles na história da redenção (aguardando o retorno de Cristo), dando a entender que os dons são dados à igreja para o período entre a ascensão de Cristo e sua volta. De maneira semelhante, Paulo olha adiante para o tempo da volta de Cristo e diz “quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado” (1Co 13.10), dando a entender também que esses dons “imperfeitos”(mencionados nos v. 8-9) estarão em operação até a volta de Cristo, ocasião em que serão superados por algo muito maior.

3. Quantos dons existem?

As cartas do Novo Testamento alistam dons espirituais específicos em seis passagens. Veja adiante a tabela.

É óbvio que essas listas são todas bem diferentes. Nenhuma lista tem todos os dons, e nenhum dom exceto a profecia é mencionado em todas as listas (a profecia não é mencionada em 1Co 7.7, em que apenas o assunto do casamento e celibato está em discussão, mas com certeza está incluída na frase “se alguém fala” de 1Pe 4.11). Na realidade, 1Coríntios 7.7 menciona dois dons que não se encontram em nenhuma outra lista: no contexto em que fala de casamento e celibato, Paulo diz: “... cada um tem de Deus o seu próprio dom;6 um, na verdade, de um modo; outro, de outro”.

4. Os dons podem variar quanto ao poder.

Paulo diz que se temos o dom da profecia, devemos usá-lo “segundo a proporção da fé” (Rm 12.6), dando a entender que o dom pode ser desenvolvido com mais força ou com menos força em diferentes indivíduos, ou no mesmo indivíduo durante um tempo. É por isso que Paulo podia lembrar a Timóteo: “... não te faças negligente para com o dom que há em ti” (1Tm 4.14), e dizer- lhe: “... admoesto que reavives o dom de Deus que há em ti” (2Tm 1.6). Era possível Timóteo deixar seu dom enfraquecer, aparentemente pelo pouco uso, e Paulo lembra-lhe que devia avivá-lo, mediante uso e conseqüente fortalecimento.

5. Os cristãos possuem os dons por um tempo ou de modo permanente?

Na maioria dos casos, parece que o Novo Testamento descreve uma posse permanente dos dons espirituais. Encaixa-se a isso a analogia das partes do corpo em 1 Coríntios 12.12-26, segundo a qual o olho não se transforma em mão, nem o ouvido se torna um pé, mas vários membros existem no corpo permanentemente. Além disso, Paulo diz que algumas pessoas têm títulos que descrevem uma função contínua. Da pergunta se os dons espirituais são temporários ou permanentes, às vezes é mencionado Romanos 11:29: “...porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis”. Entretanto, não parece apropriado usar o versículo no contexto desta discussão, pois naquele caso Paulo está falando acerca da condição do povo judeu, incluindo seu chamado como povo de Deus e os dons ou bênçãos concedidos a ele como resultado dessa condição.

6. Os dons são miraculosos ou não miraculosos?

A resposta a essa pergunta realmente depende da definição da palavra milagre. Se definimos milagre como “uma atividade direta de Deus no mundo”, então todos os dons espirituais são miraculosos porque eles são todos potencializados pelo Espírito Santo (1Co 12.11; cf. v. 4-6). Mas nesse sentido tudo o que acontece no mundo poderia ser considerado miraculoso, porque tudo se realiza pela obra providencial de Deus na criação (veja Ef 1.11; Dn 4.35; Mt 5.45). Portanto, a palavra milagre perde sua utilidade, pois é difícil encontrar algo que acontece no mundo que não seja miraculoso nesse sentido.

7. Descobrindo e buscando os dons espirituais.

Paulo parece dar por certo que os crentes sabem quais são seus dons espirituais. Ele simplesmente diz aos da igreja de Roma que usem seus dons de várias maneiras: “... se profecia, seja segundo a proporção da fé [...] o que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência; quem exerce misericórdia, com alegria” (Rm 12.6-8). De modo semelhante, Pedro simplesmente diz aos leitores como usar seus dons e não diz nada sobre como descobrir quais são eles: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10).

8. Os dons são ferramentas para o ministério e não se relacionam necessariamente com a maturidade cristã.

Devemos reconhecer que os dons espirituais são dados a todo crente (1Co 12.7, 11; 1Pe 4.10). Mesmo os cristãos imaturos recebem dons espirituais do Senhor — isso com certeza era evidente na igreja de Corinto, que tinha uma abundância de dons espirituais (1Co 1.7), mas ainda era muito imatura em muitas áreas de doutrina e conduta. Paulo diz: “Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo” (1Co 3.1). Portanto, dons espirituais não são necessariamente sinais de maturidade espiritual. É possível ter dons espirituais notáveis em uma área ou outra, mas mesmo assim ser bem imaturo no entendimento doutrinário ou na conduta cristã, como era o caso em Corinto. Na verdade, eventualmente mesmo os incrédulos são capazes de profetizar, expulsar demônios e fazer milagres, pois Jesus diz que no último dia muitos lhe dirão: “Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?”. Mas Jesus lhes responderá: “... nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.22-23). Não é que Jesus os tenha conhecido uma vez e mais tarde não os conhecia mais; ele diz: “... nunca vos conheci”. Eles nunca foram cristãos, apesar de terem realizado muitas obras notáveis. Portanto, não devemos avaliar maturidade espiritual com base nos dons espirituais. A maturidade vem quando se anda perto de Jesus, e resulta em obediência às suas ordens na vida diária: “... aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou” (1Jo 2.6).

B. Teriam alguns dons desaparecido? O debate cessacionista

No mundo evangélico hoje há diferentes posições quanto à seguinte pergunta: “Todos os dons mencionados no Novo Testamento são válidos hoje para serem usados na igreja?”. Alguns diriam sim. Outros diriam não e argumentariam que alguns dons mais miraculosos (tais como profecia, línguas e interpretação, e talvez cura e expulsão de demônios) foram dados somente durante a era apostólica, como “sinais” para credenciar os apóstolos durante o estágio inicial de pregação do evangelho. Afirmam que esses dons não são mais necessários hoje como sinais e cessaram no final da era apostólica, provavelmente no final do primeiro século d.C. ou começo do segundo.

Os Dons do Espírito Santo

(2) Dons Específicos

Neste capítulo vamos basear-nos na discussão geral acerca dos dons espirituais do capítulo anterior e examinar alguns dons específicos com mais detalhes. Não vamos considerar todos os dons mencionados no Novo Testamento, mas nos concentraremos em alguns dons não bem compreendidos ou naqueles cujo emprego têm gerado alguma polêmica no presente. Portanto, não examinaremos dons cujo significado e uso são evidentes pelo próprio termo implicado (como serviço, exortação, contribuição, liderança ou misericórdia); antes, vamos nos concentrar nos dons da seguinte lista, extraídos basicamente de 1Coríntios 12.28 e 12.8-10:

1. Profecia
2. Ensino
3. Milagres
4. Cura
5. Línguas e interpretação
6. Palavra da sabedoria / palavra do conhecimento
7. Discernimento de espíritos

A. Profecia

Ainda que se dêem algumas definições para o dom de profecia, um novo exame do ensino neotestamentário sobre esse dom mostrará que devemos defini-la não como “previsão do futuro”, “proclamação de uma palavra do Senhor” ou “pregação poderosa”, mas, antes, como “dizer algo que Deus traz de modo espontâneo à mente”. Os quatro primeiros pontos do material a seguir sustentam essa conclusão; os demais pontos tecem outras considerações a respeito desse dom.

1. Os paralelos do Antigo Testamento no Novo Testamento.

Os profetas são os apóstolos do Novo Testamento. Os profetas do Antigo Testamento tinham uma responsabilidade surpreendente — eram capazes de falar e escrever palavras carregadas de autoridade divina absoluta. Eles podiam dizer: “Assim diz o Senhor”, e as palavras que se seguiam eram as palavras do próprio Deus. Os profetas do Antigo Testamento escreveram as palavras deles como se fossem palavras de Deus nas Escrituras para todas as épocas (veja Nm 22.38; Dt 18.18-20; Jr 1.9; Ez 2.7; et al.). Assim, não crer nas palavras dos profetas ou desobedecer a elas era não crer em Deus ou desobedecer a ele (veja Dt 18.19; 1Sm 8.7; 1Rs 20.36 e muitas outras passagens).

2. O significado da palavra profeta na época do Novo Testamento.

Por que Jesus escolheu o novo termo, apóstolo, para designar os que tinham autoridade para redigir as Escrituras? Provavelmente porque a palavra grega prophÂtÂs (“profeta”) na época do Novo Testamento possuía uma ampla gama de significados. Em geral, não possuía o sentido “aquele que fala as palavras do próprio Deus”, mas sim “aquele que fala baseado em alguma influência externa” (muitas vezes alguma espécie de experiência espiritual). Tito 1.12 emprega a palavra nesse sentido, quando Paulo cita o poeta pagão grego Epimênides: “Foi mesmo, dentre eles, um seu profeta, que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos”. Os soldados que zombam de Jesus também parecem empregar a palavra profetizar nesse sentido, quando vendam Jesus e exigem cruelmente: “Profetiza-nos: quem é que te bateu?” (Lc 22.64). Eles não querem dizer: “Pronuncia-nos palavras de autoridade divina absoluta”, mas: “Fala-nos algo que tenha sido revelado a ti” (cf. Jo 4.19).

3. Indícios de que os “profetas” não falavam com autoridade equivalente à das palavras das Escrituras.

a. Atos 21.4. Em Atos 21.4, lemos que os discípulos de Tiro, “movidos pelo Espírito, recomendavam a Paulo que não fosse a Jerusalém”. Isso parece referir-se a uma profecia dirigida a Paulo, mas Paulo desobedece! Ele jamais o faria se essa profecia contivesse as palavras do próprio Deus e autoridade equivalente à das Escrituras.

b. Atos 21.20-11. Depois, em Atos 21.20-11, Ágabo profetizou que os judeus em Jerusalém amarrariam a Paulo e o entregariam nas mãos dos gentios, predição quase correta, mas não de todo: os romanos, não os judeus, prenderam Paulo (v. 33; também 22.29), e os judeus, em vez de o entregarem voluntariamente, tentaram matá-lo, de modo que ele teve de ser resgatado à força (v. 32). A predição não estava muito distante, mas continha imprecisões em detalhes que levantariam dúvidas quanto à validade de qualquer profeta do Antigo Testamento. Por outro lado, é possível explicar perfeitamente esse texto se supormos que Ágabo teve uma visão de Paulo prisioneiro dos romanos em Jerusalém, cercado de uma multidão irada de judeus.

c. 1Tessalonicenses 5.19-21. Paulo diz aos tessalonicenses: “Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1Ts 5.20-21). Se os tessalonicenses pensassem que a profecia equivalia à Palavra de Deus em autoridade, Paulo jamais teria de lhes dizer que não a desprezassem — eles tinham “recebido” e “acolhido” a Palavra de Deus com alegria do Espírito Santo” (1Ts 1.5; 2.13; cf. 4.15). Mas quando Paulo lhes diz que julguem todas as coisas, isso deve incluir pelo menos as profecias mencionadas na frase anterior. Ele dá a entender que as profecias contêm alguns elementos bons e outros nem tanto quando os incentiva a reter “o que é bom”. Jamais se poderia dizer isso das palavras de um profeta do Antigo Testamento ou dos ensinos autorizados de um apóstolo do Novo Testamento.

d. 1Coríntios 14.29-38. Indicação mais ampla sobre a profecia no Novo Testamento encontra-se em 1Coríntios 14. Quando Paulo diz: “Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem” (1Co 14.29), ele dá a entender que devem ouvi-los com atenção e separar a boa profecia da má, aceitando algumas e rejeitando o restante (pois essa é a implicação da palavra grega , aqui traduzida “julguem”). Não conseguimos imaginar um profeta do Antigo Testamento como Isaías dizendo: “Ouvi o que digo e pesai o que se fala — separai o bom do mau, o que deveis aceitar do que não deveis”! Se a profecia tinha autoridade divina absoluta, seria pecado fazer isso. Mas aqui Paulo ordena que se faça, insinuando que a profecia neotestamentária não tinha a autoridade das palavras do próprio Deus.

e. O preparo dos apóstolos para a ausência deles. Além dos versículos considerados até aqui, outro tipo de indício dá a entender que os profetas das igrejas neotestamentárias falavam com menos autoridade que os apóstolos do Novo Testamento ou que as Escrituras: o problema dos sucessores dos apóstolos é resolvido não por um incentivo a que os cristãos ouçam os profetas (ainda que houvesse profetas por ali), mas a que se voltem para as Escrituras.

É assim que Paulo, ao final da vida, destaca o dever de manejar bem a palavra de verdade (2Tm 2.15) e o caráter inspirado das Escrituras “para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”’ (2Tm 3.16). Judas insta seus leitores a batalhar “diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Pedro, ao final da vida, incentiva seus leitores a atender às Escrituras, “como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso” (2Pe 1.19-20), e lhes relembra os ensinos do apóstolo Paulo” em todas as suas epístolas” (2Pe 3.16). Em momento algum lemos exortações como: “dai ouvido aos profetas em vossas igrejas” ou “obedecei às palavras do Senhor por intermédio de vossos profetas”, etc.

4. Como falar da autoridade da profecia hoje?

Assim, as profecias na igreja hoje devem ser consideradas palavras meramente humanas, não palavras de Deus, e não equivalentes às palavras de Deus em autoridade. Mas será que essa conclusão está em conflito com o ensino e a prática carismática atual? Penso que ela está em conflito com boa parte da prática carismática, mas não com boa parte do ensino carismático

5. Uma “revelação” espontânea tornava a profecia diferente dos outros dons.

Se a profecia não contém as palavras do próprio Deus, então de que se trata? Em que sentido ela vem de Deus?

6. A diferença entre profecia e ensino.

Pelo que sabemos, toda “profecia” do Novo Testamento era baseada nesse tipo de indução espontânea do Espírito Santo (cf. At 11.28; 21.4, 20-22; e observe as idéias de profecia apresentadas em Lc 7.39; 22.63-64; Jo 4.19; 11.51). A menos que uma pessoa receba uma “revelação” espontânea de Deus, não há profecia.

7. Objeção:

isso torna a profecia “muito subjetiva”. Nesse ponto alguns contestam que esperar por tais “induções” da parte de Deus é um processo “simplesmente muito subjetivo”. Mas em resposta pode-se dizer que, pela saúde da igreja, muitas vezes os que fazem essa objeção são os que mais necessitam desse processo em sua vida cristã! Esse dom exige que se espere no Senhor, que se lhe dê ouvidos, para escutar seu conselho em nosso coração. Para os cristãos completamente evangélicos, sadios quanto à doutrina, intelectuais e “objetivos”, é provável que a maior necessidade seja a de uma forte influência que dê equilíbrio a um relacionamento “subjetivo” mais vital com o Senhor na vida diária. E essas pessoas são também as menos sujeitas a serem conduzidas a erros, pois já dão grande ênfase à fundamentação sólida na Palavra de Deus.

8. As profecias podiam incluir qualquer conteúdo edificante.

Os exemplos acima mencionados de profecias no Novo Testamento mostram que a idéia de profecia apenas como “predição do futuro” é certamente errada. Havia algumas predições (At 11.28; 21.22), mas também havia revelação de pecados (1Co 14.25). Na realidade, tudo que edificasse podia estar incluído, pois Paulo diz: “... o que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando” (1Co 14.3). Outra indicação do valor da profecia era que podia atender às necessidades do coração das pessoas de maneira espontânea, direta.

9. Muitas pessoas na congregação podem profetizar.

Outro grande benefício da profecia é que dá oportunidade para que todos os da congregação participem, não só os oradores capacitados ou os que têm dom de ensino. Paulo diz querer que “todos” os coríntios profetizem (1Co 14.5) e afirma: “... todos podeis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem consolados” (1Co 14.31).21 Isso não significa que todo cristão de fato terá capacidade de profetizar, pois Paulo diz: “Nem todos são profetas, são?” (1Co 12.29, tradução do autor). Mas significa que qualquer um que receba uma “revelação” de Deus tem permissão de profetizar (segundo as orientações de Paulo) e dá a entender que muitos profetizarão. Por isso, a maior abertura para o dom de profecia pode ajudar a vencer situações em que muitos que freqüentam nossas igrejas são meros espectadores e não participantes. Talvez estejamos contribuindo para o problema do “cristianismo espectador” ao reprimir a obra do Espírito nessa área.

10. Devemos “procurar com zelo” a profecia.

Paulo tanto valorizava esse dom que disse aos coríntios: “Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis” (1Co 14.1). Depois, no final de sua discussão sobre os dons espirituais, volta a dizer: “Portanto, meus irmãos, procurai com zelo o dom de profetizar” (1Co 14.39). E ele disse: “o que profetiza edifica a igreja” (1Co 14.4).

11. Como incentivar e regulamentar a profecia na igreja local.

Por fim, se uma igreja começa a incentivar o uso da profecia onde antes não se usava, que se deve fazer? Como pode incentivar esse dom sem cair em abusos?
Para todos os cristãos e especialmente para pastores e outros que têm a responsabilidade de ensinar a igreja, seria adequado e pastoralmente sábio seguir alguns passos:

(1)Ore seriamente para que Deus dê sabedoria, indicando como e quando introduzir o assunto na igreja.

(2)Deve haver ensino sobre o assunto nos períodos regulares de estudo bíblico já promovidos pela igreja.

(3)A igreja deve ter paciência e seguir devagar — os líderes da igreja não devem ser “dominadores” (ou autoritários) (1Pe 5.3), e uma abordagem paciente evitará que as pessoas se afastem amedrontadas ou se alienem desnecessariamente.

(4)A igreja deve reconhecer e incentivar o dom de profecia da maneira pela qual já esteja atuando na igreja — em reuniões de oração, por exemplo, quando alguém sentiu-se “dirigido” de maneira pouco comum pelo Espírito Santo a orar por algo, ou quando parece que o Espírito Santo estava trazendo à mente um hino ou passagem das Escrituras, ou quando ele deu um senso comum sobre o tom ou sobre um tema específico para um período de adoração ou de oração conjunta. Mesmo cristãos em igrejas não abertas para o dom de profecia podem pelo menos estar sensíveis a inspirações do Espírito Santo quanto aos motivos de oração em reuniões de oração da igreja e podem então expressar essas inspirações em forma de oração (que pode chamar-se “oração profética”) ao Senhor.

(5)Se os quatro primeiros passos forem seguidos e se a congregação e seus líderes aceitarem, podem-se dar algumas oportunidades para que se use o dom de profecia em alguns cultos menos formais da igreja ou em grupos pequenos reunidos nos lares. Caso isso seja permitido, os que profetizam devem ser mantidos sob a orientação das Escrituras (1Co 14.29-36), devem buscar genuinamente a edificação da igreja e não o prestígio pessoal (1Co 14.12, 26) e não devem dominar a reunião ou ser demasiadamente dramáticos ou emocionais em seu discurso (atraindo assim a atenção para si mesmos e não para o Senhor). As profecias devem, com certeza, ser avaliadas de acordo com os ensinos das Escrituras (1Co 14.29-36; 1Ts 5.19-21).

(6)Se o dom de profecia começar a ser empregado na igreja, ela deve dar ênfase ainda maior no valor infinitamente superior das Escrituras como a fonte a que o cristão sempre pode recorrer para ouvir a voz do Deus vivo. A profecia é um dom valioso, assim como muitos outros dons, mas é nas Escrituras que Deus e somente Deus nos fala com suas palavras, mesmo hoje, por toda nossa vida. Em vez de esperar que a cada culto o ponto alto seja alguma palavra de profecia, os que empregam o dom de profecia precisam ser lembrados de que devemos encontrar nosso centro de alegria, nossas expectativas e nosso prazer na própria pessoa de Deus à medida que ele nos fala por meio da Bíblia.

Ali temos um tesouro de valor infinito: as verdadeiras palavras de nosso Criador falando-nos numa linguagem que podemos compreender. E em vez de buscar uma orientação freqüente por meio da profecia, devemos destacar que é nas Escrituras que devemos encontrar orientação para nossa vida. Nas Escrituras estão nossa fonte de direção, nossa referência ao buscar a vontade de Deus, nosso padrão suficiente e completamente fidedigno. É das palavras de Deus nas Escrituras que podemos dizer confiantes: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz para os meus caminhos” (Sl 119.105).

B. Ensino

O dom de ensino no Novo Testamento é a capacidade de explicar as Escrituras e aplicá-la à vida das pessoas. Isso se evidencia em uma série de passagens. Em Atos 15.35, Paulo e Barnabé estão em Antioquia “ensinando e pregando, com muitos outros, a palavra do Senhor”. Em Corinto, Paulo permaneceu um ano e meio “ensinando entre eles a palavra de Deus” (At 18.11). E os leitores da epístola aos Hebreus, embora já devessem ser mestres, ainda precisavam de alguém que lhes ensinasse de novo “os princípios elementares dos oráculos de Deus” (Hb 5.12). Paulo diz aos romanos que as palavras das Escrituras do Antigo Testamento “para o nosso ensino [gr. didaskalia]” foram escritas (Rm 15.4) e escreve a Timóteo que “toda a Escritura” é “útil para o ensino [didaskalia]” (2Tm 3.16).

C. Milagres

Logo após apóstolos, profetas e mestre, Paulo diz “depois, operadores de milagres” (1Co 12.28). Ainda que muitos dos milagres vistos no Novo Testamento fossem especificamente milagres de cura, Paulo aqui alista a cura como um dom distinto. Assim, nesse contexto ele deve ter em vista algo diferente de cura física.
Devemos perceber que talvez a palavra milagre não dê uma idéia muito precisa do que pretendia Paulo, uma vez que a palavra grega é simplesmente a forma plural da palavra dynamis, “poder”.24 Isso significa que o termo pode referir-se a qualquer tipo de atividade em que se evidencie o grande poder de Deus. Isso pode incluir respostas a orações por livramento de perigos físicos (como no caso dos apóstolos livrados da prisão em At 5.19-20 ou 12.6-11), ou atos poderosos de julgamento contra inimigos do evangelho ou contra os que precisam de disciplina dentro da igreja (veja At 5.1-11; 13.9-12), ou proteções miraculosas de ferimentos (como ocorreu com Paulo e a víbora em At 28.3-6). Mas tais atos de poder espiritual também podem incluir poder para triunfar sobre a oposição demoníaca (como em At 16.18; cf. Lc 10.17).

D. Cura

1. Introdução: doença e saúde na história da redenção.

Para começar, precisamos compreender que a doença física surgiu como conseqüência da queda de Adão e que a enfermidade e a doença são simplesmente parte do produto da maldição após a queda que acabam levando à morte física. Cristo, porém, nos redimiu dessa maldição quando morreu na cruz: “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si [...] e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.4-5). Essa passagem refere-se à cura física e também espiritual que Cristo nos conseguiu, pois Pedro a cita para falar de nossa salvação: “... carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados” (1Pe 2.24).

2. Os propósitos da cura.

Assim como outros dons espirituais, a cura tem vários propósitos. Com certeza serve como um “sinal” para autenticar a mensagem do evangelho e mostra que é chegado o reino de Deus. Depois, a cura também traz conforto e saúde aos doentes e, assim, demonstra o atributo divino de misericórdia para com os que sofrem. Em terceiro lugar, capacita as pessoas para o serviço, ao remover impedimentos ao ministério. Em quarto lugar, a cura provê oportunidade para que Deus seja glorificado à medida que as pessoas vêem provas materiais de seu amor, bondade, poder, sabedoria e presença.

3. Que dizer do uso de remédios?

Qual a relação entre a oração pela cura e o uso de remédios e a capacidade do médico? Com certeza devemos usar remédios caso disponhamos deles, porque Deus também criou na terra substâncias com que podemos produzir remédios com propriedades terapêuticas. Os remédios, portanto, devem ser considerados parte de toda a criação que Deus considerou “muito bom” (Gn 1.31). Devemos empregar de bom grado os remédios com gratidão ao Senhor, pois “ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém” (Sl 24.1). De fato, quando dispomos de medicamentos e nos recusamos a usá-los (em casos que isso poderia pôr em risco a nossa vida ou a de outros), parece que estamos errando, “tentando” o Senhor nosso Deus (cf. Lc 4.12); isso é semelhante ao caso de Satanás tentando Jesus para que pule do templo em vez de descer pelos degraus. Havendo meios normais para descer do templo (os degraus), pular é “tentar” a Deus, exigindo que realize um milagre nesse exato momento. Recusar-se a empregar um medicamento eficaz, insistindo que Deus realize um milagre de cura em vez de curar por meio do remédio, é muito semelhante a isso.

4. O Novo Testamento apresenta métodos comuns empregados na cura?

Os métodos de cura empregados por Jesus e os discípulos variavam de caso a caso, mas com maior freqüência incluíam a imposição de mãos. No versículo que acabamos de citar, Jesus sem dúvida podia ter proferido uma ordem poderosa, curando toda a multidão instantaneamente, mas em lugar disso “ele os curava, impondo as mãos sobre cada um” (Lc 4.40). A imposição de mãos parece ter sido o principal meio de cura empregado por Jesus, porque quando as pessoas chegavam e lhe pediam cura, não pediam simplesmente que orasse, mas diziam, por exemplo, “vem, impõe as mãos sobre ela, e viverá” (Mt 9.18).

6. Mas, e se Deus não curar?

Entretanto, precisamos compreender que nem todas as orações por cura serão respondidas nesta era. Às vezes Deus não concede a “fé” especial (Tg 5.15) de que a cura ocorrerá, e às vezes Deus opta por não curar por causa de seus propósitos soberanos. Nesses casos, precisamos lembrar que Romanos 8.28 ainda é verdade: apesar dos “sofrimentos do tempo presente” e apesar de gemermos “aguardando [...] a redenção do nosso corpo” (Rm 8.18, 23), “sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Isso também inclui a atuação de Deus em nossa situação de sofrimento e enfermidade.

E. Línguas e Interpretação

Deve-se dizer para começar que a palavra grega glossa, traduzida por “língua”, é empregada não só para designar a língua física que fica dentro da boca, mas também para designar a “linguagem”.

1. As línguas na história da redenção.

O fenômeno de falar em línguas é exclusivo da era da nova aliança. Antes de Adão e Eva caírem em pecado, não havia necessidade de falar em outras línguas, porque eles falavam a mesma língua e estavam unidos no serviço a Deus e na comunhão com ele. Após a queda, as pessoas falavam a mesma língua, mas acabaram unidas na oposição a Deus e “a maldade do homem se havia multiplicado” e “era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6.5). Essa língua unificada empregada na rebelião contra Deus culminou na construção da torre de Babel numa época em que “em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar” (Gn 11.1). Para interromper essa rebelião conjunta contra ele, em Babel Deus “confundiu [...] a linguagem de toda a terra” e dispersou o povo pela face da terra (Gn 11.9).

2. Que é falar em línguas?

Podemos definir esse dom da seguinte forma: Falar em línguas é oração ou louvor expresso em sílabas não compreendidas pelo locutor.

a. Palavras de oração ou louvor dirigidas a Deus. Essa definição indica que falar em línguas é principalmente um discurso dirigido a Deus (ou seja, oração ou louvor). Assim, é diferente do dom de profecia, que com freqüência consiste em mensagens pronunciadas por Deus para as pessoas na igreja. Paulo diz: “Quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus” (1Co 14.2), e se não estiver presente um intérprete no culto, Paulo diz que o indivíduo com dom de línguas deve ficar calado, “falando consigo mesmo e com Deus” (1Co 14.28).

b. Não compreendido pelo locutor. Paulo diz: “Quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (1Co 14.2). De modo semelhante, ele diz que se há falar em línguas sem interpretação, não se transmitirá nenhum significado: “... serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim” (1Co 14.11).

c. Orar com o espírito, não com a mente. Paulo diz: “... se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera. Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente; cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente” (1Co 14.14-15).

d. Não extático, mas autocontrolado.

A New English Bible traduziu a expressão “falar em línguas” por “discurso extático”, dando maior sustentação à idéia de que os que falam em línguas perdem a consciência do meio em que estão, ou perdem o autocontrole, ou são forçados a falar contra a vontade. Além disso, alguns dos elementos extremos no movimento pentecostal admitem condutas frenéticas e desordenadas nos cultos de adoração e isso, na mente de alguns, tem perpetuado a noção de que falar em línguas é um tipo de discurso extático.

e. Línguas sem interpretação.

Se não estiver presente na reunião alguém que se saiba possuir o dom de interpretação, a passagem que acabamos de citar indica que o falar em línguas deve ocorrer em particular. Não se deve dar nenhum discurso em línguas no culto público, se não houver interpretação.

Paulo fala de orar em línguas e cantar em línguas quando diz: “Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente; cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente” (1Co 14.15). Isso confirma ainda mais a definição dada acima, em que entendemos as línguas como algo primeiramente dirigido a Deus, em oração e louvor. Isso também legitima a prática de cantar em línguas, de maneira pública ou privada. Mas aplicam-se ao cantar as mesmas regras que se aplicam ao falar: se não houver intérprete, só deve ser feito em particular.

f. Línguas com interpretação: edificação para a igreja.

Paulo diz: “... quem profetiza é superior ao que fala em outras línguas, salvo se as interpretar, para que a igreja receba edificação” (1Co 14.5). Uma vez que a mensagem em línguas seja interpretada, todos podem compreender. Nesse caso, Paulo diz que a mensagem em línguas é tão valiosa para a igreja quanto a profecia. Devemos observar que ele não diz que ambos possuem a mesma função (pois outras passagens indicam que a profecia é uma comunicação de Deus para seres humanos, enquanto as línguas são em geral comunicação de seres humanos para Deus). Mas Paulo diz claramente que possuem igual valor na edificação da igreja.

g. Nem todos falam em línguas.

Assim como nem todos os cristãos são apóstolos, nem todos são profetas ou mestres, nem todos possuem dons de cura, assim também nem todos falam em outras línguas. Paulo indica isso claramente quando faz uma série de perguntas, todas as quais pressupõem a resposta “não”, e inclui a pergunta: “Falam todos em outras línguas?” (1Co 12.30). A resposta esperada é não. Alguns alegam que Paulo aqui só está dizendo que nem todos falam publicamente em línguas, mas que talvez admitisse que todos pudessem falar em línguas em particular. Mas essa distinção parece estranha ao contexto e não é convincente. Ele não especifica que nem todos falam em línguas publicamente ou na igreja, mas só diz que nem todos falam em línguas.

h. Que dizer do perigo da imitação demoníaca?

Às vezes os cristãos temem falar em línguas, pensando que falar algo que não compreendem pode fazê-los pronunciar blasfêmias contra Deus ou falar algo inspirado por um demônio e não pelo Espírito Santo.
Em primeiro lugar, deve-se dizer que essa não é a preocupação de Paulo, mesmo na cidade de Corinto, onde muitos vinham do culto pagão, e da qual Paulo disse claramente: “... as coisas que eles sacrificam, é a demônios que os sacrificam e não a Deus” (1Co 10.20). Mesmo assim, ele diz: “... quisera que vós todos falásseis em outras línguas” (1Co 14.5). Ele não faz nenhuma ressalva de que devam estar atentos à imitação demoníaca ou mesmo pensar que essa seria uma possibilidade quando empregassem esse dom.

i. Estaria Romanos 8.26-27 relacionado ao falar em línguas? Paulo escreve em Romanos 8.26-27:

Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobre-maneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos.

Paulo não menciona aqui, de maneira explícita, o falar em línguas, e a declaração é geral, tratando da vida de todos os cristãos, de modo que não parece correto dizer que Paulo esteja aqui se referindo ao falar em línguas. Ele está se referindo a uma experiência mais geral que ocorre na vida de oração de todos os cristãos.

F. Palavra da sabedoria e palavra do conhecimento

Paulo escreve: “A um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento” (1Co 12.8). No início desta discussão deve-se compreender que esses dois dons não são mencionados em outra parte das Escrituras, e não se encontrou nenhuma outra literatura cristã além da Bíblia que empregue essas expressões designando algum dom espiritual. Isso significa que a única informação que temos sobre esses dons estão contidas nesse versículo: temos as palavras empregadas para descrever esses dois dons, e temos o contexto em que elas ocorrem. Nenhum intérprete encontra, em lugar algum, mais informações que essas com que trabalhar. Isso nos avisa que, de qualquer modo, é provável que nossas conclusões sejam um tanto incertas.

G. Discernimento de espíritos e batalha espiritual

O dom de discernir espíritos é outro dom mencionado só uma vez no Novo Testa-mento (na lista de 1Co 12.10), mas a natureza desse dom o liga com algumas outras passagens que descrevem a batalha espiritual que ocorre entre cristãos e espíritos demoníacos. Podemos definir da seguinte forma o dom de discernir espíritos: Discernimento de espíritos é uma capacidade especial de reconhecer a influência do Espírito Santo ou de espíritos demoníacos numa pessoa.

Teologia Sistemática do Wayne Grudem

Outros Resumos do Grudem:


JUÍZO FINAL E PUNIÇÃO

Acervo da Teologia

About Acervo da Teologia -

Author Description here.. Nulla sagittis convallis. Curabitur consequat. Quisque metus enim, venenatis fermentum, mollis in, porta et, nibh. Duis vulputate elit in elit. Mauris dictum libero id justo.

Subscribe to this Blog via Email :