quarta-feira, 7 de julho de 2010

Acervo da Teologia

*A Doutrina da Aplicação da Redenção / Resumo do Livro Teologia Sistemática - Gruden

Resumo - Teologia Sistemática. Wayne Grudem, Edições Vida Nova.
Parte 5 - A Doutrina da Aplicação da Redenção – p. 549 - 714


ESTUDO SISTEMATIZADO DOS TEMAS BÍBLICO PARA UMA MELHOR COMPREENSÃO.
ÍNDICE:

A. Introdução e definição
B. Exemplos de graça comum
1. O domínio físico.
2. O domínio intelectual.
3. O domínio moral.
4. O domínio criativo.
5. O domínio social.
6. O domínio religioso.
7. A graça comum e a graça especial influenciam-se mutuamente.
8. A graça comum não salva as pessoas.
C. Razões da graça comum
1. Para redimir os que serão salvos.
2. Para demonstrar a bondade e a misericórdia de Deus.
3. Para demonstrar a justiça de Deus.
4. Para demonstrar a glória de Deus.
D. Nossa resposta à doutrina da graça comum
1. A graça comum não significa que aqueles que a recebem serão salvos.
2. Devemos ser cautelosos para não rejeitar as coisas boas que os incrédulos fazem como se fossem totalmente más.
3. A doutrina da graça comum deve conduzir nosso coração a uma extrema gratidão a Deus.
Eleição e Reprovação
A. Será que o Novo Testamento ensina a predestinação?
B. Como o Novo Testamento apresenta o ensino da eleição?
1. Como um consolo.
2. Como uma razão para louvar a Deus.
3. Como um incentivo à evangelização.
C. Equívocos a respeito da doutrina da eleição
1. A eleição não é fatalista nem mecanicista.
2. A eleição não se baseia na presciência de Deus sobre nossa fé.
D. Objeções à doutrina da eleição
1. A eleição significa que não temos a opção de aceitar Cristo.
2. Com base nessa definição de eleição, nossas escolhas não são escolhas reais.
3. A doutrina da eleição faz com que sejamos marionetes ou robôs, não pessoas reais.
4. Da doutrina da eleição decorre que os incrédulos jamais têm a chance de crer.
5. A eleição é injusta.
6. A Bíblia diz que Deus deseja salvar todo mundo.
E. A doutrina da reprovação
F. Aplicação prática da doutrina da eleição
O Chamado do Evangelho e o Chamado Eficaz
A. O chamado eficaz
B. Os elementos do chamado do evangelho
1. Explicação dos fatos concernentes à salvação.
2. Convite para aceitar Cristo pessoalmente com arrependimento e fé.
3. Uma promessa de perdão e vida eterna.
C. A importância do chamado do evangelho
Regeneração
A. A regeneração é uma obra exclusivamente de deus
B. A natureza exata da regeneração é um mistério para nós
C. Nesse sentido de “regeneração”, ela vem antes da fé salvífica
D. A regeneração genuína deve produzir resultados na vida
Conversão (Fé e Arrependimento)
A. A verdadeira fé salvífica inclui conhecimento, aprovação e confiança pessoal
1. Mero conhecimento não basta.
2. Conhecimento e aprovação não são suficientes.
3. Preciso decidir depender de Jesus para me salvar.
4. A fé deve aumentar à medida que nosso conhecimento aumenta.
B. A fé e o arrependimento devem vir juntos
Justificação (Direito Legal de Estar Diante de Deus)
A. Justificação inclui uma declaração legal da parte de Deus
B. Deus nos declara justos à vista dele
C. Deus pode declarar-nos justos porque ele nos imputa a justiça de Cristo
D. A justificação chega a nós inteiramente pela graça de Deus, não por causa de algum mérito em nós mesmos
E. Deus nos justifica por meio de nossa fé em Cristo
Adoção (Filiação na Família de Deus)
A. Evidências bíblicas da adoção
B. A adoção segue a conversão e é resultado da fé salvífica
C. A adoção é algo distinto da justificação
D. Os privilégios da adoção
Santificação (Tornar-se Semelhante a Cristo)
A. Diferenças entre a justificação e a santificação
B. Os três estágios da santificação
1. A santificação tem um começo definido na regeneração.
2. A santificação aumenta por toda a vida.
3. A santificação se completará na morte (em nossa alma) e quando o Senhor retornar (em nosso corpo).
4. A santificação nunca se completará nesta vida.
C. Deus e o homem cooperam na santificação
1. A papel de Deus na santificação.
2. O nosso papel na santificação.
D. A santificação afeta a pessoa como um todo
E. Motivos para a obediência a Deus na vida cristã
F. A beleza e a alegria da santificação
Batismo e Plenitude no Espírito Santo
A. A concepção pentecostal tradicional
B. Que significa “batismo no Espírito Santo” no Novo Testamento?
C. Como devemos entender os casos de “segunda experiência” em Atos?
D. Que termos devemos usar para nos referir à capacitação pelo Espírito Santo que acontece depois da conversão?
1. Ensinar um cristianismo de duas categorias provoca danos à igreja.
2. Há muitos graus de capacitação, comunhão com Deus e maturidade cristã pessoal.
3. Ser cheio do Espírito Santo não resulta sempre em falar em línguas.
A Perseverança dos Santos (Conservar-se Cristão)
A. Todos os que verdadeiramente nasceram de novo perseverarão até o fim
B. Só aqueles que perseverarem até o fim realmente nasceram de novo
C. Aqueles que acabam se afastando podem dar muitos sinais exteriores de conversão
D. O que pode dar ao crente a plena segurança?
1. Será que confio hoje na salvação de Cristo?
2. Há porventura no meu coração provas da obra regeneradora do Espírito Santo?
3. Será que percebo uma tendência constante de crescimento na minha vida cristã?
A Morte e o Estado Intermediário
A. Por que os cristãos morrem?
1. A morte não é um castigo para os cristãos.
2. Em um mundo caído, a morte é o desfecho da vida.
3. Deus usa a experiência da morte para completar a nossa salvação.
4. Nossa experiência da morte completa nossa união com Cristo.
5. Nossa obediência a Deus é mais importante do que a preservação de nossa vida.

B. Como devemos entender nossa própria morte e a morte dos outros?
1. Nossa própria morte.
2. A morte dos amigos e parentes cristãos.
C. O que acontece depois da morte?
1. A alma dos cristãos vai imediatamente para a presença de Deus.
2. A alma dos descrentes vai imediatamente para o castigo eterno.
Glorificação (Receber o Corpo Ressurreto)
A. A prova da glorificação no Novo Testamento
B. A base da glorificação no Antigo Testamento
C. Com que se parecerá o corpo da ressurreição?
D. Toda a criação também será renovada.
E. Os descrentes serão ressuscitados para julgamento no dia do juízo final
A União com Cristo
A. Estamos em Cristo
1. No plano eterno de Deus.
2. Durante a vida de Cristo na terra.
3. Durante a nossa vida hoje.
B. Cristo está em nós
C. Somos semelhantes a Cristo
D. Estamos com Cristo
1. Comunhão pessoal com Cristo.
2. A união com o Pai e com o Espírito Santo.

A. Introdução e definição

Quando Adão e Eva pecaram, tornaram-se merecedores de punição e separação eternas da parte de Deus (Gn 2.17). Do mesmo modo, quando seres humanos hoje pecam tornam-se sujeitos à ira de Deus e à punição eterna: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Isso significa que uma vez que as pessoas pequem, a justiça de Deus só pode requerer que sejam eternamente separadas dele, impedidas totalmente de experimentar qualquer benefício de sua parte, e que vivam para sempre no inferno apenas recebendo eternamente sua ira. Deveras, foi isso que aconteceu aos anjos que pecaram, e o que merecidamente poderia ter ocorrido a nós também: “... Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo” (2Pe 2.4).

B. Exemplos de graça comum


Se olharmos para o mundo ao nosso redor e o compararmos com o fogo do inferno que ele merece, vemos evidências abundantes da graça comum de Deus em milhares de exemplos na vida diária. Podemos distinguir as diversas categorias específicas nas quais esta graça comum é vista.

1. O domínio físico.

Os incrédulos continuam a viver neste mundo unicamente por causa da graça comum de Deus – toda vez que alguém respira, isso se dá pela graça, porque o salário do pecado é morte, não vida. Além disso, a terra não produz somente cardos e abrolhos (Gn 3.18), nem permanece como um deserto ressecado, mas pela graça comum de Deus ela produz alimento e material para roupa e abrigo, freqüentemente em grande abundância e diversidade. Jesus disse: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos de vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5.44-45).

2. O domínio intelectual.

Satanás é “mentiroso e pai da mentira” e “nele não há verdade” (Jo 8.44), porque ele é completamente inclinado para o mal, para a irracionalidade e a para perpetração da falsidade que acompanha o mal extremo. Mas os seres humanos no mundo atual, mesmo incrédulos, não são totalmente inclinados para a mentira, para a irracionalidade e para a ignorância. Todas as pessoas conseguem compreender alguma medida da verdade; certamente alguns têm grande inteligência e entendimento.

3. O domínio moral.

Deus também, por meio da graça comum, limita as pessoas para que não sejam tão más quanto poderiam ser. Mais uma vez o domínio demoníaco, totalmente devotado ao mal e à destruição, proporciona um claro contraste com a sociedade humana, na qual o mal é claramente controlado. Se as pessoas persistem cruel e repetidamente em aderir demais ao pecado no decorrer do tempo, Deus finalmente “os entregará” ao maior de todos os pecados (cf. Sl 81.12, Rm 1.24, 26, 28), mas no caso da maioria dos seres humanos eles não caem até as profundezas onde seu pecado os levaria porque Deus intervém e põe freios sobre sua conduta. Uma das mais eficazes restrições é a força da consciência.

4. O domínio criativo.

Deus tem permitido medidas significativas de talento nas áreas artísticas e musicais, bem como em outras esferas nas quais a criatividade e o talento podem ser expressos, tais como atividades atléticas, arte culinária, literatura e assim por diante. Além disso, Deus nos dá capacidade para apreciar a beleza em muitas facetas da vida. E nessa área, bem como nos domínios físico e intelectual, as bênçãos da graça comum são às vezes derramadas sobre os incrédulos até mais abundantemente do que sobre os crentes. Contudo, em todos os casos é o resultado da graça de Deus.

5. O domínio social.

A graça de Deus também é evidente na existência de várias organizações e estruturas na sociedade humana. Vemos isso primeiramente na família humana, atestada pelo fato de que Adão e Eva permaneceram como marido e mulher depois da queda e então tiveram descendentes, tanto filhos como filhas (Gn 5.4). Os filhos de Adão e Eva se casaram e formaram suas próprias famílias (Gn 4.17, 19, 16). A família humana perdura hoje não simplesmente como uma instituição para crentes, mas para todas as pessoas.

6. O domínio religioso.

Até mesmo no domínio da religião humana, a graça comum de Deus produz algumas bênçãos para pessoas incrédulas. Jesus nos ordena: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44). Visto que no contexto não há restrição para orar apenas pela salvação deles, e visto que a ordem de orar por nossos perseguidores está ligada a um mandamento para amá-los, parece razoável concluir que Deus tem a intenção de responder às nossas orações – mesmo aquelas pelos nossos perseguidores – com relação a muitas áreas da vida. De fato, Paulo ordena especificamente que oremos “em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade” (1Tm 2.1-2). Quando visamos o bem dos incrédulos, isso está em harmonia com a prática do próprio Deus de conceder luz solar e chuva “sobre justos e injustos” (Mt 5.45) e também se harmoniza com a prática de Jesus durante seu ministério terrestre, quando ele curou todas as pessoas que eram levadas até ele (Lc 4.40). Não há indicação de que ele exigisse que elas acreditassem nele ou concordassem que ele era o Messias antes de lhes conceder a cura física.

7. A graça comum e a graça especial influenciam-se mutuamente.

A graça comum, naturalmente, influencia e enriquece a igreja, visto que à parte da graça comum de Deus concedida aos carpinteiros e a outras espécies de profissionais, não haveria construção de igrejas; à parte da graça comum de Deus concedida aos impressores, compositores tipográficos e encadernadores (e também aqueles que trabalham nas fábricas de papel ou que cortam árvores das florestas para fazer o papel), não haveria Bíblias. Nas incontáveis peculiaridades das atividades cotidianas, a igreja se beneficia da graça comum.

8. A graça comum não salva as pessoas.

Apesar disso tudo, devemos compreender que a graça comum é diferente da graça salvífica. A graça comum não transforma o coração humano nem conduz as pessoas ao genuíno arrependimento e à fé – ela não pode salvar e, sendo assim, não as salva (embora na esfera intelectual e moral ela possa fornecer alguma preparação que torna as pessoas mais inclinadas a aceitar o evangelho). A graça comum reprime o pecado, mas não muda em medida alguma a disposição fundamental de alguém, nem purifica a natureza humana decaída.

C. Razões da graça comum

Por que é que Deus concede a graça comum aos pecadores indignos que nunca alcançarão a salvação? Podemos sugerir, no mínimo, quatro razões:

1. Para redimir os que serão salvos.

Pedro diz que o dia do juízo e da execução final da punição está sendo adiado porque há ainda mais pessoas que serão salvas: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento. Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor” (2Pe 3.9-10). De fato, essa razão é verdadeira desde o começo da história humana, porque se Deus quisesse salvar qualquer pessoa fora de toda massa da humanidade pecaminosa, ele não poderia destruir todos os pecadores imediatamente (porque nesse caso não haveria raça humana restante).

2. Para demonstrar a bondade e a misericórdia de Deus.

A bondade e a misericórdia de Deus não são apenas percebidas na salvação dos crentes, mas também nas bênçãos que ele concede aos pecadores indignos. Quando Deus “é benigno até com os ingratos e maus” (Lc 6.35), sua benignidade é revelada no universo, para sua glória. Davi diz: “O Senhor é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras” (Sl 145.9). Por isso é que lemos sobre Jesus falando com o jovem rico: “E Jesus, fitando-o, o amou” (Mc 10.21), ainda que o homem fosse um incrédulo e que, num momento, desviar-se-ia de Jesus por causa de suas grandes posses.

3. Para demonstrar a justiça de Deus.

Quando Deus repetidamente convida os pecadores a que se acheguem à fé, e quando eles repetidamente recusam seu convite, a justiça de Deus ao condená-los é percebida muito mais claramente. Paulo adverte que aqueles que persistem na incredulidade estão simplesmente acumulando mais ira para si mesmos: “Segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus” (Rm 2.5). No dia do juízo “toda boca” será “calada” (Rm 3.19) e ninguém será capaz de objetar que Deus seja injusto.

4. Para demonstrar a glória de Deus.

Por último, a glória de Deus é demonstrada de muitas maneiras através das atividades dos seres humanos em todas as áreas na quais a graça comum atua. Ao desenvolver e exercitar o domínio sobre a terra, homens e mulheres demonstram e refletem a sabedoria de seu Criador, demonstram qualidades semelhantes às de Deus como perícia, virtude moral, autoridade sobre o universo e assim por diante. Embora todas essas atividades sejam maculadas por razões pecaminosas, assim mesmo refletem a excelência do nosso Criador, e portanto trazem glória a Deus, não total ou perfeitamente, mas de modo expressivo.

D. Nossa resposta à doutrina da graça comum

Ao pensar sobre os vários tipos de bondade percebidos na vida dos incrédulos por causa da abundante graça comum de Deus, devemos manter em mente três pontos:

1. A graça comum não significa que aqueles que a recebem serão salvos.

Nem mesmo o fato de receber porções excepcionalmente amplas da graça comum significa que aqueles que a recebem serão salvos. Até mesmo as pessoas mais habilidosas, mais inteligentes, mais abastadas e poderosas do mundo precisam do evangelho de Jesus Cristo ou serão condenadas por toda a eternidade! Mesmo entre nossos vizinhos, os de moral mais elevada e os mais bondosos ainda necessitam do evangelho de Jesus Cristo, ou serão condenados pela eternidade! Eles externamente podem dar a impressão de não ter necessidade, mas as Escrituras ainda assim dizem que os incrédulos são “inimigos” de Deus (Rm 5.10; cf. Cl 1.21; Tg 4.4) e são “contra” Cristo (Mt 12.30). Eles “são inimigos da cruz de Cristo”, “só se preocupam com as coisas terrenas” (Fp 3.18-19) e são “por natureza, filhos da ira, como também os demais” (Ef 2.3).

2. Devemos ser cautelosos para não rejeitar as coisas boas que os incrédulos fazem como se fossem totalmente más.

Pela graça comum, os incrédulos fazem o bem até certo ponto, e devemos enxergar a mão de Deus nisso e ser gratos pela graça comum que de certo modo opera em toda amizade, todo ato de bondade, e por todas as maneiras pelas quais ela traz bênçãos a outros. Tudo isso, no final das contas – embora o incrédulo não o saiba – provém de Deus e, também por isso, ele merece ser glorificado.

3. A doutrina da graça comum deve conduzir nosso coração a uma extrema gratidão a Deus.

Quando passeamos pela rua e observamos casas e jardins, e famílias morando em segurança, ou quando fazemos negócios no mercado e percebemos os abundantes resultados do progresso tecnológico, ou quando andamos através das florestas e vemos a formosura da natureza, ou quando somos protegidos pelo governo, ou quando recebemos a educação com o vasto tesouro do conhecimento humano, devemos perceber, no final das contas, que Deus em sua soberania é o responsável não apenas por todas essas bênçãos, mas também que ele as tem concedido a pecadores totalmente indignos de sequer uma delas!

Eleição e Reprovação

Nos primeiros capítulos falamos sobre o fato de que todos pecamos e merecemos a punição eterna de Deus e que Cristo morreu e obteve a salvação para nós. Mas agora nesta unidade (capítulos 32-43) consideraremos a maneira como Deus põe em prática essa salvação na nossa vida. Damos início a este capítulo considerando a obra de Deus conhecida como eleição, isto é, sua decisão de nos escolher para sermos salvos desde a fundação do mundo. Evidentemente, esse ato de eleição não é (a rigor) parte da aplicação da salvação a nós, visto que se tornou disponível desde antes que Cristo obtivesse a nossa salvação, quando morreu na cruz. Mas consideraremos a eleição nesse ponto porque ela está cronologicamente no início dos tratos de Deus conosco pelos meios da graça. Portanto, ela foi concebida perfeitamente como o primeiro passo no processo através do qual Deus nos traz salvação individualmente.

Podemos definir eleição como segue: eleição é um ato de Deus, antes da criação, no qual ele escolhe algumas pessoas para serem salvas, não por causa de algum mérito antevisto delas, mas somente por causa de sua suprema boa vontade.
A. Será que o Novo Testamento ensina a predestinação?

Várias passagens no Novo Testamento parecem afirmar com muita clareza que Deus determinou de antemão quem seria salvo. Por exemplo, quando Paulo e Barnabé começaram a pregar aos gentios em Antioquia da Pisídia, Lucas escreve que “os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48). É significativo o fato de Lucas mencionar a eleição quase de passagem. É como se isso fosse acontecimento normal quando o evangelho era pregado. Quantos creram? “Creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna”.

B. Como o Novo Testamento apresenta o ensino da eleição?

Depois de ler essa lista de versículos sobre a eleição, é importante ver a doutrina da maneira como o próprio Novo Testamento a vê.

1. Como um consolo.

Os autores do Novo Testamento muitas vezes apresentam a doutrina da eleição como um consolo aos crentes. Quando Paulo garante aos Romanos que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28), ele apresenta a obra divina da predestinação como razão pela qual podemos estar seguros dessa verdade. Ele explica no próximo versículo: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho [...] E aos que predestinou, a esses também chamou [...] justificou [...] glorificou” (Rm 8.29-30). Paulo quer dizer que Deus sempre age para o bem daqueles a quem chamou a si.

2. Como uma razão para louvar a Deus.

Paulo diz que Deus “nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça” (Ef 1.5-6). Semelhantemente, ele diz: “A fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo” (Ef 1.12).

3. Como um incentivo à evangelização.

Paulo diz: “Tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com eterna glória” (2Tm 2.10). Ele sabe que Deus escolheu algumas pessoas para serem salvas e enxerga isso como um estímulo para pregar o evangelho, mesmo que signifique suportar grande sofrimento. A eleição é a garantia de Paulo de que haverá algum sucesso na evangelização, porque ele sabe que algumas pessoas com quem fala são eleitas, crerão no evangelho e serão salvas. É como se alguém nos convidasse para uma pescaria e dissesse: “Eu garanto que vocês pegarão alguns peixes – eles estão famintos e aguardando”.

C. Equívocos a respeito da doutrina da eleição

1. A eleição não é fatalista nem mecanicista.

Às vezes aqueles que fazem objeções à doutrina da eleição dizem que ela é “fatalista” ou que apresenta um “sistema mecanicista” do universo. Duas objeções relativamente diferentes estão envolvidas aqui. Por “fatalismo” entende-se um sistema no qual as escolhas e decisões humanas não fazem diferença alguma. No fatalismo, não importa o que façamos, as coisas continuarão seguindo seu curso previamente determinado. Portanto, é inútil tentar influenciar o resultado dos eventos ou o resultado de nossa vida esforçando-nos ou fazendo algumas escolhas importantes, porque, seja como for, não farão diferença alguma.

2. A eleição não se baseia na presciência de Deus sobre nossa fé.

Geralmente as pessoas concordarão que Deus predestina alguns para serem salvos, mas dirão que ele o faz olhando para o futuro e vendo quem vai crer em Cristo e quem não vai. Se ele vê que uma pessoa chegará à fé salvadora, então predestina essa pessoa para ser salva, com base no conhecimento prévio da fé dessa pessoa. Se vê que ela não chegará à fé salvadora, então não predestina tal pessoa para ser salva. Desse modo, julga-se, a razão fundamental por que alguns são salvos e outros não encontra-se dentro das próprias pessoas, não dentro de Deus. Tudo que Deus faz na sua obra de predestinação é fornecer confirmação à decisão que ele sabe que as pessoas tomarão por si próprias. O versículo geralmente usado para sustentar esse ponto de vista é Romanos 8.29: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”.

a. Conhecimento prévio das pessoas, não dos fatos. Todavia, esse versículo dificilmente pode ser usado para demonstrar que Deus baseou sua predestinação no conhecimento prévio do fato de que uma pessoa creria. A passagem fala, mais propriamente, que Deus conheceu pessoas (“aos que de antemão conheceu”), não que conheceu algo a respeito delas, tal como o fato de que creriam. É um conhecimento pessoal, relacional, que se tem em vista aqui: Deus examina no futuro a intenção de determinada pessoa de preservar a intimidade com ele, e assim ele “a conhece” há muito tempo. É nesse sentido que Paulo está falando sobre Deus “conhecer” alguém, por exemplo, em 1Coríntios 8.3: “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele”. Semelhantemente, ele diz: “Mas agora que conheceis a Deus, ou antes, sendo conhecidos por Deus...” (Gl 4.9).

b. Em parte alguma das Escrituras encontramos que Deus nos escolheu por causa da nossa fé. Além do mais, quando olhamos além dessas passagens específicas que falam sobre esse conhecimento prévio e prestamos atenção nos versículos que falam sobre a razão pela qual Deus nos escolheu, descobrimos que as Escrituras nunca falam que a nossa fé ou o fato de que viríamos a crer em Cristo foi a razão pela qual Deus nos escolheu. De fato, Paulo parece excluir explicitamente a consideração do que quer que as pessoas pudessem fazer na vida da sua explicação do fato de Deus ter escolhido Jacó em vez de Esaú. Ele diz: “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço.

c. A eleição baseada em alguma coisa boa em nós (nossa fé) seria o começo da salvação por mérito. Ainda outro tipo de objeção pode ser levantado contra a idéia de que Deus nos escolheu porque conhecia de antemão que viríamos a ter fé. Se o fator principal e determinante em nossa eventual salvação é nossa própria decisão de aceitar Cristo, então estaremos inclinados a pensar que merecemos algum crédito pelo fato de sermos salvos: ao contrário de outras pessoas que continuam a rejeitar Cristo, nós fomos suficientemente sábios em nosso julgamento, ou bons o bastante em nossas inclinações morais ou tivemos bastante discernimento em nossas faculdades espirituais para decidir crer em Cristo. Mas uma vez que comecemos a pensar dessa maneira, então diminuiremos seriamente a glória devida a Deus pela nossa salvação. Não nos sentiremos à vontade para falar como Paulo, que diz que Deus “nos destinou [...] segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça” (Ef 1.5-6), e começamos a achar que Deus “nos destinou [...] segundo o fato de que ele sabia que teríamos suficientes inclinações à bondade, fé dentro de nós e que creríamos”.

d. Predestinação baseada em conhecimento prévio também não dá livre arbítrio às pessoas. A idéia de que Deus predestina algumas pessoas a crer, baseado no conhecimento prévio da fé que terão enfrenta ainda outro problema: após cuidadosa reflexão, esse sistema aniquila qualquer liberdade real do homem. Do ponto de vista desse sistema, Deus pode examinar o futuro e ver que a pessoa A vai exercer fé em Cristo, e que a pessoa B não vai exercer fé em Cristo; então esses fatos já estão fixados, já estão determinados. Se temos por verdadeiro que Deus conhece o futuro (o que tem de ser), então é absolutamente certo que a pessoa A crerá, mas não a pessoa B. Não há possibilidade de o desdobramento da vida delas ser diferente disso.

e. Conclusão: a eleição é incondicional. Parece melhor, pelas quatro razões prévias, rejeitar a idéia de que a eleição é baseada no fato de que Deus tem presciência de nossa fé. Concluímos em vez disso que a razão para a eleição é a escolha soberana de Deus – ele “nos predestinou para ele, para a adoção de filhos” (Ef 1.5). Deus nos escolheu simplesmente porque decidiu derramar seu amor sobre nós – não porque anteviu em nós alguma fé ou mérito.

D. Objeções à doutrina da eleição

Deve ser dito que a doutrina da eleição apresentada aqui não é, de modo algum, aceita universalmente na igreja cristã, tanto no catolicismo como no protestantismo. Há uma longa história de aceitação da doutrina aqui apresentada, mas muitos outros também têm objetado. Entre os evangélicos conservadores, a maioria dos círculos reformados ou calvinistas (denominações presbiterianas conservadoras, por exemplo) aceitarão esse ponto de vista, bem como muitos luteranos e anglicanos (episcopais), e um grande número de batistas e membros de igrejas independentes. Por outro lado, ela será total e terminantemente rejeitada por quase todos os metodistas, bem como por muitos outros em igrejas batistas, anglicanas e independentes.

1. A eleição significa que não temos a opção de aceitar Cristo.

Segundo essa objeção, a doutrina da eleição nega todos os convites do evangelho que apelam à vontade do homem e exige que as pessoas façam uma escolha ao responder ao convite de Cristo. Em resposta a isso, devemos afirmar que a doutrina da eleição é totalmente capaz de abrigar a idéia de que temos uma escolha voluntária e tomamos decisões espontâneas ao aceitar ou rejeitar Cristo.

2. Com base nessa definição de eleição, nossas escolhas não são escolhas reais.
Prosseguindo com a discussão do parágrafo anterior, alguém pode objetar que se a escolha é causada por Deus, pode parecer-nos que seja voluntária e desejada por nós, mas não é uma escolha genuína ou real, porque não é absolutamente livre. Mais uma vez devemos responder desafiando a suposição de que a escolha deva ser absolutamente livre a fim de ser genuína ou válida. Se Deus nos faz de determinada maneira e nos diz que nossas escolhas voluntárias são escolhas reais e genuínas, então temos de concordar que são.

3. A doutrina da eleição faz com que sejamos marionetes ou robôs, não pessoas reais.

De acordo com essa objeção, se Deus realmente é a causa de cada coisa que escolhemos com respeito à salvação, então já não somos pessoas reais. Mais uma vez deve ser respondido que Deus nos criou, e portanto devemos reconhecer que é ele quem define o que é a genuína pessoalidade. A analogia com uma “marionete” ou “robô” nos reduz a uma categoria subumana de coisas criadas pelo homem.

4. Da doutrina da eleição decorre que os incrédulos jamais têm a chance de crer.
Essa objeção à eleição diz que se Deus decretou desde a eternidade que algumas pessoas não creriam, então não houve chance genuína para que cressem, e o sistema inteiro funciona injustamente. Duas respostas podem ser dadas a essa objeção. Primeiro, devemos observar que a Bíblia não nos permite dizer que os incrédulos não tiveram chance de crer. Quando as pessoas rejeitavam a Jesus, ele sempre lhes atribuía a responsabilidade pela escolha deliberada de rejeitá-lo, e não em algum decreto de Deus Pai.

5. A eleição é injusta.

Algumas vezes as pessoas referem-se à doutrina da eleição como injusta, visto que ensina que Deus escolhe alguns para serem salvos e ignora outros, decidindo não os salvar. Como isso pode ser justo?

Duas respostas podem ser dadas a essa objeção. Primeiro, devemos nos lembrar de que seria perfeitamente justo que Deus não salvasse ninguém, exatamente como fez com os anjos: “Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo” (2Pe 2.4). Seria perfeitamente justo se Deus fizesse com os seres humanos como fez com os anjos, não salvando nenhum daqueles que pecaram e se rebelaram contra ele.

6. A Bíblia diz que Deus deseja salvar todo mundo.

Outra objeção à doutrina da eleição é que ela contradiz determinadas passagens das Escrituras, que dizem que Deus deseja que todos sejam salvos. Paulo escreve a respeito de Deus, nosso Salvador: “... o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.4).

Uma solução comum a essa questão (oriunda da perspectiva reformada defendida neste livro) é dizer que esses versículos falam da vontade revelada de Deus (declarando o que nós devemos fazer), e não de sua vontade secreta (seus planos eternos sobre o que irá ocorrer). Os versículos simplesmente nos falam que Deus convida e ordena cada pessoa a arrepender-se e achegar-se a Cristo para a salvação, mas eles não falam o que quer que seja sobre os decretos secretos de Deus com relação a quem será salvo.

E. A doutrina da reprovação

Quando entendemos a eleição como ação soberana da parte de Deus de escolher algumas pessoas para serem salvas, há então necessariamente outro aspecto dessa escolha, a saber, a decisão soberana de Deus de não levar em conta outras e não salvá-las. Essa decisão de Deus na eternidade passada é chama reprovação. Reprovação é a decisão soberana de Deus, antes da criação, de não levar em conta algumas pessoas, decidindo em tristeza não salvá-las e puni-las por seus pecados, manifestando por meio disso sua justiça.

F. Aplicação prática da doutrina da eleição

Em termos de nossa própria relação com Deus, a doutrina da eleição tem uma aplicação prática importante. Quando refletimos a respeito do ensino bíblico, tanto sobre a eleição como sobre a reprovação, é certo que o apliquemos em nossa própria vida individualmente. É razoável que todo cristão pergunte a si mesmo: “Por que sou cristão? Por qual razão decisiva Deus decidiu me salvar?”.


O Chamado do Evangelho e o Chamado Eficaz

Quando Paulo considera a maneira pela qual Deus traz a salvação até nossa vida, ele diz: “Aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30). Aqui Paulo indica a ordem exata na qual as bênçãos da salvação chegam até nós. Embora há muito tempo, antes de o mundo ter sido feito, Deus nos tenha “predestinado” para sermos seus filhos e para sermos conformes a imagem de seu Filho, Paulo indica que no atual processo da realização de seu propósito em nossa vida Deus nos “chamou” (aqui nesse contexto, Deus Pai é quem está especificamente em consideração).

A. O chamado eficaz

Quando Paulo diz “Aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou” (Rm 8.30), indica que o chamado é um ato de Deus. De fato, é especificamente um ato de Deus Pai, porque ele é o único que predestina as pessoas “para serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8.29). Outros versículos descrevem mais plenamente o que é esse chamado. Quando Deus chama as pessoas dessa maneira poderosa, ele as chama “das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9); ele as chama “à comunhão de seu Filho” (1Co 1.9; cf. At 2.39) e “para o seu reino e glória” (1Ts 2.12; cf. 1Pe 5.10, 2Pe 1.3).

B. Os elementos do chamado do evangelho

Na pregação humana do evangelho, três elementos importantes devem ser incluídos.

1. Explicação dos fatos concernentes à salvação.
Qualquer pessoa que vem a Cristo para receber salvação deve ter um entendimento básico de quem ele é e de como satisfaz nossas necessidades de salvação. Portanto uma explicação dos fatos concernentes à salvação deve incluir o seguinte:

1. Todas as pessoas pecaram (Rm 3.23).
2. A pena pelos nossos pecados é a morte (Rm 6.23).
3. Jesus Cristo morreu para pagar a pena pelos nossos pecados (Rm 5.8).
Entretanto, entender esses fatos e mesmo concordar que eles são verdadeiros não é suficiente para uma pessoa ser salva. Tem de haver também um convite para uma resposta pessoal da parte do indivíduo, que se arrependerá de seus pecados e confiará pessoal-mente em Cristo.

2. Convite para aceitar Cristo pessoalmente com arrependimento e fé.
Quando o Novo Testamento fala sobre pessoas recebendo salvação, fala em termos de uma resposta pessoal a um convite da parte do próprio Cristo. Esse convite é expresso com grande beleza pelas palavras de Jesus:
Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve (Mt 11.28-30).

É importante deixar claro que essas não são apenas palavras pronunciadas há muito tempo por um líder religioso do passado. Todo não cristão ao ouvir essas palavras deve sentir-se encorajado a pensar nelas como palavras que Jesus Cristo agora mesmo, bem neste momento, está falando a ele individualmente. Jesus Cristo é um Salvador que está agora vivo no céu, e todo não cristão deve pensar em Jesus como falando diretamente a ele, dizendo “Vinde a mim [...] e encontrareis descanso” (Mt 11.28). Esse é o convite pessoal genuíno que espera uma resposta pessoal de cada um que o recebe.

3. Uma promessa de perdão e vida eterna.
Embora as palavras do convite pessoal pronunciadas por Cristo contenham promessas de descanso e poder para nos tornarmos filhos de Deus, além das promessas de compartilharmos da água da vida, é bom deixar claro o que Cristo promete aos que se achegam a ele com arrependimento e fé. A principal promessa na mensagem do evangelho é o perdão dos pecados e a vida eterna com Deus. “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). E também Pedro ao pregar o evangelho diz: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados” (At 3.19; cf. 2.38).

C. A importância do chamado do evangelho

A doutrina do chamado do evangelho é importante, porque se não houvesse o chamado do evangelho não seríamos salvos. “Como crerão naquele de quem nada ouviram?” (Rm 10.14).

O chamado do evangelho é importante também porque através dela Deus dirige-se a nós levando em conta a plenitude de nossa humanidade. Ele não nos salva “automaticamente” sem buscar uma resposta da nossa parte como pessoas integrais.


Regeneração

Podemos definir regeneração da seguinte maneira: Regeneração é um ato secreto de Deus pelo qual ele nos concede nova vida espiritual. Isso é às vezes chamado “nascer de novo” (na linguagem de João 3.3-8).

A. A regeneração é uma obra exclusivamente de Deus

Em alguns componentes da aplicação da redenção que discutiremos nos próximos capítulos, desempenhamos uma parte ativa (isso é verdadeiro, por exemplo, no que diz respeito à conversão, santificação e perseverança). Mas na obra de regeneração não desempenhamos papel algum. Ao contrário, é uma obra exclusivamente de Deus. Vemos isso, por exemplo, quando João fala a respeito daqueles a quem Cristo deu poder de se tornarem filhos de Deus – eles “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.13). Aqui João especifica que os filhos de Deus são os que “nasceram [...] de Deus” e que nossa vontade humana (“a vontade do homem”) não realiza esse tipo de nascimento.

B. A natureza exata da regeneração é um mistério para nós

O que ocorre na regeneração de forma exata é um mistério para nós. Sabemos que de algum modo nós, que estivemos espiritualmente mortos (Ef 2.1), fomos vivificados por Deus e num sentido muito verdadeiro “nascemos de novo” (Jo 3.3, 7; Ef 2.5; Cl 2.13). Mas não entendemos como isso ocorre ou o que exatamente Deus faz para nos dar essa nova vida espiritual. Jesus diz: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3.8).

C. Nesse sentido de “regeneração”, ela vem antes da fé salvífica
Usando os versículos citados acima, definimos a regeneração como o ato de Deus de despertar a vida espiritual dentro de nós, trazendo-nos da morte espiritual para a vida espiritual. Sobre essa definição, é natural entender que a regeneração vem antes da fé salvífica. De fato, é essa obra de Deus que nos dá capacidade espiritual para responder a Deus com fé. Entretanto, quando dizemos que ela vem “antes” da fé salvífica, é importante lembrar que elas aparecem tão juntas que geralmente nos parecerá que estão ocorrendo ao mesmo tempo. Assim que Deus nos dirige o chamado eficaz do evangelho, ele nos regenera, e respondemos com fé e arrependimento a esse chamado. Assim, da nossa perspectiva é difícil perceber qualquer diferença no tempo, especialmente porque a regeneração é uma obra espiritual que não podemos perceber com nossos olhos nem mesmo entender com nossa mente.

D. A regeneração genuína deve produzir resultados na vida

Na seção anterior vimos um belo exemplo do primeiro resultado da regeneração na vida de uma pessoa, quando Paulo pregou a mensagem do evangelho a Lídia, a quem “o Senhor abriu o coração para atender às cousas que Paulo dizia” (At 16.14; cf. Jo 6.44, 65; 1Pe 1.3). De modo semelhante, João diz: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” (1Jo 5.1 nvi). Mas também há outros resultados da regeneração, muitos dos quais especificados na primeira epístola de João. Por exemplo: “Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9 nvi) Aqui João explica que a pessoa que nasceu de novo tem essa “semente” espiritual (que faz gerar a vida e crescer o poder) dentro dela, e que isso tudo mantém-na levando uma vida isenta do pecado contínuo. Naturalmente, isso não significa que a pessoa terá uma vida perfeita, mas que o padrão da vida não será de contínua indulgência em pecado.


Conversão (Fé e Arrependimento)

Os dois últimos capítulos explicaram como o próprio Deus (por meio da pregação humana da Palavra) dirige o chamado do evangelho a nós e, através da obra do Espírito Santo, nos regenera, transmitindo interiormente nova vida espiritual. Podemos definir conversão da seguinte maneira: Conversão é nossa resposta espontânea ao chamado do evangelho, pela qual sinceramente nos arrependemos dos nossos pecados e colocamos a confiança em Cristo para receber a salvação.

A. A verdadeira fé salvífica inclui conhecimento, aprovação e confiança pessoal

1. Mero conhecimento não basta.

Fé salvífica pessoal, conforme as Escrituras a entendem, envolve mais do que apenas conhecimento. Naturalmente é necessário que tenhamos algum conhecimento de quem Cristo é e do que ele fez, porque “como crerão naquele de quem nada ouviram?” (Rm 10.14). Mas conhecimento sobre os fatos da vida, morte e ressurreição de Jesus não é o bastante para nós, porque as pessoas podem conhecer os fatos, mas rebelar-se contra eles ou não gostar deles.

2. Conhecimento e aprovação não são suficientes.

Além disso, meramente conhecer os fatos e aprová-los ou concordar que eles são verdadeiros não é suficiente. Nicodemos sabia que Jesus tinha vindo de Deus, porque disse: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.2). Nicodemos tinha avaliado os fatos da situação, incluindo os ensinos de Jesus e seus milagres notáveis, e chegado a uma conclusão correta a partir desses fatos: Jesus era um mestre vindo de Deus. Mas isso somente não significa que Nicodemos tinha fé salvífica, porque ele ainda tinha de depositar sua confiança em Cristo para receber a salvação; ele ainda tinha de “crer nele”.

3. Preciso decidir depender de Jesus para me salvar.

Além do conhecimento dos fatos do evangelho e da aprovação deles, a fim de ser salvo, preciso decidir depender de Jesus para me salvar. Ao fazer isso, deixo a posição de um observador interessado nos fatos da salvação e nos ensinos da Bíblia para tornar-me alguém que entra numa nova comunhão com Jesus Cristo como uma pessoa viva. Podemos, portanto, definir fé salvífica da seguinte maneira: Fé salvífica é confiança em Jesus Cristo como uma pessoa viva visando ao perdão dos pecados e à vida eterna com Deus.

4. A fé deve aumentar à medida que nosso conhecimento aumenta.

Contrário ao entendimento comum e secular de “fé”, a verdadeira fé do Novo Testamento não é algo que se torna mais forte por meio da ignorância ou acreditando-se contra todas as evidências. Antes, a fé salvífica é coerente com o conhecimento e com o verdadeiro entendimento dos fatos. Paulo diz: “A fé vem por ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo” (Rm 10.17 nvi). Quando as pessoas têm informações verdadeiras sobre Cristo, elas estão mais bem capacitadas a depositar sua confiança nele. Além disso, a maioria de nós conhece algo sobre ele e sobre o caráter de Deus que é completamente revelado nele; a maioria de nós tem todos os motivos para depositar nossa confiança nele. Assim, a fé não é enfraquecida pelo conhecimento, mas deve aumentar com mais conhecimento verdadeiro.

B. A fé e o arrependimento devem vir juntos

Podemos definir arrependimento da seguinte maneira: Arrependimento é uma sincera tristeza por causa do pecado, é renunciá-lo e comprometer-se sinceramente a abandoná-lo, e prosseguir obedecendo a Cristo.

Essa definição indica que o arrependimento é algo que ocorre em um momento específico do tempo, que não corresponde necessariamente ao momento da visível transformação no padrão de vida da pessoa. O arrependimento, assim como a fé, é um entendimento intelectual (de que o pecado é errado), uma aprovação emocional dos ensinos das Escrituras concernentes ao pecado (uma tristeza por causa do pecado e uma aversão a ele), e uma decisão pessoal de afastar-se dele (um renunciar ao pecado e uma decisão resoluta de abandoná-lo e de levar uma vida de obediência a Cristo).

C. Tanto a fé como o arrependimento continuam por toda a vida

Embora consideremos a fé e o arrependimento iniciais como os dois aspectos da conversão no começo da vida cristã, é importante compreender que eles não se limitam ao começo da vida cristã. Ao contrário, são atitudes do coração que continuam por toda a nossa vida como cristãos. Jesus diz a seus discípulos que orem diariamente: “E perdoa-nos os nossos pecados assim como temos perdoado àqueles que pecam contra nós” (Mt 6.12, tradução do autor), uma oração que, se for legítima, certamente envolverá tristeza diária por causa do pecado e arrependimento genuíno. E o Cristo ressurreto diz à igreja em Laodicéia: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te” (Ap 3.19; cf. 2Co 7.10).


Justificação (Direito Legal de Estar Diante de Deus)

Nos capítulos anteriores consideramos o chamado do evangelho (pelo qual Deus nos chama a confiar em Cristo quanto à salvação), a regeneração (pela qual Deus nos concede nova vida espiritual) e a conversão (pela qual respondemos ao chamado do evangelho com arrependimento pelos pecados e fé em Cristo para a salvação). Mas o que aconteceu à culpa pelo nosso pecado? O chamado do evangelho nos convida a confiar em Cristo para receber o perdão dos pecados.

A. Justificação inclui uma declaração legal da parte de Deus

O uso na Bíblia da palavra justificar indica que a justificação é uma declaração legal da parte de Deus. No Novo Testamento o verbo justificar (em grego, ) tem uma variedade de significados, mas um sentido muito comum é “declarar justo”. Por exemplo, lemos: “Todo o povo que o ouviu e até os publicanos reconheceram a justiça de Deus, tendo sido batizado com o batismo de João” (Lc 7.29). Naturalmente o povo e os publicanos não tornaram Deus justo – fazê-lo seria impossível para quem quer que seja.

B. Deus nos declara justos à vista dele

Na declaração legal de justificação da parte de Deus, ele declara especificamente que somos justos à vista dele. Essa declaração envolve dois aspectos. Primeiro, significa que ele declara que nós não temos penalidade a pagar pelo pecado, incluindo os pecados do presente, do passado e do futuro. Após uma longa discussão sobre a justificação somente pela fé (Rm 4.1-5.21) e depois de uma discussão parentética sobre o pecado remanescente na vida cristã, Paulo retorna a seu argumento principal no livro de Romanos e fala a verdade sobre os que foram justificados pela fé: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

C. Deus pode declarar-nos justos porque ele nos imputa a justiça de Cristo

Quando dizemos que Deus nos imputa a justiça de Cristo, queremos dizer que Deus considera a justiça de Cristo como pertencente a nós. Ele a “credita” em nossa conta. Lemos: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça” (Rm 4.3, citando Gn 15.6 nvi). Paulo explica: “Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça. E é assim que Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras” (Rm 4.5-6). Desse modo, a justiça de Cristo tornou-se nossa. Paulo diz que somos os que recebemos “o dom da justiça” (Rm 5.17).

D. A justificação chega a nós inteiramente pela graça de Deus, não por causa de algum mérito em nós mesmos

Depois que Paulo declara em Romanos 1.18-3.20 que ninguém será capaz de tornar-se justo diante de Deus (“visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei”, Rm 3.20), então continua a explicar: “... pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus (Rm 3.23-24). A “graça” de Deus significa seu “favor imerecido”. Porque nós somos completamente incapazes de merecer o favor de Deus, a única maneira pela qual pode-ríamos ser declarados justos é se Deus gratuitamente nos proporcionasse a salvação pela graça, totalmente à parte de nossas obras.

E. Deus nos justifica por meio de nossa fé em Cristo

Quando começamos este capítulo notamos que a justificação vem depois da fé salvífica. Paulo torna clara essa seqüência quando diz: “Temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado” (Gl 2.16). Aqui Paulo indica que a fé vem primeiro com o propósito de sermos justificados. Ele também diz que Cristo é “propiciação, mediante a fé” e que Deus “é o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.25, 26). O capítulo 4 inteiro de Romanos é uma defesa do fato de que somos justificados pela fé, não por obras, assim como Abraão e Davi o foram. Paulo diz: “Justificados, pois, mediante a fé” (Rm 5.1).


Adoção (Filiação na Família de Deus)

Na regeneração Deus nos dá uma nova vida espiritual interior. Na justificação dá-nos o direito legal de estar diante dele. Mas na adoção Deus nos faz membros de sua família. Portanto, o ensino bíblico sobre a adoção concentra-se muito mais na comunhão pessoal com Deus e com o seu povo que a salvação nos dá.

A. Evidências bíblicas da adoção

Podemos definir adoção da seguinte maneira: adoção é um ato de Deus por meio do qual ele nos faz membros de sua família.
João menciona a adoção no começo do seu evangelho, em que diz: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (Jo 1.12). Em contraste com isso, aqueles que não crêem em Cristo não são filhos de Deus nem adotados na sua família, mas são “filhos da ira” (Ef 2.3) e “filhos da desobediência” (Ef 2.2; 5.6).

B. A adoção segue a conversão e é resultado da fé salvífica

Podemos inicialmente pensar que nos tornaríamos filhos de Deus pela regeneração, visto que a imagem de ser “nascido de novo” na regeneração faz-nos pensar a respeito de filhos nascidos numa família humana. Mas o Novo Testamento nunca associa a adoção com a regeneração: de fato a idéia de adoção é oposta à idéia de ser nascido em uma família!

C. A adoção é algo distinto da justificação

Embora a adoção seja um privilégio que vem a nós ao mesmo tempo em que nos tornamos cristãos (Jo 1.12; Gl 3.26; 1Jo 3.1-2) é, contudo, um privilégio distinto da justificação e da regeneração. Na regeneração tornamo-nos espiritualmente vivos, capazes de falar com Deus em oração e adoração e capazes de ouvir sua Palavra com coração receptivo. Porém, é possível que Deus tenha criaturas espiritualmente vivas e que, contudo, não são membros de sua família e não compartilham os privilégios especiais de membros da família – os anjos, por exemplo, aparentemente se enquadram nessa categoria.3 Portanto, teria sido possível para Deus decidir dar-nos regeneração sem o grande privilégio da adoção na sua família.

D. Os privilégios da adoção

Os benefícios ou privilégios que acompanham a adoção são vistos primeiramente no modo como Deus se refere a nós e também no modo como nós nos referimos uns aos outros como irmãos e irmãs na família de Deus.

Um dos maiores privilégios da nossa adoção é a possibilidade de falar com Deus e de nos referirmos a ele como um Pai bom e amoroso. Nós oramos: “Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9), e compreendemos que “já não somos escravos, porém filhos” (Gl 6.7). Portanto, agora dirigimo-nos a Deus não como um escravo se dirige ao senhor de escravos, mas como um filho se dirige ao pai. De fato, Deus nos dá um testemunho interno oriundo do Espírito Santo que faz com que instintivamente chamemos Deus de nosso Pai. “Mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai.

Santificação (Tornar-se Semelhante a Cristo)

Os capítulos anteriores abordaram os diversos atos de Deus que ocorrem no começo de nossa vida cristã: o chamado do evangelho (pelo qual Deus se dirige a nós), a regeneração (por intermédio da qual Deus nos concede vida nova), a justificação (por meio da qual Deus nos dá o direito legal de estar diante dele) e a adoção (pela qual Deus nos torna membros de sua família). Também discutimos a conversão (quando nos arrependemos dos pecados e confiamos em Cristo para receber a salvação). Todos esses eventos ocorrem no começo de nossa vida cristã.

A. Diferenças entre a justificação e a santificação

A tabela seguinte especifica diversas diferenças entre a justificação e a santificação:

Justificação ....................... Santificação
Posição legal ...................... Condição interna
De uma vez por todas ............... Continua por toda a vida
Obra inteiramente de Deus .......... Nós cooperamos
Perfeita nesta vida ................ Não perfeita nesta vida
A mesma em todos os cristãos ....... Maior em alguns do que em outros

Como essa lista indica, a santificação é algo que continua por toda nossa vida cristã. O curso normal da vida do cristão envolve contínuo crescimento na santificação, e essa é uma questão para a qual o Novo Testamento nos encoraja a dar atenção e por ela demonstrar zelo.

B. Os três estágios da santificação

1. A santificação tem um começo definido na regeneração.

Uma mudança moral definida ocorre em nossa vida no momento da regeneração, porque Paulo fala sobre o “o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5). Uma vez nascidos de novo não podemos continuar pecando como um hábito ou como um padrão de vida (1Jo 3.9), porque o poder da nova vida espiritual em nós impede-nos de render-nos a uma vida de pecados.

2. A santificação aumenta por toda a vida.

Ainda que o Novo Testamento fale sobre um começo definido da santificação, também a vê como um processo que continua por toda nossa vida cristã. Geralmente esse é o sentido principal com que o termo santificação é usado na teologia sistemática e nas conversas cristãs de hoje. Embora Paulo diga que seus leitores foram libertados do pecado (Rm 6.18) e que estão “mortos para o pecado, mas vivos para Deus” (Rm 6.11), ele todavia reconhece que o pecado permanece na vida deles; por essa razão, aconselha-os a não deixá-lo reinar e a nem se renderem a ele (Rm 6.12-13).

3. A santificação se completará na morte (em nossa alma) e quando o Senhor retornar (em nosso corpo).

Por causa do pecado que ainda permanece em nosso coração, embora tendo-nos tornado cristãos (Rm 6.12-13; 1Jo 1.18), nossa santificação nunca se completará nesta vida (veja abaixo). Mas uma vez que morramos e estejamos com o Senhor, então nossa santificação se completa nesse sentido, porque nossa alma é libertada do pecado que habita em nós aperfeiçoada. O autor de Hebreus diz que quando chegamos à presença de Deus para adorar, chegamos “aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12.23). Isso é bem apropriado, porque prevê o fato de que “nunca jamais penetrará coisa alguma contaminada” na presença de Deus, a cidade celestial (Ap 21.27).

4. A santificação nunca se completará nesta vida.

Sempre houve na história da igreja quem tomasse mandamentos como Mateus 5.48 (“Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”) ou 2Coríntios 7.1 (“purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus”) e raciocine que, visto que Deus nos dá esses mandamentos, ele deve-nos dar também a capacidade de obedecer perfeitamente. Portanto, concluem, é-nos possível alcançar um estado de perfeição sem pecado nesta vida. Além disso, eles apontam para a oração de Paulo pelos tessalonicenses, “o mesmo Deus da paz vos santifique em tudo” (1Ts 5.23), e inferem que a oração de Paulo pode bem ter sido cumprida por alguns cristãos tessalonicenses. De fato, João igualmente diz: “Todo aquele que permanece nele não vive pecando” (1Jo 3.6)! Não indicam esses versículos a possibilidade da perfeição sem pecado na vida de alguns cristãos? Nesta discussão usarei o termo perfeccionismo para referir-me a essa visão de que a perfeição sem pecado é possível nesta vida.

C. Deus e o homem cooperam na santificação

Alguns (tais como John Murray) recusam-se a dizer que Deus e o homem “cooperam” na santificação, porque eles querem insistir que a obra de Deus é fundamental e nossa obra na santificação é apenas algo secundário (veja Fp 2.12-13). Entretanto, se expusermos claramente a natureza do papel de Deus e do nosso papel na santificação, não parece impróprio dizer que Deus e o homem cooperam na santificação. Deus atua na nossa santificação e nós também, tudo com o mesmo propósito.

1. A papel de Deus na santificação.

Visto que a santificação é principalmente uma obra de Deus, a oração de Paulo torna-se apropriada: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo” (1Ts 5.23). Um papel específico de Deus Pai na santificação é seu processo de nos disciplinar como seus filhos (veja Hb 12.5-11). Paulo diz aos filipenses que “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13), mostrando assim um pouco da maneira como Deus os santifica – tanto causando neles o querer sua vontade como dando-lhes poder para fazê-la. O autor de Hebreus fala sobre o papel do Pai e sobre o papel do Filho numa bênção conhecida: “Ora, o Deus da paz [...] vos aperfeiçoe em todo o bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele, por Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre” (Hb 13.20-21).

2. O nosso papel na santificação.

O papel que desempenhamos na santificação é tanto passivo, pelo qual dependemos de que Deus nos santifique, como ativo, pelo qual nos esforçamos para obedecer a Deus e dar os passos que aumentarão a nossa santificação. Podemos considerar agora os dois aspectos de nosso papel na santificação.
Primeiro, aquele que pode ser chamado papel “passivo” que desempenhamos na santificação é visto em textos que nos encorajam a confiar em Deus ou a orar pedindo que ele nos santifique. Paulo fala a seus leitores romanos: “Oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos” (Rm 6.13; cf. v. 19), e também: “... apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1). Paulo compreende que somos dependentes da obra do Espírito Santo para crescer na santificação, porque ele diz: “Se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis” (Rm 8.13).

D. A santificação afeta a pessoa como um todo

Percebemos que a santificação afeta nosso intelecto e nosso conhecimento quando Paulo diz que nos revestimos do novo homem “que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.10). Ele ora para que os filipenses possam ver seu próprio amor aumentando “mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção” (Fp 1.9). E roga aos cristãos romanos que se transformem “pela renovação da vossa mente” (Rm 12.2). Embora nosso conhecimento de Deus seja mais do que conhecimento intelectual, há certamente um componente intelectual nele, e Paulo diz que esse conhecimento de Deus deve continuar aumentando durante nossa vida: uma vida “de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado” é uma vida que está continuamente “crescendo no pleno conhecimento de Deus” (Cl 1.10).

E. Motivos para a obediência a Deus na vida cristã

Os cristãos às vezes deixam de reconhecer o alcance dos motivos para a obediência a Deus encontrados no Novo Testamento.

(1) É verdade que o desejo de agradar a Deus e de expressar nosso amor por ele é um motivo muito importante para a obediência; Jesus diz: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15), e: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama” (Jo 14.21; cf. 1Jo 5.3). Mas muitos outros motivos nos são dados também:

(2) a necessidade de manter uma consciência limpa diante de Deus (Rm 13.5; 1Tm 1.5, 19; 2Tm 1.3; 1Pe 3.16);

(3) o desejo de ser um “utensílio para honra” e ter a eficiência aumentada na obra do reino (2Tm 2.20-21);

(4) o desejo de ver os incrédulos vindo a Cristo por terem observado nossa vida (1Pe 3.1-2, 15-16);

(5) o desejo de receber as bênçãos atuais de Deus sobre nossa vida e ministério (1Pe 3.9-12);

(6) o desejo de evitar o desprazer e a disciplina de Deus sobre nós (às vezes chamado “temor de Deus”; At 5.11; 9.31; 2Co 5.11; 7.1; Ef 4.30; Fp 2.12; 1Tm 5.20; Hb 12.3-11; 1Pe 1.17; 2.17; cf. a condição dos incrédulos em Rm 3.8);

(7) o desejo de buscar maior galardão celestial (Mt 6.19-21; Lc 19.17-19; 1Co 3.12-15; 2Co 5.9-10);17

(8) o anseio por um andar mais próximo de Deus (Mt 5.8; Jo 14.21; 1Jo 1.6; 3.21-22; e, no Antigo Testamento, Sl 66.18; Is 59.2);

(9) o desejo de que os anjos glorifiquem a Deus por causa da nossa obediência (1Tm 5.21; 1Pe 1.12);

(10) o desejo de paz (Fp 4.9) e alegria (Hb 12.1-2) em nossa vida; e

(11) o anseio de fazer o que Deus ordena, simplesmente porque seus mandamentos são corretos, e nós nos deleitamos em fazer o que é correto (Fp 4.8; cf. Sl 40.8).

F. A beleza e a alegria da santificação

Não seria correto terminar nossa discussão sem observar que a santificação nos traz alegria. Quanto mais crescemos à semelhança de Cristo, tanto mais experimentamos a “alegria” e a “paz” que são parte do fruto do Espírito Santo (Gl 5.22) e tanto mais nos aproximamos do tipo de vida que teremos no céu. Paulo diz que à medida que nos tornamos cada vez mais obedientes a Deus, temos o nosso “fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6.22).

Batismo e Plenitude no Espírito Santo

Tradicionalmente, os livros de teologia sistemática não têm incluído um capítulo sobre o batismo no Espírito Santo nem sobre a plenitude do Espírito Santo como parte do estudo da “ordem de salvação”, os passos através dos quais os benefícios da salvação se aplicam à nossa vida. Mas com a disseminação do pentecostalismo que se iniciou em 1901, com a influência bem ampla do movimento carismático nas décadas de 1960 e 1970 e com o notável crescimento das igrejas pentecostais e carismáticas pelo mundo inteiro desde 1970 até o presente, a questão de um “batismo no Espírito Santo” distinto da regeneração adquiriu maior proeminência.

A. A concepção pentecostal tradicional

O tema deste capítulo se tornou importante hoje porque muitos cristãos dizem ter experimentado um “batismo no Espírito Santo” que veio depois que eles se converteram e trouxe grandes bênçãos para a vida deles. Alegam que a oração e o estudo da Bíblia se tornaram muito mais importantes e eficazes, que descobriram nova alegria na adoração, e muitas vezes dizem que receberam novos dons espirituais (em especial, e com mais freqüência, o dom de falar em línguas).

B. Que significa “batismo no Espírito Santo” no Novo Testamento?

Há apenas sete passagens no Novo Testamento em que lemos sobre alguém batizado no Espírito Santo. (As traduções citadas aqui usam a palavra com em lugar de em.) Alistamos abaixo as sete passagens.

C. Como devemos entender os casos de “segunda experiência” em Atos?

Mas mesmo que tenhamos entendido corretamente a experiência dos discípulos no Pentecostes registrada em Atos 2, não há outros exemplos de pessoas que tiveram uma “segunda experiência” de capacitação pelo Espírito Santo depois da conversão, como aquelas de Atos 8 (em Samaria), Atos 10 (a família de Cornélio) e Atos 19 (os discípulos de Éfeso)?

Estes não são também exemplos realmente convincentes para provar a doutrina pentecostal do batismo no Espírito Santo. Primeiro, normalmente a expressão “batismo no Espírito Santo” não é usada para se referir a qualquer desses eventos, e isso deve causar-nos certa hesitação em aplicar essa frase a eles. Mas o mais importante é que ao examinar cada caso mais de perto vemos mais claramente o que estava acontecendo nesses eventos.

D. Que termos devemos usar para nos referir à capacitação pelo Espírito Santo que acontece depois da conversão?

As seções anteriores argumentaram que “batismo no Espírito Santo” não é o termo usado pelos autores do Novo Testamento para falar de uma obra do Espírito Santo pós-conversão e que os exemplos de “segunda experiência” de recepção do Espírito Santo no livro de Atos não são padrões que devemos imitar em nossa vida cristã. Mas permanece a questão: “Que está acontecendo realmente aos milhões de pessoas que afirmam que receberam esse ‘batismo no Espírito Santo’ e que isso trouxe muito mais bênçãos à sua vida? Será possível que essa seja uma obra genuína do Espírito Santo, mas que as categorias e os exemplos bíblicos usados para ilustrá-la sejam incorretos? Poderia haver outras expressões e ensinos bíblicos para designar essa espécie de obra do Espírito Santo após a conversão e ajudar-nos a entendê-la de modo mais preciso?” Penso que há, mas antes de olharmos para elas, é conveniente comentar a importância de ter um entendimento correto sobre essa questão.

1. Ensinar um cristianismo de duas categorias provoca danos à igreja.
Em várias épocas na história da igreja os cristãos tentaram dividir a igreja em duas categorias de crentes. É isso o que ocorre com efeito com a doutrina pentecostal do batismo no Espírito Santo.

Mas tal divisão de cristãos em duas categorias não é uma compreensão singular encontrada somente no ensino pentecostal no século XX. De fato, muito do ensino pentecostal veio de antigos grupos de santidade que ensinavam que os cristãos poderiam ser crentes comuns ou crentes “santificados”. Outros grupos têm dividido os cristãos usando diferentes categorias, tais como crentes comuns e aqueles que são “cheios do Espírito”, ou crentes comuns e aqueles que são “discípulos”, ou cristãos “carnais” e “espirituais”. De fato, a Igreja Católica Romana há muito tem não só duas, mas três categorias: crentes comuns, sacerdotes e santos.

2. Há muitos graus de capacitação, comunhão com Deus e maturidade cristã pessoal.

Haveria um modelo melhor para entender os vários graus de maturidade e poder e comunhão com Deus experimentados pelos cristãos? Se desejamos eliminar as categorias que nos fazem pensar em cristãos em um grupo ou outro.

a. Como devemos entender as experiências de hoje? Que tem acontecido então às pessoas que dizem ter experimentado o “batismo no Espírito Santo” que lhes trouxe grandes bênçãos à vida? Devemos entender primeiro o que é normalmente ensinado sobre a necessidade de se preparar para o batismo no Espírito Santo. Com muita freqüência as pessoas são ensinadas que devem confessar todos os pecados conhecidos, arrepender-se de qualquer pecado que permaneça em sua vida, confiar em Cristo para receber o perdão desses pecados, entregar todas as áreas da vida para o serviço do Senhor, entregar-se plenamente a ele e crer que Cristo vai capacitá-las de uma maneira nova e equipá-las com novos dons para o ministério. Então, depois dessa preparação, elas são encorajadas a pedir a Jesus em oração que as batize no Espírito Santo. Mas que fruto é produzido por essa preparação? Ela é uma receita segura para crescimento expressivo na vida cristã!

Essa confissão, arrependimento, compromisso renovado e fé e expectativa intensificadas, caso sejam genuínas, só podem trazer resultados positivos na vida de uma pessoa. Se qualquer cristão for sincero nesses passos de preparação para receber o batismo no Espírito Santo, com certeza haverá crescimento em santificação e comunhão mais profunda com Deus.

b. Que termos devemos usar hoje? Agora podemos entender por que os termos que usamos para descrever essa experiência e a categoria de entendimento em que a colocamos são tão importantes. Se usarmos a terminologia pentecostal tradicional de “batismo do Espírito Santo”, então quase inevitavelmente acabamos caindo no cristianismo de duas categorias, pois isso é visto como uma experiência comum que pode e de fato deve ocorrer a cristãos num ponto da linha do tempo, e, uma vez que tenha ocorrido, não precisa mais ser repetida. É visto como uma experiência singular de capacitação para o ministério, distinta da experiência de se tornar cristão, e as pessoas ou já receberam essa experiência ou ainda não. Em especial, quando a experiência é descrita em termos do que ocorreu aos discípulos no Pentecostes em Atos 2 (que foi claramente para eles uma experiência única), os samaritanos em Atos 8 e os discípulos de Éfeso em Atos 19, infere-se claramente que ela é um evento único que não só capacita as pessoas para o ministério, mas também as coloca numa categoria ou grupo diferente daquele em que estavam antes desse acontecimento. O uso do termo “o batismo no Espírito Santo” inevitavelmente implica dois grupos de cristãos.

c. Que é “ser cheio do Espírito Santo”? Contudo, o termo ainda mais comumente usado no Novo Testamento é “ser cheio do Espírito Santo”. Por causa do seu freqüente uso em contextos que falam de crescimento cristão e ministério, este me parece o melhor termo a ser usado para descrever as genuínas “segundas experiências” hoje (ou terceira ou quarta experiência, etc.). Paulo diz aos efésios: “Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito” (Ef 5.18, nvi). Ele usa um verbo no presente do imperativo que poderia ser traduzido de modo mais explícito por “sejam continuamente cheios pelo Espírito Santo”, dando a entender assim que isso é algo que deve acontecer continuamente com os cristãos.

3. Ser cheio do Espírito Santo não resulta sempre em falar em línguas.

Resta ainda um ponto que precisa ser tratado com respeito à experiência de ser cheio do Espírito Santo. Por existirem vários casos em Atos em que pessoas receberam o poder da nova aliança do Espírito Santo e começaram ao mesmo tempo a falar em línguas (At 2.4; 10.46; 19.6; provavelmente implícito também em 8.17-19 por causa do paralelo com a experiência dos discípulos em At 2), o ensino pentecostal normalmente tem sustentado que o sinal externo do batismo no Espírito Santo é o falar em línguas (isto é, falar em línguas que não são entendidas e não foram aprendidas pela pessoa que fala, sejam línguas humanas conhecidas, sejam outras espécies de línguas angelicais ou celestiais ou dadas miraculosamente).

A Perseverança dos Santos (Conservar-se Cristão)

Até aqui a nossa análise já abordou muitos aspectos da plena salvação que Cristo conquistou para nós e que o Espírito Santo agora aplica a nós. Mas como saber que continuaremos cristãos até o fim da vida? Será que há alguma coisa que nos impeça de nos afastar de Cristo, algo que garanta que nos conservaremos cristãos até a morte e que de fato viveremos com Deus no céu para sempre? Ou será possível que nos afastemos de Cristo e percamos as bênçãos da salvação? O tema da perseverança dos santos trata dessas questões. Pela perseverança dos santos, todos aqueles que verdadeiramente nasceram de novo serão guardados pelo poder de Deus e perseverarão como cristãos até o final da vida, e só aqueles que perseverarem até o fim realmente nasceram de novo.

A. Todos os que verdadeiramente nasceram de novo perseverarão até o fim
Muitas passagens pregam que aqueles que verdadeiramente nasceram de novo, que são realmente cristãos, continuarão na vida cristã até a morte, e então viverão com Cristo no céu. Diz Jesus:

Eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou. E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia. De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6.38-40).

Aqui diz Jesus que todos os que crêem nele terão vida eterna. Diz que irá ressuscitar essa pessoa no último dia — o que, nesse contexto de crer no Filho e ter vida eterna, significa claramente que Jesus ressuscitará essa pessoa para a vida eterna ao lado dele (não somente a ressuscitará para juízo e condenação). Parece difícil evitar a conclusão de que todos os que verdadeiramente crêem em Cristo permanecerão cristãos até o dia da ressurreição final para as bênçãos da vida na presença de Deus. Além disso, esse texto enfatiza que Jesus faz a vontade do Pai, ou seja, “que nenhum eu perca de todos os que me deu” (Jo 6.39). Reafirma-se então: os que foram dados ao Filho pelo Pai não se perderão.

B. Só aqueles que perseverarem até o fim realmente nasceram de novo

Embora as Escrituras vez após vez ressaltem que os que verdadeiramente nasceram de novo perseverarão até o fim e por certo terão a vida eterna no céu ao lado de Deus, outras passagens falam da necessidade de persistir na fé por toda a vida. Elas nos fazem perceber que aquilo que Pedro disse em 1Pedro 1.5 é verdade: que Deus não nos guarda independentemente da nossa fé, mas só age mediante a nossa fé; ou seja, possibilita que continuemos a crer nele. Desse modo, aqueles que persistem na fé em Cristo ganham a certeza de que Deus age neles e os guarda.

C. Aqueles que acabam se afastando podem dar muitos sinais exteriores de conversão

Será sempre fácil distinguir os membros da igreja que têm autêntica fé salvífica daqueles que têm apenas um convencimento intelectual da verdade do evangelho, mas não a autêntica fé no coração? Não, nem sempre é fácil, e a Bíblia afirma em várias passagens que descrentes em aparente comunhão com a igreja podem dar alguns sinais ou indicações exteriores que os façam parecer crentes verdadeiros. Por exemplo, Judas, que traiu Cristo, deve ter agido quase exatamente como os outros discípulos durante os três anos em que esteve com Jesus. Tão convincente era a sua conformidade à conduta dos outros discípulos que ao final dos três anos de ministério de Jesus, quando ele declarou que um dos seus discípulos o trairia, nem todos suspeitaram de Judas, mas “começaram um por um a perguntar-lhe: Porventura, sou eu, Senhor?” (Mt 26.22; cf. Mc 14.19; Lc 22.23; Jo 13.22).

D. O que pode dar ao crente a plena segurança?

Se é verdade, como explicamos na seção anterior, que os descrentes que finalmente optam pela apostasia podem dar muitos sinais exteriores de conversão, então o que servirá como prova de uma conversão genuína? O que pode dar plena certeza ao crente autêntico? Podemos relacionar três categorias de perguntas que a pessoa poderia fazer a si mesma.

1. Será que confio hoje na salvação de Cristo?

Paulo diz aos colossenses que eles serão salvos no último dia, “se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes” (Cl 1.23). O autor de Hebreus diz: “Nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos” e incentiva os seus leitores a imitar aqueles “que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas” (Hb 6.12). De fato, o versículo mais famoso de toda a Bíblia usa um verbo no presente e pode ser assim traduzido: “... todo aquele que continuar crendo nele” terá a vida eterna (ver Jo 3.16).

2. Há porventura no meu coração provas da obra regeneradora do Espírito Santo?

A prova da obra do Espírito Santo no nosso coração surge de muitos modos diferentes. Embora não devamos confiar na demonstração de milagres (Mt 7.22), nem em longas horas ou anos de trabalho numa igreja qualquer (que pode não passar de uma construção feita de “madeira, feno, palha” [nas palavras de 1Co 3.12] que só faz inflar o ego humano ou o poder sobre os outros, ou representa uma tentativa de conquistar méritos perante Deus), existem muitas outras provas da obra autêntica do Espírito Santo no coração da pessoa.

3. Será que percebo uma tendência constante de crescimento na minha vida cristã?

Os primeiros dois fatores de certeza da salvação têm que ver com a fé presente e a prova atual da obra do Espírito Santo em nós. Mas Pedro dá mais um tipo de teste que podemos fazer para verificar se somos crentes autênticos. Ele nos diz que há algumas virtudes que, cultivadas continuamente, garantem que não tropeçaremos “em tempo algum” (2Pe 1.10). Ele aconselha aos seus leitores acrescer à sua fé “virtude [...] conhecimento [...] domínio próprio [...] perseverança [...] piedade [...] fraternidade [...] amor” (2Pe 1.5-7). Depois diz que essas coisas devem existir nos seus leitores, “aumentando” continuamente (2Pe 1.8). Pedro ainda acrescenta que eles devem procurar “com diligência cada vez maior, confirmar a [...] vocação e eleição [deles]” e diz depois que “procedendo assim (literalmente, “fazendo essas coisas”, com referência às virtudes mencionadas nos v. 5-7), não tropeçareis em tempo algum” (2Pe 1.10).

A Morte e o Estado Intermediário

A. Por que os cristãos morrem?

Nossa abordagem sobre a aplicação da redenção não pode deixar de considerar a morte e a questão de como o cristão deve encarar sua própria morte e também a de outros. É necessário também que perguntemos o que acontece conosco entre o momento de nossa morte e a volta de Cristo, quando ele nos dará nosso corpo ressurreto.

1. A morte não é um castigo para os cristãos.

Paulo diz-nos claramente que “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Toda a pena dos nossos pecados já foi paga. Portanto, embora saibamos que os cristãos morrem, não devemos ver a morte do cristão como um castigo de Deus ou como resultado da punição devida dos nossos pecados. É verdade que a morte é a punição do pecado, todavia essa punição não se aplica mais a nós – não em termos de morte física, nem em termos de morte espiritual ou separação de Deus. Tudo já foi pago por Cristo. Portanto, se queremos entender por que os cristãos morrem, devemos procurar alguma outra razão que não seja o castigo dos nossos pecados.

2. Em um mundo caído, a morte é o desfecho da vida.

Em sua grande sabedoria, Deus decidiu que não estenderia a nós os benefícios da obra redentora de Cristo de uma só vez. Em vez disso, escolheu estender gradualmente a nós os benefícios da salvação .De igual modo, Deus não quis eliminar de imediato todo o mal do mundo, mas sim esperar até o juízo final e o estabelecimento dos novos céus e da nova. Em resumo, ainda vivemos em um mundo caído, e nossa experiência da salvação ainda é incompleta.

3. Deus usa a experiência da morte para completar a nossa salvação.

Em toda a nossa vida como cristãos, sabemos que nunca temos de pagar pelo pecado, pois tudo foi pago por Cristo (Rm 8.1). Portanto, quando experimentamos dor e sofrimento na vida, nunca devemos pensar que Deus está-nos castigando (para nos causar algum mal). Às vezes o sofrimento é apenas resultado de uma vida pecaminosa, de um mundo caído, e muitas vezes passamos por sofrimento porque Deus está-nos disciplinando (para o nosso bem), mas em todos os casos temos certeza, conforme Romanos 8.28, de que “Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, que foram chamados de acordo com o seu propósito” (nvi).

4. Nossa experiência da morte completa nossa união com Cristo.

Outra razão por que Deus nos permite passar pela morte, em vez de levar-nos diretamente para o céu quando nos tornamos cristãos, é que através da morte imitamos a Cristo no que ele fez, experimentando assim uma união mais íntima com ele. Paulo pode afirmar que somos herdeiros com Cristo: “Se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17). E Pedro diz aos seus leitores que não se surpreendam com a prova de fogo que estão enfrentando, antes, anima-os, dizendo: “Alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando” (1Pe 4.13).

5. Nossa obediência a Deus é mais importante do que a preservação de nossa vida.

Se Deus usa a experiência da morte para aprofundar nossa confiança nele e aumentar nossa obediência a ele, é importante que nos lembremos de que o alvo do mundo de preservar a vida a todo custo não é o principal alvo do cristão: obediência e fidelidade a Deus em qualquer circunstância é muito mais importante. Foi por essa razão que Paulo podia dizer: Estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (At 21.13; cf. 25.11). Ele disse aos líderes de Éfeso: “Porém em nada considero a minha vida preciosa, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar do evangelho da graça de Deus” (At 20.24).

B. Como devemos entender nossa própria morte e a morte dos outros?

1. Nossa própria morte.

O Novo Testamento incentiva-nos a ver nossa própria morte não com temor, mas com alegria na esperança de estar com Cristo. Paulo diz: “Preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor” (2Co 5.8). Quando estava preso, sem saber se iria morrer ou ser libertado, ele pôde afirmar:

Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Entretanto se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor.

2. A morte dos amigos e parentes cristãos.

Embora possamos ver nossa própria morte com a feliz expectativa de estar na presença de Cristo, nossa atitude será um pouco diferente quando enfrentarmos a morte de amigos e parentes cristãos. Nesses casos haveremos de experimentar verdadeira tristeza – mas acompanhada também de alegria pelo fato de eles terem partido para estar com o Senhor.

C. O que acontece depois da morte?

1. A alma dos cristãos vai imediatamente para a presença de Deus.

A morte é a interrupção temporária da vida no corpo e a separação da alma do corpo. Quando o cristão morre, embora o corpo permaneça na terra e seja sepultado, no momento da morte a alma (ou o espírito) vai imediatamente para a presença de Deus, cheia de alegria. Quando Paulo pensa em morte, ele afirma: “Preferindo deixar o corpo, e habitar com o Senhor” (2Co 5.8). Deixar o corpo é estar com o Senhor, no lar. Ele também diz que seu desejo é “partir e estar com Cristo” (Fp 1.23). Jesus também disse ao ladrão que estava morrendo ao lado dele na cruz: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.46).

a. A Bíblia não ensina a doutrina do purgatório.

O fato de que a alma do cristão vai imediatamente para a presença de Deus significa que não existe algo como o purgatório. Na doutrina católica romana, o purgatório é o lugar onde a alma do cristão é purificada do pecado até que esteja pronta para ser aceita no céu. De acordo com essa posição, os sofrimentos do purgatório são dados a Deus como substitutos do castigo pelos pecados que os cristãos mereciam ter recebido, e não receberam.

b. A Bíblia não ensina a doutrina do “sono da alma”.

O fato de que a alma dos cristãos vai imediatamente para a presença de Deus também significa que a doutrina do sono da alma está errada. Essa doutrina ensina que quando os cristãos morrem, eles entram em um estado de existência inconsciente e que voltarão à consciência somente quando Cristo voltar e ressuscitá-los para a vida eterna. Essa doutrina tem sido ensinada eventualmente por alguns na história da igreja, inclusive alguns anabatistas da época da Reforma e alguns seguidores de Edward Irving na Inglaterra no século XIX. Na verdade, um dos primeiros escritos de João Calvino foi um folheto contra tal doutrina, a qual nunca teve ampla aceitação na igreja.

c. Será que os salvos do Antigo Testamento foram imediatamente para a presença de Deus?

Alguns têm dito que, embora as almas dos salvos desde a ressurreição de Cristo vão imediatamente para a presença de Deus no céu, as almas dos salvos que morreram antes da ressurreição de Cristo não desfrutaram das bênçãos do céu, mas foram para determinado lugar, aguardando que a obra redentora de Cristo fosse completada. Às vezes isso é chamado o limbus patrum, ou simplesmente limbo. Essa posição é especialmente comum na teologia católica romana, mas também tem sido defendida por alguns luteranos. Parte do fundamento dessa doutrina vem de uma interpretação particular da idéia da descida de Cristo ao inferno, que já discutimos em capítulo anterior.

d. Devemos orar pelos mortos?

Finalmente, o fato de que as almas dos salvos vai imediatamente para a presença de Deus mostra que não devemos orar pelos mortos. Embora essa idéia seja ensinada em 2Macabeus 12.42-45, ela não é ensinada em nenhum texto bíblico. Além disso, não há indicação de que tenha sido prática de nenhum cristão da época do Novo Testamento, nem deveria tê-lo sido. Quando os salvos morrem, vão para a presença de Deus e entram em um estado de perfeita felicidade com ele.

2. A alma dos descrentes vai imediatamente para o castigo eterno.

A Bíblia nunca nos incentiva a pensar que haverá segunda chance de aceitar Cristo depois da morte. Na verdade, o quadro é exatamente o oposto. A passagem em que Jesus fala do rico e de Lázaro não dá esperanças de que seja possível passar do inferno para o céu depois da morte, apesar de ter o rico clamado no inferno: “Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama”. E Abraão respondeu: “E, além de tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós” (Lc 16.24-26).

Glorificação (Receber o Corpo Ressurreto)

Quando Cristo nos redimiu, ele não redimiu apenas o nosso espírito (ou alma), mas inteiramente, como pessoa, o que inclui a redenção do nosso corpo. Portanto, a extensão da obra redentora de Cristo em nosso favor não estará completa até que nosso corpo seja inteiramente libertado dos efeitos da queda e levado ao estado de perfeição para o qual Deus nos criou. Na verdade, a redenção do nosso corpo acontecerá somente quando Cristo voltar e nos ressuscitar dentre os mortos. Mas no presente momento, Paulo afirma que aguardamos “a redenção de nossos corpos” e acrescenta “pois nessa esperança fomos salvos” (Rm 8.23-24). Referindo-se àquele dia futuro Paulo diz que seremos “glorificados com ele” (Rm 8.17). Além disso, quando Paulo alinha as etapas da aplicação da redenção, a última que ele cita é a glorificação: “... aos quais predestinou também chamou; aos que chamou também justificou; e aos que justificou também glorificou” (Rm 8.30).

A. A prova da glorificação no Novo Testamento

A principal passagem do Novo Testamento sobre a glorificação ou a ressurreição do corpo é 1Coríntios 15.12-58. Paulo afirma: “Também em Cristo todos serão vivificados. Mas cada um por sua vez: Cristo, as primícias, e então na sua vinda os que pertencem a Cristo” (v. 22-23). Paulo discute a natureza do corpo da ressurreição com certo grau de detalhamento nos versículos 35-50, que examinaremos mais adiante na seção C. Ele então conclui a passagem dizendo que nem todos os cristãos morrerão, mas que alguns que permanecerem vivos quando Cristo voltar terão o corpo imediatamente transformado em novo corpo ressurreto, que nunca poderá envelhecer, enfraquecer nem morrer (1Co 15.51-52).

B. A base da glorificação no Antigo Testamento

Às vezes fala-se que o Antigo Testamento traz pouca ou nenhuma evidência da esperança de uma futura ressurreição do corpo. Todavia, há na verdade mais evidência veterotestamentária dessa esperança do que possamos imaginar. Em primeiro lugar, mesmo antes de Jesus ressuscitar dos mortos, o Novo Testamento indica que muitos judeus da época de Cristo tinham alguma esperança de uma futura ressurreição do corpo. Quando Jesus foi à casa de Lázaro, depois da morte deste, e disse à Marta: “Teu irmão vai ressuscitar”, Marta responde: “Eu sei que ele há de ressuscitar na ressurreição do último dia” (Jo 11.23-24). Além disso, quando Paulo estava no tribunal, disse a Félix que ele tinha uma “esperança em Deus que estes mesmos [seus acusadores judeus] aceitam, que haverá uma ressurreição de justos e de injustos” (At 24.15).

C. Com que se parecerá o corpo da ressurreição?

Se Cristo ressuscitará o nosso corpo dentre os mortos na ocasião de sua volta, e se o nosso corpo será semelhante ao corpo ressurreto de Cristo (1Co 15.20, 23, 49; Fp 3.21), com que se parecerá o nosso corpo ressurreto?

O fato de que o nosso corpo será “incorruptível” significa que ele não se desgastará, não envelhecerá e não estará sujeito a nenhuma enfermidade ou doença. Será para sempre um corpo plenamente saudável e forte. Além disso, visto que o envelhecimento gradual faz parte do processo pelo qual o nosso corpo está agora sujeito à “corrupção”, é certo pensar que o corpo da ressurreição não terá sinais de envelhecimento, mas terá perpetuamente as características da juventude acompanhadas de maturidade como homens e mulheres. Não haverá sinal de doença nem de dor, pois todos seremos perfeitos. O nosso corpo ressurreto mostrará o cumprimento da plena sabedoria de Deus ao criar-nos como seres humanos, ápice de sua criação, portadores adequados de sua imagem e semelhança. Nesse corpo ressurreto veremos o que Deus pretendia que fôssemos enquanto seres humanos.

D. Toda a criação também será renovada

Quando Adão pecou Deus amaldiçoou a terra por causa dele (Gn 3.17-19), de maneira que ela passou a produzir cardos e abrolhos e só daria alimento útil para o homem por meio de trabalho árduo. Mas Paulo afirma que “a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21). Ele explica que isso acontecerá quando recebermos o corpo da ressurreição – de fato, ele afirma que a criação anseia, de algum modo, por aquele dia: “A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus [...] Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora.

E. Os descrentes serão ressuscitados para julgamento no dia do juízo final

Embora a ênfase das Escrituras esteja no fato de que os cristãos experimentarão a ressurreição do corpo, há alguns textos que declaram que os descrentes também ressuscitarão dos mortos, mas que terão de enfrentar o juízo final quando ressurgirem. Jesus ensina claramente que “os que tiverem praticado o mal” irão “para a ressurreição do juízo” (Jo 5.29); Paulo também afirma crer “que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos” (At 24.15; cf. Mt 25.31-46; Dn 12.2; veja no capítulo 56 uma discussão maior sobre o juízo final dos descrentes).


A União com Cristo

Embora já tenhamos concluído o nosso estudo dos passos da aplicação da redenção, há outro tema tantas vezes mencionado nas Escrituras e tão amplo na sua aplicação prática que merece tratamento separado aqui. Trata-se do conceito da união com Cristo. Como veremos abaixo, todo aspecto do relacionamento de Deus com os salvos está de certo modo ligado ao nosso relacionamento com Cristo. Dos desígnios divinos na eternidade passada, antes da criação do mundo, à nossa comunhão com Deus no céu na eternidade futura, incluindo ainda cada aspecto do nosso relacionamento com Deus nesta vida — tudo ocorreu e ocorre em união com Cristo. Portanto, em certo sentido, todo o estudo da aplicação da redenção poderia ser incluído neste tema. Porém, neste capítulo podemos apenas resumir a incrível riqueza do conceito bíblico de união com Cristo.

A. Estamos em Cristo

A expressão “em Cristo” não tem um único sentido, mas abarca várias relações, como se vê abaixo.

1. No plano eterno de Deus.

Efésios 1.4 nos diz que Deus nos escolheu em Cristo “antes da fundação do mundo”. Foi “nele” (em Cristo) que fomos predestinados “para louvor da sua glória” (v. 1.11-12). Mais tarde ele “nos salvou e nos chamou” por causa da “sua própria determinação” e por causa também da graça que nos deu “em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2Tm 1.9).

2. Durante a vida de Cristo na terra.

Ao longo de toda a vida de Cristo na terra, desde o momento do seu nascimento até a hora da sua ascensão ao céu, Deus nos concebeu vivendo “em Cristo”. Ou seja, tudo o que Cristo fez como nosso representante, Deus contou como sendo algo que também nós fizemos. É claro que os salvos não estavam conscientemente presentes em Cristo, pois a maior parte deles nem sequer existia ainda quando Cristo estava na terra. Tampouco estavam os salvos presentes em Cristo de algum modo misterioso, espiritual (como se, por exemplo, as almas de milhares de crentes estivessem de algum modo presentes no corpo de Cristo durante a sua vida na terra). Antes, os crentes estavam presentes em Cristo apenas nos pensamentos de Deus, que nos concebeu passando por tudo aquilo que Cristo passou, pois ele era o nosso representante.

3. Durante a nossa vida hoje.

Uma vez que nascemos e existimos como pessoas reais no mundo, a nossa união com Cristo já não pode ser algo que exista só na mente divina. É preciso também que sejamos levados a um relacionamento efetivo com Cristo, por meio do qual os benefícios da salvação possam ser realizados em nós pelo Espírito Santo. A riqueza da nossa vida atual em Cristo pode ser vista em duas perspectivas ligeiramente distintas:

1. Morremos e ressuscitamos com Cristo.
2. Temos nova vida em Cristo.
3. Todos os nossos atos podem ser realizados em Cristo.
4. Todos os cristãos juntos formam um único corpo em Cristo.

a. Morrer e ressuscitar com Cristo. A morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus agora exercem efeitos reais sobre nós. “[Fostes] sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2.12). Aqui as referências de Paulo ao batismo e à fé sugerem que a nossa morte e ressurreição com Cristo ocorrem nesta vida mesmo, no momento em que nos tornamos cristãos.

b. Nova vida em Cristo. Esses últimos versículos sugerem uma segunda perspectiva do fato de existirmos “em Cristo”. Podemos pensar não só na obra redentora que Cristo realizou no passado, mas também na sua vida presente no céu, no fato de ele possuir todos os recursos espirituais de que precisamos para viver a vida cristã. Como toda bênção espiritual foi conquistada por ele e lhe pertence, o Novo Testamento diz que essas bênçãos estão “nele”. Assim, só estão disponíveis para os que estão “em Cristo”, e se estamos em Cristo, essas bênçãos são nossas.

c. Todos os nossos atos podem ser realizados em Cristo. Essas mudanças analisadas acima, que acontecem na vida de cada cristão, vêm acompanhadas de uma mudança radical na esfera em que vivemos. Tornar-se cristão é entrar na novidade do porvir e sentir até certo ponto os novos poderes do reino de Deus afetando cada aspecto da nossa vida. Estar “em Cristo” é estar no novo reino regido por Cristo.

d. Um só corpo em Cristo. Não estamos simplesmente em Cristo como pessoas isoladas. Como Cristo é o cabeça do corpo, que é a igreja (Ef 5.23), todos os que estão em união com Cristo estão também ligados uns aos outros no corpo de Cristo. Essa ligação nos faz “um só corpo em Cristo e membros uns dos outros” (Rm 12.5; 1Co 10.17; 12.12-27). Assim, “se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam” (1Co 12.26). Os elos de comunhão são tão fortes que os cristãos podem se casar só “no Senhor” (1Co 7.39). Nesse corpo de Cristo desaparecem as antigas hostilidades, ruem as divisões pecaminosas entre as pessoas, e os critérios terrenos de posição social não valem mais, pois “não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28; cf. Ef 2.13-22).

B. Cristo está em nós

Jesus falou de um segundo tipo de relação quando disse: “Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto” (Jo 15.5). Não só é verdade que estamos em Cristo; ele também está em nós, para nos dar força para viver a vida cristã. “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.19-20). O fator que determina se alguém é cristão ou não é se Cristo está nele (Rm 8.10; 2Co 13.5; Ap 3.20). O sábio plano divino, oculto como mistério por gerações, era salvar tanto os gentios como os judeus. Portanto, Paulo diz aos seus leitores gentios que o mistério de Deus é “Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1.27).

C. Somos semelhantes a Cristo

Um terceiro aspecto da união com Cristo é a imitação dele. “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1). João exorta: “Aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou” (1Jo 2.6). Portanto a união com Cristo implica a imitação de Cristo. A nossa vida deve assim espelhar a vida dele, para que lhe rendamos honra em tudo o que façamos (Fp 1.20).

D. Estamos com Cristo

1. Comunhão pessoal com Cristo.

Outro aspecto da união com Cristo diz respeito à nossa comunhão pessoal com ele. Pouco importa se dizemos que estamos com Cristo ou que Cristo está conosco, pois ambas as frases representam a mesma verdade. Cristo prometeu: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20) e “Estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). Convém lembrar novamente que, como o corpo humano de Jesus ascendeu ao céu (Jo 16.7; 17.11; At 1.9-11), esses versículos falam necessariamente da sua natureza divina presente conosco. Porém é assim mesmo uma presença bastante pessoal, na qual cooperamos com Cristo (2Co 6.1), o conhecemos (Fp 3.8, 10), somos consolados por ele (2Ts 2.16-17), ensinados por ele (Mt 11.29) e vivemos toda a nossa vida na sua presença (2Co 2.10; 1Tm 5.21; 6.13-14; 2Tm 4.1). Tornar-se cristão é ser chamado “à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” (1Co 1.9).

Porém essa comunhão pode variar de intensidade, pois a bênção de Paulo aos cristãos — “O Senhor seja com todos vós” (2Ts 3.16; cf. 2Tm 4.22) — só pode expressar a esperança de comunhão ainda mais íntima com Cristo e de uma consciência mais profunda da sua presença.

2. A união com o Pai e com o Espírito Santo.

Esse último versículo sugere um aspecto final da união com Cristo. Como estamos em união com Cristo nessas várias relações, também somos levados à união com o Pai e com o Espírito Santo. Estamos no Pai (Jo 17.21; 1Ts 1.1; 2Ts 1.1; 1Jo 2.24; 4.15-16; 5.20) e no Espírito Santo (Rm 8.9; 1Co 3.16; 6.19; 2Tm 1.14). O Pai está em nós (Jo 14.23) e o Espírito Santo está em nós (Rm 8.9-11). Somos semelhantes ao Pai (Mt 5.44-45, 48; Ef 4.32; Cl 3.10; 1Pe 1.15-16) e semelhantes ao Espírito Santo (Rm 8.4-6; Gl 5.22-23; Jo 16.13). Temos comunhão com o Pai (1Jo 1.3; Mt 6.9; 2Co 6.16-18) e com o Espírito Santo (Rm 8.16; At 15.28; 2Co 13.14; Ef 4.30).

Essas outras relações não se confundem, porém, num êxtase indistinto e místico. Agora como na eternidade nos relacionamos com o Pai segundo o seu papel único de nosso Pai celeste; com o Filho segundo o seu papel único de nosso Salvador e Senhor; e com o Espírito Santo segundo o seu papel único de Espírito que nos fortalece e continua-mente nos dispensa todos os benefícios da salvação.

Teologia Sistemática de Wayne Grudem


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