quarta-feira, 22 de julho de 2009

Acervo da Teologia

* A Maldição do Cristo Genérico / Livro de Eugene H. Peterson

A MALDIÇÃO DO CRISTO GENÉRICO


CONTEÚDO DOS CAPÍTULOS 1 e 2 do livro.

Sumário

Prefácio . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Introdução . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . .


1. Limpando o campo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
2. Cristo atua na criação . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .


Para James e Rita Houston

... Pois Cristo atua em mil lugares,
Belo em membros, belo em olhos que
não são seus
Para o Pai, nos traços do rosto de homens
dissimilares.


GERARD MANLEY HOPKINS

PREFÁCIO

Dois campos de atuação convergem nestas páginas: o
trabalho de pastor e o de professor. Até o presente, a maior
parte de minha vida foi dedicada ao ofício de pastor de
igrejas. É proveniente desse âmbito de trabalho quase tudo o
que está escrito na forma de uma longa conversa sobre a
teologia espiritual, o caráter prático da revelação de Deus
entre nós e em nós.

Escrever sobre a vida cristã (chamada aqui de "teologia
espiritual") é como tentar reproduzir num quadro um pássaro
voando. A própria natureza do tema, em que tudo está
sempre em movimento e cujo contexto sempre muda — o
ritmo das asas, as penas coloridas pelo sol, nuvens levadas
pelo vento (e muito mais) —, coíbe a precisão. É justamente
por isso que a maioria das definições e explicações deixa
escapar exatamente o que nos interessa. Histórias,
metáforas, poemas, orações e conversas descontraídas são
mais apropriados para esse tipo de tema, um diálogo que,
necessariamente, inclui o outro .

Meu trabalho como professor, porém, foi também
formativo. Como professor visitante ou adjunto nos anos em
que exerci o ofício de pastor, tive diversas oportunidades de
passar bom tempo com alunos e pastores refletindo sobre a
interseção das Escrituras, da teologia, da história e da igreja
no trabalho de levar o evangelho a ser vivenciado nas
condições reais que defrontamos em nossa cultura.

Nesse tempo, depois de trinta anos de ministério
pastoral, passei a lecionar teologia espiritual em tempo
integral no Regent College, no Canadá. A sobreposição de
campos de atuação — ministério e magistério — promoveu
uma troca dinâmica de influências e forneceu a oportunidade
e a energia necessárias para que este livro fosse escrito.
Posso atribuir o caráter eclético do texto, a mistura de estilos
acadêmico e pessoal, à grande variedade de pessoas que
participaram de cultos e aulas comigo e com as quais
converso sobre esses assuntos (agricultores e pastores, donas
de casa e engenheiros, crianças e idosos, participantes dos
cultos e das aulas, pais e acadêmicos).

Procurei escrever sobre a teologia espiritual nos
mesmos termos em que ela é vivida, ou seja, usando uma
linguagem ora proveniente dos livros, ora das conversas
numa lanchonete, que numa página provém de perguntas
levantadas numa palestra; em outra, de impressões
acumuladas durante um passeio de caiaque num rio. Minha
intenção é dar estrutura e coerência à espiritualidade de
nosso tempo, amplamente difundida, porém muitas vezes
desorientada, trabalhando com base nas Escrituras e com
uma concepção trinitária.

Para mim, todas as conversas em congregações e
escolas se reuniram de maneira particularmente fortuita na
vida e na obra do doutor e da senhora James Houston, do
Regent College. Eles personificaram o significado e a
importância da teologia espiritual (Jim com suas aulas e
conselhos e Rita com sua hospitalidade). Este livro é
dedicado a eles com gratidão.

Advento de 2003

INTRODUÇÃO

Começamos pelo fim. "No meu fim está o meu começo" (T.S.
Eliot).1 Os fins têm precedência sobre os começos. Iniciamos
uma viagem decidindo, em primeiro lugar, o destino.
Coletamos informações e usamos a imaginação, preparandonos
para aquilo que está por vir: a vida é o fim da vida; vida,
vida e mais vida.

O fim de toda crença e obediência cristãs, do
testemunho e da instrução, do casamento e da família, do
lazer e do trabalho, da pregação e do ministério é viver tudo o
que sabemos acerca de Deus: vida, vida e mais vida. Se não
sabemos para onde estamos indo, qualquer caminho serve.
Mas, se temos destino — neste caso, uma vida dedicada à
glória de Deus —, o caminho está definido: é o caminho que
Jesus Cristo revelou.

Teologia espiritual é a atenção que damos aos detalhes
de viver trilhando esse caminho. É um protesto contra a
teologia despersonalizada, transformando-a num conjunto de
informações sobre Deus; é um protesto contra uma teologia
funcionalizada, convertendo-a num planejamento estratégico
para Deus.

Um soneto do poeta e padre jesuíta Gerard Manley
Hopkins declara, de forma impressionante e precisa, o fim da
vida humana bem vivida:
Como arirambas se incendeiam, libélulas ardem em
chama;
Lançadas na beira de um poço arredondado
As pedrinhas ressoam; feito corda tangida, sino tocado
A curva meneando de encontro ao badalo, seu nome
proclama;
Cada coisa mortal faz uma coisa só e mesma:
Revela o ser recôndito por ele habitado;
Asimesma — a si mesmo se move; eu mesmo, diz e
escreve, soletrando,
Aquilo que faço sou eu: foi para isso que vim — eis que
clama.

Digo mais: homem justo, de justiça são os atos teus;
Guarda a graça: ela guardará como graças tudo o que
realizares;
Age aos olhos de Deus conforme é aos olhos de Deus —
Cristo. Pois Cristo atua em dez mil lugares,
Belo em membros, belo em olhos que não são seus
Para o Pai, nos traços do rosto de homens
dissimilares.

Percebemos que a vida é mais do que as coisas com as
quais temos contato neste momento, mas não é diferente
nem desligada delas. Temos vislumbres de totalidade e
vitalidade que vão além daquilo que podemos gerar com
nossos recursos. Vemos indícios da congruência entre quem
e o que somos e o mundo ao redor — pedras e árvores,
campinas e montanhas, aves e peixes, cães e gatos,
arirambas e libélulas —, confirmações vagas e fugazes,
porém convincentes, de que estamos todos envolvidos, de que
somos relacionados a tudo o que existe, existiu e existirá.

Sentimos no íntimo que fazemos parte de um
empreendimento maior do que a soma das partes que
podemos identificar olhando ao redor, ou relacionar num
levantamento dos detalhes de nosso corpo, de nossas
famílias, dos pensamentos e das idéias, das condições do
tempo e das notícias, do trabalho e das atividades de lazer.

Temos essa sensação (que nunca conseguiremos definir
exatamente, nem explicar ou esquematizar) de que sempre
viveremos um mistério — mas um mistério bom.
Todos que estão vivos neste momento, incluindo você,
que está lendo esta página, e eu, a pessoa que está
escrevendo, sem nenhuma outra consideração específica
além do fato de ter os olhos abertos, de receber o ar nos
pulmões, de poder dar testemunho desse Algo Mais, dessa
Congruência, dessa Relação, desse Mistério segundo o qual
Cada coisa mortal faz uma coisa só e mesma: Revela o
ser recôndito por ele habitado...

A palavra mais simples que temos para definir isso é
vida. As últimas linhas do poema de Hopkins apresentam a
imagem que escolhi como ambiente metafórico para
esclarecer os detalhes de tudo o que a vida cristã abrange:

Pois Cristo atua em mil lugares,
Belo em membros, belo em olhos que não são seus
Para o Pai, nos traços do rosto de homens dissimilares.

A FORMA COMO HOPKINS se expressa transmite o
vigor, a energia e a espontaneidade inerentes à vida como um
todo. Esses versos manifestam a convicção nítida de que
Cristo, aquele que revela Deus, está por trás de tudo e faz
parte de tudo nesta vida. A mensagem é de que tudo nesta
vida de arirambas e libélulas radiantes, de pedrinhas
rolando, de cordas de harpa e de sinos ressoantes se
desenrola em nós, em nossos membros e olhos, em nossos
pés e palavras, no rosto de homens e mulheres que vemos o
dia inteiro, todos os dias, no espelho e na calçada, na sala de
aula e na cozinha, nos locais de trabalho e nos parques, nos
santuários e nas reuniões.

O verbo central "atuar" capta a superabundância e a
liberdade que marcam a vida quando vivida além da
necessidade, além da mera sobrevivência. Esse verbo
também sugere palavras, sons e ações coordenados, como
numa dança, expressando outras realidades acerca da
beleza, da verdade ou da bondade. Ao falar dos membros, dos
olhos, do rosto, Hopkins incorpora o sentido de dançar com
Deus como o "outro" supremo ("... Para o Pai") — o que
corresponde a dizer que a vida, em sua totalidade, é (ou pode
ser) adoração.

O soneto de Hopkins é uma das maneiras mais
apropriadas de apresentar aquilo que buscamos ao tentar
entender a vida, o "fim" da vida: o vigor e a espontaneidade, o
Cristo que revela Deus envolvendo a nós e a tudo ao nosso
redor, a liberdade lúdica e a superabundância — a dedicação
total de nossa vida como "atuação", uma postura de adoração
diante de Deus. A fim de evitar interpretações equivocadas ou
limitadas, às vezes acrescentamos o adjetivo "cristã" a essa
"vida". Cabe à comunidade cristã dar testemunho e orientar
quanto ao modo de vivê-la numa cultura que a reduz,
estrangula e enfraquece implacavelmente.

Assim, escolhi o poema de Hopkins para dar o tom e
identificar a natureza de minha proposta ao escrever este
livro. Espero representar, de maneira clara e precisa, aquilo
que a igreja cristã tem vivido no mundo e para o mundo nos
últimos dois mil anos. Meu objetivo não é muito diferente do
de Hopkins em seu poema. Poema é um conjunto complexo
de sons e ritmos, significados claros e repletos de cores, de
justaposições do comum com o inesperado, tudo reunido de
maneira a nos envolver como participantes da vida, de mais
vida, de vida real.

Essa é minha intenção — não, prioritariamente,
explicar alguma coisa ou transmitir informações, mas
envolver nossa história (de meus amigos e vizinhos, de minha
família e minha igreja, de meus vizinhos e alunos) com a de
Cristo. Não tenho nada de novo a dizer; os cristãos conhecem
todos os fundamentos pelo simples fato de estarem vivos e
serem batizados. Já participamos dessa história, pois, de
fato, Cristo atua "em mil lugares". No entanto, espero
aumentar o envolvimento dos que são membros, olhos e
rostos por meio dos quais Cristo atua.

ESTE LIVRO É UMA CONVERSA sobre teologia
espiritual. Escolhi o termo "conversa" porque denota o
vaivém das pessoas, muitas empenhadas na tarefa de
considerar, explorar, discutir e desfrutar não apenas o tema
em questão, mas também a companhia umas das outras. A
expressão "teologia espiritual" é um par de palavras que
mantém a coesão daquilo que, com freqüência, é
"desmembrado". Representa o esforço da comunidade da
igreja para manter o que pensamos a respeito de Deus
(teologia) em ligação orgânica com a maneira como vivemos
com Deus (espiritualidade) .

O crescimento meteórico do interesse pela
espiritualidade nas últimas décadas deve-se, em grande
parte, a uma profunda insatisfação com abordagens da vida
aridamente racionalistas, constituídas de definições,
explicações, esquemas e instruções (de psicólogos, pastores,
teólogos ou planejadores), ou impessoalmente funcionais,
compostas de slogans, objetivos, incentivos e programas (de
anunciantes, palestrantes, consultores, líderes de igreja ou
evangelistas). Mais cedo ou mais tarde, quase todos
descobrimos um desejo profundo de viver de coração o que já
sabemos com a mente e fazemos com as mãos.

Mas "a quem recorrer"? As instituições educacionais
demonstram interesse apenas secundário em lidar com o
desejo — oferecem livros para ler e exames para aprovar,
mas, fora isso, não dão muita atenção. Em nosso local de
trabalho, descobrimos logo que somos valorizados,
principalmente (senão exclusivamente) em razão da utilidade
e da lucratividade — somos recompensados quando
desempenhamos bem nosso papel; do contrário, somos
demitidos.

As instituições religiosas, que em outros tempos eram
(e em outras culturas ainda são) os lugares mais óbvios para
tratar das questões de Deus e da alma, causam decepção a
cada vez mais pessoas. Elas descobrem estar sendo
cuidadosamente desenvolvidas como consumidoras num
mercado que comercializa Deus como produto; ou se vêem
tratadas como alunos aprendendo em ritmo irritantemente
vagaroso, sendo preparados para provas finais sobre "a
mobília do céu e a temperatura do inferno".

Por causa dessa pobreza espiritual que nos cerca, da
falta de interesse em tratar daquilo que é de suma
importância — e está ausente tanto de escolas, empregos e
vocações quanto dos lugares de culto —, a "espiritualidade"
(usando um termo genérico) saiu das estruturas
institucionais e se encontra um tanto dispersa. A
espiritualidade está "no ar". O lado bom é o fato de que os
aspectos mais profundos e característicos da vida passaram
a ser preocupações correntes; a fome e a sede pelo eterno e
duradouro são amplamente reconhecidas e abertamente
expressas; a recusa das pessoas em ser reduzidas a uma
descrição de cargo e a resultados de avaliações é, hoje,
realidade clara e definida.

No entanto, a dificuldade encontra-se na constatação
de que, de uma forma ou de outra, todos estão convidados a
criar a espiritualidade mais adequada a si mesmos. Da
miscelânea de testemunhos de celebridades, gurus da mídia,
fragmentos de êxtase e fantasias pessoais, inúmeras pessoas,
com as melhores intenções do mundo, montam, "por conta
própria", identidades espirituais e modos de vida dotados de
inclinação clara para vícios, relacionamentos rompidos,
isolamento e violência.

Não há dúvida de que existe o interesse amplamente
difundido de viver além dos papéis e das funções atribuídos
pela cultura. No entanto, grande parte dessa preocupação
resulta numa espiritualidade moldada segundo parâmetros
determinados pela mesma cultura. Assim, parece-nos
preferível usar o termo "teologia espiritual" para nos referir de
modo específico à tentativa dos cristãos de tratar das
experiências vividas e reveladas nas Sagradas Escrituras e da
riqueza de conhecimentos e práticas de nossos antepassados
ao aplicá-las ao mundo contemporâneo, no qual a "fome e
sede de justiça" são difusas e indistintas.

Os termos "teologia" e "espiritual" formam um ótimo
par. "Teologia" é a atenção que dedicamos a Deus, nossa
tentativa de conhecê-lo conforme é revelado nas Sagradas
Escrituras e em Jesus Cristo. O adjetivo "espiritual" se refere
à insistência de que toda revelação de Deus sobre si mesmo e
suas obras pode ser vivida por homens e mulheres comuns
em seus lares e locais de trabalho. O "espiritual" impede que
a "teologia" se deteriore num simples e distante exercício de
pensar, falar e escrever sobre Deus. A "teologia" evita que o
"espiritual" se torne apenas a atividade emocional de pensar,
falar e escrever sobre sentimentos e idéias individuais de
Deus. Uma palavra necessita da outra, pois sabemos como é
fácil desassociar o estudo sobre Deus (teologia) da maneira
como vivemos; também sabemos como é fácil desvincular
nosso desejo de viver com plenitude e satisfação (vida
espiritual) daquilo que Deus é, de fato, e das maneiras como
ele opera entre nós.

A teologia espiritual é a atenção que dedicamos à
teologia prática que vivemos e sobre a qual oramos, pois se
não orarmos, mais cedo ou mais tarde ela deixará de ser
vivida de dentro para fora e em harmonia com o Senhor da
vida. É nossa tentativa de viver aquilo que sabemos e cremos
acerca de Deus. É o desenvolvimento da vida como adoração,
ajoelhados perante Deus, o Pai; da vida como sacrifício,
usando nossos pés para seguir Deus, o Filho; da vida como
amor, envolvendo e sendo envolvidos pela comunidade de
Deus, o Espírito.

A teologia espiritual não é uma área a mais para ser
listada juntamente com as disciplinas da teologia
sistemática, bíblica, prática e histórica; ela representa a
convicção de que toda teologia, sem exceção, diz respeito ao
Deus vivo, que nos torna criaturas cujo propósito é viver para
a sua glória. É o desenvolvimento da consciência e de
percepções ao mesmo tempo alertas e responsivas em nosso
local de trabalho e de culto; igualmente ativas quando
trocamos as fraldas de um bebê no quarto e quando
meditamos no meio de um bosque; necessárias tanto ao ler
editoriais do jornal quanto ao fazer a exegese de uma frase
escrita em hebraico.

Alguns podem querer simplificar tudo, mantendo o
espiritual e descartando a teologia. Outros se contentarão em
continuar com a teologia habitual e deixar de lado o
espiritual. No entanto, a verdade é que vivemos apenas
porque Deus vive, e vivemos bem apenas quando o fazemos
de modo coerente com a forma como Deus nos cria, salva e
abençoa. A espiritualidade começa com a teologia (a
revelação e a compreensão acerca de Deus) e é norteada por
ela. E a teologia nunca se encontra inteiramente separada de
sua expressão no corpo de homens e mulheres aos quais
Deus deu vida, sendo o desejo dele que todos vivam a
salvação na plenitude (espiritualidade).

A NOÇÃO DE "TRINDADE" é a formulação teológica
que fornece a estrutura mais adequada para manter as
conversas sobre a vida cristã coerentes, focadas e pessoais.
Desde o início, a comunidade cristã percebeu que tudo a
nosso respeito — adorar e aprender, conversar e ouvir,
ensinar e pregar, obedecer e decidir, trabalhar e brincar,
comer e dormir — se desenrola no "território" da Trindade, ou
seja, na presença e no meio das operações de Deus Pai, Deus
Filho e Deus Espírito Santo. Se a presença e a operação de
Deus não forem entendidas como o que define quem somos e
o que estamos fazendo, nada será entendido e vivido
corretamente.

Em vários meios, a Trindade sofreu a indignidade de
ser tratada como artefato verbal dissecado, esquadrinhado e
investigado por octogenários artríticos que Robert Browing,
em sua crítica mordaz, considerou "mortos da cintura para
baixo".Na verdade, trata-se de nosso empreendimento
intelectual mais exuberante sobre Deus. A Trindade é a
tentativa conceitual de dar coerência a Deus conforme ele é
revelado diversamente como Pai, Filho e Espírito Santo nas
Escrituras: Deus é intensamente pessoal; é Deus única e
exclusivamente em relacionamentos.

A Trindade não é uma tentativa de explicar ou definir
Deus por meio de abstrações (ainda que, em parte, seja isso
também), mas um testemunho de que Deus se revela
pessoal, em relacionamentos pessoais. A conseqüência
prática desse fato é que Deus nos resgatou das especulações
dos metafísicos e nos trouxe ousadamente para uma
comunidade de homens, mulheres e crianças chamados a ter
essa vida comum de amor, uma vida extremamente pessoal,
na qual experimentam a si mesmos em termos pessoais de
amor, perdão, esperança e desejo.

Descobrimos, sob a imagem da Trindade, que não
conhecemos Deus ao defini-lo, mas ao sermos amados por
ele e ao correspondermos a esse amor. As conseqüências são
pessoalmente reveladoras: outra pessoa não vem a me
conhecer, nem eu a outrem, pela definição, explicação,
categorização ou "psicologização", mas de modo relacional, ao
aceitar e amar, dar e receber. Os aspectos pessoais e
interpessoais oferecem as imagens centrais (Pai, Filho,
Espírito Santo) tanto para conhecermos Deus quanto para
sermos conhecidos por ele. Isso é viver, e não pensar sobre
viver; é viver com alguém, e não desempenhar funções para
alguém.

Assim, estas conversas sobre a teologia espiritual têm
como contexto o território mapeado pela Trindade, no qual
conhecemos Deus Pai na criação, Deus Filho na história e
Deus Espírito na comunidade, nele cremos e a ele servimos.
Ao falarmos da Trindade, não podemos nos limitar a
entender corretamente o dogma teológico; o território da
Trindade abrange a criação (o mundo em que vivemos), a
história (tudo o que acontece à nossa volta) e a comunidade
(as maneiras como participamos pessoalmente da vida diária
na companhia de outros ao nosso redor). A Trindade não é
algo imposto a nós, mas um testemunho da co-inerência de
Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) e da co-inerência de nossa
vida com a imagem de Deus (onde estamos, o que está
acontecendo e quem somos ao falar, agir e nos envolver uns
com os outros).

A Trindade mapeia o território em que conhecemos,
recebemos e obedecemos a Deus. Ela não é o território em si,
é o seu mapa. E, por certo, um mapa extremamente útil, pois
Deus é amplo e variado, opera de forma visível e invisível. Se
somos deixados por nossa própria conta, muitas vezes
acabamos perdidos em becos sem saída, emaranhados em
touceiras, sem a mínima idéia de onde estamos. O mapa nos
situa: fornece o vocabulário e identifica a experiência pela
qual podemos explorar Deus quando não há nenhuma placa
apontando para ele, quando não há nenhum rótulo definindo
claramente a forma ou o sentimento estranho que está diante
dos olhos.

Podemos também dizer a respeito de um mapa que,
apesar de ser artefato, algo feito, não é imposto
arbitrariamente sobre a região por ele representada. Ao
contrário, é resultante da observação minuciosa e do registro
preciso da realidade. Os mapas devem ser fiéis. Além disso,
são humildes — não aspiram a ser o território. Estudar um
mapa não oferece experiência da região que ele retrata. O
propósito do mapa é nos mostrar o caminho dentro desse
território e evitar que nos percamos na viagem.

TENDO O ESPÍRITO SANTO como fonte de estrutura e
contexto, as conversas se desenvolverão sob a metáfora de
que "Cristo atua em mil lugares". Faremos isso
primeiramente limpando o campo e, depois, explorando as
três dimensões intersecionais: da criação, da história e da
comunidade em que vivemos.

LIMPANDO O CAMPO
Vivemos num tempo em que há enorme interesse no
que é conhecido popularmente como "espiritualidade". No
que diz respeito a dar orientação sobre como viver a vida, a
igreja não tem monopólio nessa área. O campo da
espiritualidade está repleto de escombros de regras e
tentativas improvisadas de viver esta vida. Assim, procurarei
remover esse entulho e determinar uma base comum para o
diálogo, definindo algumas histórias, metáforas e termos
fundamentais que nos prepararão para entender a vida cristã
em termos bíblicos e pessoais.

CRISTO ATUA NA CRIAÇÃO
Vivemos num universo extraordinariamente complexo. Temos
uma vida conjunta e relacional com milhões de outras formas
de vida. Há um bocado de coisas acontecendo e não
queremos ficar de fora. Numa era que funcionaliza tudo e
todos, e num tempo em que o sagrado, o santo, quer em
coisas, quer em pessoas, se encontra num processo contínuo
de desgaste, trataremos de como os cristãos recebem,
celebram e honram toda a criação como dádiva sagrada cujas
origens e cuja expressão plena se encontram no nascimento
de Cristo.

CRISTO ATUA NA HISTÓRIA
Mas a vida não se resume à dádiva da criação. Também
estamos mergulhados numa história em que o pecado e a
morte desempenham papel importante: sofrimento e dor,
decepção e perda, catástrofe e perversidade. Numa era de
conhecimento crescente e proficiência tecnológica
impressionante, é fácil pressupor que um pouco mais de
conhecimento e tecnologia logo mudará o destino da
humanidade para melhor. Mas não foi assim no passado, e
não será no futuro. Usando documentos detalhados e
irrefutáveis, os historiadores mostram que o século XX foi o
mais aniquilador de que se tem registro.6 Precisamos de
ajuda. Trataremos de como os cristãos se envolvem numa
história cujo significado final provém da morte de Cristo e da
vida de salvação resultante desse sacrifício.

CRISTO ATUA NA COMUNIDADE
A vida cristã é vivida com outros e para outros. Nada pode
ser feito de modo isolado ou egoísta. Numa era de
individualismo crescente, é fácil pressupor que a vida cristã
é, antes de tudo, uma responsabilidade exclusivamente
minha. Todavia, nem a auto-ajuda nem o egoísmo tem lugar
na teologia espiritual. Trataremos de como somos inseridos
na comunidade formada pelo Espírito Santo de Cristo e pelas
quais nos tornamos participantes integrais de tudo o que o
Cristo ressurreto é e faz, vivendo uma vida de ressurreição.

1. LIMPANDO O CAMPO

Vinde a mim [...] aprendei de mim, porque sou manso e humilde de
coração...
MATEUS 11:28-29


Assim que os evangelhos foram escritos, o discurso inexperiente começou
a tratar de maneira superficial os fatos novos propostos pela existência
da Igreja [...] As pessoas tentaram pensar sobre a vida nova sem ser
tocadas, antes, por algum tipo de chamado, sem ouvir, sem paixão ou
transformação interior.

EUGENE ROSENSTOCK-HUESSY.

A energia efervescente da espiritualidade pode ser vista
em toda parte. A princípio, trata-se de um fenômeno positivo.
A espiritualidade, contudo, também tende para imprecisões
que entulham o campo e dificultam o diálogo. Existem quatro
empecilhos. Em primeiro lugar, a espiritualidade desenvolve
com facilidade e quase inevitavelmente posturas elitistas, ao
observarmos que tantos homens e mulheres com os quais
convivemos no trabalho e na igreja "não são espirituais".

Em segundo lugar, no entusiasmo de ter uma
experiência pessoal, a espiritualidade se desvia
imperceptivelmente da Bíblia, seu texto fundamental, e aceita
o mundo convidativo da auto-ajuda. Em terceiro lugar,
exposta a uma cultura que não hesita em fornecer os termos
do discurso, a espiritualidade é diluída ou esvaziada de toda
peculiaridade do evangelho. Por fim, numa reação ao que se
acredita ser uma teologia "morta", a espiritualidade passa
facilmente a sofrer de amnésia teológica e acaba isolada de
qualquer consciência dos horizontes grandiosos e
maravilhosos de Deus, dos cenários vastos nos quais somos
convidados a viver a vida cristã.

Minha intenção é colocar essas energias
contemporâneas imprecisas dentro de limites bíblicos e
orientá-las para entrarem na companhia de Jesus,
preparando para nos juntarmos à "atuação" de Cristo na
criação, na história e na comunidade. Usarei duas histórias,
três textos, quatro termos e uma dança para remover o
entulho das interpretações e conceitos equivocados nessas
quatro áreas: duas histórias, para nivelar o campo de modo a
vivermos com humildade e sem pretensão (em contraposição
ao elitismo); três textos, para definir os alicerces bíblicos de
modo a vivermos em obediência (em contraposição ao
modismo da auto-aju-da); quatro termos que oferecem o
enfoque do evangelho para vivermos corretamente (em
contraposição à imprecisão); e uma dança para colocar a
teologia em posição proeminente dentro do campo de ação,
de modo que nossa imaginação seja ampla o suficiente para
abranger a vida (em contraposição ao horizonte secular
reduzido).

DUAS HISTÓRIAS

Uma história é a maneira mais natural de ampliar e
aprofundar nossa percepção da realidade e, então, nos
convidar a participar dela. As histórias abrem portas para
áreas ou aspectos da vida cuja existência desconhecíamos ou
que havíamos deixado de observar por terem se tornado
triviais, ou, ainda, que imaginávamos estar fora do nosso
alcance. As histórias, então, nos recebem de braços abertos,
pois são atos verbais de hospitalidade.

No início de seu evangelho, o apóstolo João conta duas
histórias que, sem dúvida, acolhem todos na vida cristã. A
primeira é a de Nico-demos, rabino judeu (Jo 3). Preocupado
com sua reputação, ele vai, escondido, falar com Jesus. Se os
seus colegas rabinos soubessem de sua conversa com o
mestre itinerante, de fama duvidosa e discurso profético
irrefreável, vindo da cidade desprezada de Nazaré, na
Galiléia, Nicodemos perderia a credibilidade. Assim, ele foi
procurar Jesus à noite. Ao que parece, não tinha assunto
definido para tratar; queria apenas conhecer Jesus, e
começou a conversa com um elogio: "Rabi, sabemos que és
Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer
estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele" (Jo
3:2).

Mas Jesus percebeu um interesse por trás dessas
palavras, uma pergunta por fazer; Nicodemos estava
procurando alguma coisa. Jesus colocou de lado os
comentários preliminares e foi direto ao assunto; sondou o
coração de Nicodemos e tratou do que viu ali: "Em verdade,
em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não
pode ver o reino de Deus" (3:3). Então era por isso que
Nicodemos estava lá: para saber como chegar ao reino de
Deus, viver sob o governo de Deus, fazer parte da realidade
de Deus. Que coisa estranha!

É estranho porque Nicodemos deveria ser perito nesse
assunto. Por que, então, procurar Jesus furtivamente e
conversar com ele às escondidas? Foi por humildade? É uma
possibilidade plausível. Os líderes que são sempre
admirados, que respondem com grande competência e que,
supostamente, vivem aquilo que pregam muitas vezes têm
um sentimento intenso de dissonância: "A pessoa que sou e a
pessoa que os outros pensam que sou não são, nem de perto,
iguais. Quanto mais me sobressaio como rabino, maior é a
minha reputação e mais impostor me sinto. Minha vivência
fica tão aquém de tudo o que sei! Quanto mais tempo vivo e
mais conhecimento adquiro, maior o abismo entre o que sei e
o que vivo. A situação piora a cada dia...".

Assim, é possível que essa inquietação profunda
baseada numa humildade verdadeira tenha levado
Nicodemos até Jesus naquela noite. Ele não estava à procura
de informações teológicas, mas de uma porta de entrada; não
queria saber mais sobre o reino de Deus, queria um guia e
amigo que lhe mostrasse essa porta e o conduzisse para
dentro: "Como posso entrar...?".

Ou ele foi motivado apenas pela curiosidade? A fim de
manter sua influência, os líderes precisam estar sempre à
frente na corrida, acompanhar as tendências, saber o que
vende mais no mercado atual. Naquele tempo, Jesus atraía
uma atenção extraordinária sobre si. "Então, qual é a dele?
Qual o seu segredo? Como ele faz isso?" Nicodemos era
competente em seu trabalho, mas não podia simplesmente
descansar nos louros. O mundo passava por transformações
rápidas. Israel se encontrava num redemoinho cultural —
educação grega e governo romano com tradições morais
judaicas misturadas a seitas gnósticas, cultos de mistério,
grupos terroristas e uma miscelânea de especuladores e
fanáticos messiânicos.

Essa mistura mudava a cada semana. Para garantir a
firmeza e a continuidade de sua liderança, Nicodemos
precisava estar atento a qualquer mudança na direção dos
ventos. Jesus era a atração do momento, de modo que o
rabino estava lá naquela noite para extrair alguma
informação ou descobrir uma estratégia valiosa. Essa
também é uma possibilidade plausível.

Mas o apóstolo João, narrador da história, não
compartilha do nosso interesse em identificar o motivo que
levou Nicodemos até Jesus. Como autor, não demonstra
nenhuma preocupação em determinar a razão do encontro. É
uma história sobre Jesus, e não sobre Nicodemos. Jesus não
pergunta sobre os motivos de Nicodemos, e João não entra
nos detalhes dessa questão. Depois do prelúdio breve, Jesus
toma a iniciativa e apresenta uma metáfora surpreendente,
que cativa a atenção do seu interlocutor: "Te digo que, se
alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus"
(3:3) e, na seqüência, antes que Nicodemos pudesse tomar
fôlego, acrescenta outra metáfora, ainda mais estranha do
que a primeira: "Te digo: Quem não nascer da água e do
Espírito não pode entrar no reino de Deus" (3:5). Em
aramaico, supostamente a língua que Jesus falava, e também
no grego, a língua na qual o apóstolo João escreveu seu
evangelho, usa-se uma palavra só para "vento", "fôlego" e
"Espírito". Pelo fato de essas línguas empregarem o mesmo
termo para o movimento do ar causado pela contração dos
pulmões, o deslocamento de ar provocado por mudanças
barométricas e o movimento do Espírito vivificador do Deus
vivo dentro de nós, era necessário um exercício de
imaginação cada vez que o termo era usado. Nesse caso,
trata-se de uma referência à respiração, às condições do
tempo ou a Deus?

Mal fazemos a pergunta e João logo esclarece,
colocando o literal e o metafórico lado a lado: "O vento
[pneuma] sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes
donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido
do Espírito [pneuma]" (3:8).

Nicodemos balança a cabeça. Não entende o que Jesus
está dizendo.

NA SEQÜÊNCIA, TEMOS A história da mulher
samaritana (Jo 4). A história não se passa à noite, como a de
Nicodemos, mas à plena luz do dia, junto ao poço de Jacó em
Samaria. Jesus está sentado sozinho quando a mulher chega
para pegar água. Jesus inicia o diálogo pedindo que ela lhe
dê de beber. A mulher se surpreende com o simples fato de
ser abordada por esse homem, esse judeu, pois os dois
grupos étnicos estavam separados por séculos de
animosidade religiosa.

Além de se surpreender, será que ela também não fica
cismada? Podemos sentir certa tensão no tom da pergunta:
"Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou
mulher samaritana?" (4:9). Será que desconfia do homem
sentado junto ao poço? Tudo indica que essa mulher sofrida
tem motivos de sobra para não confiar nele. Mais adiante na
história, descobrimos que ela teve cinco maridos e que, no
momento, vive com um sexto homem, com o qual não é
casada. Não é difícil imaginar o contexto de rejeições
subseqüentes, inúmeros fracassos acumulando, ano após
ano, cicatrizes na mente e no corpo. Para ela, ser mulher é
ser vítima. Estar perto de um homem é estar em perigo. O
que esse desconhecido vai fazer em seguida, o que vai dizer?
Ela mantém a guarda levantada.

Ou é justamente o contrário? Talvez o que percebemos
em sua pergunta não seja desconfiança, mas certa
insinuação provocante. Pode estar à procura de outro
homem. Provavelmente tenha usado os cinco maridos e o
atual amante, cansado deles e esteja seduzindo mais um
homem. Ou veja os homens como oportunidades de
gratificação ou forma de conseguir poder e promoção, e
quando eles não servem mais para o seu orgulho, ambição
ou desejo, os descarta. É inteiramente possível que, ao ver
Jesus, ela tenha começado a elaborar estratégias de sedução:
"Mas que surpresa agradável! Vamos ver o que posso
conseguir dele".

Gostamos desses jogos, de preencher as lacunas, de
adivinhar a realidade por trás das aparências, de saber da
intimidade das pessoas. Mas, como na história de
Nicodemos, Jesus não demonstra interesse em usar
subterfúgios, e João não se preocupa em explorar os motivos.
Ele a aceita como ela se apresenta, sem fazer perguntas.
Vemos que, como no caso anterior, esta história não é sobre
a mulher, mas sobre Jesus.

Depois do diálogo de introdução, Jesus começa a falar
por enigmas: "Se conheceras o dom de Deus e quem é o que
te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água
viva" (4:10). Não demora a ficar claro que, em sua conversa
com a samaritana, Jesus emprega "água" de forma
metafórica, como fez com "vento" para Nicodemos. A palavra
"água", que inicialmente se referia à água tirada do poço com
um balde, passa a ser usada para indicar algo
completamente diferente, algo interno, "uma fonte a jorrar
para a vida eterna" (4:14). A essa metáfora, então, é
acrescentada a anterior, usada com Nicodemos: "Deus é
espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em
espírito e em verdade" (4:24).

Mais uma vez, "espírito" é a palavra que liga nossa
experiência senso-rial de respiração e vento com a natureza e
atividade de Deus. Quando a conversa está prestes a
desandar e se transformar numa discussão sobre o local de
adoração, as palavras de Jesus criam subitamente uma nova
realidade, na qual Deus assume a posição central.

A mulher entende. Ela faz a ligação entre o que sabe
sobre o Messias e o que Jesus lhe diz, o que ele é para ela. A
samaritana é convertida no mesmo instante.

O QUE MAIS IMPRESSIONA nas duas histórias,
quando postas em paralelo, como o apóstolo João faz, é o fato
de que o Espírito de Deus está no cerne da ação: a vitalidade
de Deus, sua presença criadora, o fôlego soprado em nossa
vida como ele o soprou em Adão, o fôlego que nos torna vivos
de maneiras que a biologia não é capaz de controlar nem
explicar.

Notamos uma característica correspondente: ao serem
consideradas em conjunto, as histórias sustentam a
acessibilidade. Hoje, o uso do termo "espiritual" tem, muitas
vezes, conotação infeliz — um traço de elitismo, de que
apenas os escolhidos ou iniciados podem entendê-lo. Mas
essas duas histórias negam isso inteiramente. A vida soprada
por Deus é geral, totalmente acessível para o amplo espectro
da condição humana. Somos acolhidos na vida e ponto final.
Não há precondições.

A compreensão dessa acolhida generosa é obtida,
primeiramente, pela escolha do vocabulário. As metáforas
introdutórias das duas histórias são completamente
acessíveis; todos sabem o que as palavras significam sem
precisar usar dicionário; são termos da vida comum. No caso
de Nicodemos, Jesus fala do nascimento; no caso da mulher,
fala de água. Todos temos experiência suficiente relacionada
a essas duas palavras para saber a que se referem sem
precisar de mais esclarecimentos. Todos sabemos o que é
nascimento: o fato de estarmos aqui prova que nascemos.
Todos sabemos o que é água: bebemos ou nos lavamos com
ela várias vezes por dia. A metáfora comum às duas
histórias, vento/fôlego, também é clara. Todos sabemos o que
é vento ou fôlego: assopre em sua mão, respire fundo, olhe
para as folhas movendo-se com a brisa.

Além disso, encontramos as seguintes características:
a primeira história é sobre um homem; a segunda, sobre
uma mulher. A vida cristã não favorece nenhum dos sexos.
A primeira história se desenrola numa cidade que é
centro de sofisticação, educação e moda; a segunda, nos
arredores de uma cidade pequena do interior. A geografia não
exerce nenhuma influência em termos de percepção ou
aptidão.

Nicodemos é um membro respeitável da seita
estritamente ortodoxa dos fariseus; a mulher de reputação
duvidosa faz parte da seita desprezada dos samaritanos. Em
se tratando de questões de espiritualidade, as origens
étnicas, a identidade religiosa e o histórico moral não vêm ao
caso. O nome do homem é citado; o da mulher, não. A
reputação e a posição social não contam.

Devemos considerar também que Nicodemos começa a
conversa com Jesus fazendo uma declaração religiosa: "Rabi,
sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus". Jesus
começa a conversa com a mulher pedindo um pouco de água,
com uma frase que não parece nada religiosa. Tudo indica
que, na vida cristã, não faz diferença quem começa, se é
Jesus ou nós, e se o assunto é de cunho celestial ou terreno.
Além disso, nas duas histórias, uma reputação corre
perigo: Nicodemos põe em risco a sua ao ser visto com o
Mestre galileu; Jesus arrisca a sua ao ser visto com a
samaritana. Pode-se perceber que as duas partes colocam de
lado as convenções e cruzam a linha da precaução; ambas se
mostram dispostas a correr o risco de serem interpretadas
equivocadamente. Quando nos aproximamos do cerne das
coisas, não estamos lidando com resultados garantidos ou
comportamentos convencionais.

Temos, portanto:

Um homem e uma mulher.
Cidade e campo.
Alguém que faz parte do sistema; alguém que vive à
margem dele.
Um homem respeitável e uma mulher de reputação
duvidosa.
Um ortodoxo e uma herege.
Alguém que toma a iniciativa; alguém que deixa a
iniciativa ser tomada.
Uma pessoa que tem nome e uma pessoa anônima.
A reputação humana em perigo; a reputação divina
em perigo.


Ademais, nas duas conversas a palavra central é
"espírito". Esse termo liga as diferenças e contrastes nos dois
relatos, transformando-os em aspectos de uma só história.

Nos dois diálogos, o "Espírito" se refere, em primeiro lugar, a
Deus e somente de forma secundária ao homem e à mulher.

Na primeira conversa, o Espírito dá à luz ("assim é todo o que
é nascido do Espírito"); o Espírito é um agente, uma fonte,
uma causa do nascimento que torna a pessoa capaz de "ver"
e "entrar" (dois verbos usados nesse diálogo). Na segunda,
Deus é Espírito; em decorrência disso, o adoramos em
espírito e em verdade. É somente pelo fato de Deus ser
Espírito que temos algo a dizer a respeito daquilo que
fazemos ou deixamos de fazer.

Por fim, devemos observar ainda que Jesus é a figura
principal das duas histórias. Apesar de Nicodemos e a
mulher samaritana darem o ensejo, é Jesus que fornece o
conteúdo. Ele trabalha no centro de tudo aquilo ligado ao
viver, o contexto mais amplo de todas as palavras e ações.
Ele é muito mais ativo do que nós; é Jesus quem provê a
energia.

NÃO ESTAMOS ACOSTUMADOS com isso. Para nós,
"espiritual", adjetivo proveniente da atividade do Espírito
Santo, normalmente é um termo usado para descrever
disposições, características ou realizações em nós. O
resultado infeliz desse equívoco é que essa palavra sofreu
terrível distorção. As duas histórias apresentadas nos salvam
da confusão. Ao estudar os caminhos de Deus entre nós em
Jesus Cristo e as maneiras como somos acolhidos nesses
caminhos, deixaremos de consultar experiências,
sentimentos ou desempenho, bem como os de nossos amigos.
Começamos com essa história, abrindo uma clareira onde
podemos nos colocar. Já removemos parte do entulho
observando que a espiritualidade:

• Não é um conjunto de conhecimentos secretos.
• Nada a ver com aptidão ou temperamento.
• Não diz respeito, em primeiro lugar, a você ou a
mim; ao poder ou ao enriquecimento pessoal. Ela diz respeito
a Deus.

Mas, pelo fato de os termos "espiritual" e
"espiritualidade" serem usados nos dias de hoje de forma tão
ampla e distante da revelação (e, por vezes, contrária a ela),
nas páginas a seguir usaremos com freqüência (porém não
exclusivamente) a designação "vida cristã" como sinônimo de
espiritualidade.

A IGREJA CRISTÃ GUIADA pela Bíblia sempre manteve
posição aberta e receptiva aos "perdidos", os que foram
privados de seus direitos pela religião institucional ou que
são privados de educação, piedade ou respeitabilidade social.
Muitas vezes, porém, especialmente quando foi adotada pela
cultura e se mostrou numericamente bem-sucedida, ela se
desviou desse compromisso, e os párias da sociedade foram
deixados também de fora da comunidade dos cristãos.
Nessas ocasiões foi, com freqüência, a voz dos
marginalizados que resgatou a acolhida original e reinseriu
os excluídos.

É necessário vigilância constante em todas as questões
de espiritualidade. O elitismo sempre "jaz à porta" (Gn 4:7) —
o evangelho pode ser para todos, mas no que se refere às
questões mais "avançadas" do reino, alguns são mais
adequados que outros e, em termos culturais e sociais, esse
grupo parece sempre provir da classe média ou alta. Tem-se
a impressão de que os pobres e os pouco instruídos nunca
recebem muita atenção nessas questões.

Mas o "evangélico" leva consigo a mesma energia e a
mesma aceitação tanto aos de fora quanto aos de dentro do
sistema. A pequena missão que trabalha com os pobres no
centro da cidade e o ponto de pregação em algum lugar
remoto muitas vezes têm espiritualidades cristãs
profundamente desenvolvidas, mesmo que seus vocabulários
não se enquadrem no que se ouve nos centros de retiro nas
montanhas ou nas igrejas dos bairros de classe mais alta.

TRÊS TEXTOS

As duas histórias colocam em primeiro plano a palavra
"espírito", convidando todos para uma vida de intimidade
crescente com o Senhor. O termo "espírito" com referência ao
Espírito de Deus, o Espírito Santo, ocupa um lugar de
destaque em todas as Escrituras e tradições, designando a
presença viva de Deus operando em nossa dimensão. Três
textos representativos indicam a extensão da obra formativa
do Espírito no mundo: Gênesis 1:1-3, Marcos 1:9-11 e Atos
2:1-4. Cada um marca um começo e, em todos eles, a
iniciativa é do Espírito.

G. K. Chesterton diz que existem dois tipos de pessoas
no mundo: uma, ao ver árvores com os galhos e folhas
balançando fortemente ao vento, acredita que é o vento que
move as árvores; a outra afirma que o movimento das árvores
é que cria o vento.8 O primeiro conceito corresponde ao que
foi aceito pela humanidade por quase todos os séculos de sua
história. De acordo com Chesterton, só nos últimos tempos
tem surgido um novo tipo de pessoas que acredita
tranqüilamente que é o movimento das árvores que cria o
vento.

O consenso sempre foi que o invisível está por trás e dá
energia ao visível. Em seu trabalho como jornalista,
observando pessoas e acontecimentos de perto e comentando
sobre eles, Chesterton relatou com espanto que o consenso
mais amplo se desintegrou, e hoje em dia a maioria das
pessoas ingenuamente identifica o que vê, ouve e toca como a
realidade fundamental que gera tudo o que se imagina e não
pode ser verificado com os sentidos. Para elas, o visível
explica o invisível.

Como perdemos a origem metafórica da palavra
"espírito", em nossas conversas operamos com sério déficit de
vocabulário. Imagine como nossas percepções mudariam se
eliminássemos a palavra "espírito" de nossa língua e
usássemos apenas "vento" e "fôlego". Para nossos
antepassados, espírito não era algo "espiritual"; era sensorial.
Era o invisível com efeitos visíveis. Era invisível, mas não
imaterial. O ar possui tanta materialidade para nós quanto
uma montanha de granito: pode ser sentido, ouvido e
medido; fornece as moléculas para a respiração silenciosa
que faz parte de toda vida humana e animal, desperta e
adormecida — os sopros de ar usados para articular
palavras, a brisa suave que acaricia a pele, os ventos fortes
que inflam as velas dos navios, os furacões incontroláveis
que arrancam telhados de celeiros e árvores do solo.





Seria extremamente esclarecedor se pudéssemos
remover temporariamente do vocabulário os termos "espírito"
e "espiritual".
Mas esses três textos, se atentarmos para eles, podem
servir de placas de sinalização em meio ao lamaçal de
imprecisão em que nos encontramos. Esses três textos
marcam três começos: o da criação, o da salvação e o da
igreja — criação sagrada, salvação sagrada e comunidade
sagrada.
Gênesis 1:1-3
No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra,
porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do
abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.
Disse Deus: Haja luz...
Deus começa. E começa criando. Esse ato de criação
explica tudo o que existe, o visível e o invisível, "os céus e a
terra". A criação toma a não-criação ou a anticriação, que
está "sem forma e vazia", que não tem luz ("trevas sobre a
face do abismo"), e a faz existir, lhe dá forma e conteúdo e a
inunda de luz. A não-criação ou pré-criação é retratada como
as águas profundas e escuras do oceano — sem forma,
caóticas, imprevisíveis, mortais.
Deus respira ou sopra sobre essas águas. O fôlego é
vida e vivifica. Vemos o vento se movendo sobre essas águas
desordenadas, escuras e mortais, Deus soprando vida nessa
antivida, nessa não-vida.
Então, esse fôlego de Deus deixa de ser um sopro
inarticulado e é usado para formar palavras. O mesmo
fôlego/espírito que produz o vento agora forma a linguagem.
Primeiro vemos o efeito do fôlego de Deus sobre a água e
depois ouvimos a articulação do fôlego divino em palavras:
"Disse Deus...". Deus fala oito vezes nessa narração. As oito
frases esclarecem tudo o que existe; a abrangência é ampla.
"Criar" explica tudo o que há no céu e na terra.
Mas não é só isso. O Espírito de Deus que se movia
sobre a face das águas "no princípio" continua a se mover,
continua a criar. O texto de Gênesis sobre a criação não se
limita a contar como o mundo começou a existir; também dá
testemunho da obra criadora do Espírito de Deus nos dias de
hoje. Na Bíblia, o verbo "criar" sempre tem Deus como
sujeito. Homens, mulheres e anjos não criam. Somente Deus
cria. E o uso mais freqüente do verbo não se dá na história
do princípio do céu e da terra, mas num ministério
profético/pastoral exercido entre o povo de Deus exilado na
Babilônia no século VI a.C. Os hebreus haviam perdido
praticamente tudo — a identidade política, o lugar de culto,
seus lares e propriedades rurais. Haviam sido obrigados a
percorrer a pé uma distância de quase mil quilômetros no
deserto para sobreviver com dificuldade, exilados numa terra
estranha. Não tinham nada. Haviam sido privados não
apenas de seus bens, mas também da própria identidade
como povo de Deus. Haviam sido arrancados de sua terra e
lançados numa sociedade estrangeira idólatra.
Nesse lugar e nessas condições começaram a ouvir o
verbo "criar" de Gênesis de maneira nova e inesperada. O
Espírito criou vida do nada na Babilônia do século VI a.C.
como quando "havia trevas sobre a face do abismo". Por meio
do texto de Isaías, o Espírito é visto criando tanto uma
estrutura na qual se pudesse viver quanto vidas humanas
adequadas para sobreviver nessa estrutura, agora. O
significado de "criar" não se limita ao que o Espírito fez;
refere-se ao que o Espírito faz. A criação não é um ambiente
impessoal, é um lar pessoal — é nela que vivemos.
A realização extraordinária de Isaías foi trazer,
tomando como base o exílio, cada detalhe dos primórdios de
Gênesis para o presente, no qual nos sentimos tão incriados,
informes e inadequados para o mundo em que nos
encontramos. A obra do Espírito na criação não se limita às
perguntas "quando ocorreu?", "como ocorreu?". Agora,
perguntamos: "Como posso fazer parte dela?". E oramos:
"Cria em mim..." (Sl 51:10).

Marcos 1:9-11
Naqueles dias, veio Jesus de Nazaré da Galiléia e por
João foi batizado no rio Jordão. Logo ao sair da água, viu os
céus rasgarem-se e o Espírito descendo como pomba sobre
ele. Então, foi ouvida uma voz dos céus: Tu és o meu Filho
amado, em ti me comprazo.
Mais uma vez, é Deus quem começa. Um segundo
começo: Jesus é batizado e identificado como o "Filho amado"
de Deus.
Gênesis é cosmológico e nos apresenta um caos
aquático no qual Deus soprou forma, plenitude e luz; da nãovida,
surge a vida orgânica e inorgânica. O evangelho de
Marcos apresenta um rio local conhecido no qual Jesus foi
batizado, primeiro imerso no rio e depois emergindo dele. O
batismo é uma repetição de Gênesis. Quando Jesus sai da
água, Deus sopra vida nele. Desta vez, isso se dá de forma
visível, por meio de algo que se parece com uma pomba
descendo do céu.
A pomba que desce sobre Jesus fornece o elo visual
com Gênesis 1. O verbo usado para "o Espírito de Deus
pairava (merachepheth) por sobre as águas" é também usado
em Deuteronômio (32:11) para uma águia que "voeja" de
forma cuidadosa ou protetora sobre os filhotes em seu
ninho.9 As aves — a águia pairando em Deuteronômio e a
pomba no Evangelho de Marcos — oferecem à nossa
imaginação uma representação do Espírito de Deus.

Nem todos concordam que existe aqui a sugestão de um movimento de pairar
como um pássaro. Alguns estudiosos preferem traduzir a expressão como "uma
tempestade terrível" ou "tempestade de Deus". Gerhard VON RAD



Assim como em Gênesis o fôlego de Deus, que primeiro
se torna visível, imediatamente passa a ser audível na
declaração "Haja ...", em Marcos também se ouve a voz: "Tu
és o meu Filho amado, em ti me comprazo" (Mc 1:11).
Foram muitos os acontecimentos entre Gênesis e a
chegada de Jesus. A criação que surgiu pelo sopro vivificador
de Deus já havia passado por maus bocados. A morte tornouse
fator decisivo — morte, anticriação, a negação da vida, a
eliminação da vida, a inimiga da vida. Na morte não há
energia, nenhum movimento, nenhuma palavra. Mas ela
nunca prevaleceu. A vida — soprada por Deus, articulada por
Deus — sempre sobreviveu e, por vezes, até prosperou. A
medida que a morte se infiltrou no mundo criado,
desenvolveu-se um vocabulário extenso associado a ela para
identificar suas diversas formas, em palavras como "pecado",
"rebelião", "iniqüidade", "perversidade".
A Bíblia apresenta uma longa narrativa da vida
agredida pela morte, mas sempre sobrevivendo a ela. Vemos
Deus constantemente — de maneiras novas e antigas —
soprando vida em sua criação, nessas vidas contaminadas e
assoladas pela morte. Observamos uma trama complexa ao
ler esta história: Deus criando um modo de vida a partir
desse caos e miséria, Deus opondo-se à morte, Deus
soprando vida na criação e nas criaturas, esse sopro de vida
tornando-se audível repetidamente na forma de linguagem. O
vocabulário constituído de palavras de vida opõe-se à morte e
a sobrepuja: palavras como "amor" e "esperança";
"obediência", "fé" e "salvação" ; "graça" e "louvor". Palavras de
aleluia e amém.
O mesmo Espírito de Deus, articulado tão
profusamente em palavras que criam, da informidade, do
vazio e da escuridão, tudo o que há, "céus e terra", peixes e
pássaros, estrelas e árvores, plantas e animais, homem e
mulher, agora desce sobre Jesus, que infundirá palavras de
salvação na realidade do mundo acometido pela morte e
dizimado pelo pecado.
A vida de Jesus soprada por Deus, a pessoa de Jesus
abençoada por Deus começa, nesse momento, a realizar a
consumação da salvação, conquistando a morte.


Atos 2:1-4
Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos
reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu
um som, como de um vento impetuoso, e encheu
toda a casa onde estavam assentados. E
apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como
de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos
ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar
em outras línguas, segundo o Espírito lhes
concedia que falassem.
Mais uma vez, a iniciativa é de Deus. Um terceiro
começo, quando Deus sopra sobre um grupo de 120
seguidores de Jesus e cria a comunidade sagrada, a igreja.
No dia de sua ascensão ao céu, Jesus disse a seus
apóstolos que Deus sopraria vida neles como havia criado o
céu e a terra com seu sopro e como havia soprado sua
bênção sobre o Filho em seu batismo, confirmando e
autorizando nele a consumação da salvação. Uma vez que
tivessem recebido a vida soprada por Deus — "batizados com
o Espírito Santo", conforme Atos 1:5 —, teriam força e
energia para dar continuidade ao que havia sido iniciado pelo
sopro divino: a criação do céu e da terra e o batismo de
Jesus. O termo que ele usou para designar a nova identidade
de seus apóstolos foi "minhas testemunhas" (At 1:8).
Eles creram na promessa. Passaram-na adiante para
outros seguidores de Jesus. Logo, havia um grupo de 120 à
espera do cumprimento dessa promessa. Estavam esperando
que o sopro de Deus na criação do céu e da terra e no
batismo de Jesus também incidisse sobre eles. A espera
durou dez dias.


Quando aconteceu, como não podia deixar de ser,
houve surpresas. A continuidade do sopro vivificador de
Deus na criação em Gênesis e no batismo de Jesus mostrouse
de forma evidente, porém ampliada — o sopro sagrado
tornou-se vento sagrado, "um vento impetuoso": "... de
repente veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e
encheu toda a casa" (2:2). Logo, o vento que encheu toda a
casa também os encheu (v. 4).

Como se não bastasse, outro sinal foi acrescentado, o
sinal do fogo. Aqueles que estavam reunidos ali naquele dia
participaram de uma tradição na qual o fogo, normalmente o
fogo do altar, era associado à presença de Deus — Abraão no
monte Moriá, Arão no tabernáculo, Elias no monte Carmelo.
Neste caso, porém, o fogo não se ateve ao altar, mas foi
distribuído — cada pessoa foi marcada individualmente por
uma língua de fogo, cada um como um altar, ardendo
visivelmente com a presença de Deus.

À medida que o sopro da criação e do batismo de Jesus
cresceu e se transformou em vento, o fogo dos altares de
outrora se multiplicou, transformando-se em fogo
personalizado ardendo sobre cada homem e mulher que
aguardara o cumprimento da promessa, de modo que cada
um passou a ser sinal do Deus vivo, Deus presente.
Então, repetindo o padrão de Gênesis e Jesus, o
sopro/vento, ou seja, a presença de Deus que encheu cada
um, tomou a forma de palavras proferidas por eles. As
línguas de fogo tornaram-se línguas articuladas de fala. O
sopro divino tomou forma de discurso que saiu da boca de
homens e mulheres falando em todas as línguas (são citadas
dezesseis) representadas em Jerusalém naquele dia, sendo
que todas expressaram essencialmente a mesma coisa, a
saber, "as grandezas de Deus" (v. 11).

É evidente que todos ficaram atônitos. A primeira coisa
a chamar a atenção de todos foi o milagre das línguas, o
discurso proveniente de Deus e que dava testemunho de
Deus sendo proferido em (pelo menos) dezesseis línguas
diferentes por homens e mulheres comuns ("galileus", isto é,
gente provinciana que, supostamente, sabia apenas uma ou
duas línguas). A confusão de línguas em Babel (Gn 11)
inverteu-se. O milagre incessante que continua a
surpreender é o fato de o mesmo fôlego (vida) de Deus, que
criou os céus e a terra e validou e abençoou Jesus, ser
soprado em homens e mulheres comuns e articulado em
palavras que continuam a dar testemunho da criação do
mundo e da salvação por meio de Cristo.
ESTES TRÊS TEXTOS FORMAM um tripé, servindo de
base para todos os aspectos da vida — a criação, a salvação e
a comunidade — no Deus que vive e respira. O Deus vivo que
dá vida. Deus Espírito que concede espírito. O Espírito de
Deus não é um coadjuvante na ação central, ele é a ação
central. O Espírito é abrangente. Os três textos também
deixam claro que a linguagem sempre faz parte da criação,
da salvação e da continuação da vida.
Na tradição cristã, o Espírito e a Palavra apresentam
uma ligação orgânica. Não são apenas relacionados ou
complementares; são aspectos da mesma coisa. De tempos
em tempos, há quem procure iniciar formas de
espiritualidade que têm o silêncio como objetivo. Sem dúvida,
há conversa demais em grande parte da religião ou da
espiritualidade. No entanto, esses três textos são
peremptórios: mais cedo ou mais tarde, algo é dito, a
realidade vem a existir pela palavra proferida.
QUATRO TERMOS
Quatro termos fornecem vocabulário comum para a
exploração da natureza e da dinâmica da vida cristã, da
espiritualidade cristã. Os quatro termos trabalham em
conjunto como um quarteto; não há solistas. Todos são
necessários ao mesmo tempo, ainda que, por vezes, um deles
tome a frente por um curto período. A relevância de cada um
é decorrente tanto de como "soa" no conjunto quanto de sua
própria natureza.
Um quarteto de termos: "espiritualidade", "Jesus",
"alma" e "temor-do-Senhor". A "espiritualidade" faz soar a
nota da abrangência — tudo aquilo que homens e mulheres
designam ao falar ou pensar sobre a importância de sua vida,
incluindo tanto Deus quanto o significado pessoal e o
interesse que têm pelo mundo. "Jesus" traz à mente a idéia
de enfoque e particularidade. "Alma" expressa nossa
identidade humana singular. "Temor-do-Senhor" dá o tom e a
cadência que permitem aos quatro termos permanecer
juntos, movendo-se no mesmo ritmo.
Não há nada de esotérico ou obscuro em nenhum
desses quatro termos; todos fazem parte de nosso discurso
comum e podem ser ouvidos em qualquer restaurante, salão
de beleza ou reunião de família. No entanto, são usados em
nossa cultura de maneiras diversas e descuidadas,
normalmente muito distantes do contexto de linguagem em
que se formaram. Como esses termos oferecem um
vocabulário básico nas páginas deste livro, convém
refletirmos sobre como eles soam e suas relações no meio
mais natural, em que ficam mais à vontade, ou seja, na vida
cristã.
Espiritualidade
A "espiritualidade" é uma rede que, quando lançada no
mar da cultura contemporânea, pega uma grande quantidade
de peixes espirituais, não muito diferente da pesca de 153
"grandes peixes" depois da ressurreição, conforme a narrativa
do apóstolo João (Jo 21:11). Hoje em dia, a "espiritualidade"
tornou-se importante negócio para os empreendedores, uma
recreação para os entediados e, para outros, muitos ou
poucos (é difícil discernir), um compromisso sério e
disciplinado de viver profunda e plenamente um
relacionamento com Deus.
Em outros tempos, o termo era usado exclusivamente
em contextos religiosos; agora, é empregado de forma
indiscriminada por gente de todo tipo, em quaisquer
circunstâncias e com toda espécie de significados. Essa
palavra, outrora pura, foi arrastada para a vala comum do
mercado e do entretenimento. Muitos lamentam esse fato,
mas não sei ao certo se o lamento é a reação apropriada.
Precisamos de um termo assim.


A tentativa de resgatar o uso exclusivamente cristão ou
religioso do termo normalmente começa com uma definição.
No entanto, os numerosos esforços para apresentar
definições de "espiritualidade" são fúteis. O termo foge à
disciplina do dicionário. A utilidade atual dessa palavra não
se encontra em sua precisão, mas na maneira como ela dá
nome a algo indefinível, porém bastante reconhecível —
transcendência vagamente entretecida com intimidade.
Transcendência: uma noção da existência de algo mais, de
que a vida se estende muito além de mim, além do salário
que recebo, além daquilo que minha esposa e meus filhos
pensam de mim, além de meu nível de colesterol. Intimidade:
percepção de que, nos recônditos de meu ser, há um cerne
inacessível à sondagem dos psicólogos ou aos exames dos
médicos, às perguntas de pesquisadores, às estratégias de
anunciantes. Apesar de o termo "espiritualidade" não ser
preciso, tem uma abrangência que reconhece uma ligação
orgânica entre esse "além" e esse "íntimo" que fazem parte da
experiência de todos.
Precisamos de um termo amplo que reúna tudo o que
indique o além e o íntimo, um termo que seja
indiscriminadamente abrangente: "espiritualidade".
EM TERMOS HISTÓRICOS, a palavra "espiritualidade"
é relativamente recente, e apenas há pouco tempo se tornou
parte da linguagem cotidiana. O apóstolo Paulo usou o
adjetivo "espiritual" (pneumatikos) para se referir a ações ou
atitudes decorrentes da obra do Espírito Santo em todos os
cristãos.10 Foi somente mais tarde, na igreja medieval e,
principalmente, no contexto do monasticismo, que esse
termo começou a ser usado para indicar um modo de vida
restrito à elite do cristianismo, àqueles que operavam em um
nível mais elevado do que o dos cristãos comuns.
A vida dos cristãos "espirituais", em sua maioria
monges e freiras sob votos de celibato, pobreza e obediência,
contrastava com a vida desregrada de homens e mulheres
que se casavam e tinham filhos, que sujavam as mãos nos
campos e mercados num mundo onde "tudo é marcado pelo
comércio; turvado, maculado pelo labor; / tudo carrega a
mácula do homem e exala o cheiro do homem".11 Assim, o
termo "espiritualidade" passou a ser usado para designar o
estudo e a prática de uma vida perfeita diante de Deus, de
santidade extraordinária na vida cristã. Era uma palavra
especializada, associada a um pequeno grupo de pessoas e,
portanto, não fazia parte da linguagem cotidiana.
De certo modo, essa palavra entrou para a linguagem
coloquial pela porta dos fundos. Um movimento que se
desenvolveu na França do século XVII entre católicos leigos
que defendiam a idéia — então considerada radical — de que
os monastérios não detinham o monopólio da vida cristã
vivida de forma correta. Argumentavam que o cristão comum
era plenamente capaz de viver a vida cristã como qualquer
monge ou freira — e de fazê-lo igualmente bem. Madame
Guyon e Miguel de Molinos, vozes proeminentes desse
movimento, foram calados pelas autoridades eclesiásticas,
que condenaram suas crenças, taxando-as de "quietismo".
A instituição religiosa, com toda presunção, usava o
termo ''la spiritualité" de forma pejorativa para os leigos que
praticavam a devoção com intensidade excessiva; um
desprezo esnobe da parte de cristãos arrogantes que não
sabiam o que estavam fazendo, escrevendo, pensando e
praticando. Era mais conveniente deixar esses assuntos nas
mãos de especialistas. Mas a tentativa da igreja oficial de
calar esses indivíduos veio tarde demais; um processo
irreversível já estava em andamento.
Não tardou, porém, para que a palavra perdesse seu
tom pejorativo. Entre os protestantes, a seriedade espiritual
voltada para os leigos passou a ser expressada pelos
puritanos como "piedade"; pelos metodistas como "perfeição";
e pelos luteranos como "pietismo". Em nosso tempo,
"espiritualidade", esse termo indefinido e vagamente
abrangente, é designação corrente e aceita por todos. Hoje
em dia, qualquer um pode ser espiritual.
É curioso notar que alguns "especialistas" atuais em
religião voltaram a usar o termo de forma depreciativa. Tendo
em vista o tom de modismo e o uso amplamente difundido
desse termo por homens e mulheres considerados por
membros credenciados da instituição religiosa como sendo
iludidos, ignorantes e indisciplinados, alguns profissionais
estão voltando a assumir uma postura de superioridade em
relação à espiritualidade em suas formas populares.
O CERNE DE TODA espiritualidade séria é viver —
viver bem e plenamente. Nas três línguas originais —
hebraico, grego e latim —, "espírito" tem o significado
essencial de fôlego, e pode ser usado facilmente como
metáfora para a vida. Essa palavra aparece de modo
proeminente em duas histórias (de Nicodemos e da mulher
samaritana) e em três textos (Gênesis, Marcos e Atos) que
determinam o tom de nossa conversa. Em cada um desses
casos, "espírito" se refere ao Espírito de Deus: Deus vivo,
Deus criando, Deus salvando, Deus abençoando. Deus vive e
dá vida. Deus vive e transborda de vida. Deus vive e permeia
tudo o que vemos, ouvimos, provamos e tocamos, tudo o que
experimentamos.
Neste momento de nossa história, "espiritualidade"
parece ser o termo predileto para se referir a essa teia
enorme e complexa de "vivências". Pode não ser o mais
adequado, mas é o que temos. Sua principal fraqueza reside
no fato de que seu significado foi corrompido e se
transformou numa abstração, apesar de ser possível perceber
a metáfora "fôlego" logo abaixo da superfície. Como
abstração, "espiritualidade" muitas vezes torna mais confuso
exatamente o sentido que deve transmitir — Deus vivo, ativo
e presente.


A dificuldade está no fato de o termo ter sido
amplamente seculariza-do em nossa cultura e, em
decorrência disso, reduzido ao significado de "vitalidade",
"energia concentrada", "fontes ocultas de superabundância"
ou "uma força vital interior". Para a maioria das pessoas, não
transmite nenhuma percepção da vida de Deus: Espírito de
Deus, Espírito de Cristo, Espírito Santo. Quanto mais a
palavra é secularizada, menos proveito ela tem. Ainda assim,
é dela que dispomos e, como acontece com muitas palavras
destruídas ou dissecadas (como, por exemplo, "casamento",
"amor", "pecado" e assim por diante), ela exige uma constante
reabilitação. A meu ver, o melhor é usá-la o mínimo possível
— seguindo o precedente das Escrituras que mostram
aversão a qualquer tipo de abstração — e dar preferência a
histórias e metáforas que nos mantêm envolvidos e
participando do que se encontra bem diante de nossos olhos.
A imprecisão difícil dessa palavra serve de disfarce
conveniente para a idolatria. A idolatria, a redução de Deus a
um conceito ou objeto que podemos usar em benefício
próprio, é endêmica à condição humana. Enquanto a palavra
tem conotações de sinceridade e anseio por tudo o que é
bom, é fácil e comum ver motivações idólatras se ligarem a
ela discreta e despretensiosamente e nos envolverem em
formas incapacitantes de viver e pensar.
Os equívocos superficiais podem ser colocados de lado
sem dificuldade: a espiritualidade não é algo imaterial em
contraste com o material; não é interior, em contraste com
exterior; não é invisível em contraste com visível. Muito pelo
contrário: a espiritualidade é intimamente ligada àquilo que é
material, exterior e visível. A idéia transmitida por ela
corretamente é de algo vivo, em contraste com algo morto.
Quando sentimos que não há vida em coisas e pessoas,
instituições e tradições, mais cedo ou mais tarde (às vezes,
leva algum tempo) percebemos a ausência. Procuramos uma
palavra de categorização dentro da qual possamos espremer
insights, imagens e desejos para os quais não temos
designação exata. "Espiritualidade" é um termo adequado
para essa categorização.
O uso freqüente dessa palavra como expressão geral é
compreensível numa sociedade em que somos
despersonalizados, funcionalizados e psicologizados de várias
maneiras. A particularidade de cada vida é obscurecida por
abstrações redutoras. A vida escoa lentamente de nós e nos
vemos tratados como objetos, papéis, imagens, potencial
econômico, mercadorias, consumidores. Apesar de a vida
diária ser grandemente simplificada e facilitada por essas
reduções, algo em nós se rebela, mesmo que aos trancos e
barrancos. Pelo menos de vez em quando, quase todos
sentimos que há algo mais, algo imensamente maior.
Precisamos de uma palavra, qualquer palavra, para dar nome
àquilo de que sentimos falta.
Mas, se vamos usar esse termo, e é difícil pensar em
como poderíamos evitá-lo, nosso uso deve ser marcado por
vigilância e atenção. Vigilância: discernir a
"desespiritualização" da espiritualidade, ficando alertas e
dando nomes às muitas e variadas maneiras como caímos
nos laços do inimigo para sermos "como Deus" (Gn 3:5). Essa
vigilância é mantida principalmente por meio de leitura
contínua e cuidadosa das Escrituras Sagradas.
E atenção: observar as muitas e generosas maneiras
como Deus dá, renova e abençoa a vida. Reparar e depois
insistir no fato de que tudo nessa criação é digno de ser
vivido. A principal forma de cultivar essa atenção é o culto
em comunidade e a oração pessoal.
Não me incomodo de trabalhar no campo da
espiritualidade com tudo o que é colocado diante de mim, por
mais vago e confuso que seja. No entanto, me preocupo em
oferecer o máximo de clareza e foco possível pela
identificação da vida — vida em sua totalidade, proveniente
de Deus, mantida e abençoada por ele: "Andarei na presença
do Senhor, na terra dos viventes" (Sl 116:9).
Jesus
Se a utilidade do termo "espiritualidade" está em poder
sugerir de modo vago, porém abrangente, tudo o que é
relacionado a "além", "mais" e "íntimo", o termo "Jesus" é útil
porque reúne toda a imprecisão difusa num foco restrito,
definido e repleto de luz, pois na visão cristã a vida não é, de
modo algum, imprecisa (apesar de envolver um bocado de
ambigüidade!). A espiritualidade jamais será um assunto que
podemos tratar como "uma coisa em si". É sempre uma
operação de Deus pela qual a vida humana é atraída para
dentro da vida de Deus, da qual somos feitos participantes,
quer como amantes rebeldes quer como rebeldes.
A comunidade cristã se interessa pela espiritualidade
porque está interessada em viver. Nos preocupamos com a
espiritualidade porque sabemos, como resultado de longa
experiência, como é fácil nos envolvermos com idéias sobre
Deus e projetos para ele e, aos poucos, deixarmos de nos
importar com o Deus vivo, amortecendo nossa vida com
essas idéias e projetos. Isso acontece com freqüência. Como o
nome de Deus é associado às idéias e projetos, é fácil
pressupor que estamos envolvidos com Deus. O trabalho do
diabo é nos encorajar a pensar e agir para Deus e, então, nos
afastar sutilmente de uma relação de obediência e adoração,
colocando a nós mesmos, nosso próprio ego, no lugar antes
ocupado por Deus.
Jesus é o nome que nos mantém atentos para a vida
definida e revelada por Deus. Com esse nome, a fraqueza
amorfa comumente associada à "espiritualidade" recebe
esqueleto, tendões, definição, forma e energia. Esse é o nome
próprio de uma pessoa que viveu num tempo datável, num
lugar real, com montanhas que ainda podemos escalar, flores
do campo que ainda conseguimos fotografar, cidades onde
ainda compramos tâmaras e romãs, água que ainda temos
possibilidade de beber e nas quais podemos ser batizados.
Esse nome, assim, opõe-se à abstração que assola como
praga a "espiritualidade".
Jesus é a figura central e definidora na vida espiritual.
Sua vida é, justamente, revelação. Ele traz à luz aquilo que
jamais teríamos entendido sozinhos, que sequer teríamos
imaginado em um milhão de anos. Ele é Deus entre nós:
Deus falando, agindo, curando, ajudando. E o termo mais
amplo em que tudo isso se encaixa é "salvação". O nome
"Jesus" significa "Deus salva" — Deus presente e operando,
salvando em nossa língua e em nossa história.


Apoiados por um contexto abrangente fornecido pelos
profetas e poetas de Israel, os quatro autores dos evangelhos
nos dizem tudo que precisamos saber a respeito de Jesus. E
Jesus nos diz tudo que precisamos saber a respeito de Deus.
Ao lermos, meditarmos, estudarmos esses evangelhos;
quando cremos neles e oramos sobre eles, descobrimos que
tanto as Escrituras, como um todo, quanto a vida espiritual,
em sua totalidade, são acessíveis e se encontram claramente
diante de nós, na presença convidativa de Jesus de Nazaré, o
Verbo que se fez carne.
Quando, porém, os quatro evangelistas apresentam
Jesus num contexto extremamente real, não muito diferente
do que encontramos nas cidades grandes e regiões rurais
onde vivemos, e ao mesmo tempo que o fazem com um
vocabulário e sintaxe semelhantes à linguagem que usamos
ao nos sentarmos à mesa para jantar ou quando saímos para
fazer compras, eles não satisfazem nossa curiosidade — há
muita coisas que eles não contam. Há muito mais que
gostaríamos de saber. Nossa imaginação anseia por fornecer
os detalhes. Qual era a aparência de Jesus? Como foi sua
fase de crescimento? Como seus amigos de infância o
tratavam? O que ele fez durante os anos em que crescia,
trabalhando como carpinteiro?
Na verdade, não demoraram a entrar em cena
escritores extremamente dispostos a satisfazer nossa
curiosidade, a nos dizer como Jesus era de fato. Até hoje,
continuam surgindo pessoas com essa disposição. Mas é de
conhecimento geral que as "biografias" de Jesus — recriações
fantasiosas de sua vida com todas as influências da infância,
nuanças emocionais, fofocas da vizinhança, incluídos os
elementos sociais, culturais e políticos — são insatisfatórias.
Ao que parece, o que sempre obte-mos com esses exercícios
de imaginação não é o Jesus que nos revela Deus, mas um
Jesus que desenvolve algum ideal ou justifica alguma causa
do autor. Quando terminamos o livro, descobrimos que
temos menos de Jesus, e não mais.
Esse anseio por saber mais sobre Jesus do que os
escritores dos evangelhos canônicos escolheram nos contar
surgiu logo no início do século II. As primeiras pessoas a
preencher as lacunas da história tinham uma imaginação
maravilhosa, mas ficavam devendo em veracidade; não
avisavam que os detalhes complementares tão interessantes
eram produto dessa imaginação. Alguns deles escreveram
sob pseudônimos apostólicos a fim de dar autoridade às suas
invenções. Outros declararam ter sido inspirados pelo
Espírito Santo na redação de suas ficções. Pouco tempo
depois, a igreja começou a se cansar dos remendos
fantasiosos e das expansões criativas sobre Jesus e resolveu
pôr um ponto final nas especulações. Os líderes da igreja
comunicaram sua decisão: os evangelhos de Mateus, Marcos,
Lucas e João são a última palavra sobre Jesus. Não há nada
mais a dizer sobre o assunto.
A proibição de inventar novas histórias e declarações
relacionadas a Jesus não foi, como sugerem alguns, de
caráter repressivo. Antes, libertou nossa imaginação para
fazer o correto, a saber, seguir o exemplo de Maria, a mãe de
Jesus, e refletir sobre Jesus em nosso coração (Lc 2:19,51);
pela meditação, nos colocarmos na presença de Jesus
conforme ele é apresentado pelos evangelistas ou
visualizarmos as situações nas quais o encontramos e o
rejeitamos ou nele cremos novamente. E é isso que temos
feito desde então por meio de sermões e estudos bíblicos,
histórias e poemas, em peregrinação e em silêncio, em hinos
e orações, em atos de obediência e no serviço em nome de
Jesus.
É essencial que honremos essa discrição dos autores
dos evangelhos. A espiritualidade não é aprimorada por
especulações. A vida cristã não nos dá o direito de nos
entregarmos a fantasias piedosas.
Ao aceitar Jesus como revelação final e definitiva de
Deus, a igreja cristã torna impossível criarmos nossas
próprias variações personalizadas da vida espiritual sem
sofrer nenhuma conseqüência, apesar de continuarmos
tentando fazer isso. Não podemos, contudo, nos desviar dele
nem nos afastar dele: Jesus é a encarnação de Deus, é Deus
entre nós e conosco. Jesus reuniu as palavras divinas
proferidas para e por meio do povo de Deus, transmitidas a
nós pelas Escrituras Sagradas. Ele as proferiu pessoalmente
para nós. Ele realizou as obras divinas de cura e compaixão,
perdão e salvação, amor e sacrifício entre nós, homens e
mulheres com nomes próprios e histórias próprias.
Pelo fato de Jesus ter nascido em Belém, crescido em
Nazaré, reunido discípulos na Galiléia, cultuado em
sinagogas, feito refeições em Betânia, comparecido a um
casamento em Caná, contado histórias em Jericó, orado no
Getsêmani, descido o monte das Oliveiras à frente de uma
multidão, ensinado no templo, crucificado no monte Gólgota
e, três dias depois, jantando com Cléopas e seus amigos em
Emaús, não temos liberdade de criar espiritualidades
particulares; sabemos demais sobre a vida dele, sobre a
espiritualidade dele. A história de Jesus nos dá acesso a uma
infinidade de episódios e palavras específicos com lugares,
horas e nomes, todos eles combinados e entretecidos,
formando uma revelação coerente de quem Deus é, de como
ele age e daquilo que ele diz.
Jesus nos impede de pensar que a vida é feita de idéias
a serem ponderadas ou conceitos a serem discutidos. Ele nos
poupa de desperdiçar nossa existência em busca de emoções
baratas e distrações banalizadoras. Jesus nos dá a
capacidade de levar a sério quem somos e onde estamos sem
nos seduzirmos pelas mentiras e ilusões intimidantes
encontradas por toda parte, de modo que não precisamos ser
outra pessoa ou estar em algum outro lugar. Jesus mantém
nossos pés no chão, cuidando das crianças, conversando
com pessoas comuns, compartilhando refeições com amigos e
desconhecidos, ouvindo o vento, observando as flores do
campo, tocando enfermos e feridos, orando de forma simples
e espontânea. Jesus insiste que tratemos com Deus aqui e
agora, no lugar onde estamos e com as pessoas que nos
cercam. Jesus é Deus aqui e agora.
É FUNDAMENTAL PARA a fé cristã a afirmação de que
Jesus é, de fato, Deus entre nós. Por mais difícil de acreditar
e impossível de imaginar que seja, os cristãos crêem nisso.
Toda a obra complexa da salvação desde "antes da fundação
do mundo" (Ef 1:4) é reunida e consumada no nascimento,
na vida, na morte e na ressurreição de Jesus — um milagre
de proporções espantosas e sem precedentes. Reconhecemos
tudo isso quando, seguindo o exemplo do apóstolo Pedro,
acrescentamos o título "Cristo" ao nome de Jesus: Jesus
Cristo. Cristo: o ungido de Deus, Deus entre nós para nos
salvar dos nossos pecados, Deus falando a nós na mesma
linguagem que aprendemos no colo de nossa mãe, Deus nos
ressuscitando dos mortos para a vida real e eterna.
Ao contrário do que se poderia supor, o mais difícil não
é crer que Jesus é Deus entre nós. Na verdade, o mais difícil
é crer que a obra de Deus — esta criação fascinante, esta
salvação surpreendente, esta efusão de bênçãos — está se
realizando dentro das condições de nossa humanidade e sob
essas condições: em piqueniques e ao redor de mesas de
jantar, em conversas e enquanto andamos pelas estradas, em
perguntas cheias de perplexidade e em histórias simples,
com mendigos, cegos e leprosos supurantes, em casamentos
e funerais. Tudo que Jesus diz e faz ocorre dentro dos limites
e das condições da nossa humanidade. Sem fogos de artifício,
sem efeitos especiais. É certo que há milagres, e muitos. Mas
pelo fato de, em sua maioria, fazerem parte das coisas
quotidianas, são poucos os que conseguem vê-los. A natureza
miraculosa do milagre é obscurecida pela familiaridade do
cenário, pela trivialidade das pessoas envolvidas.
JESUS CONTINUA SENDO Deus entre nós dessa
forma. E é isso que continua sendo tão difícil de acreditar. É
difícil crer que essa obra maravilhosa de salvação está se
desenrolando em nossas vizinhanças, em nossas famílias, em
nossos governos, em nossas escolas e empresas, em nossos
hospitais, nas estradas em que dirigimos, nos corredores em
que andamos, entre as pessoas cujo nome sabemos. A
trivialidade de Jesus foi um grande empecilho para a crença
em sua identidade e sua obra nos dias em que ele "veio em
carne", e continua sendo hoje em dia.


Num episódio relatado pelo apóstolo João, o povo que
ouviu Jesus pregar uma mensagem extremamente
impressionante e espantosa na sinagoga de Cafarnaum — na
qual ele ofereceu seu corpo e sangue como alimento para a
vida eterna — não creu no que ele disse porque ele não
parecia tão impressionante. Chamaram-no desdenhosamente
de "este" (Jo 6:52). Tendo em vista a tentativa anterior de
desabonarem sua declaração extraordinária ("Eu sou o pão
que desceu do céu", v. 41), chamando a atenção para sua
humanidade inequívoca ("Não é este Jesus, o filho de José?
Acaso, não lhe conhecemos o pai e a mãe?", v. 42), a
designação "este" tem a conotação clara de "este joãoninguém".
De repente, muitos seguidores de Jesus deixaram
de crer nele — não conseguiram conciliar seus milagres e sua
mensagem com a forma nada impressionante "deste" que
estava diante de seus olhos. Sua pergunta retórica "Quem o
pode ouvir [crer]?" (v. 60) exigia uma resposta negativa: "Nós
não podemos".
Jesus traz à tona essa corrente subjacente de
dissensão: "Isto vos escandaliza? Que será, pois, se virdes o
Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava? O
espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita" (v. 61-
63). Em outras palavras, "Qual é o problema? Se me vissem
levitar aqui diante de seus olhos e subir ao céu, então
creriam no que estou lhes dizendo? Provavelmente sim, mas
quem dá vida é o espírito, que é semelhante ao vento, e não a
carne, não as maravilhas sobrenaturais". Mais uma vez, o
Espírito. Essa palavra-chave nas conversas anteriores com
Nicodemos e a samaritana marca o meio silencioso e com
freqüência oculto pelo qual Deus opera sua salvação em
nosso mundo.
Eles não se impressionaram. Deixaram de ser seus
seguidores e partiram: "À vista disso, muitos dos seus
discípulos o abandonaram e já não andavam com ele" (v. 66).
À vista de quê? À vista do fato de Jesus ser tão obviamente
humano — tão comum, tão sem carisma, tão
desinteressante, tão cotidianamente humano.
Jesus pergunta aos doze se também pretendem
abandoná-lo. Aqui, o apóstolo João registra a resposta do
apóstolo Pedro, o momento culminante da passagem:
"Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida
eterna [...] tu és o Santo de Deus" (v. 68-69). Pedro chegou ao
ponto em que todos devemos chegar a fim de continuar
seguindo Jesus: ele não impôs sobre o Mestre próprias idéias
ou ambições de como Deus deve operar; antes, mostrou-se
disposto a deixar que Jesus fizesse as coisas à sua maneira,
como homem.
A ameaça constante à experiência da vida real, da vida
autêntica, verdadeira e honesta é evitar ou descartar "este
homem", esse Jesus, essa maneira trivial como ele vem até
nós e essas pessoas vulgares com as quais ele anda para, em
nossa pretensão, tentarmos ser nosso próprio deus ou criar
um deus ou deuses glamorosos que satisfaçam nossa
vaidade.12 Em se tratando do relacionamento com Deus,
quase todos nós gastamos tempo considerável em tentativas
de ser deuses ou criá-los. Jesus é o empecilho. Jesus não é
um deus segundo os nossos padrões e, certamente, não é um
deus criado para se sobressair numa pesquisa de opinião
pública.

Alma

Quando passamos a olhar para nós mesmos e para os
homens e mulheres com quem trabalhamos "de acordo com
as Escrituras", nossa identidade central se manifesta como
pessoas de relacionamentos. Cada indivíduo é uma criatura
singular feita "à imagem de Deus". Essa expressão, quaisquer
que sejam seus outros significados, transmite uma idéia de
imensa dignidade e de caráter completamente relacional.


A reflexão de Lesslie NEWBIGIN sobre a passagem é incisiva: "A incredulidade
brota do desejo de uma religião mais 'espiritual'. A 'carne' de Jesus 3/4 a
humanidade concreta do Filho do homem 3/4 é a pedra de tropeço, pois não
permite o tipo de 'espiritualidade' que deixa cada indivíduo livre na privacidade de
seus próprios pensamentos para se dedicar à 'verdade' conforme ele próprio a
descobriu. Esse tipo de 'religião espiritual' é exatamente 'a carne' na linguagem
bíblica. É incredulidade e está presente no meio dos discípulos" (The Light Has
Come.



A palavra que define isso é "alma".13 É o termo mais
pessoal que possuímos para definir quem somos. O termo
"alma" é uma afirmação de inteireza, a totalidade daquilo que
significa ser humano. "Alma" é uma barreira contra a
redução, contra a vida humana reduzida à biologia e aos
órgãos genitais, à cultura e à utilidade, à raça e à etnicidade.
Indica uma interioridade que permeia toda a exterioridade,
uma invisibilidade que reside em toda visibilidade. O termo
"alma" ressoa como algo criado por Deus, mantido por Deus,
abençoado por Deus. É a palavra mais abrangente da qual
dispomos para designar o cerne do ser de homens e
mulheres.
Na língua hebraica, "alma" (nephesh) é uma metáfora,
usada para designar "pescoço". O pescoço é a parte estreita
da anatomia que liga a cabeça — o centro da inteligência e do
sistema nervoso — ao restante do corpo; é a parte que,
literalmente, nos mantém "inteiros". Em termos físicos, a
cabeça é mais alta que o tronco, pelo menos quando estamos
em pé; e, assim, nos referimos por vezes às funções
"superiores" pensar, ver, ouvir e provar, em contraste com as
funções "inferiores" da digestão e excreção, transpiração e
cópula.
Mas, se existem aspectos superiores e inferiores na
vida humana (duvido que seja o caso), não se pode dizer que
são independentes uns dos outros. A ligação entre eles é feita
pelo pescoço. No pescoço fica a passagem estreita pela qual o
ar vai da boca para os pulmões e volta quando falamos, como
fôlego, espírito, vida soprada por Deus. É o conduto para
todo o sistema nervoso que se origina e se ramifica do
cérebro. E é onde se localiza a importante veia jugular, uma
região extremamente vulnerável de 7 a 10 centímetros por
onde o sangue flui em proximidade perigosa com a superfície
da pele.


Infelizmente, a palavra "alma" se deteriorou na linguagem popular,
comunicando um tipo de abstração "espiritual" da vida real, algo indefinido,
etéreo e sobrenatural, distante das coisas do cotidiano. No entanto, é uma palavra
boa demais para ser abandonada aos bárbaros. As associações ricas que se
acumularam entre nós durante séculos de leitura das Escrituras e conversas
entre cristãos precisam ser preservadas.



O que mantém tudo isso unido é a alma, nephesh. Sem
a alma, seríamos uma confusão de partes desconexas,
massas informes de protoplasma. Nosso entusiasmo
moderno pela análise e dissecação à procura daquilo que nos
faz funcionar não é bíblico. As Escrituras têm outra
abordagem; transmitem um senso de totalidade criada. Os
hebreus tinham um talento extraordinário para metáforas, e
"alma" é uma das melhores. Existem vários sinônimos de
"alma" — coração, rins, lombo — acumulando metáforas que
intensificam a sensação de interioridade e profundidade. Mas
o termo central é "alma".
A palavra "alma" funciona como um ímã, atraindo
todas as partes de nossa vida para a unidade, a totalidade. A
pessoa humana é uma totalidade ampla, designada como
"alma".14 O relato bíblico que apresenta essa metáfora em
Gênesis 2 deixa claro que o fôlego que passa pelo pescoço/
alma é o fôlego de Deus. Se o fôlego de Deus se vai, o ser
humano se vai. Sem Deus, não há nada em nós.
Quase todas as línguas têm uma palavra ou palavras
semelhantes a esta, palavras que procuram expressar o que o
ser humano é de modo único e abrangente. Em termos
bíblicos, essa "abrangência" inclui Deus e todas as operações
divinas em homens e mulheres. A maior parte do que nos
torna humanos é Deus. Quando dizemos "alma", estamos
chamando a atenção para as origens, intenções e operações
divinas que fazem de nós aquilo que somos. É o termo mais
pessoal e abrangente para o que somos — homem, mulher e
criança.
Mas em nossa cultura, atualmente, a "alma" deu lugar
ao "eu" como termo preferível para designar quem e o que
somos. O "eu" é a alma sem Deus; é aquilo que resta da alma
quando se remove toda a transcendência e intimidade; é o
ser interior com pouca ou nenhuma relação com Deus
(transcendência) ou com os outros (intimidade).

• "Eu" é uma palavra pobre, uma palavra ilusória.
• "Alma" é uma palavra vibrante de relacionamentos:
com Deus, com os outros, com a Terra.
• "Eu", tanto na linguagem comum quanto no
vocabulário científico, é principalmente um termo isolante: o
indivíduo.
• A "alma" penetra além das aparências superficiais
fragmentárias, afirmando uma intimidade e afinidade com
todas as pessoas próximas e tudo que esteja à mão.

Johannes PEDERSEN apresenta um estudo extenso sobre a visão hebraica de
que "em sua essência total, o homem é uma alma". Ver Israel: Its Life and Culture.



Quando "alma" e "eu" exercem função de adjetivos, o
contraste é mais claro: dizer que alguma coisa é "da alma"
transmite a sensação de algo inerente e relacional, que vai
fundo, sondando as fontes subjacentes de motivações, como
a "música que vem da alma", "os olhos que refletem a alma",
"abrir a alma"; o que é centrado no "eu"; por sua vez, lembra
egoísmo, insensibilidade e individualismo — uma vida
superficial e artificial.
Ao colocarmos as duas palavras lado a lado, nos damos
conta de que um aspecto fundamental de nossa identidade é
atacado diariamente. Vivemos numa cultura que colocou o
"eu" no lugar da alma; é uma redução que transforma as
pessoas em indivíduos problemáticos ou consumidores. À
medida que aquiescemos com essa substituição, regredimos
lenta, porém certamente, em nossa identidade, pois
acabamos pensando em nós mesmos e nos outros em termos
de mercado: cada pessoa com a qual nos encontramos é um
possível recruta para nosso empreendimento ou um
consumidor potencial para o que estamos vendendo; ou,
ainda, nós mesmos somos recrutas e consumidores em
potencial. Nossos amigos e nós mesmos não temos nenhuma
dignidade inerente, pelo que somos, mas apenas em função
de como podemos ser usados.
Duas palavras muito usadas hoje em dia são
sintomáticas da redução da alma para o "eu" em nossa
sociedade. A primeira é "recurso", empregada com freqüência
para pessoas que podem nos ajudar em nosso trabalho.
Ainda me lembro de como essa palavra me pareceu
dissonante na primeira vez em que a ouvi sendo usada com
esse sentido, uns quarenta anos atrás, por um homem que
me orientava no desenvolvimento de uma congregação. Ele
insistia que eu identificasse "recursos humanos" para usar
no meu trabalho. Percebi logo que ele também considerava o
conselho da igreja, o comitê de finanças e o comitê de
planejamento como "recursos" a nosso dispor.
No entanto, um "recurso" identifica algo ou alguém a
ser usado. Não tem nada de pessoal — é uma coisa, um
negócio, uma função. Se o termo for usado com freqüência
suficiente, começará a mudar a maneira como vemos uma
pessoa. Imagino que a expressão teve origem numa metáfora
inocente e, como tal, se mostrou bastante útil. Quando se
torna habitual, porém, corrói nossa percepção do outro como
alma — alguém de cerne relacional e dimensão divina.
A outra palavra é "disfuncional". É assustador como as
pessoas são chamadas com freqüência de disfuncionais:
famílias disfuncionais, líderes disfuncionais, relacionamentos
disfuncionais, políticos disfuncionais. Porém, esse não é um
termo pessoal, mas mecânico. Máquinas são disfuncionais,
almas não; bicicletas são disfuncionais, crianças não;
bombas d'água são disfuncionais, cônjuges não. O uso
constante e impensado dessa palavra corrói o nosso senso de
valor e dignidade inerentes às pessoas com as quais nos
encontramos e trabalhamos, por mais confusas que sejam.
Em se tratando do uso das palavras, todo cuidado é
pouco; começamos usando as palavras e acabamos sendo
usados por elas. Nossa imaginação se torna insensível. Afinal
de contas, tratamos apenas de superfícies, funções, papéis.
Em nossa cultura, atualmente, todos nós descobrimos
que somos estudados, designados e tratados como funções e
coisas. "Consumidor" é o termo geral empregado para a
maneira como somos vistos. Desde a mais tenra infância,
somos considerados indivíduos com capacidade de comprar,
desempenhar um papel ou ter determinado uso. Os
anunciantes começam a nos dirigir suas propagandas nesses
termos a partir do momento que somos capazes de escolher o
tipo de biscoito ou doce preferido.
Para as pessoas criadas na cultura americana, é
inevitável adquirir inconscientemente essa forma de olhar
para todos em redor. Outros indivíduos são consumidores em
potencial para aquilo que estou vendendo; alunos para o que
estou lecionando; recrutas para o que estou fazendo; um
eleitorado para o que estou propondo; recursos para o que
estou construindo ou formando; clientes para os serviços que
estou oferecendo. Ou, invertendo os elementos, eu me
identifico como comprador, aluno, recruta, recurso, cliente
em potencial e assim por diante. De um jeito ou de outro,
não passa de consumismo.
Até certo ponto, não tenho nenhuma queixa contra
esse sistema. Preciso de coisas, e outras pessoas oferecem
aquilo de que preciso; pago e desfruto de bom grado das
vantagens do que está sendo oferecido, comida, roupa,
informação, assistência médica ou legal, liderança numa
causa importante para mim, defesa em questões de justiça e
direito. Não me importo de ser consumidor nesta economia
capitalista em que há tanto a se consumir.
Porém... não desejo ser apenas um consumidor. Não
desejo nem mesmo que esta seja minha característica
predominante. Ser reduzido a consumidor é deixar de fora a
maior parte do que sou, do que forma a minha essência. Ser
tratado como consumidor é ser reduzido a serviço ou produto
para o benefício de outros. Não faz muita diferença se esse
uso se dá no contexto de uma causa generosa ou egoísta; de
uma forma ou de outra, é uma redução. O consumismo
generalizado resulta numa despersonalização geral. E toda
vez que a despersonalização toma conta, a vida se esvai.
Mas as almas não são peneiras; elas transbordam de
vida: "Bendize, ó minha alma, ao Senhor"!
Temor-do-Senhor
Por fim, precisamos de um termo comum e abrangente
para nos referirmos à maneira como vivemos a vida espiritual
— não apenas aquilo que fazemos e dizemos, mas o modo
como agimos, falamos. Como podemos viver adequadamente
neste mundo que nos foi revelado em Jesus Cristo?
Trata-se de uma pergunta que precisa ser adiada pelo
maior tempo possível. A maior parte da vida cristã (e a
teologia espiritual é responsável por manter a vigilância
nesse aspecto) envolve a prática de atentar para quem Deus é
e o que ele faz. No entanto, essa observação não pode se ater
apenas a quem e o que, devendo estender-se ao como, aos
meios que Deus emprega para realizar seus fins. Se nos
preocupamos excessiva e prematuramente com aquilo que
nós fazemos e somos, perdemos inteiramente o rumo. Ainda
assim, fazemos parte disso e precisamos de um termo que
identifique o lado humano da espiritualidade, que designe o
modo como atravessamos esse campo minado tão complicado
que é o mundo no qual vivemos a vida cristã. Porém,
precisamos de um termo que não nos transforme no centro
da questão. (As palavras mais correntes entre nós tendem a
enfatizar o que iniciamos e realizamos: disciplina espiritual,
piedade, prática devocional, hora silenciosa e assim por
diante.) Deve ser também um termo que não contribua para
a dicotomização da espiritualidade entre a parte de Deus e a
parte do homem.
Esta pergunta — "Qual é nossa parte nisso?" — exige
uma resposta extremamente cautelosa. Vemos como é
essencial usar o termo certo quando olhamos ao nosso redor
e nos damos conta do volume incrível de absurdo, sordidez,
maldade e estupidez que se acumulam sob o teto de
empreendimentos dedicados a dirigir e motivar as pessoas a
servir a Deus, enquanto nossos "líderes" nos dizem o que
fazer e o que falar a fim de nos considerarmos,
distintivamente, povo de Deus. Tendo em vista a freqüência
com que homens e mulheres distorcem as palavras e obras
de Deus, pode parecer melhor não fazer nada — apenas sair
do caminho e deixar tudo ao encargo de Deus.
Alguns mestres formularam exatamente essa resposta,
levando a idéia a sério: quanto menos fizermos para Deus,
melhor; damos mais espaço para Deus fazer algo por nós —
afinal, é isso que importa de fato.15 No entanto, para quase
todos nós, não parece um conselho adequado. Temos a
sensação de que, de uma forma ou de outra, precisamos nos
envolver com o que Deus faz; queremos nos envolver,
queremos fazer algo. Mas o que podemos fazer sem
atrapalhar, sem ser um estorvo?
A EXPRESSÃO QUE A BÍBLIA escolhe para articular
essa idéia é "temor-do-Senhor". Trata-se de um termo comum
nas Escrituras para o modo responsivo e apropriado de
vivermos diante de Deus como ele é, Pai, Filho e Espírito
Santo.
Nenhum dos sinônimos em nossa língua (respeito,
reverência, veneração) parecem adequados. Falta-lhes o
impacto da expressão "temor-do-Senhor". Quando Rudolf
Otto, um dos grandes estudiosos dessas questões, analisou
essa atitude e reação central de cunho religioso/espiritual,
lançou mão de expressões em latim (numen e mysterium
tremendum), pois também não encontrou nada que servisse
na língua alemã.16
O temor-do-Senhor é cultivado, acima de tudo, na
oração e na adoração — na oração pessoal e na adoração em
comunidade. Interrompemos deliberadamente nossa
preocupação conosco e voltamos toda a nossa atenção para
Deus, colocamo-nos intencionalmente num espaço sagrado,
num tempo sagrado, na presença sagrada... e esperamos.
Calamo-nos e nos aquietamos a fim de ouvir e responder
àquele que é o Outro. Quando entendemos como funciona,
descobrimos que isso pode ser feito a qualquer hora e em
qualquer lugar. Mas a base é a oração e a adoração.
"Temor-do-Senhor" é a expressão mais apropriada que
temos para indicar esse modo de vida que cultivamos como
cristãos. A vida cristã é constituída, na maior parte, daquilo
que Deus — Pai, Filho e Espírito Santo — é e faz. Mas
também temos participação. Não a parte principal, mas,
ainda assim, uma parte. Por meio da revelação, abriu-se para
nós um mundo no qual nos encontramos caminhando em
solo sagrado e vivendo num tempo sagrado. No momento em
que nos damos conta disso, ficamos tímidos, cautelosos.

Essa abordagem é chamada de "quietismo". Foi uma forma bastante difundida
de espiritualidade na França do século VII e condenada como heresia.
The Idea of the Holy, 1923.



Desaceleramos o passo, olhamos ao redor com ouvidos e
olhos atentos. Como crianças perdidas que vão parar numa
clareira na floresta e encontram duendes e fadas cantando e
dançando em círculo, ao redor de um unicórnio saltitante de
meio metro de altura, paramos em silêncio reverente para
assimilar essa revelação inopinada e maravilhosa.
Quando nos vemos inesperadamente na presença do
sagrado, nossa primeira reação é parar em silêncio. Não
fazemos nada. Não dizemos nada. Tememos nos intrometer
acidentalmente; tememos dizer algo inapropriado.
Mergulhados em mistério, nos aquietamos, nos calamos, com
todos os sentidos alertas. Isso é o temor-do-Senhor.


Ou fazemos o contrário. Incomodados com o
desconhecido, também como crianças, corremos de um lado
para o outro feito loucos, gritando e berrando, tentando
colocar nosso selo de familiaridade naquilo que nos é
estranho. Quando as crianças fazem isso na igreja, dizemos
que se trata de um comportamento inapropriado. Mas,
nessas questões, o comportamento inapropriado não consiste
naquilo que dizemos ou fazemos em si, mas no fato de que
nossas palavras e atos são incongruentes com o tempo e o
lugar sagrados. Enquanto não soubermos o que está
acontecendo, tudo que dissermos ou fizermos pode ser errado
ou, no mínimo, inapropriado.
Todos nós passamos pela experiência, por mais breve
que seja, de nos encontrarmos na presença sagrada ou em
solo sagrado de tempos em tempos. A experiência mais
comum nesse sentido é estar na presença de uma criança
recém-nascida. Quase todos nos calamos e aquietamos. Não
sabemos o que dizer ou fazer. Somos envolvidos pelo mistério
da vida concedida por Deus. Algo profundo dentro de nós
reage à sacralidade da vida, à existência em si; nossa reação
se transforma em culto, adoração, orações, reverência —
temor-do-Senhor.

Há algo, porém, acerca do sagrado que nos incomoda.
Não gostamos de ficar no escuro, de não saber o que fazer.
Assim, tentamos domesticar o mistério, explicá-lo, sondá-lo,
rotulá-lo e usá-lo. O termo que empregamos para essas
transgressões verbais e violações do sagrado é "blasfêmia":
tomar o nome de Deus em vão, desonrar momentos e lugares
sagrados, reduzir Deus a fofocas e falatório. Incomodados
com o mistério, tentamos bani-lo com clichês.
Toda cultura tem histórias e tabus que visam treinar e
disciplinar o povo para proteger e honrar o mistério sagrado.
Os seres humanos não são deuses; no momento em que nos
esquecemos disso, transgredimos os limites da humanidade,
e algo é violado na própria realidade. O universo é
prejudicado.
Assim, tomamos o propósito de desenvolver o temordo-
Senhor, "o preceito essencial que expressa
resumidamente as bases elementares que mantêm a união
da comunidade da aliança", como define Bruce Waltke.17
Apesar de sua proeminência na Bíblia, essa expressão não é
de uso amplo entre vários cristãos . A palavra "temor" parece
fazer-nos começar com o pé esquerdo. Os gramáticos nos
ajudam a resgatar o sentido bíblico chamando a atenção para
o fato de que o temor-do-Senhor é uma "expressão
justaposta", um sintagma.

As três palavras em nossa língua (duas, no hebraico)
são ligadas de modo a formar uma só palavra. Sua função
como palavra única não pode ser entendida separando os
termos constituintes e somando os significado de cada uma
dessas partes. O temor-do-Senhor não é uma combinação de
temor + do + Senhor; é uma coisa só. Assim, não devemos
procurar no dicionário o significado de "temor" e depois de
"Deus", combinando em seguida as duas acepções: "temor",
sentimento de apreensão, mais "Deus", ser divino digno de
adoração, não é "temor-do-Senhor". Esse recurso analítico só
serve para nos desviar do rumo certo.


Mas, quando deixamos que o contexto bíblico forneça
as condições para entendermos essa expressão, descobrimos
que seu significado mais próximo é um modo de vida no qual
sentimentos e comportamentos humanos são amalgamados
com o ser e a revelação de Deus. O termo ocorre mais de 138
vezes em vários livros do Antigo Testamento, principalmente
em Provérbios, Salmos, Isaías, Crônicas e Deuteronômio.18
"Temor-do-Senhor" representa a atividade divina e a
atividade humana.


Designa um modo de vida que não pode ser analisado
em duas partes, assim como um bebê não pode ser dividido
entre o que vem do espermatozóide e o que vem do óvulo.
"Temor-do-Senhor" é uma expressão nova em nosso
vocabulário; caracteriza um modo de vida apropriado para
nossa criação, salvação e bênção por Deus.
A resposta mais comum para a pergunta "E agora, o
que fazemos?" — que infelizmente impede um relacionamento
de devoção e intimidade com Deus — é criar um código de
conduta. O ponto de partida, normalmente, são os Dez
Mandamentos, complementados por provérbios, com enfoque
dado pela síntese de Jesus (amar a Deus/amar ao próximo),
temperados com a regra de ouro e arrematados com as bemaventuranças.
Pode parecer o caminho mais simples, mas as
comunidades religiosas que tomam esse rumo raramente ou
nunca são capazes de se ater a isso. Muitas vezes,
consideram que o contexto peculiar em que vivem exige
medidas específicas: regras são acrescentadas, regulamentos
são impostos e, em pouco tempo, o código de conduta cresce
e se transforma num grande emaranhado de normas
talmúdicas.

O caminho oposto ao código de conduta é simplificar
tudo ao máximo, desenvolvendo uma espiritualidade
minimalista que mais parece uma colagem de slogans como
os que vemos em adesivos de carros: "Busque a sua
felicidade!", "Pare e curta a natureza!", "Faça sempre o bem!".


Meu favorito é um trecho de um poema atribuído por vezes a
W. H. Auden:
Amo pecar; Deus ama perdoar;
O mundo é maravilhosamente ordenado.
Os códigos de conduta, porém, são fundamentalmente
inadequados para nos orientar acerca da vida espiritual, uma
vez que nos colocam no controle (ou, o que é igualmente
ruim, colocam outros para nos controlar); Deus é posto fora
do âmbito de ação e limitado à tribuna do juiz, de onde avalia
nosso desempenho. Assim que assumimos o controle,
"conhecendo o bem e o mal", colocamo-nos em apuros e,
quase ao mesmo tempo, também colocamos outros em
apuros.


Por mais úteis que sejam os códigos de conduta, de
modo geral, não devem ser nosso ponto de partida para
responder à pergunta: "E agora, o que fazemos?".
UMA DAS VIRTUDES da expressão "temor-do-Senhor"
é o fato de não poder ser definida com precisão; estamos
tratando de algo que não podemos controlar, vivemos num
mistério, não podemos ter certeza absoluta de nada,
desenvolvemos uma expectativa atenta e reverente diante de
todas as pessoas, acontecimentos, pedras e árvores. A
presunção vai sumindo, a atenção vai crescendo, a
expectativa se intensifica.
"Temor-do-Senhor", conforme usado pelos escritores
bíblicos, é uma expressão óbvia sem ser redutora, clara sem
ser excessivamente simplificada e precisa sem dissipar o
mistério inerente a tudo que se relaciona a Deus e a seu
mundo. Também tem a vantagem considerável de fugir à
definição precisa ou "controle" de que poderíamos nos valer
para nos colocarmos dentro de uma área de piedade ou
bondade que satisfaria nosso instinto por intimidade com
Deus.

O que fazemos, então, tendo iniciado esta caminhada
seguindo Jesus? "Temei o Senhor, vós os seus santos" (Sl
34:9). Temer ao Senhor não é estudar sobre Deus, mas viver
em reverência diante de Deus. O que nos falta não é tanto o
conhecimento; falta-nos, sim, a reverência. O temor-do-
Senhor não é uma técnica para adquirir know-how espiritual;
antes, é um não-saber deliberado. O que nos falta não é o
know-how, falta-nos simplesmente estar disponíveis. Quando
nossa vida é transformada pelo temor-do-Senhor, cultivado
em adoração e oração, em silêncio e quietude, em amor e
sacrifício, Deus se torna o ar que respiramos.

E UMA DANÇA
Perichoresis significa "dança" em grego. Esse termo era
usado pelos teólogos gregos como metáfora para se referir à
Trindade. Como escreveu Karl Barth, perichoresis "afirma que
os modos divinos de existência se condicionam e se
permeiam mutuamente com tamanha perfeição que um se
encontra invariavelmente nos outros dois, e os outros dois,
neste".19 Imagine uma contradança folclórica de roda, com
três participantes em cada grupo. A música começa e os três,
de mãos dadas, começam a se mover num círculo. Com um
sinal do marcador, eles soltam as mãos, mudam a formação,
vão de um lado para o outro.
O ritmo acelera, os participantes movem-se com mais
rapidez, entretecendo-se uns com os outros, balançando e
girando, segurando e soltando, aproximando-se e separandose.
Mas não há confusão, todos os movimentos são
perfeitamente coordenados, seguindo ritmos precisos (são
dançarinos experientes e hábeis!), e cada pessoa mantém sua
própria identidade. Para um observador, os movimentos são
tão rápidos que, por vezes, é impossível distinguir uma
pessoa da outra; os passos são tão complicados que é difícil
prever como o grupo se formará em seguida: perichoresis
(peri = ao redor; choresis = dança).


Perichoresis não é um termo do Novo Testamento, e nem todos os teólogos de
hoje o aceitam como uma imagem apropriada para a Trindade. É uma palavra do
grego clássico que só entrou no vocabulário da comunidade cristã no século VIII.


A essência da Trindade, o elemento central da teologia
cristã, considerada, por vezes, a doutrina mais sutil e oculta
de todas, é captada aqui numa imagem que qualquer um
pode observar numa festa popular do interior.
A Trindade é a estrutura mais inclusiva e integradora
que possuímos para entender a vida cristã e dela participar.
Desde o início de nossa história, nossos pastores e mestres
formularam a Trindade para expressar o que é distintivo na
revelação de Deus em Cristo. Essa teologia forneceu um
horizonte vasto, um pano de fundo para compreendermos e
praticarmos a vida cristã de forma ampla e abrangente. Sem
uma teologia devidamente representada, a espiritualidade é
reduzida ao mundo restrito exibido pelos jornalistas ou ao
mundo plano estudado pelos cientistas. A Trindade revela o
mundo imenso de Deus criando, salvando e abençoando em
nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, com implicações
práticas e imediatas para nosso modo de viver e nossa
espiritualidade.


A Trindade é a tentativa da igreja de entender a
revelação de Deus, do ser divino em todas as suas partes e
relações; uma empreitada que tem se mostradoquestões cotidianas que enfrentamos como
pessoas, igrejas e comunidades, desde o momento em que
nos levantamos pela manhã até a hora em que pegamos no
sono à noite, e nos traz para um âmbito participativo nos
termos de Deus, ou seja, nos termos da Trindade. Ela nos
impede de nos envolvermos em modos de viver a vida cristã
extremamente religiosos, porém nocivos à nossa alma.
extremamente proveitosa. Em um nível mais prático, ela
oferece um modo de entendermos Deus e respondermos a ele
que penetra nas
questões cotidianas que enfrentamos como
pessoas, igrejas e comunidades, desde o momento em que
nos levantamos pela manhã até a hora em que pegamos no
sono à noite, e nos traz para um âmbito participativo nos
termos de Deus, ou seja, nos termos da Trindade. Ela nos
impede de nos envolvermos em modos de viver a vida cristã
extremamente religiosos, porém nocivos à nossa alma.


Quando o teólogo grego João Damasceno a usou para destacar o caráter dinâmico
e interpessoal da Trindade em contraste com imagens e abstrações impessoais.
Catherine LaCugna escreve sobre "o motivo pelo qual a imagem da 'dança divina'
foi usada para traduzir perichoresis. Mesmo que haja pouco fundamento filológico
para isso, a metáfora da dança é eficaz. A coreografia sugere parceria simétrica,
porém não redundante, de movimentos à medida que cada dançarino se expressa
e, ao mesmo tempo, se realiza um em relação ao outro. Em interação e intercurso,
os dançarinos (e observadores) experimentam um movimento fluente que
abrange, permeia, envolve e estende. Na dança divina, não há líderes nem
seguidores, apenas um movimento eterno e recíproco de dar e receber, dar
novamente, receber novamente [...] A imagem da dança não nos permite pensar
em Deus como sendo solitário. A idéia de perichoresis trinitária oferece uma porta
de entrada maravilhosa para a contemplação daquilo que significa dizer que Deus
está vivo desde toda a eternidade em amor" (God for Us).


A TRINDADE COMPREENDE Deus como sendo
constituído de três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo, Deus
em comunidade, cada "pessoa" em comunhão ativa com as
outras.21 Isso nos dá uma visão enfaticamente pessoal e
interpessoal de Deus. Ele não é acima de tudo pessoal. Se
Deus é revelado como sendo pessoal, o único modo de ser
conhecido é pela resposta pessoal. Precisamos estar cientes
disso, pois a coisa mais fácil do mundo é usar palavras como
conceitos ou princípios abstratos, tratar o evangelho como
informação. Não podemos despersonalizar o evangelho ou a
verdade para torná-la mais fácil, simples e conveniente sem
sofrer conseqüências. Conhecer Deus por meio de abstrações
não é opção; conhecer Deus por meio de projetos
programáticos está descartado; o conhecimento de Deus em
isolamento solitário é proibido. A Trindade assevera que Deus
não é uma idéia, uma força ou experiência particular, mas
pessoal e conhecida somente pela responsividade e pelo
envolvimento pessoal.


A Trindade também nos impede de reduzir Deus a algo
que podemos entender ou de que precisamos apenas
ocasionalmente. Existem muitos fatos acontecendo conosco
neste mundo, muito mais do que somos capazes de
assimilar. Ao nos relacionarmos com Deus, lidamos com um
mistério, algo que não conhecemos, que não somos capazes
de controlar e com o qual não podemos lidar em nossos
termos. Precisamos estar cientes disso, pois vivemos num
mundo que tem respeito excessivo pela praticidade.
Queremos que Deus seja "relevante" para nosso estilo de
vida. Queremos aquilo que somos capazes de entender.
Somos fortemente pressionados a reduzir Deus às nossas
necessidades e expectativas imediatas.


Mas Deus nunca é um produto para o nosso uso. Num
mundo funcionalizado, em que somos treinados para nos
conhecer em função daquilo que podemos fazer, deparamonos
com uma realidade que não podemos controlar. E, assim,
desenvolvemos a reverência. Estamos na presença daquele
que está à frente e além de nós. Ouvimos e esperamos. A
presunção — Deus na hora e como queremos — revela-se
simples tolice. Colocamos de lado as definições de Deus que
o rebaixam ao nível das nossas emoções e nossos
pensamentos e as exigências de que Deus trabalhe de acordo
com nossos interesses em troca de uma vida de adoração e
oração, obediência e amor — um modo de vida aberto e
suscetível àquilo que Deus está fazendo, no lugar de uma
vida em que criamos estratégias para envolver Deus naquilo
que nós estamos fazendo. A Trindade nos atrai
continuamente para um mundo muito mais amplo, além dos
limites de nossa imaginação.


A Trindade também é um chamado, um convite
contínuo para participarmos da vida energicamente ativa de
Deus — mais uma vez, a imagem da dança. É a participação
na Trindade (Deus como ele se revelou a nós) que confere às
coisas e pessoas seu caráter particular e distintivo. Não
somos espectadores de Deus; sua mão está sempre
estendida, puxando-nos para as ações trinitárias da criação,
salvação e comunidade sagrada. Assim como nós, Deus
nunca está alheio ao que faz. Não existem não-participantes
de uma vida revelada pela Trindade.
Precisamos estar cientes disso. Seja em casa, seja no
trabalho, é muito mais fácil guiar, motivar, planejar e dirigir
à distância. Assim, encontramos formas de delegar para não
precisarmos nos envolver demais. Mas a realidade da
Trindade não nos permite isso. Se desejamos conhecer Deus,
temos de participar do relacionamento que é Deus.
Descobrimos, então, que somos participantes ímpares —
cada um de nós é singular — na vida de Deus. A vida cristã
não é programada; é uma concessão de liberdade. A Trindade
nos mantém alertas e receptivos à liberdade derivada da
participação na vida de Deus. E todo ato de participação é
único.

Deixada por sua própria conta, toda expressão de
espiritualidade tende a ser mais sobre mim mesmo e menos
sobre Deus. A teologia espiritual faz frente a isso
testemunhando do Deus vivo, usando os termos mais amplos
e abrangentes possíveis. A Trindade oferece esses termos,
uma linguagem teológica que nos permite afirmar nossa
identidade cristã segundo a imagem de Deus, e não de
acordo com o que vemos no espelho a cada manhã.

2. CRISTO ATUA NA CRIAÇÃO

[Cristo é o] primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas
as coisas, nos céus e sobre a terra.
COLOSSENSES 1:15-16
Não é lícito amar a Criação segundo o propósito que tenho para ela, da
mesma forma como não é lícito amar o meu vizinho com o objetivo de
pegar emprestadas suas ferramentas.
WENDELL BERRY

EXPLORANDO A VIZINHANÇA DA CRIAÇÃO
Despertamos a cada manhã para um mundo que não
criamos. Como ele veio parar aqui? Como nós viemos parar
aqui? Abrimos os olhos e vemos o sol, essa "grande bola de
fogo", percorrendo seu caminho no horizonte. Mexemos os
dedos dos pés. Um pássaro começa a cantar, improvisando
temas de maravilhosa complexidade. Sentimos o cheiro de
café e já antecipamos o gosto do pãozinho quente e crocante
com manteiga derretida.

Há tanta coisa aqui — ao redor, acima, abaixo, dentro e
fora de nós. Mesmo com a ajuda de poetas e cientistas, só
conseguimos explicar uma pequena parcela de tudo isso.
Observamos de um lado e de outro. Começamos explorando a
vizinhança. Andamos por uma rua, depois outra. Aventu-
ramo-nos para o outro lado dos trilhos do trem. Não demora
e estamos usando telescópios e microscópios, curiosos e
fascinados com a proliferação infindável da mais pura
existência — cor e forma, textura e som.


Depois de um tempo, nos acostumamos com as coisas
e deixamos de notá-las. Restringimo-nos a um horizonte
pequeno e acanhado. Em algum lugar ao longo do caminho,
essa expansão exponencial da consciência, aquela
observação cheia de admiração dos nossos arredores, aquele
prazer puro e inato no que está diante de nós sofre uma
inversão: o mundo se contrai; somos reduzidos a uma vida de
rotina pela qual passamos feito sonâmbulos.
Mas não por muito tempo. Algo sempre aparece para
nos despertar: a pergunta de uma criança, a beleza lustrosa
de uma raposa, uma dor aguda, o sermão de um pastor, uma
nova metáfora, a visão de um artista, um tapa no rosto, o
perfume de uma violeta pisada. Acordamos, voltamos a ficar
alertas e maravilhados: como isso aconteceu? E por quê? Por
que tudo isso? Por que não absolutamente nada?

A gratidão é nossa resposta espontânea a tudo isso: à
vida. Algo cresce dentro de nós: "Muito obrigado!" Na maioria
das vezes, esse agradecimento é dirigido a Deus, mesmo
quando vem daqueles que não crêem nele. Havia em nossa
igreja um rapaz chamado Johnny Bergman. Ele e sua esposa
eram membros muito animados, até que as ervas daninhas
do mundo e suas distrações sufocaram a fé ainda tenra desse
casal. Eles tiveram filhos. Enriqueceram rapidamente e sua
vida se ocupou de carros e barcos, da construção da casa e
de compromissos sociais. Iam cada vez menos aos cultos.
Depois de uma ausência de dois anos, num domingo
ensolarado, Johnny apareceu. Surpreso ao vê-lo, perguntei:
"Então, Johnny, o que você faz por aqui?". Ao que ele
respondeu: "Acordei esta manhã me sentindo tão bem, tão
abençoado — tão criado — que precisava agradecer; e o único
lugar onde posso fazer isso de forma correta e adequada é
aqui. Eu queria dizer isso a Jesus". Ele não voltou no
domingo seguinte, nem nos outros. Ainda assim, esse
momento chamou minha atenção, pois me pareceu,
justificadamente, uma "epifania".

A simples admiração diante da vida, da criação, deste
lugar onde estamos vivos neste momento exige uma resposta,
um agradecimento. Há algo tão profundamente congruente
no mundo em que vivemos e em quem nós somos que,
quando nos damos conta, surpreendemo-nos com seu
milagre e sua maravilha. Na Antigüidade, Platão observou
que toda filosofia começa com o "maravilhar-se". No mundo
moderno, Heidegger usou a expressão "espanto radical" para
enfatizar a idéia de Platão. Leibniz fez a pergunta que
continua a provocar reflexões infindáveis acerca do fato de
nos encontrarmos inseridos neste lugar e neste tempo: "Por
que não nada?".

Maravilha. Espanto. Adoração. Devem ser poucas as
pessoas que nunca foram acertadas em cheio pela mais pura
realidade da existência. Descalçamos nossas sandálias diante
da sarça ardente. Perdemos o fôlego ao ver um falcão
mergulhando. "Muito obrigado, Deus!" Vemo-nos numa
existência copiosa na qual experimentamos uma sensação
profunda de afinidade — Este é o nosso lugar, agradecemos à
vida com nossa vida. E não dizemos apenas "Muito
obrigado!", mas "Muito obrigado, Deus!". Não se trata apenas
de aprendermos a ter bons modos, como as crianças a dizer
"muito obrigado" como convenção social. Antes, é o cultivo da
adequação interior à realidade, desenvolvendo a capacidade
de ter sempre uma resposta apropriada para a natureza
extraordinária e a generosidade da vida.

Maravilhar-se é o único ponto de partida apropriado
para explorar a criação espiritual, pois nos mantém alertas,
na expectativa, vivos para uma vida que é sempre mais do
que podemos explicar, que sempre excede nossas previsões,
que está sempre além de tudo que somos capazes de
imaginar.

A história continua. A ausência dominical de Johnny se estendeu por cinco
anos. Então, ele voltou, mas com outra disposição mental. Dessa vez ele estava
sofrendo. Sua esposa o havia deixado, ele vivia um caos de emoções e seus filhos
estavam confusos e aflitos. A dor o trouxe de volta pela segunda vez, e dessa vez
ele ficou. Mas esse é assunto da próxima seção: "Cristo atua na história".
Cit. George STEINER, Grammar of Creation.


QUERIGMA: O NASCIMENTO DE JESUS
Estamos evidentemente interessados naquilo que há
por trás de tudo isso: o significado, o propósito, as
implicações. O primeiro passo é crer em Deus. A criação não
é algo que entendemos, deduzimos, discutimos ou
simplesmente apreciamos como é — antes, é aquilo em que
cremos: credo. "Pela fé, entendemos que foi o universo
formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a
existir das coisas que não aparecem" (Hb 11:3).


Mas a criação em si não leva ninguém a crer em Deus.
Muita gente considera a criação de acordo com os próprios
valores, chamando-a, com freqüência, apenas de "natureza" e
abordando-a como se seu significado e sua "espiritualidade"
lhe fossem inerentes. Há algo de muito atraente nessa idéia:
é extremamente clara, descomplicada e não causa nenhuma
controvérsia. Além disso, é óbvia. Percebemos com satisfação
aquilo que é inerentemente divino na vida em si, sem todas
as complicações da teologia, a confusão da história da igreja,
as hipocrisias de homens e mulheres que insistem em ocupar
lugares nos bancos das igrejas, a incompetência de pastores,
os pedidos de dinheiro.

A criação parece, por si mesma, perfeitamente capaz de
nos oferecer uma espiritualidade que exulta com praias
belíssimas e ocasos deslumbrantes, com a prática do surfe
ou do esqui, com massagens relaxantes, com estados
emocionais e estímulo estético. Mas, apesar de todos esses
atrativos consideráveis, esse tipo de espiritualidade
apresenta sérias deficiências.
As Escrituras cristãs usam uma abordagem muito
diferente: Deus se revela de maneira mais completa numa
pessoa chamada Jesus.


Os relatos da criação em Gênesis começam com "os
céus e a terra", mas, na verdade, esse é apenas um prólogo
para a parte principal, a criação da vida humana, do homem
e da mulher, feitos "à imagem de Deus". A vida do homem e
da mulher tem o fôlego ("espírito") do próprio Deus. Se você
quer ver a criação em sua plenitude, em seu auge, olhe para
uma pessoa — um homem, uma mulher, uma criança. A
preferência da moda que dita a apreciação da natureza num
buquê de flores no lugar de um bebê chorão, um dia na
praia, em vez de horas sentado numa igreja abarrotada de
gente — criação sem a inconveniência de pessoas — é algo
compreensível. No entanto, decididamente não corresponde à
criação nos termos em que ela nos foi revelada.

Tudo isso — a criação como a dádiva da vida por Deus
e a condição necessária para a vida, para a nossa vida — é
reunido na forma de boas novas no nascimento de Jesus.
Esta é, de fato, uma boa nova, o que os gregos chamavam de
kerigma, uma proclamação pública que insere o que é
proclamado numa realidade histórica. O nascimento de
Jesus oferece o enfoque querigmático para se receber a
criação, entrar nela e dela participar, para vivê-la e não
apenas usá-la ou considerá-la algo trivial. Em seus
evangelhos, Mateus e Lucas dão a entender que esse
nascimento também é um "nascimento virginal".

No evangelho de João, lemos Gênesis reescrito: "E o
Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1:14). Mateus e
Lucas começam seus evangelhos com um relato detalhado do
nascimento de Jesus. Na primeira referência escrita a esse
fato, o apóstolo Paulo chama Jesus de "primogênito de toda a
criação" (Cl 1:15).


No ato de crer na criação, aceitamos o que Deus faz,
nos inserimos nele e nos sujeitamos ao que ele realizou e
continua a realizar. Não somos expectadores da criação, mas
participantes dela. Em primeiro lugar, somos participantes
pelo simples fato de termos nascido; então, percebemos que o
nascimento de todos nós se dá no contexto definidor do
nascimento de Jesus. A vida cristã consiste na prática de se
viver inserido no que Deus fez e está fazendo. Queremos
saber a origem das coisas não para satisfazer nossa
curiosidade acerca de fósseis, dinossauros e o big bang, mas
para podermos viver de acordo com nossas origens. Não
queremos associar nossa vida a algo periférico. Queremos
viver de forma original, e não derivada.


Jesus também é chamado de "primogênito" em outros contextos: "primogênito
entre muitos irmãos" (Rm 8:29); "o primogênito de entre os mortos" (Cl 1:18 e Ap
1:5); e "primogênito no mundo" (Hb 1:6).



que criou os céus e a terra; também é a revelação do
Deus que está conosco, Emanuel. Karl Barth entra em
detalhes intermináveis (escreveu quatro volumes enormes)
para apresentar uma única questão: "Constatamos que, em
todos os sentidos, Jesus Cristo é a chave para o segredo da
criação".


O RELATO MAIS EXTENSO da história do nascimento
de Jesus é apresentado por Lucas. Gabriel, o mensageiro de
Deus, começa com a anunciação querigmática a Maria:
"Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo" (1:28), ao
que ela se mostra naturalmente surpresa (diatarachthe). O
anjo Gabriel a tranqüiliza e, em seguida, transmite sua
mensagem do evangelho: "Eis que conceberás e darás à luz
um filho" (v. 31). Só então Maria fica sabendo que a
concepção de seu filho será uma obra do Espírito Santo de
Deus: "Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do
Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o
ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus" (v.
35). Maria aceita e recebe essa palavra fecundante e
vivificadora do evangelho e se torna grávida de Jesus: "Aqui
está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a
tua palavra" (v. 38).


A história da gestação de Maria continua no contexto
de outra gestação, a da prima idosa de Maria, Isabel. Maria
procura Isabel para fazer um "teste de gravidez". As duas
gestações são prodígios paralelos, porém contrastantes: a
mulher idosa e estéril e a jovem virgem, ambas
impossivelmente grávidas. Isabel, que já estava no sexto mês
da gestação, confirma a gravidez recente de Maria: "Bendita
és tu entre as mulheres, e bendito o fruto de teu ventre!" (v.
42).

A resposta jubilosa de Maria é seu grandioso Magnificat:
A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito
se alegrou em Deus, meu Salvador... (v. 46-55).


Quando Maria dá à luz a criança concebida pelo
Espírito Santo, Lucas usa a mesma palavra que Paulo havia
usado para descrever Jesus Cristo aos cristãos colossenses:
"O primogênito (prototokos) de toda a criação" (Cl 1:15),
identificando Jesus, o bebê de Maria, como seu "filho
primogênito" (prototokon) (Lc 2:7). O nascimento é saudado,
então, por toda a criação: céu e terra, cântico dos anjos e
boas-vindas dos pastores. Os mais sublimes (anjos) e os mais
humildes (pastores) se unem em admiração para receber
Jesus, que "vos nasceu" (2:11) ou, talvez, que nasceu "para
vós" (etechthe humin). O nascimento diz respeito
enfaticamente a nós.
O Espírito que vem sobre Maria e concebe o Salvador é
um eco do Espírito que pairava sobre as águas no relato da
criação (Gn 1:2). Como escreve Raymond Brown: "A terra
estava sem forma e vazia quando esse Espírito apareceu;
assim também o ventre de Maria estava vazio até o Espírito
de Deus enchê-lo com uma criança que era Seu Filho".27
Esse relato das Escrituras, básico e definidor da
criação, começa com a palavra de Deus sendo pregada (pelo
mensageiro Gabriel) — uma palavra que concebe vida (pelo
Espírito Santo) e resulta numa gravidez que traz maravilha e
bênção (a saudação de Isabel e o Magnificat de Maria) — e
termina com um nascimento que reúne os anjos do céu e os
pastores da terra em um jubiloso testemunho confirmador e
em adoração.

CINCO RELATOS ANTERIORES de concepção e
nascimento nas Escrituras também revelam Deus envolvido
de modo decisivo e íntimo na criação da vida humana.


• Abraão e Sara e o nascimento de Isaque: "Visitou o
SENHOR a Sara, como lhe dissera, e o SENHOR cumpriu o
que lhe havia prometido. Sara concebeu e deu à luz um filho
a Abraão na sua velhice" (Gn 21:1-2).
• Manoá e sua esposa, cujo nome não é citado, e o
nascimento de Sansão: "Apareceu o Anjo do SENHOR a esta
mulher e lhe disse: Eis que és estéril e nunca tiveste filho;
porém conceberás e darás à luz um filho" (Jz 13:3).
• Boaz e Rute e o nascimento de Obede: "E o SENHOR
lhe concedeu que concebesse, e teve um filho" (Rt 4:13).
• Elcana e Ana e o nascimento de Samuel: "Elcana
coabitou com Ana, sua mulher, e, lembrando-se dela o
SENHOR, ela concebeu e, passado o devido tempo, teve um
filho, a que chamou Samuel" (1Sm 1:19-20).
• Zacarias e Isabel e o nascimento de João: "E não
tinham filhos, porque Isabel era estéril [...] Isabel, tua
mulher, te dará à luz um filho [...] Isabel, sua mulher,
concebeu" (Lc 1:7,13,24).


E agora, este relato de concepção e nascimento no qual
Deus é revelado explicitamente como Criador: José e Maria e
o nascimento de Jesus.


A obra de Deus na concepção e nascimento de Jesus
por meio de Maria é consoante com os cinco nascimentos
"impossíveis" anteriores, mas, ao mesmo tempo, é diferente.
Desde Sara até Isabel, a impossibilidade a ser superada era
um ventre estéril; essas mulheres queriam muito um filho.
Mas, no caso de Maria, a "impossibilidade" era sua
virgindade; aqui, não há nenhum anseio ou expectativa por
uma criança. Para Maria, a concepção e o nascimento é a
surpresa da criação. De acordo com Brown: "Esta é a
iniciativa de Deus, ultrapassando tudo que homens e
mulheres sonharam". Este é o nascimento que colocará
todos os outros nascimentos condicionados à iniciativa
criadora de Deus.


Esses seis relatos "íntimos" de nascimentos tomam o
que chamamos de processos naturais de reprodução,
concepção, gestação e nascimento e revelam Deus operando
nas condições impossíveis de esterilidade e virgindade e
criando vida.


O FATO DE JESUS SER, como diz o apóstolo Paulo,
"nascido de mulher" (Gl 4.4) ressalta de modo silencioso que
Jesus é enfaticamente humano, o "primogênito da criação". O
fato de Maria ser, ao mesmo tempo, virgem, ressalta que o
nascimento de Jesus não pode ser explicado por aquilo que
sabemos ou somos capazes de reproduzir em nossa
experiência. Temos diante de nós vida inequivocamente
humana, um bebê real proveniente do ventre real de uma
mãe; ao mesmo tempo, há um milagre aqui, um mistério que
não pode ser descartado em nossas tentativas de manter sob
controle as intervenções de Deus, sem falar em nossa vida. O
milagre do nascimento virginal, declarado desde os tempos
mais remotos da igreja e confessado em seus credos, é, na
expressão sem rodeios de Karl Barth, uma "convocação à
reverência e à adoração". Barth afirmou que os pontos de
vista unilaterais dos que questionaram ou negaram a
declaração "nascido da virgem Maria" devem, "em última
análise, ser entendidos apenas como provenientes de um
medo terrível da reverência e como simples convites para um
encontro cômodo com um Deus excessivamente próximo ou
extremamente distante".


Artistas, poetas, músicos e arquitetos são nossas
principais testemunhas da importância do significado do
termo "virgem" no nascimento virginal como "uma
convocação à reverência e à adoração". São eles que,
repetidamente, nos resgatam de uma vida que perdeu a
maravilha. Enquanto teólogos e estudiosos da Bíblia
discutem — por vezes, de modo extremamente contencioso —
sobre textos, fatos da sexualidade e paralelos mitológicos,
nossos artistas pintam madonas, nossos poetas oferecem
ritmos e metáforas para nossa imaginação, nossos músicos
enchem o ar de cânticos alegres e hinos que nos fazem
ajoelhar em adoração e nossos arquitetos desenham e
constroem capelas e catedrais onde podemos adorar a Deus.
O poema "Depois da Anunciação" explica por quê:

Este é o tempo irracional
No qual o amor floresce brilhante e desenfreado
Tivesse Maria sido apenas racional
Não teria havido lugar para o filho ser gerado.


A linguagem da concepção, da gravidez e do
nascimento que apresenta Deus como o Criador ocupa um
lugar de proeminência nas Escrituras ao dar testemunho da
vida cristã. As palavras de Jesus a Nicodemos, "Importa-vos
nascer de novo" (Jo 3:7), certamente são as mais conhecidas
desse vocabulário. No diálogo, Jesus e Nicodemos usam a
palavra "nascer" sete vezes. A linguagem do apóstolo Paulo
também é expressiva. Ao escrever para a comunidade cristã
em Roma, ele considera toda a criação um processo de
nascimento: "Porque sabemos que toda a criação (pasa he
ktisis), a um só tempo, geme e suporta angústias até agora"
(Rm 8:22); e, logo em seguida, faz um paralelo com o que
acontece em nós: "... também nós, que temos as primícias do
Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando
a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo" (8:23). Em
outra ocasião, ao escrever para os cristãos da Galácia, o
apóstolo chega a se identificar para eles como uma mãe em
dores de parto: "... de novo, sofro dores de parto, até ser
Cristo formado em vós" (Gl 4:19).


O RELATO DO NASCIMENTO de Jesus é nossa porta
de entrada para compreender o desenrolar da criação e
participar dela. Mas, se assim permitirmos, todo nascimento
pode nos levar de volta à maravilha do nascimento de Jesus,
à revelação da vida pura como dádiva, da vida de Deus
conosco e para nós.


Deus é o Criador, e sua criação mais abrangente é a
vida humana, um bebê. Somos também participantes da
criação quando geramos e concebemos bebês, damos à luz e
cuidamos deles. Ocupamos o cerne da criação. Todo
nascimento é querigmático. Há muito mais evangelho em
todas aquelas repetições do termo "gerou" nas listas
genealógicas das Escrituras ("Ezequias gerou a Manassés,
Manassés a Amom; Amom a Josias...") do que imaginamos.
ALGUNS ANOS ATRÁS, minha nora me convidou para
presenciar o nascimento de seu terceiro filho. Ela sabia como
eu ficara decepcionado de não poder presenciar o nascimento
de nenhum dos meus três filhos. Na época em que Jan e eu
tivemos nossos filhos, os pais eram banidos para as trevas
(" [onde há] choro e ranger de dentes") na ocasião do
nascimento. Assim, sua generosidade me permitiu
experimentar com esse neto aquilo que havia perdido com
meus próprios filhos. O parto ocorreu alguns dias depois do
Natal, de modo que, enquanto minha esposa e eu íamos para
o hospital em Tacoma às duas da madrugada, minha mente e
meu coração não transbordavam apenas de expectativa, mas
também dos cânticos e relatos do nascimento de Jesus.
Nenhum dos lugares que visitei e nenhuma das coisas
que fiz chega perto da experiência que tive naquela sala de
parto. O cenário era austero — asséptico e funcional —, mas
a vida, a vida pura saindo do ventre naquela madrugada,
transformou-o num lugar de revelação. Meu filho recebeu
sua filha nos braços assim que ela veio ao mundo: "Seja bem vinda,
Sadie Lynn!".


Já escalei montanhas e, de seus picos, vi cordilheiras
cobertas de neve, mas nenhuma paisagem magnífica chegava
aos pés da experiência de ver um bebê entrando no mundo;
já ouvi o canto delicado e exótico dos pássaros e as peças de
alguns dos melhores músicos do mundo, mas nenhum som
se equiparava ao choro daquele bebê.


Para mim, essa experiência comum à maioria dos pais
hoje em dia, e à raça humana como um todo, aconteceu mais
tarde na vida. Mas será que alguém se acostuma com isso?
Fui cativado pela maravilha, pelo milagre, pelo mistério, pela
glória da vida.
No dia seguinte ao que Sadie Lynn nasceu, fui fazer
compras no supermercado. Olhei ao redor e vi uma porção de
mães andando pelos corredores com seus filhos. Várias
ralhavam e falavam rispidamente com crianças cheias de
vida, energia e curiosidade. Fiquei com vontade de pegar
essas mães, abraçá-las e dizer-lhes: "Você tem idéia do que
fez? Você deu à luz uma criança, uma criança — este milagre,
esta maravilha, esta glória. Você é uma Madona! Por que você
não está admirada e ajoelhada como os magos, junto com os
pastores?". Felizmente, me contive. Provavelmente elas não
teriam entendido "Madona" com o sentido que eu tinha em
mente.


O nascimento, qualquer nascimento, é nosso principal
acesso à obra da criação de Deus. O nascimento virginal de
Cristo dá e mantém o foco na realidade de que o próprio
Deus está presente pessoalmente, participando plenamente
da criação, o que, de fato, são boas novas. A criação, em si, é
querigmática. Se mantido vívido em nossa imaginação, em
orações, cânticos e relatos, o nascimento de Jesus não deixa
nossos pés escorregarem da rocha firme e nos dá
sensibilidade constante para todas as nuanças de obediência
e louvor evocadas pela vida que nos cerca.


AMEAÇA: GNOSTICISMO


No entanto, o nascimento virginal de Jesus nunca foi
uma verdade fácil de aceitar. Sempre haverá muita gente ao
nosso redor que recusará os detalhes: a trivialidade humana,
os fluidos corporais, os sentimentos nus e crus de raiva e
aversão, o cansaço e a solidão. O parto é doloroso. Os bebês
são sinônimo de inconveniência e bagunça. Ter filhos
acarreta uma série de problemas. Que dizer de Deus tendo
um bebê? É mais fácil aceitar Deus como o criador das
montanhas majestosas, dos mares com suas ondas
gigantescas, das flores delicadas do campo, dos unicórnios
fantásticos, dos tigres ferozes de cores intensas (como no
poema de William Blake).


Deus certamente ficará bem longe da esqualidez
sórdida da matéria-prima que faz parte do ser humano.
Temos aspirações profundas inerentes à nossa alma que
abominam fraldas e dívidas, impostos e trivialidades
domésticas. Imaginamos que fomos criados para coisas mais
elevadas, que existe um universo de idéias sutis, sentimentos
refinados e êxtases requintados para cultivarmos.
Em algum ponto ao longo do caminho, alguns de nós
nos convencemos de que nossa alma é diferente — está um
nível acima do povo em geral, das manadas de filisteus que
pisoteiam os átrios do Senhor. Tornamo-nos connoisseurs do
sublime.
Na verdade, mal a tinta havia secado nos relatos do
nascimento de Jesus e começava a funcionar uma pequena
indústria, publicando histórias mais "espirituais" do que
aquelas que encontramos nos evangelhos. A igreja primitiva
foi inundada por incontáveis relatos apócrifos que atenuavam
e universalizavam a imagem de Jesus. Esse tipo de literatura
era extremamente popular. Aliás, ainda é. Há quem continue
a escrever histórias assim nos dias de hoje, histórias que
muitos consideram extremamente atraentes.
Nesses relatos da vida cristã, os detalhes não
adornados da vida de Jesus são embaçados pelos elementos
divinos mais sublimes. O caráter histórico, factual e
desagradável da encarnação, o Verbo que se fez carne como
revelação plena e completa de Deus é descartado como
grosseiro. Coloca-se em seu lugar algo mais refinado e
agradável às almas sensíveis. Jesus não era verdadeiramente
feito de carne e sangue; antes, entrou temporariamente num
corpo humano a fim de nos revelar os mistérios de Deus e
nos iniciar nos segredos da vida espiritual. É evidente que ele
não morreu na cruz; na verdade, saiu de cena no último
instante. O corpo tirado da cruz para ser sepultado não tinha
nada de Jesus; era uma espécie de traje que ele usou
durante alguns anos e do qual se despiu.


De acordo com esses relatos, Jesus apenas encenou,
por um período curto, um Cristo histórico de carne e sangue
e depois voltou para uma esfera puramente espiritual. Quem
aceita essa versão de Jesus tem liberdade, então, de colocá-la
em prática: suportamos a materialidade, a localidade e a
família pelo tempo que for necessário, mas não mais que
isso. O material, o físico, o corpo — a história, a geografia, as
condições do tempo — tudo é uma estrutura temporária;
quanto antes percebermos que nada disso tem a ver com
Deus e Jesus, melhor.
Esse tipo de idéia tem vários atrativos. O principal
deles é que não precisamos mais levar nem as coisas nem as
pessoas a sério — isto é, considerá-las com seriedade eterna,
seriedade de Deus. Tudo aquilo que você toca, cheira ou vê
não é de Deus em nenhum sentido direto ou imediato.
Poupamo-nos de um bocado de transtornos e aborrecimentos
empurrando tudo o que é material e cotidiano para a
periferia da nossa vida. As colinas são lindas, desde que
inspirem pensamentos elevados; mas, se uma colina
representa uma inconveniência para mim, posso arranjar
uma escavadeira e me livrar do problema. (Aliás, Jesus não
falou algo parecido, sobre usar a fé para nos livrarmos de
montanhas? Se uma escavadeira pode fazer o mesmo serviço,
não significa que Jesus sancionou essa idéia?)


As pessoas são maravilhosas, desde que sejam bonitas,
tenham bons modos, elevem minha auto-estima e me ajudem
a desenvolver plenamente meu potencial; mas, se não
cheiram bem ou se não se mostram funcionais, certamente
merecem ser descartadas. (Foi o que Jesus fez, não? Quando
Pedro se mostrou espiritualmente incompetente, Jesus o
rejeitou rispidamente com a repreensão: "Arreda, Satanás!").
Se desejamos ser criaturas verdadeiramente espirituais,
precisamos nos libertar de tudo o que não é espiritual.
Gostamos da idéia, pois quando resolvemos adotar esse
estilo de vida, tornamo-nos membros da elite aristocrática
espiritual. Somos chegados de Deus, membros privilegiados
do "clube" supremo — o Círculo Íntimo de Almas
Esclarecidas.


Essas idéias são tão convidativas e nos fazem sentir tão
bem que são raros os cristãos que não experimentam
incorporar algumas delas a seu estilo de vida. Nenhuma
igreja está a salvo da influência dessas idéias. Ninguém que
deseja ter uma vida piedosa é imune à atração que elas
exercem.


O TERMO QUE COSTUMAMOS usar para designar
esse tipo de espiritualidade extremamente atraente, mas que
destrói a alma, é "gnóstico". Phillip Lee estudou em detalhes
as várias formas sutis como o gnosticismo tem influenciado
as igrejas protestantes americanas, desde as mais
tradicionais até as mais liberais. Em sua análise, as igrejas
protestantes são mais suscetíveis a essas influências do que
a Igreja Católica e a Ortodoxa, mas ninguém escapa. Ele
identifica cinco elementos que, em separado, em diferentes
combinações, ou todos juntos, carregam o vírus do
gnosticismo e ameaçam a saúde do evangelho cristão.


1. O gnosticismo opera com base numa profunda
alienação metafísica. O universo é um erro colossal. A criação
é alheia à nossa alma mais íntima e autêntica. O Deus
verdadeiro não teve e não tem nada a ver com ela; quanto
menos nos envolvermos nela, melhor.


2. Existe um saber secreto, um conhecimento (gnosis)
que pode nos Salvar desse estado miserável. No entanto, não
é conhecimento facilmente acessível; deve ser adquirido pela
iniciação e pela intuição. É necessário desenvolver e nutrir
uma aptidão espiritual.


3. A estratégia para a sobrevivência é o escapismo, a
começar pela Fuga do Deus da criação. Esse escapismo é
quase total: escapamos de tudo, exceto do nosso ser interior;
escapamos do mundo para o nosso ser interior.


4. As poucas almas que adquirem esse conhecimento
secreto e aderem a essa vida constituem uma elite, sendo
cada membro uma divindade em si.


5. Toda pessoa é livre para reunir quaisquer idéias,
histórias ou técnicas disponíveis para levar adiante esse
estilo de vida; nenhuma instituição ou autoridade tem
permissão de interferir ou dizer ao "gnóstico" (aquele que "é
iniciado no conhecimento") em que crer ou o que fazer.
Em oposição à criação boa do cristianismo, o gnóstico
propõe uma criação má. Em oposição a conhecer o Deus que
salva, o gnóstico apresenta um saber secreto, um
conhecimento místico que pode ser usado para libertar o ser
interior da trivialidade e da contaminação humana. É, com
efeito, uma fórmula para salvar a si mesmo. Em oposição a
viver uma vida de peregrinação na companhia de Abraão,
Isaque, Jacó, Moisés, Davi e Isaías, e a seguir Jesus, o
gnóstico planeja uma fuga.


Em oposição à vida em comunidade dos filhos de Deus
que receberam o mandamento de amarem uns aos outros, o
gnóstico se preocupa apenas consigo mesmo. Em oposição à
vida comum, à aceitação da família e do trabalho, de
cozinhar e costurar, de ajudar os pobres e curar os enfermos
— todas as coisas loucas, fracas, humildes e desprezadas "do
mundo", honradas pelo apóstolo Paulo (1 Co 1:27-28) —, o
gnóstico afirma ocupar uma posição mais elevada dentro da
elite, uma posição que o exime das trivialidades sagradas.
Em oposição à revelação singular de Deus em Jesus, "o
Verbo [que] se fez carne", o gnóstico recusa se prender a
qualquer coisa específica, muito menos à singularidade de
Jesus. "... Cristo crucificado, escândalo para os judeus,
loucura para os gentios" (1 Co 1:23). O gnosticismo é um
vírus na corrente sangüínea da religião, e continua
reaparecendo a cada geração ou sendo anunciado como algo
inteiramente inédito. No entanto, uma observação mais
cuidadosa revela que se trata da mesma coisa de sempre com
uma nova apresentação. Como diz Eugen Rosenstock-
Huessy: "Podemos encontrar o gnosticismo no mundo inteiro
hoje em dia. As próprias igrejas estão repletas de suas
idéias".

O gnosticismo nos oferece espiritualidade sem a
inconveniência da criação, do pecado ou da moralidade, sem
a inconveniência de pessoas de que não gostamos ou que
"não são como nós". E, o que talvez seja seu maior atrativo, o
gnosticismo nos oferece uma espiritualidade sem Deus —
pelo menos, qualquer deus que não seja a centelha de
divindade que sinto dentro de mim.
PRIMEIRO TEXTO-BASE: GÊNESIS 1—2
A Bíblia como um todo se opõem fortemente a essa
espiritualidade própria, desmaterializada e elitista, mas os
textos básicos são Gênesis, no Antigo Testamento, e João, no
Novo Testamento.


As Escrituras Sagradas começam com dois relatos
justapostos da criação: Gênesis 1—2. Ao longo de dois mil
anos, esses capítulos têm sido analisados meticulosamente
por alguns dos estudiosos judeus e cristãos mais
competentes. As verdades e insights acumulados são
surpreendentes, e há muito o que considerar, ponderar,
apreciar e a que responder. Sem dúvida, esses estudiosos, os
que ainda estão conosco e os que já se foram, merecem toda
a nossa apreciação.
Mas o que muitas vezes é deixado de lado nessa
profusão de brilhantismo exegético é a maneira hábil e
perfeita como esses textos preparam e conduzem cada um de
nós como cristãos comuns e trabalhadores "na terra dos
viventes" (Sl 116:9) de hoje em dia. Essas duas histórias da
criação colocadas na porta de entrada da Bíblia são, acima
de tudo, textos para se viver no tempo e no lugar em que
despertamos a cada manhã.

A criação hoje


Custei a perceber a relevância pessoal de Gênesis 1—2.
No começo, me distraí com os argumentadores e polemistas
interessados principalmente em discutir como as coisas
começaram. Na adolescência, envolvi-me com amigos que
gostavam de usar esses textos para provocar discussões com
evolucionistas e ateus. Mais tarde, me encantei com as
palavras, as imagens e a sintaxe, comparando-as e
avaliando-as no estudo dos mundos contrastantes, porém
ainda fascinantes, das civilizações antigas de Suméria,
Assíria, Babilônia e Egito.


Tornei-me, então, pastor e, aos poucos, comecei a
perceber como os textos de Gênesis 1—2 são poderosos para
tratar da vida como ela se apresenta a nós a cada dia. Como
pastor, meu trabalho era orar, ensinar e pregar as Escrituras
Sagradas para mães e pais educando seus filhos, agricultores
em seus campos de trigo, professores em suas salas de aula,
engenheiros construindo pontes, sargentos, capitães e
coronéis cuidando da segurança de nosso país, e não para
um pequeno grupo de octogenários em casas de repouso.
No decorrer desse trabalho, passei a achar que esses
dois capítulos de Gênesis — por mais proeminentes que
sejam para introduzir a narrativa momentosa da Bíblia —
estavam entre os textos menos interpretados e usados para
moldar uma vida obediente e reverente em seguir Jesus na
realidade cotidiana e comum de trabalho e adoração.


Logo no início de meu ministério, deixei de ver em
Gênesis 1—2 prioritariamente um relato do começo de todas
as coisas e passei a ler esses capítulos como um texto
adequado para começar a viver agora. No aprendizado de
liderar minha congregação numa vida de obediência e
adoração seguindo Jesus, o que chamou minha atenção foi a
grande semelhança cultural e espiritual entre a realidade na
qual estava trabalhando e a dos exilados hebreus no século
VI antes de Cristo: o desarraigamento e a privação de um
lugar definido, a perda da ligação com a tradição e o culto, a
sensação de estar mergulhado numa sociedade estranha e
idólatra.


Minha impressão era de que minha congregação e eu
estávamos recomeçando a cada semana; não havia consenso
moral nem memória comum, todos estávamos longe das
cidades onde havíamos crescido. A vida dos membros da
igreja parecia se desenrolar aos trancos e barrancos, com
ansiedade e pressa, sem senso de lugar e sem base. Quando
percebi que essas eram as mesmas condições em que o povo
de Deus havia vivido durante o exílio no século VI antes de
Cristo, comecei a ensinar e pregar sobre os textos do exílio
em Isaías, que trazem mensagens pastorais maravilhosas,
dirigidas a pessoas que haviam perdido o contato com seu
tempo e lugar no mundo.


Ao fazer isso, descobri que uma das palavras mais
importantes que Isaías usou com o povo exilado foi "criar".
Na Bíblia, o verbo "criar" sempre tem Deus como sujeito.
Homens e mulheres não criam, não são capazes de criar. Mas
Deus cria. Quando nada do que podemos fazer resolve e
quando nos vemos perdidos e de mãos vazias, estamos
prontos para deixar Deus criar. Quando as condições nas
quais vivemos parecem completamente alheias à vida e à
salvação, só nos resta esperar que Deus faça aquilo que
somente ele pode fazer: criar. Os termos "criar" e "Criador"
aparecem com mais freqüência na pregação de Isaías sobre o
exílio do que em qualquer outro ponto da Bíblia — dezesseis
vezes, em comparação com oito ocorrências nas narrativas
extensas da criação em Gênesis 1—2.33 Ao levar a cabo essa
incumbência pastoral, percebi como a obra criadora de Deus
tem grande relevância pessoal e poder transformador em
pessoas que não se sentem criadas, formadas e adequadas
para o mundo no qual se encontram.
Sob a influência de Isaías, eu ia do púlpito para
quartos de hospital, salas de estar, lanchonetes e reuniões
em centros comunitários, orando com homens e mulheres
entediados ou arrasados e ouvindo o que tinham a dizer. O
verbo "criar" passou do segundo plano, do contexto daquilo
que havia acontecido tanto tempo atrás no Egito e na
Babilônia, para uma posição de proeminência em minha
comunidade, como uma palavra ativamente associada ao
evangelho e referente ao que Deus estava fazendo em meu
tempo, no meio do povo exilado com o qual eu vivia.


Is 40:26,28; 41:20; 42:5; 43:1,7,15; 45:7,8,12,18; 54:16; 57:18; 65:17,18 duas
vezes.


Depois de vários anos neste caminho, voltei a Gênesis
1—2 e vi o texto com outros olhos, encontrando em suas
palavras uma urgência, um vigor e uma relevância que me
surpreenderam. Não lia mais Gênesis perguntando: "O que
isso significa?"; "Como posso usar isso?". Minhas perguntas
passaram a ser: "Como posso obedecer a isso?"; "Como posso
participar disso?".


Esses são os textos para nos formar e conduzir a um
modo correto de viver e de atuar para a glória de Deus, dentro
da imensa dádiva da criação. Gênesis 1 é formativo para
recebermos a dádiva do tempo e vivê-la dentro da criação;
Gênesis 2 trata da dádiva do lugar na criação.


A dádiva do tempo

Compreender o tempo e honrá-lo são elementos
fundamentais para a consciência de nossa identidade e da
forma como vivemos. As violações do tempo sagrado se
tornam profanações de nossas relações mais íntimas com
Deus e de uns com os outros. A santidade é feita de horas e
dias, de semanas, meses e anos.


Dentre as muitas profanações que a criação sofreu,
uma das principais foi a do tempo. O tempo é o meio no qual
fazemos tudo o que diz respeito à nossa vida. Quando o
tempo é profanado, a vida é profanada. As evidências mais
claras dessa profanação são a pressa e a procrastinação: a
pressa nos afasta da dádiva do tempo, na ilusão compulsiva
de que podemos possuí-lo e controlá-lo. A procrastinação nos
distrai com uma desatenção indolente para com a vida de
obediência e adoração por meio da qual ingressamos na
"plenitude do tempo". Quer pela ilusão compulsiva, quer pela
desatenção procrastinadora, o tempo é violado.
Gênesis 1 não se apressa. E Gênesis 1 não procrastina.


A IRMÃ LYCHEN ME PREPAROU para a prática de
Gênesis 1. Fui criado numa cultura espiritual que tratava o
tempo com descaso, senão com desprezo. O tempo, com sua
qualidade trivial, era apenas questão de "marcar passo" até
que a intervenção final de Deus acabasse com a
temporalidade e trouxesse a eternidade. Enquanto isso, havia
muito a fazer: testemunhar a amigos, enviar missionários,
pregar em praça pública, ir ao presídio nas tardes de
domingo para cantar e pregar aos presos. Mas nada cativava
nossa atenção por muito tempo. Precisávamos nos certificar
de que estávamos preparados e, então, nos apressar e
preparar todos que conhecíamos para o fim, para o
arrebatamento, para a segunda vinda de Jesus. Não
tínhamos tempo para muita coisa além de umas férias muito
curtas; não tínhamos tempo de fazer uma faculdade, não
tínhamos tempo para descontração. O tempo estava se
esgotando. O tempo não era honrado por si mesmo; seu
único valor era dar a oportunidade de nos prepararmos para
o fim dos tempos. O fim dos tempos era o único tempo
sagrado. Todo o resto, dias e semanas, minutos e horas,
devia ser usado a serviço do fim dos tempos. Se você não
estava usando as horas para algum projeto santificado ou
objetivo espiritual, estava perdendo tempo.


A irmã Lychen (todos os membros adultos de nossa
pequena congregação eram chamados de "irmãos" e "irmãs")
era uma figura importante nesse universo. Era extremamente
idosa e pequenina, pouco mais de um metro e meio, e estava
ficando cada dia menor. Morava numa casinha em nossa
vizinhança e mantinha as cortinas sempre fechadas. Eu
passava com freqüência em frente à sua casa a pé ou de
bicicleta, e a única ocasião em que a via sair era no domingo,
quando a buscávamos de carro para ir conosco à igreja. No
momento reservado para testemunho e oração, com uma
regularidade litúrgica que desafiava nossos cultos
pentecostais antilitúrgicos, ela se levanta e dizia que o
Senhor havia lhe revelado que ela não morreria antes da
segunda vinda dele em glória. Ela seria arrebatada
juntamente com todos os santos, entre as nuvens, e se
encontraria com ele nos ares (1 Ts 4:17). Todo domingo, sem
falta, ela dava esse testemunho, e eu ficava extremamente
impressionado. Quanto estava com uns oito anos de idade,
comecei a calcular quanto tempo ainda me restava na Terra,
pois estava certo de que também seria "arrebatado". A irmã
Lychen estava com pelo menos noventa anos. Tendo em vista
sua fraqueza cada vez maior e a redução de sua estatura —
ela encolhia no mínimo dois centímetros por ano —, concluí
que ela poderia viver mais cinco ou seis anos e,
conseqüentemente, que o arrebatamento seria adiado até
então. Eu estaria com catorze anos de idade; significava que
nunca chegaria a dirigir um carro, o que, para mim, era uma
grande decepção.


A irmã Lychen faleceu quando eu tinha dez anos.
Ainda me lembro da confusão em minha mente durante o
culto fúnebre. Esperava que o pastor Jones fosse dizer
alguma coisa sobre a segunda vinda, mas ele não falou nada.
Silêncio. No domingo seguinte, um dos sustentáculos da
minha experiência de culto na infância não estava mais lá.
Mas o templo não havia desmoronado. A congregação de
sempre continuava reunida. Intacta. Nada de arrebatamento.
E ninguém sequer parecia notar. A pré-adolescência não é
uma época muito propícia para entender a escatologia, de
modo que acabei colocando a questão de lado. Dois ou três
anos mais tarde, mergulhei de cabeça na adolescência, a
idade em que a biologia praticamente elimina a escatologia —
tudo girava em torno do presente, do agora, tudo era rápido e
imediato, sem ligação entre passado e futuro, ambos
igualmente vagos.


Mas, algum tempo depois, tive de lidar com a questão
novamente. Quando me esforçava para entrar na vida adulta,
lia a Bíblia com mais diligência, prestando atenção na
maneira como o evangelho de Jesus era vivido, e não apenas
pregado, testemunhado, estudado e memorizado. Fui
percebendo que o tempo comum não é um elemento que as
pessoas espirituais suportam, toleram ou durante o qual se
apressam enquanto esperam pelo fim dos tempos e a
transferência instantânea para a eternidade. É uma dádiva
da qual participamos na obra presente e diária de Deus.
Finalmente entendi: o fim dos tempos influencia o tempo
presente e trivial, não o depreciando ou denegrindo, mas o
revigorando, enchendo-o de propósito e significado. O fim dos
tempos não é um futuro pelo qual esperamos, mas uma
dádiva da plenitude do tempo que recebemos em adoração e
obediência à medida que ele flui no presente.


O ritmo

A estrutura rítmica de Gênesis 1 é sua característica
mais proeminente. O relato da criação é organizado numa
seqüência de sete dias. Seis segmentos da criação começam
com a oração "Disse Deus..." e terminam com "Houve tarde e
manhã...", seguida do número do dia, de um a seis.
Mas o sétimo dia é tratado de forma diferente, o que
lhe dá maior destaque. Em vez de o número estar na oração
final, aparece na oração introdutória: "E havendo Deus
terminado no sétimo dia a sua obra...". O texto faz referência
a esse dia três vezes, enfatizando-o muito mais que aos seis
primeiros.


Eis, portanto, o que observamos: a obra criadora de
Deus nos é transmitida de forma rítmica: 12345677 7. Há
dois conjuntos de atividades criadoras, cada um com três
dias. O primeiro conjunto dá forma ao caos pré-criação
descrito no versículo 2 (o tohu); o segundo conjunto preenche
esse vazio pré-criação (o bohu). Esses dois conjuntos de dias
da criação, dias 1-3 formando o que estava "sem forma" e
dias 4-6 preenchendo o "vazio", são seguidos, então, pelo
sétimo dia de descanso de criação com ênfase tripla.
Há outra variação rítmica interessante. O terceiro dia
de cada conjunto de três dias compreende uma criação
dupla. Assim, a cadência passa a ser 1 2 3/3, 4 5 6/6,
seguido de 7 7 7.


Quando lemos esse texto em voz alta ou ouvimos sua
leitura (como era o caso da maioria das pessoas nos tempos
bíblicos), ele penetra o nosso ser. Entramos nos ritmos da
criação e descobrimos que estamos internalizando um
sentido criacional de regularidade, conectividade e
ressonância muito parecido com o que experimentamos com
a música. Ao assimilarmos Gênesis 1, vemo-nos "marcando o
compasso": um dois três-três, quatro cinco seis-seis, sete
sete sete.


Bruce Waltke transmite a qualidade musical e rítmica
do texto de Gênesis 1 chamando-o de "libreto para a vida de
todo Israel". Pense em Gênesis 1 como uma ópera ou
oratório sobre a criação da vida; ao incorporarmos esse texto,
esse libreto, em nosso modo de viver, esses ritmos entram em
nós e se expressam em nossa linguagem e trabalho.


É próprio da natureza do tempo ser rítmico; é o ritmo
que nos mantém envolvidos e presentes, habitando o tempo,
batendo o pé de leve, em vez de permanecermos sentados e
observando, medindo-o com um relógio. Esse cerne rítmico é
reforçado em Gênesis 1 com várias frases repetidas.
Observamos as repetições que demarcam o início ("Disse
Deus..." seguido de um imperativo) e a conclusão ("Houve
tarde e manhã") de cada um dos seis dias de atividade
criadora. Além dos oito atos principais de criação, os verbos
são empregados numa forma gramatical que traduzimos
usando o imperativo mais quatro vezes, resultando em doze
atos criadores especificados. O texto traz, ainda, várias
outras repetições que aprofundam a regularidade do pulso e
as variações do tempo da criação e nos mantém envolvidos (o
pulso) e alertas (as variações).


Somos criados para viver de forma rítmica dentro dos
ritmos da criação. Sete dias repetidos numa seqüência de
quatro semanas nos coordenam com o ciclo de 28 dias das
fases da Lua girando ao redor da Terra. Esse ritmo lunar se
repete doze vezes no caminho que a Terra e a Lua percorrem
anualmente em torno do Sol. Esses ritmos amplos e
abrangentes inspiram a regularidade do nascimento na
primavera, crescimento no verão, colheita no outono e
adormecimento no inverno. O tempo da criação é rítmico.
Estamos mergulhados em ritmos.

"The Creation Account in Gênesis 1.1-3, Part IV: The Theology of Gênesis 1",
Biblio-theca Sacra, out. 1975: 339.


Outras repetições que reforçam o ritmo são: "e assim se fez", seis vezes; "e viu
Deus que isso era bom", sete vezes; "conforme a sua espécie", dez vezes;
"separação", cinco vezes; "chamou", três vezes; "criou", cinco vezes; "abençoou",
duas vezes; "sede fecundos, multiplicai-vos", duas vezes; "firmamento", nove
vezes; "ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem fruto", três vezes;
"seres viventes"; três vezes; "aves", seis vezes; "animais domésticos", três vezes;
"que rastejam", duas vezes; "répteis da terra", duas vezes; "peixes do mar", duas
vezes; "luzeiros", três vezes; "luz", seis vezes.


Também somos feitos de ritmos. Em termos
fisiológicos, vivemos dos ritmos da pulsação e da respiração.
Nosso coração bate com regularidade, fazendo o sangue
circular pelo corpo com impulsos que se repetem sessenta,
oitenta, cem vezes por minuto. Nossos pulmões se expandem
e contraem, impelindo o oxigênio pelo corpo quinze, vinte,
trinta vezes por minuto.


Um aspecto interessante do ritmo é que podemos
acelerar ou desacelerar o compasso, mas não podemos
eliminar de todo a cadência. Podemos ver isso facilmente na
música e na dança, mas a própria criação também é assim.
Essa é a natureza da criação da qual fazemos parte. Estamos
inseridos no tempo, mas o tempo também está inserido em
nós. A criação é chamada à existência não por acaso ou
numa cacofonia de ruídos, mas de forma rítmica; ao ouvir e
observar, nos integramos nos ritmos. As grandes cadências
criativas continuam soando e ressoando ao nosso redor e
dentro de nós: "Disse Deus...", "Criou Deus...", "Abençoou
Deus...", "Chamou Deus...", "E viu Deus...".


Nas palavras de Jon Levenson, Gênesis "tem um certo
sabor litúrgico... uma descrição altamente regular e repetitiva
do processo da criação, passo a passo, dia a dia".
Continuamos a fazer parte desse processo à medida que o
texto de Gênesis nos sintoniza, nos coloca no ritmo, nos
mantém presentes no tempo da criação: luz e trevas... céu e
mar... terra e vegetação... sol, lua e estrelas... peixes e aves...
animais e seres humanos. Ao entrarmos no descanso de cada
noite e no trabalho de cada dia, os grandes ritmos formativos
nos mantêm conscientes e envolvidos nas palavras criadoras
de Deus: "Disse Deus...", "sede fecundos, multiplicai-vos...",
"segundo a sua espécie...", "era bom...", "assim se fez...",
"houve tarde e manhã...".


É claro que há muito mais em Gênesis 1. Há, também,
a obra de cada um dos seis dias que nos leva a atentar para
tudo o que está acontecendo ao nosso redor. Mas é pela
dádiva do tempo que, em primeiro lugar, nos tornamos
presentes e participamos dessa obra. Nada nessa criação
existe meramente para ser estudado, analisado, entendido;
cada elemento, a "obra" de cada dia, existe, antes de tudo,
para ser recebida como uma "nota" integrante e coerente dos
ritmos totalmente abrangentes do oratório da criação, na
qual respiramos o mesmo ar que Deus soprou sobre o
abismo; e, do mais profundo de nossos pulmões — nossa
vida —, cantamos e dançamos para a glória de Deus.


Recuperando o ritmo


Mas ainda não acabei de falar sobre a irmã Lychen.
Imagino uma situação na qual volto a ter dez anos de idade,
mais ou menos um mês antes de sua morte. Vou até a casa
dela e bato à porta. Ela abre e me convida para entrar. Não é
a primeira vez que vejo sua casa, pois, de vez em quando,
minha mãe me mandava levar um prato de biscoitos para
ela. De acordo com a rotina, depois que eu entrava, ela ia até
a cozinha e buscava um copo de leite para mim. Ficávamos
sentados na sala de estar repleta de miudezas e cortinas
sempre fechadas. Eu comia uma bolacha e bebia o leite
naquela sala escura onde o sol nunca entrava.


Mas, em minha situação imaginária, enquanto ela está
pegando o leite na cozinha, abro todas as cortinas. Quando
ela volta, exclamo: "Veja, irmã Lychen, o mundo!". Assustada,
ela deixa cair o copo, que se despedaça no chão.
Aproveitando sua confusão, eu a tomo pela mão e a levo para
o outro lado da rua. Descemos uma trilha até um córrego. Eu
lhe mostro tartarugas e sapos — duas criaturas que ela
nunca havia visto. Mostro um gavião-pescador saindo para
apanhar peixe, deixando para trás o ninho no qual se podem
ver várias cabecinhas cobertas de penugem. Ela fica
maravilhada. Então, um cervo de cauda branca pula do meio
de uma touceira. Ela pergunta o que é, e eu lhe digo que é
uma das gazelas de Salomão. Ela fica abismada. Eu fico
preocupado. Talvez seja emoção demais para ela. Levo-a de
volta para casa e ajudo a limpar o leite derramado e os cacos
do copo quebrado.
No domingo seguinte, ela se levanta durante o culto na
hora de sempre, mas não diz as palavras habituais. Dessa
vez, ela fala: "Um anjo me visitou esta semana e me mostrou
maravilhas que eu nunca antes havia contemplado. Ele me
disse que voltaria na quinta-feira para mostrar ainda outras
coisas. Não estou bem certa se desejo partir logo para 'estar
com o Senhor'".


Todas as quintas-feiras eu vou à sua casa, tomo-a pela
mão e a conduzo pela trilha até o córrego Lawrence,
mostrando-lhe mais maravilhas. Certo dia, ficamos até tarde
olhando o sol se pôr, criando um caleidoscópio de cores na
superfície da água. Posso ver a expressão de admiração da
irmã Lychen. Uma tarde, vemos uma ariramba pegar uma
porção de peixinhos e voar embora com um canto de triunfo
que mais parece um portão enferrujado se abrindo. Irmã
Lychen fica encantada. Em outro dia, trago sanduíches e
meio pacote de pão branco; sentamo-nos num tronco à beira
da água, almoçamos e damos de comer a dois cisnes e sete
ou oito gansos com seus penachos elegantes. Ela fica
extasiada.
Enquanto andamos de volta para casa de mãos dadas,
ela diz: "E de pensar que tudo isso sempre esteve aí, quase
no meu quintal!". A cada quinta-feira, enquanto caminhamos
junto ao córrego, ela comenta associações que faz entre os
hinos de domingo, os salmos, as Escrituras e o que está
sentindo, vendo, lembrando de sua infância. Domingo não é
mais o ensaio de uma fuga, o preâmbulo do livramento final;
é uma exposição da semana ou, pelo menos, da quinta-feira.
Ela nunca diz que o anjo sou eu, mas a cada domingo ela faz
um relatório da revelação do anjo de quinta-feira para aquela
semana. A última frase do seu relato semanal na hora do
testemunho adquire o ritmo de Gênesis: "Não estou bem
certa se desejo partir logo".
Então, depois de quatro semanas assim, a irmã Lychen
morre.


É CLARO QUE TUDO ISSO não passa de fantasia, na
qual, aos dez anos de idade, assumo o papel de um anjo
ministro. Mas minha fantasia tem base factual nos anos de
infância que passei ouvindo a liturgia dominical da irmã
Lychen obliterando o ritmo da criação. Para mim, essa
fantasia transformou-se, agora, num modo de vida: a
qualidade prática de Gênesis 1 incentiva meus esforços para
tentar abrir as cortinas das salas de estar de tantas pessoas
que conheço, de levar essas pessoas para fora entre um
domingo e outro para que participem dessa ópera grandiosa,
vendo, ouvindo, provando, tocando e cheirando o que Deus
criou e está criando por meio de sua palavra: céu e terra,
plantas e árvores, estrelas e planetas, peixes e aves, vacas
leiteiras e cães bassê e, coroando tudo isso, o homem e a
mulher, admiráveis, a maravilha das maravilhas!
Digo, portanto, que o caminho pelo qual Gênesis 1 —
que versa sobre a dádiva do tempo — penetra nosso ser
interior é o ato de adoração, o ouvir com fé, o receber a
Palavra de Deus em obediência. Mas, se deixamos as cortinas
fechadas a semana inteira, nos isolamos das texturas e
ritmos, do tempo comum que é o contexto da adoração. A
adoração é o instrumento principal usado para nos tornar
participantes da obra de Deus; mas, se as cortinas ficam
fechadas enquanto esperamos o domingo chegar, não temos
contato com o que Deus está fazendo no mundo real.
Essa obra e esses ritmos da criação são reproduzidos
em nossa vida e ganham foco na ordem para descansar no
sétimo dia, uma ordem que possibilita a nossa participação.
Quando saímos do lugar de culto, saímos com olhos
revigorados e atentos, com o coração recriado e obediente, e
passamos para o mundo no qual somos a imagem de Deus
participando da obra criadora de Deus. Tudo que vemos,
tocamos, sentimos e provamos traz dentro de si os ritmos de
"Disse Deus...", "e assim se fez...", "e era bom...". Sentimonos
mais à vontade do que nunca dentro da criação.


A dádiva do lugar

Gênesis 1 é estruturado em função do tempo, uma
seqüência de sete dias, nos quais Deus faz a criação existir
pelo poder de sua palavra. O efeito formativo é rítmico, usa
orações métricas e melódicas repetidas para colocar nossa
vida confusa, ansiosa e, por vezes, letárgica na cadência
constante, segura e sem pressa de Deus enquanto profere
sua palavra confiável e eficaz ao longo de seis dias. Esses
ritmos chegam, então, ao sétimo dia, que abrange todas as
coisas e no qual nos tornamos parte do tempo presente da
criação, assimilado e compreendido. É por meio desse sétimo
dia contemplativo que passamos a ser participantes da
criação. Gênesis 2 é estruturado em função do lugar. O
tempo provê o meio pelo qual nos tornamos presentes no
momento e a relação rítmica desse momento com todos os
outros momentos passados e futuros, dando-nos uma
história ao ligar nosso passado com firmeza e vigor; ao
mesmo tempo, nos dá uma semente de esperança que cresce
e se transforma em expectativa e realização, ligando-nos ao
futuro. O lugar é a dádiva que acompanha o tempo; ele nos
situa na Terra, onde nos orientamos, encontramos trabalho,
experimentamos a liberdade em obediência e a companhia de
outros seres humanos em comunidade.
Enquanto a analogia mais próxima para o primeiro
relato da criação é a música com sua seqüência de ritmos e
temas repetidos, semelhantes a melodias, o segundo relato se
assemelha mais a uma história, com um cenário dentro do
qual uma trama começa a se formar e os personagens são
apresentados. Vemos o ser humano ocupando seu devido
lugar no contexto do país, do trabalho e da comunidade.


O lugar

Este segundo relato da criação se desenrola em termos
geográficos. O primeiro relato da criação começou com a
afirmação: "No princípio, criou Deus os céus e a terra" e foi
estruturado numa seqüência de sete dias. Este segundo
relato inverte o par de substantivos, colocando primeiro a
terra e depois os céus; todas as ações ocorrem num só lugar
na terra, um jardim. O primeiro relato é abrangente, fala do
universo todo e de tudo o que há nele. O segundo relato se
concentra na terra e, mais especificamente, num lugar na
terra.


O lugar é definido como um jardim, em contaste com o
deserto. Um jardim sugere limites e propósitos. Não é "todo
lugar" ou "qualquer lugar", indefinido; é localizado: "E
plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do
Oriente" (Gn 2:8).
Tudo o que Deus faz ao formar os seres humanos
ocorre num lugar. Segue-se que, pelo fato de sermos suas
criaturas, não podemos escapar das condições em que fomos
criados, pois tudo o que tem a ver com Deus também diz
respeito a lugar. Toda vida é local: esta terra, esta
vizinhança, estas árvores, ruas e casas, este trabalho, estas
pessoas.


Isso parece tão óbvio que nem precisa ser dito. No
entanto, em boa parte da vida adulta, minha incumbência
tem sido conduzir homens e mulheres na vivência da fé cristã
no lugar onde criam seus filhos e trabalham para se
sustentar, onde pescam, jogam bola e fazem refeições, e sei
que desenvolver uma consciência de lugar como contexto
exclusivo e insubstituível para seguir Jesus é extremamente
difícil.


Durante 25 anos, um cientista nuclear compareceu
fielmente aos cultos de domingo em minha igreja e me ouviu
pregar um sermão de trinta minutos. Falei sobre a
mensagem de Jesus de perdão e salvação, misericórdia e
amor, graça e justiça. Depois do culto, quando saía do
templo, esse homem sempre demonstrava sua apreciação:
"Muito obrigado, pastor; foram palavras poderosas, uma
excelente mensagem". Eram poucos os domingos em que ele
não expressava reação positiva ao texto e a sua exposição.
Nunca tive motivos para supor que ele não era sincero. Mas,
quando ele voltava para casa (o lugar mais importante onde
poderia praticar o perdão, o amor e a justiça), maltratava e
desprezava a sogra que morava com ele, acumulando
durante anos um sem-número de ressentimentos de ambas
as partes. Para esse homem, a palavra de Deus nunca se
localizou em seu jardim, nunca se situou.
Essa história tem variações infindáveis.


Sempre gostei de ministrar estudos bíblicos,
especialmente nos lares ou em retiros, para grupos pequenos
de mais ou menos dez pessoas. Quando indivíduos de
personalidades e temperamentos distintos discutem,
comentam e expressam com veemência o que encontram na
verdade revelada de Deus, é como se o ar vibrasse com uma
corrente de baixa voltagem enquanto as palavras dos
participantes são entretecidas pelo Espírito de modo a formar
um contexto coerente e belo, com temas que vão surgindo e
sendo improvisados e elaborados em algo quase musical.
Mas, ao me encontrar com esses mesmos amigos em seus
locais de trabalho ou na rotina doméstica, percebia que havia
pouca ou nenhuma concordância entre os insights
eletrizantes dos estudos bíblicos e as condições de trabalho
ou no lar. É tão fácil nos empolgarmos com o evangelho fora
do nosso jardim! Mas é em nosso jardim que fomos
colocados.


Uma das seduções que dificultam a formação cristã é a
construção de utopias, lugares ideais onde podemos viver a
vida boa, abençoada e reta inteiramente sem inibições ou
interferências. A idealização, seguida da tentativa de
construir essas utopias, é um hábito antigo de nossa espécie.
Algumas vezes, procuramos fazê-lo politicamente em
comunidades; em outras, socialmente em pequenos grupos;
e, por vezes, religiosamente na igreja. O resultado final é
sempre tristeza. A utopia é, literalmente, "lugar nenhum".
Mas podemos viver num lugar real, e não em lugar
imaginado, idealizado ou formado artificialmente.


Em várias ocasiões, quando meu lugar pareceu
inadequado para a visão do que eu queria de Deus, uma
história me manteve firme onde eu estava: a de Gregório de
Nissa, que viveu na Capadócia no século IV. Seu irmão mais
velho, o bispo Basílio, providenciou para que Gregório fosse
nomeado bispo de Nissa, cidade pequena, desconhecida e
decididamente insignificante. Gregório objetou; não queria
ficar esquecido naquele fim de mundo. Seu irmão lhe disse
que não desejava que Gregório recebesse, mas que
concedesse distinção à igreja.37 Gregório mudou-se para o
lugar que lhe foi designado e ali ficou. As pregações que fez e
os textos que escreveu na comunidade continuam até hoje a
exercer influência revigorante. Uma das características das
exposições bíblicas de Gregório é o modo meticuloso e
intenso como lia as Escrituras não apenas em busca de
verdades ou idéias, mas como um texto a ser vivido, um texto
formativo para a fidelidade e a obediência cristãs. Na
comunidade desconhecida de Nissa, longe da adrenalina
estimulante da cidade grande, ele olhou ao redor e
reconheceu o seu lugar na criação, encontrou os preceitos da
revelação de Deus no mundo criado, observou as relações e
ressonâncias complexas entre o seu lugar e o Cristo da
criação.


Esse jardim em que o ser humano é colocado tem
nome: Éden. Essa palavra soa agradavelmente; remete a
"paraíso", "prazer", "felicidade". Um bom lugar para viver.
Mas, como sabemos pela seqüência do relato, o Éden não é
um lugar ideal e perfeito. É um lugar onde coisas ruins
podem acontecer e, na verdade, algo terrível — nada menos
que uma tragédia — aconteceu ali. Um pecado inconspícuo e
aparentemente inocente desencadeia uma avalanche de
pecados que continua a crescer até hoje, causando
destruição e caos em todas as comunidades de nosso
planeta.
Esse lugar, esse jardim, não é uma utopia, não é um
"lugar nenhum" ideal. É, simplesmente, um local, um ponto,
geografia, geologia. Mas o Éden também é um bom lugar,
pois mostra a forma pela qual podemos viver para a glória de
Deus.


AS ESCRITURAS QUE APRESENTAM a história da
salvação insistem em nos firmar inexoravelmente num lugar,
sempre e em qualquer situação.


Tudo o que é de importância crítica para nós ocorre em
chão firme. Montanhas e vales, cidades grandes e pequenas,
regiões e países: Harã, Ur, Canaã, Hebrom, Sodoma,
Macpela, Betel, Belém, Jerusalém, Samaria, Tecoa, Nazaré,
Cafarnaum, monte Sinai, monte das Oliveiras, monte Gilboa,
monte Hermom, Cesaréia, Gate, Ascalom, Azeca, Jericó,
Betsaida, Corazim, Emaús, o vale de Jezreel, o vale do
Cedrom, o ribeiro de Besor, Anatote e, abrindo a lista, o
Éden.


Em momento algum as Escrituras permitem que as
questões que, com freqüência, consideramos pertinentes à
vida espiritual — idéias, verdades, orações, promessas,
convicções — tenham vida própria, separada de pessoas e
lugares específicos. A religião/espiritualidade bíblica tem
uma baixa tolerância por "grandes idéias", "verdades
sublimes" ou "pensamentos inspiradores" desligados das
pessoas e lugares em que ocorreram. O grande amor de Deus
por nós e seus propósitos para conosco são concretizados
nas bagunças da cozinha e do quintal, nas tempestades e
nos pecados, no céu azul, no trabalho diário e nos sonhos de
nossa vida comum. Deus trabalha conosco do jeito que
somos, e não como devemos ser ou imaginamos que devemos
ser. Deus lida conosco no lugar onde estamos, e não onde
gostaríamos de estar.
As pessoas que querem Deus como fuga da realidade e
das condições difíceis desta vida não gostam desse aspecto
das Escrituras, nosso guia de vida. Mas essa é a realidade, e
não temos como controlá-la.
Porém, para o homem e a mulher que desejam mais
realidade, e não menos, essa insistência de que toda vida
autêntica, toda vida inserida na obra salvadora de Deus é
estabelecida, é situada, trata-se, certamente, de uma boa
nova.


"Éden, da banda do Oriente" é o primeiro nome de
lugar na Bíblia. É acompanhado de uma declaração irrestrita
de que o lugar é bom, essencial e fundamental para oferecer
as únicas condições possíveis para vivermos verdadeiramente
a nossa existência humana.


O ser humano

O texto diz duas vezes que o ser humano foi colocado
no jardim: "e pôs nele [no jardim] o homem que havia
formado" (v. 8) e "tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e
o colocou no jardim" (v. 15). O homem é colocado no lugar
que constitui o cenário para a vida humana.
O ser humano é o habitante mais proeminente desse
lugar, o jardim plantado por Deus e regado por um grande
rio que se divide em quatro braços.


A terminologia é expressiva: o termo usado para ser
humano é adam, que mais adiante na narrativa adquire a
distinção de nome próprio, Adão. O termo para solo é
adamah. O ser humano, adam, é proveniente de adamah, o
solo. É uma pena que não haja um modo adequado de
representarmos essa relação em nossa língua. Poderíamos
tentar algo como "terra" e "terráqueo", mas teria um ar de
ficção científica. Ou poderíamos usar "pó" e "empoeirado",
mas pareceria mais um personagem de faroeste.
Ainda assim, precisamos atentar para as repetições
verbais implacáveis nesta narrativa que acumula
ressonâncias entre o ser humano e o solo do qual ele é
formado. Temos dezoito ocorrências de adam, o ser humano;
cinco de adamah, o solo, complementadas por campo (três
vezes) e terra (dez vezes), jardim (cinco vezes) e pó (uma vez).
Ao somarmos todos os termos referentes a terra, que
designam o elemento de que o ser humano é formado e onde
o ser humano é colocado, temos dezenove ocorrências, quase
simétricas com as dezoito de adam, o termo que associa o ser
humano com aquilo de que ele é formado e onde ele é
colocado.


No capítulo seguinte, adam torna-se nome próprio, mas
aqui parece claro que adam é genérico, como ocorre em
Gênesis 1:27, no qual o termo inclui o homem e a mulher.
Assim adam, normalmente traduzido por "o homem", é o ser
humano como tal, ou seja, você, eu, ela, ele.
Uma vez que esse texto de Gênesis não trata apenas de
como as coisas começaram, mas também de como as coisas
estão transcorrendo agora, talvez seja mais exato substituir a
tradução "genérica" de adam como "ser humano" por
pronomes pessoais: nós, vocês.
Somos feitos do mesmo elemento que o lugar em que
fomos colocados. Deus nos formou do pó, da terra — a
mesma substância na qual andamos todos os dias,
construímos a casa, plantamos o jardim, construímos
estradas e dirigimos nosso carro.
Wendell Berry não gosta do termo "meio ambiente"
como sinônimo de criação, pois estabelece uma distância
muito grande entre nós e o lugar onde vivemos. Para ele, dá a
impressão de que vemos a terra simplesmente como um
lugar onde estamos acampados por acaso. Mas, como ele
argumenta, a terra não é algo separado de nós; faz parte de
nós e nós fazemos parte dela. Quando se profana a terra,
quando se exploram animais e se abusa deles, quando se
poluem riachos, a substância da nossa criação pessoal
também é profanada.


Não somos donos deste lugar e não podemos fazer com
ele o que bem entendemos. Nós somos este lugar, uma
identidade que temos em comum com todos os nossos
vizinhos humanos.
As palavras em latim humus (solo, terra) e homo (ser
humano) são derivadas de um radical comum, do qual
também temos o termo "humilde". Essa é nossa origem,
segundo Gênesis: pó — pó que o Senhor Deus usou para nos
transformar em seres humanos. Quem sabe teremos mais
humildade se desenvolvermos uma percepção aguçada de
nossa origem e um senso de concordância com ela?


O evangelho de Jesus Cristo não tem lugar para uma
espiritualidade geral ou abstrata, que é toda feita de idéias e
sentimentos, e que tem como hino oficial "O mundo não é o
meu lar / Estou apenas de passagem". A teologia divorciada
da geografia só nos coloca em apuros.

Por que é tão difícil ficar no lugar, cultivar o jardim
onde fomos colocados? Idéias, causas e projetos são
importantes, mas, se não se concretizam no jardim onde
fomos colocados, nos distraem do trabalho e da companhia
presentes e impedem a coordenação perfeita e delicada entre
a liberdade e a necessidade que se encontra no cerne de uma
vida de obediência livre.
Em sua obra-prima Expedition to the Pole [Expedição ao
Pólo], Annie Dillard coloca histórias de expedições polares
lado a lado com histórias de pessoas como você e eu que vão
à igreja para adorar a Deus. Ela mostra a catástrofe que
sobrevém às pessoas, quer numa expedição polar, quer
sentadas num banco de igreja, quando buscam o Absoluto, o
Sublime, quando ignoram ou se mostram indiferentes àquilo
que ela chama de "condições" e que eu chamarei adiante de
"necessidade". Diz ela: "De um modo geral, não vejo cristãos
fora das catacumbas que tenham consciência suficiente das
condições".
O fato é que podemos fazer o trabalho de Deus no lugar
onde Deus nos colocou: "E plantou o SENHOR Deus um
jardim no Éden... e pôs nele o homem que havia formado"
(Gn 2:8).


Liberdade e necessidade

Evidentemente, não somos apenas pó. O Senhor Deus
soprou nas narinas desse homem de pó, que se tornou,
então, "um ser vivente". Uma vez que o sopro de Deus é
introduzido nos pulmões dos seres humanos, acumula-se ao
nosso redor e dentro de nós uma dignidade enorme.
A dignidade assume configuração particular à medida
que uma mudança ocorre na trama narrativa: na primeira
metade do capítulo (v. 4-14), Deus nos forma e nos coloca
num determinado lugar; na segunda metade (v. 15-25), ele
trata conosco de maneira mais pessoal, mais relacional.
Primeiro, Deus nos envolve numa continuação de sua
obra criadora: "Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o
colocou no jardim do Éden para o cultivar e guardar" (v. 15).


Somos colocados para trabalhar, ou seja, temos algo útil a
fazer, participando na criação de Deus sob a direção de
Deus. Não somos forasteiros neste lugar, nesta terra; não
somos estranhos para essa substância da qual somos feitos.
O trabalho de que fomos incumbidos — lavrar a terra e
cuidar dela — é congruente com o elemento de que somos
feitos e com o lugar onde somos colocados. O verbo "guardar"
(shamar) tem o sentido de "cuidar bem de". Uma tradução
apropriada neste contexto é "conservar": vigiamos com o
propósito de manter e preservar. A conservação do lugar em
que vivemos é a primeira incumbência especificada nas
Escrituras.
Vivemos num lugar bom, cheio de árvores "agradáveis
à vista e boas para alimento" (v. 9), agradáveis aos olhos e ao
estômago. Em seu estudo sobre o tema do capítulo 2 de
Gênesis, Lewis Mumford fez o seguinte comentário perspicaz:
O funcionamento do ambiente natural e da história
humana oferece até à mais pobre das comunidades
um composto rico, muito mais favorável à vida do
que qualquer outro que planos ideais mais
racionais conseguiriam se lhes faltasse um solo
como esse no qual germinar.


Então, depois da incumbência de lavrar a terra de
nossa criação, Deus dá uma ordem: "De toda árvore do
jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento
do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela
comeres, certamente morrerás" (v. 16-17). A ordem anuncia
nossa capacidade de liberdade. Se o lugar indica as
condições necessárias para viver, a ordem indica a liberdade
necessária para dizer "sim" ou "não", escolher isto ou aquilo,
ir para este ou aquele lugar, formular nossas próprias idéias,
entoar nossos próprios cânticos. É uma liberdade
absolutamente singular em toda a criação.


No momento, estou menos interessado no significado
intrigante da "árvore do conhecimento do bem e do mal" do
que no simples sentido da ordem como tal. A ordem
pressupõe uma capacidade de liberdade. Não somos escravos
da necessidade; num sentido fundamental, nós somos livres.
Nosso lugar, esta criação, nos é dado de uma forma
determinada. Compreende as condições necessárias nas
quais vivemos: a gravidade e a segunda lei da
termodinâmica, a procriação e nossos genes, as condições do
tempo e as estações do ano, só para citar algumas.
No entanto, somos capazes de viver em liberdade
dentro deste mundo de necessidade. A necessidade, este
mundo que nos foi dado para que nele vivamos, não é, em si,
uma limitação, mas um campo no qual podemos praticar e
exercitar a liberdade. A combinação da permissão "de toda
árvore do jardim comerás livremente" (v. 16) com a proibição
"da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás"
(v. 17) nos situa num mundo de liberdade e necessidade.
Este jardim no qual fomos colocados (e não há nenhum
outro!) é onde aprendemos a viver com liberdade.
Conhecer os arredores, sua natureza e suas condições
é fundamental para uma vida que glorifica a Deus. Trata-se
de tarefa lenta e complicada. Envolve o aprendizado de viver
em combinações entrelaçadas e inconstantes, nas variações
intermináveis desta terra mapeada entre os pólos inabitáveis
da necessidade e da liberdade.
Esta ordem que pressupõe liberdade para obedecer ou
desobedecer é a primeira dada nas Escrituras. Define-nos
como criaturas livres: não somos predeterminados; podemos
decidir o rumo a tomar. Temos a capacidade de dizer: "Vou
fazer isso" ou "Acho que não vou fazer aquilo". Não somos
condenados a cumprir aquilo que alguns de nossos amigos
chamam de "carma". Somos a única parte da criação que tem
essa capacidade, as únicas criaturas que podem dizer "não"
ou "sim".


As andorinhas que invejamos, que voam com
naturalidade pelo céu, que parecem tão convidativamente
livres, na verdade não têm liberdade alguma; praticamente
tudo o que fazem é instintivo. Constroem ninhos, alimentam
os filhotes e migram no inverno para lugares distantes sem
mapa de orientação — uma série de procedimentos
incrivelmente complexos, realizados com extrema habilidade
e perfeição, mas sem que necessitem decidir um só detalhe.
São incapazes de concordar ou protestar. Ser "livre como um
pássaro" não é ser livre. Se moramos numa região fria,
podemos viajar para os trópicos no outono e desfrutar de sol
e calor, ou podemos ficar em casa e remover a neve da frente
de nossa porta. A decisão é nossa, pois, ao contrário dos
pássaros, somos livres.
Ter liberdade não significa fazer o que dá na cabeça,
como agitar os braços e pular de uma ponte, esperando alçar
vôo tranqüilamente sobre o rio. Na verdade, a liberdade é
incompreensível sem a necessidade. A liberdade e a
necessidade são realidades entrelaçadas. Grande parte da
arte de viver consiste em adquirir aptidões para negociar com
esses dois elementos. No entanto, devemos considerar que é
no âmbito do lugar, da dádiva do lugar, que a liberdade e a
necessidade nos envolvem numa dialética incessante. A
prática dessa dialética faz parte do cerne da condição
humana, da essência daquilo que fazemos ao nos juntarmos
a Cristo em sua atuação na criação.


Se desprezamos a necessidade, nossa chamada
"liberdade" resume-se a cambalear sem rumo e nos agitar
desordenadamente, ferindo a nós mesmos e a outros, quer
moral quer fisicamente — em geral, ambos. Se desprezamos
a liberdade, sujeitando-nos passivamente à necessidade,
tornamo-nos lentos; perdemos a particularidade singular de
nossa humanidade e afundamos no estado parasitário de
consumidores e expectadores.
Somente ao levarmos a sério nosso lugar, estudando
sua natureza, familiarizando-nos com suas condições,
aprendendo as texturas e sensações desse meio onde
trabalhamos e nos divertimos, no qual comemos e dormimos,
é que começamos a adquirir experiências pessoais das
realidades da liberdade e da necessidade e a aprender que
ambas são dádivas de Deus, que cada uma delas é
igualmente boa e que não podemos fugir de nenhuma das
duas.


Intimidade

Depois de nos formar e nos colocar num lugar
determinado (as condições necessárias para viver), de nos dar
um trabalho a realizar e ordens a seguir (inserindo-nos numa
vida de liberdade), Deus nos inicia no relacionamento
humano e nos coloca em intimidade com o outro. O Criador
anuncia: "Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma
auxiliadora que lhe seja idônea" (Gn 2:18).
Assim como nossa iniciação numa vida de liberdade foi
antecedida da incumbência de responsabilidade, trabalho e
guarda do jardim, nossa iniciação numa vida de intimidade é
também antecedida de uma tarefa, o uso da linguagem: Deus
formou os animais e as aves e "trouxe-os ao homem, para ver
como este lhes chamaria" (v. 19). A linguagem é usada pela
primeira vez no jardim para dar nome aos animais e aves. Há
quem sugira que, ao dar nome aos animais, Adão foi o
primeiro poeta, mas creio que a poesia veio mais tarde. Tendo
em vista o contexto em questão, é mais provável que ele
tenha sido o primeiro naturalista. O nome identifica. Quando
realizado de forma correta, o ato de dar nome capta um
pouco da essência da vida que o recebe.


Um nome é particular e chama a atenção para o que é
particular, para a "natureza", para a qualidade específica.
Dois amigos entram numa floresta. Um vê uma porção de
árvores, outro vê abetos e carvalhos, pinheiros e olmos. Um
olha para o chão e vê montes de folhas e moitas, e o outro
olha para baixo e vê sempre-noivas, hepáticas e arnicas. Um
olha para o alto e vê uma confusão de movimentos no meio
das folhas; o outro olha para cima e vê uirapurus, meirinhos
e outras aves cantoras. Qual dos dois demonstra mais
sensibilidade ao jardim e uma relação mais próxima com a
vida que transborda dele e ecoa por toda parte em cores e
sons, formas e movimentos — e ao Deus que plantou o
jardim e que nos coloca nele? E qual dois está mais bem
treinado para exercitar a liberdade gloriosa da obediência no
contexto das necessidades complexas do lugar?41
Os homens e as mulheres que me instruem para que
eu possa dar nome ao que se encontra no jardim, vendo e
ouvindo a proliferação de vida a meu redor, são tão
importantes quanto os que me ensinam a conhecer e
entender o Pai, o Filho e o Espírito Santo. John Muir, com
seus diários; Annie Dillard, explorando o córrego Tinker; e
Wendell Berry, trabalhando em seu sítio no Kentuky têm seu
lugar ao lado de Moisés, em Gênesis, como companheiros na
aquisição da fluência da linguagem no jardim da criação.
Loren Wilkinson e Luci Shaw são tão importantes quanto
Karl Barth, P. T. Forsyth e João Calvino contribuindo para
que eu me sinta em casa neste mundo que veio a existir e foi
formado pela palavra, visando aos propósitos da salvação
pelo Senhor Deus.


Mas dar nome aos seres vivos é apenas o primeiro
passo no caminho para a intimidade. Por mais maravilhoso,
útil e importante que seja, o ato de dar nomes não é
suficiente. A incumbência da linguagem que Deus deu ao
homem também mostra claramente algo que não está
completo. O ato de dar nomes, uma precondição para a
intimidade, não produz, por si, intimidade. As criaturas não
sabem o nome que receberam. Elas não falam. Elas não
respondem e, com isso, trazem à luz uma necessidade que o
simples ato de dar nomes não pode preencher: a necessidade
de uma resposta relacional, de intimidade.


Essa necessidade não preenchida é expressa de forma
sucinta na frase de Gênesis: "Para o homem, todavia, não se
achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea" (v. 20). Neste
contexto, uma "auxiliadora idônea" sugere uma pessoa que
também possa fazer uso da linguagem, que possa responder,
dialogar. Em resumo, uma igual. Por mais gloriosos que os
animais e pássaros sejam, não são capazes de conversar.
Precisamos de outro indivíduo com o qual possamos
nos relacionar.
"Uma auxiliadora idônea" sugere "adequação",
kenegdo, outra criatura distinta de mim, mas parecida o
suficiente comigo para que haja um relacionamento íntimo
caracterizado desde o princípio pelo uso da linguagem —
diferente dos animais e pássaros.


John Stott reuniu uma vida toda de observações em fotos e prosa que captam a
unidade criada subjacente entre aquilo que vemos e aquilo que cremos ao nos
familiarizarmos com nosso lugar na terra {The Birds Our Teachers).


E assim o Senhor Deus fez outro ser humano, uma
companheira, para suprir a carência de intimidade, "uma
auxiliadora idônea" nesse jardim de necessidade e liberdade
que é nosso lar. Não se trata apenas de outra criatura para
dar nome, identificar e cuidar, mas de uma pessoa com a
qual podemos ter intimidade. Ao contrário do pó usado para
formar o homem, aqui é usada uma costela, um osso tirado
da parte central e crucial do corpo, para formar o outro ser,
aquele que é "adequado": a mulher. A reação imediata do
homem a esse outro ser é expressa por meio da linguagem:
"Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne;
chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada" (v. 23).
Antes disso, o homem usou a linguagem para dar
nome aos animais, porém o texto não cita suas palavras.
Essas são as primeiras palavras citadas do discurso humano.
Nos capítulos iniciais de Gênesis, ouvimos uma profusão de
palavras de Deus: Deus criando, Deus fazendo, Deus
descansando, Deus abençoando, Deus ordenando. Agora,
ouvimos as primeiras palavras humanas a serem citadas.
São palavras de reconhecimento íntimo ("osso dos meus
ossos e carne da minha carne") e de relacionamento íntimo
("chamar-se à varoa, porquanto do varão foi tomada").


É significativo que essas primeiras orações
expressando intimidade cheguem até nós na forma de poesia,
nossa linguagem fundamental da intimidade — a linguagem
usada por bebês balbuciantes, por amantes, por devotos que
oram. Não se trata da linguagem impessoal e objetiva da
prosa, mas da dicção atraente e participativa da poesia,
revelando quem eu sou e envolvendo o outro numa revelação
pessoal.
Assim é entregue a dádiva do lugar: homem e mulher,
colocados no jardim necessário para trabalhar, desfrutar da
liberdade e usar a linguagem, coroados agora com a honra da
intimidade.


MUITOS APRECIADORES da criação, ou "amantes da
natureza", preferem olhar para o outro lado quando homens
e mulheres entram em cena. Gênesis não permite isso.
Homens e mulheres são parte integrante da criação tanto
quanto o jardim com árvores e rios, animais e pássaros. Anos
atrás, um de meus alunos que morava longe da faculdade e
tomava ônibus lotado todo dia, comentou com sua esposa
pela manhã, quando saía de casa:
— Hoje vou curtir a criação de Deus.
No dia seguinte, despediu-se com as mesmas palavras.
No terceiro dia, ela o chamou de volta e perguntou:
— Você não acha que devia ir para a aula hoje? Andar
no meio do mato ou na praia um dia ou dois é bom, mas e
suas responsabilidades?


Ao que ele respondeu:
— Mas estou indo para a faculdade todos os dias.
— Então, que história é essa de curtir a criação? —
perguntou a esposa.
— Todos os dias passo quarenta minutos dentro do
ônibus de manhã e outros quarenta à noite. Você consegue
imaginar um lugar mais cheio da criação do que esse? Todas
essas pessoas foram criadas, são criaturas feitas à imagem
de Deus, homens e mulheres.
— Eu não tinha pensado nisso.
— Quer dizer que você nunca leu Gênesis?


NÃO ESTOU SUGERINDO que é fácil nos mantermos
sempre atentos a essa ligação apresentada por Gênesis entre
animais e árvores e as pessoas no jardim (tendo a mais alta
consideração pelos vínculos entre homens e mulheres
formados por Deus e que se encontram bem diante de nós) e
as árvores e pássaros igualmente formados por Deus que se
encontram ao nosso redor. Ressalto apenas que isso é
necessário.


Anos atrás, quando meus filhos ainda eram pequenos,
passamos as férias no Parque Nacional Yellowstone. Os
parques nacionais são casos raros de grandes realizações
governamentais que preenchem nossas expectativas. Assim
como nossas igrejas e lugares de culto servem para santificar
o tempo,42 sempre tive a sensação de que esses
parques delimitam um lugar sagrado. Ao acompanharem
minha esposa e eu em passeios por essas regiões vastas,
repletas de beleza e vida selvagem protegida, nossos filhos
participaram de tantas conversas sobre a Bíblia quanto na
igreja. Eles ouviam sempre esta frase: "Ao passar por aqui,
deixe apenas pegadas e leve para casa apenas fotos". Levou
anos para nossos filhos descobrirem que era apenas um
slogan dos parques, e não um versículo bíblico.
Nas férias que passamos em Yellowstone, desfrutando
as bênçãos desse lugar sagrado, paramos à beira da estrada
junto a um campo de flores. Cerca de vinte metros adiante,
uma garotinha de uns cinco ou seis anos de idade estava
apanhando um buquê de gencianas. A genciana é uma linda
flor alpina azul, uma das minhas prediletas. Em sua
ingenuidade, a menina trazia consigo um punhado de flores
que provavelmente havia apanhado para a mãe. Quando a vi,
senti uma indignação repentina crescer dentro de mim diante
de tal profanação daquele solo sagrado e gritei: "Ei, não
arranque as flores!". Assustada com o meu berro, a garotinha
deixou o ramalhete cair, me olhou com um ar de confusão e
assombro, a tristeza se espalhando pelo seu rostinho, e
desatou a chorar.


Meus filhos logo brigaram comigo: "O que é isso, pai?
Até parece que você não sabe que o Deus que criou as flores
também criou aquela menina! Você estragou o dia dela e
quase matou a coitada de susto!". E continuaram com as
repreensões até que o meu dia foi para o brejo.
É claro que meus filhos estavam com a razão. Como
pude ser tão seletivo em minha consciência de proximidade
com a criação? Como pude ser tão sensível para com as
gencianas formadas do mesmo pó que eu e tão insensível
com uma garotinha também feita do mesmo pó, ou melhor,
de substância semelhante à minha própria costela?

Abraham Heschel chamou os sábados de "catedrais no tempo". The Sabbath


O mesmo pó: a genciana, a garotinha, eu. A profanação
de um dos elementos afeta os outros. A fim de desfrutarmos,
celebrarmos e vivermos essa dádiva do lugar onde o Senhor
Deus nos colocou, precisamos aceitar as pessoas ao nosso
redor com o mesmo prazer que aceitamos o falcão voando lá
no alto e as violetas florescendo aos nossos pés. Os homens e
as mulheres, as crianças e os idosos, os belos e os de
aparência comum, os cegos e os surdos, os amputados e os
paralíticos, os deficientes mentais e os que têm problemas
emocionais — cada um é detalhe importante e sagrado da
natureza, a criação de Deus.


AS DUAS HISTÓRIA DA CRIAÇÃO são iguais no
sentido de que o tema de cada uma é Deus operando na
criação. Gênesis 1: Deus (Elohim, a soma de todos os poderes
criativos) é o sujeito exclusivo de todos os 35 verbos usados
nos sete dias da criação. A criação no tempo. Gênesis 2: o
SENHOR Deus (Elohim, desta vez composto com Yahweh, o
nome ímpar e pessoal revelado a Moisés) é o sujeito exclusivo
dos verbos que formam o homem, plantam um jardim,
incumbem-no de um trabalho, dão ordens, formam animais e
pássaros, concedem a dádiva da linguagem e moldam um
relacionamento de comunhão e intimidade. A criação no
lugar.


Gênesis 1—2 se desenvolvem da mesma base: quando
nos levantamos pela manhã e olhamos ao nosso redor,
imaginando quem somos, como chegamos aqui, de onde
viemos e como nos encaixamos no que está acontecendo, a
resposta é a mesma: "No princípio, criou Deus os céus e a
terra" (1:1) e "Esta é a gênese dos céus e da terra [...] quando
o SENHOR Deus os criou" (2:4).
Para vivermos devidamente, ou seja, para a glória de
Deus, não podemos fazê-lo de forma abstrata ou geral. Temos
de viver de acordo com certas condições particularizantes em
que Deus opera, a saber, o tempo e o lugar, aqui e agora.
Gênesis 1 e 2 revelam os elementos formativos de nossa vida.
Gênesis 1 nos situa formativamente no tempo; Gênesis 2 nos
situa formativamente no lugar.


Hans Urs von Balthasar escreveu com grande
veemência e com detalhes sobre a necessidade de
compreendermos e apreciarmos a forma como fundamental
para a vida, com seu enfoque na vida cristã: "Que é uma
pessoa sem uma forma de vida, isto é, sem uma forma que
ela escolheu para sua vida, de modo que sua vida se torne a
alma da forma e a forma se torne a expressão de sua alma".
Não somos anjos desencarnados. Temos um endereço
fixo onde Deus pode nos encontrar. E temos dez dedos nas
mãos, dez nos pés, dois olhos, dois ouvidos, um nariz e uma
porção de outras partes que constituem um corpo que é,
declaradamente, nós mesmos. Isso basta para começar.


UMA TAREFA IMPORTANTE do cristão, porém muitas
vezes negligenciada em nossa sociedade e cultura, é observar
atenta e detalhadamente a sacralidade da criação.
Encontramos indícios da obra criadora de Deus por toda
parte à nossa volta e dentro de nós. Vivemos cercados de
querubins entoando "Santo, Santo, Santo".
É fácil não perceber. O pecado desfigura tanto a terra
quanto as pessoas. A morte é uma visitante freqüente.
Nossos ouvidos são agredidos por blasfêmias. Os olhos
enevoados e os ouvidos ensurdecidos pelo pecado perdem a
glória que se encontra bem diante de nós. Mas não há
desculpas. Temos a grande responsabilidade e o privilégio
enorme de vivermos diariamente de maneira a dar
testemunho das dádivas sagradas imensas do tempo e do
lugar. As boas-novas de Jesus, "o primogênito da criação",
têm como contexto essas dádivas de tempo e lugar, conforme
reveladas em Gênesis.


Muitas vezes, em sua afobação e seu zelo de propagar o
evangelho, nossa sociedade apressada e tecnologicamente
despersonalizada pula o contexto de Gênesis e improvisa
uma mensagem que nos permita prosseguir imediatamente
com nossa missão urgente. Na maioria das vezes, essas
improvisações não levam em consideração os detalhes
complexos e as belezas das dádivas de tempo e lugar que
Deus nos concede. Mas as boas-novas confiadas ao povo de
Deus são as boas-novas de Jesus Cristo, o primogênito da
criação. A vida e a obra de Jesus, sua crucificação e sua
ressurreição são inteiramente fundamentadas e consumadas
nas dádivas de tempo e lugar da criação. Não podemos
separar o que foi unido.


SEGUNDO TEXTO-BASE: O EVANGELHO DE JOÃO
O evangelho de João é um relato reescrito de Gênesis 1
—2. É o relato da criação no qual Jesus Cristo é apresentado
simultaneamente como revelação do Criador e como criação.
O Criador, o Verbo de Deus, que fez a criação existir por meio
de sua palavra (Gn 1), aparece no evangelho de João como
Jesus, o Verbo que fez e que continua a fazer a criação existir
por meio de sua palavra. A criação, sintetizada e completada
no homem e na mulher (Gn 2), é apresentada pelo apóstolo
João para nosso entendimento como sendo esse mesmo
Jesus, "o Verbo [que] se fez carne", que entrou em nossa
história, e "habitou entre nós" (Jo 1:14).
Nossos antepassados explicitaram a identidade de
Jesus na declaração "verdadeiramente Deus e
verdadeiramente homem", sendo que "verdadeiramente"
significa total e completamente: divindade pura, humanidade
genuína. Em Jesus Cristo vemos o Criador operando em
nossa dimensão (verdadeiramente Deus); nele também vemos
a criação da qual somos parte (verdadeiramente homem).


"[O] termo 'Filho do Homem' usado nesse evangelho mantém o sentido de
alguém que incorpora em si o povo de Deus ou a humanidade em seu aspecto
ideal [...] em momento algum há dúvida de que o evangelista está falando de uma
pessoa real, ou seja, de um indivíduo de carne e osso, um representante da raça
humana na história, 'Jesus, o Nazareno, filho de José' (1:45). Ele trabalha, se
cansa, sente sede, se alegra e entristece, chora, sofre e morre". C. H. DODD, The
Interpretation of the Fourth Gospel.


O EVANGELHO DE JOÃO é uma apresentação extensa
de Jesus Cristo, Criador e criação, operando na criação de
Gênesis. É o relato de Gênesis detalhado, personalizado e
firmado numa geografia e numa história reconhecíveis. A
vida cristã corre o risco permanente de se dissolver em idéias
maravilhosas, sentimentos sublimes ou projetos ambiciosos;
o evangelho de João, sustentado por Gênesis 1—2, não
permite as diluições e desintegrações tão fatais ao modo de
vida que busca ativamente a glória de Deus.


Século após século, geração após geração, esse
evangelho continua sendo uma de nossas melhores defesas
contra uma espiritualidade separada da vida real, da vida em
que seguimos a Jesus, um passo de cada vez, da cozinha
para o quarto, do estacionamento para o escritório, do
santuário para o cemitério, da sala de aula para o parque,
lutando contra "as coisas que há no mundo [...] a
concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a
soberba da vida" (1 Jo 2:15-16).
Tudo o que aparece em Gênesis 1—2 é vivido na pessoa
de Jesus entre homens e mulheres como nós, nas condições
em que vivemos (sol e chuva, comprando e vendendo,
nascimento e morte, enfermidade e opressão, sexo e religião
— seja o que for). A palavra que expressa de modo preciso
essa revelação abrangente de Deus na forma humana,
vivendo (e não apenas admirando ou discutindo) a criação, é
encarnação: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo
1:14). Encarnação, em carne, corporificação.


Não é raro imaginarmos que, se vivêssemos em outra
cidade ou numa vizinhança melhor, em condições mais
adequadas, se votássemos em governantes mais
competentes, se construíssemos escolas melhores, teríamos,
quase certamente, uma vida mais espiritual. O evangelho de
João afirma: "De jeito nenhum!".
Também é comum procurarmos formas de evitar a
monotonia, escapar sempre que possível para algum tipo de
êxtase, imaginarmos maneiras de fugir do tumulto do
trânsito e da família, de nos relacionarmos com pessoas que
pensam como nós e de nos envolvermos em disciplinas e
formas de vestir e falar que nos separam dos "outros". O
evangelho de João diz: "De jeito nenhum!".


ESTA É A ABORDAGEM do apóstolo João. Ele escreve
uma história que usa características dos relatos da criação
em Gênesis 1—2 e apresenta Jesus como o Verbo de Deus
que, como em Gênesis, continua a fazer a criação existir por
meio da sua palavra. Em algum ponto ao longo da linha do
tempo, as coisas deram errado (Gênesis também conta essa
história), e tornou-se absolutamente necessário repará-las.
Como a criação inicial, a reparação se dá pela palavra —
Deus faz a nova criação vir a existir na pessoa de Jesus. Mas,
nessa história, Jesus não apenas profere a palavra de Deus:
ele é a Palavra de Deus.
Na companhia dessas palavras, começamos a perceber
que as nossas são mais importantes que imaginávamos.
Dizer "eu creio", por exemplo, assinala a diferença entre vida
e morte. Nossas palavras crescem em dignidade e sobriedade
nas conversas com Jesus, pois ele não impõe essa nova
criação como solução; ele nos insere nessa criação através de
um relato, de longas conversas, de relacionamentos pessoais
íntimos, de repostas com-passivas, de orações ardentes e — a
somatória de tudo isso — de uma morte sacrificial. Na
companhia de Jesus, ganhamos intimidade com a criação.
Ela deixa de ser algo distante que podemos adotar ou ignorar
como bem entendermos. Não podemos nos afastar da criação
para cuidar da vida espiritual. Estamos inseridos na criação,
fazemos parte dela.


O apóstolo João indica a ligação do seu relato com
Gênesis abrindo o evangelho com as palavras iniciais de
Gênesis: "No princípio..." (em grego, en arche). Em seguida,
numa passagem extraordinária de poesia teológica, João
identifica Jesus com esse Verbo de Gênesis. O mesmo Verbo
que fez toda a criação existir é Jesus que, agora, dá
existência a uma nova criação. João expressa isso de forma
sucinta e, ao mesmo tempo, abrangente em sua frase
incomparável: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós,
cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como
do unigênito do Pai" (Jo 1:14).


A tarefa de João agora é mostrar Jesus completamente
à vontade na criação de Gênesis com o propósito de nos fazer
sentir completamente à vontade nessa mesma criação
sagrada. É evidente que a vida é feita de muitas outras coisas
além da criação. Temos a história sagrada, a comunidade
sagrada (a segunda e a terceira parte deste livro) e, na
vivência destas, Jesus também é decisivo. Começamos,
porém, com a criação. Não podemos pular o começo e passar
para um nível mais elevado: vivemos um dia depois do outro,
e não um devaneio sem tempo definido; vivemos na terra,
com animais e pássaros, e não em castelos de nuvens;
vivemos como homens e mulheres, e não em solidão
imperturbada; somos carne que precisa ser alimentada,
limpada e vestida. Não podemos viver as dádivas da história
da salvação e da comunidade sagrada concedidas por Deus
de forma independente das condições da criação de Deus.
Jesus não o fez, e nós não podemos fazê-lo.
Será que João estava lidando com pessoas que
desejavam encontrar um atalho, pulando a criação a fim de
chegar ao "verdadeiro cerne das coisas", mergulhar na "vida
mais profunda", viver num "nível espiritual mais elevado" do
que outros ao seu redor — aquilo que identificamos
anteriormente como o vírus "gnóstico"? Seria de surpreender
se ele não estivesse, pois sempre que surge a preocupação
com Deus e com uma vida piedosa, esse tipo de atalho para
evitar a criação também aparece.


JOÃO É UM ESCRITOR de grande competência, que
emprega com habilidade nuanças e alusões. O texto
apresenta uma simplicidade convidativa, mas essa
simplicidade que esconde insights profundos. Seria
irreverente e profano reduzir ou resumir seu evangelho a
umas poucas "verdades" ou "princípios" (a abordagem
gnóstica). Devemos deixá-lo agir à sua própria maneira.
Nossa tarefa é nos sujeitar à arte narrativa de João e permitir
que ele nos fundamente no Jesus da criação, essa criação na
qual Jesus revela a plenitude de Deus; e, depois, seguir
Jesus e adotar a vida de fé firmada na criação, cuja plenitude
tome forma dentro de nós.
João escreve a história de Jesus de maneira bastante
diferente de seus companheiros canônicos Mateus, Marcos e
Lucas, que seguem outro plano. A abordagem de João
apresenta a mesma história, mas a mudança de tom e de
ponto de vista nos envolve de maneira distinta. O romancista
John Updike observa que, se considerarmos Mateus, Marcos
e Lucas progressivamente sedimentares, João é metafórico —
todas as camadas intensamente combinadas em algo muito
diferente.


A narrativa de João é constituída principalmente das
conversas de Jesus. No relato reescrito que João apresenta
da criação de Gênesis, a característica mais conspícua é que
Jesus fala. Ele é, afinal de contas, o Verbo. Mas, ao contrário
das frases curtas de Gênesis, as palavras de Jesus fluem em
diálogos e discursos. A oração inicial de João: "No princípio
era o Verbo" é detalhada nas conversas de Jesus com
pessoas de todo tipo vivendo em quaisquer circunstâncias,
conversas curtas e longas, incisivas e complexas, mas todas
conversas.


Essas conversas se desenvolvem e se acumulam:
conversas entre Jesus e sua mãe, Jesus e seus discípulos,
Jesus e Nicodemos, Jesus e a samaritana, Jesus e o
paralítico, Jesus e o cego, Jesus e os judeus, Jesus e Marta,
Jesus e Maria, Jesus e Caifás, Jesus e Pilatos e, sem
nenhuma mudança de tom ou dicção, entre Jesus e Deus,
entre o Filho e o Pai. Em várias ocasiões, as conversas se
transformam em discursos, mas o tom dialogal é sempre
preservado. Não se trata de declamações para um "mundo"
generalizado, mas de conversas pessoais. O Senhor da
linguagem usa a linguagem não para dominar, mas para
formar relacionamentos de graça e amor, criar comunidades
e amadurecê-las em oração.


Nesse universo ricamente dialogal do evangelho, três
elementos dão à narrativa uma forma associada
distintivamente à "criação": a fórmula ego eimi, o uso do
termo "sinal" e a menção freqüente da glória.
"Ego eimi"


Quando Deus apareceu a Moisés na sarça ardente e
lhe disse que tiraria o povo da escravidão egípcia, Moisés se
mostrou compreensivelmente cauteloso. Pediu que Deus se
identificasse pelo nome, e a resposta foi: "EU SOU O QUE
SOU [...] Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou
a vós outros" (Êx 3:14). Essa expressão se tornou o nome
pessoal único de Deus em Israel: "Javé", na forma original
hebraica; ego eimi, na grega. Ego eimi, "eu sou", é o nome
mais pessoal de Deus nas Escrituras. Jesus usa essa
expressão com freqüência. Toda vez que ele diz ego ou ego
eimi, ouve-se o eco do nome "Javé". Ele toma o Nome para si.
Todos os evangelistas mostram Jesus empregando essa
fórmula que o identifica com Deus, mas João o faz com muito
mais freqüência que os outros três juntos. Quase todos que
refletem sobre essa característica percebem, como diz G. M.
Burge, que "Jesus está aplicando publicamente o nome
divino de Deus — a presença autorizada de Deus — a si
mesmo".
A freqüência com que a declaração justificadamente
célebre de Jesus "Eu sou..." aparece ao longo dessas
conversas leva o relato a operar simultaneamente em dois
níveis (ou duas dimensões): ouvimos Jesus usando o novo
nome de Deus, "Eu sou", como o seu próprio nome e na
entonação e forma gramatical mais simples, o uso pessoal do
verbo "ser". Por meio dessas conversas que vão se
acumulando, percebemos que Deus está dizendo isso com a
voz de Jesus, o Deus que fez toda a criação existir, o Deus
que se identificou para Moisés como o salvador de Israel,
esse Deus falando nas conversas e discursos de Jesus — a
Palavra e as palavras de Deus.


O chamado ego autorizado ocorre 20 vezes em Mateus, 17 vezes em Marcos, 23
vezes em Lucas e 132 vezes em João. A expressão completa ego eimi é usada 5
vezes por Mateus, 3 vezes por Marcos, 4 vezes por Lucas e 30 vezes por João. Cf.
Joel B. GREEN e Scot MCKNIGHT (org.), Dictionary of Jesus and the Gospels.


O uso mais ousado que Jesus fez do Nome se deu
durante a Festa dos Tabernáculos no templo em Jerusalém:
a festa era associada à expectativa messiânica, e o templo era
o lugar honrado de Deus. Justamente nessa ocasião e nesse
lugar, Jesus declarou: "Em verdade, em verdade vos digo:
antes que Abraão existisse, EU SOU" (Jo 8:58). Reynolds
Price, um grande romancista, que faz várias observações
mordazes sobre as formas e circunstâncias variadas em que
Jesus emprega o "Eu sou", chama esse episódio de "ponto
culminante das asserções de Jesus acerca de si mesmo".47 A
reação imediata de seus ouvintes mostra que entenderam de
imediato o que ele estava dizendo: "Eu sou o próprio Deus,
aqui e agora; eu sempre fui, e sempre serei".


Mas os ouvintes de Jesus conheciam as Escrituras:

"Aquele que blasfemar o nome do SENHOR será morto; toda
a congregação o apedrejará" (Lv 24:16). No mesmo instante,
as palavras de Jesus transformaram a congregação numa
turba de linchadores; havia pedras de sobra da construção
do templo espalhadas por toda parte, de modo que "pegaram
em pedras para atirarem nele" (Jo 8:59). Mas ele escapou do
apedrejamento.
Em sete ocasiões, Jesus usa "Eu sou/ego eimi" com um
predicado, uma metáfora que serve de parábola, dando os
detalhes de sua natureza e de seus objetivos: o pão da vida
(Jo 6:35); a luz do mundo (8:12); a porta para as ovelhas
(10:7); o bom pastor (10:14); a ressurreição e a vida (11:25), o
caminho, a verdade e a vida (14:6); a videira verdadeira
(15:1).


Todas essas metáforas são palavras simples e comuns,
que costumamos usar dentro e fora de casa enquanto
realizamos nossas tarefas, andando e vendo, crendo e
amando. Na verdade, o apóstolo João praticamente não usa
em seu relato palavras que não fazem parte de nosso
vocabulário desde os cinco anos de idade. Somos incluídos
nessas conversas caracterizadas por intimidade e ausência
de pressa; somos recebidos de braços abertos como
participantes.


Intimidade. Por meio do relato de João, Jesus nos
convida para esta vida, a vida de Deus, em termos e
circunstâncias imediatamente acessíveis. Usa a gramática
mais simples para nos convidar a entrar nesse relato como
participantes. Jesus não tenta nos impressionar com
palavras compridas ou conceitos pomposos; ele não ostenta
suas credenciais; não ameaça nem intimida com
demonstrações de autoridade. Jesus conversa com os
mesmos tipos de pessoas com quem conversamos quase
todos os dias, e em muitos dos quais reconhecemos a nós
mesmos.


E ausência de pressa. João é o narrador mais
demorado. Ele se move devagar, repete, anda em círculos.
Usa as palavras com carinho, saboreando cada uma. Ou,
então, destaca uma frase e depois rearranja suas palavras
sutilmente, mudando o ângulo de refração e mostrando outra
cor. Austin Farrer caracterizou o estilo de João nesse sentido
como "meditação divinatória".48 O ritmo narrativo forte tão
pronunciado nos três evangelhos anteriores desacelera em
João e se transforma numa caminhada dominical lenta e
meditativa.
Ao tentar reconstituir a mordacidade profética de
Thoreau para nós, Edward Dahlberg afirmou: "Walden não
pode ser empurrado apressadamente para dentro do coração
dos homens [...] Induza e sugira".49 E se o personagem
Walden, de Thoreau, não pode ser apressado, muito menos o
evangelho de João. Para ler essa história, para ouvi-la com o
coração, os milhões de leitores apreciadores de João
desaceleram seu ritmo para acompanhar o do apóstolo,
sujeitando-se às cadências oscilatórias dos diálogos,
rejeitando resumos doutrinários que visam economizar
tempo e explicar o que João quer dizer teologicamente, sem
se dar o trabalho de ouvi-lo dizer tais coisas.


"Ele pega uma frase ou palavra, brinca com ela, repete-a, vira-a do avesso e
depois a coloca de lado, e reflete de forma semelhante sobre outra palavra, muitas
vezes, que foi deixada de lado no processo de tratar da primeira palavra.
Precisamos nos acostumar com essa abordagem e aceitá-la, pois, de outro modo,
ficamos simplesmente desconcertados e irritados com sua recusa em ir direto à
questão central e avançar de maneira ordenada" (A Rebirth of Images,).


Ao observarmos a narrativa de João, percebemos logo
que não está muito interessado em relatar algo novo sobre
Jesus (apesar de fazê-lo em várias ocasiões ao longo do
caminho); antes, seu desejo maior é nos atrair para um
relacionamento com Jesus. "Crer" e "amar" são verbos
característicos; nenhum dos dois pode ser realizado às
pressas.


Assim, no quarteto dos evangelistas, João tem a última
palavra narrativa. À medida que uma geração sucede outra,
há o perigo de a criação ser reduzida, por um lado, a mero
estudo da natureza ou, por outro lado, a simples doutrina.
João renova a qualidade pessoal e original da criação de
Deus, planejada primorosamente para crer e amar. O poema
de Robert Browning "A Death in the Desert" ["Uma morte no
deserto"] , considerado por William Temple "a interpretação
mais penetrante do apóstolo João na língua inglesa",
apresenta João explicando por que escreveu a história de
Jesus da maneira como o fez:
... a verdade, amortecida de seu esplendor absoluto,
Pode precisar do olho do amor para traspassar a
dúvida desdobrada.


João oferece o "olho do amor". Até hoje, sempre que o
brilho da história da criação é ofuscado por um estudo
despersonalizado ou por clichês obscuros, o relato de João é
o evangelho mais indicado para penetrar até o esplendor
original de Gênesis.


Os sinais


Quase todos ansiamos por sinais — fenômenos
sobrenaturais e prodígios de vários tipos. Costuma-se
pressupor que o campo extenso da religião é o terreno de
onde brota o miraculoso e, quanto mais solo fértil, mais
milagres por hectare. Assim, muitas vezes há quem se
surpreenda ao descobrir que Jesus mostrou uma clara falta
de entusiasmo quanto a esse assunto como um todo. Sem
desprezar os milagres em si, Jesus negou categoricamente
que fossem prova de autenticidade e advertiu de forma
enérgica para não nos deixarmos enganar por essas
ocorrências: "Surgirão falsos cristos e falsos profetas
operando grandes sinais e prodígios para enganar, se
possível, os próprios eleitos" (Mt 24:24; ver também 2Ts 2:9;
Ap 19:20). Além disso, apesar de ter realizado milagres ao
longo de sua vida, Jesus recusou duramente usar um sinal
milagroso como validação ou prova de sua autoridade divina
e respondeu com severidade àqueles que lhe pediram isso:
"Uma geração má e adúltera pede um sinal" (Mt 12:39; ver
também Lc 23:8 e 1Co 1:22).
Parece claro o suficiente e, vindo de Jesus, bastante
autorizado: não se impressione com sinais; não saia em
busca de sinais. Os milagres não são prova de verdade ou
realidade. Os prodígios podem oferecer excelente
entretenimento, mas seu valor não vai muito além disso.
Num sentido fundamental, não podemos evitar os milagres.
Afinal, vivemos em um mundo no qual Deus se encontra
sobrenaturalmente ativo, de modo visível e invisível, tanto ao
nosso redor quanto dentro de nós, muito além de nossa
capacidade de observar, explicar, controlar ou administrar.
Seria estranho se, pelo menos de vez em quando, não
vislumbrássemos esse "além" em nossa realidade e
comentássemos sobre ele — um sinal, um indício da
presença ou da atuação de Deus onde não esperávamos vê-la
ou ouvi-la e em circunstâncias que não somos capazes de
explicar. Mas esses sinais não são uma forma de propaganda
ou entretenimento.


João usa o termo "sinal" dessa forma disciplinada. É
um de seus termos característicos. Ele não apresenta os
sinais de Jesus para provar que ele é superior, para exibi-lo
como tal ou, ainda, para separá-lo da criação, mas para nos
permitir ver o interior da criação, e não apenas sua
superfície; para nos mostrar como Jesus criou todas essas
coisas e continua a mantê-las coesas (Cl 1:15-20),
prosseguindo com sua obra nessa mesma matéria-prima da
criação. Tudo o que Jesus faz é com as mãos profundamente
mergulhadas na terra.


Jesus impacienta-se abertamente e até rejeita aqueles
que pedem provas miraculosas que validem sua autoridade.
Logo depois de "[dar] Jesus princípio aos seus sinais"
transformando água em vinho no casamento em Caná (Jo
2:11), o evangelho de João mostra Jesus expulsando aqueles
que usavam os átrios do templo como lugar de comércio
durante a Páscoa para vender animais para os sacrifícios e
trocar dinheiro para os devotos que chegavam com moedas
estrangeiras — dois negócios extremamente rentáveis. Jesus
condenou essa exploração com palavras severas: "Não façais
da casa de meu Pai casa de negócio" (Jo 2:16). Os
profissionais religiosos (neste caso, "os judeus")
questionaram o direito dele de interferir nas rotinas aceitas e
perturbar os procedimentos habituais do templo, causando
grande confusão: "Que sinal nos mostras, para fazeres estas
coisas?" (v. 18). Ou seja: "Queremos ver seus documentos.
Quem lhe deu autorização para invadir o templo desse jeito e
agir como se fosse o dono do pedaço? E que história é essa de
'Pai'? Você está num local sagrado, na época da festa mais
sagrada do ano. Nós mandamos aqui. Mostre-nos um sinal
que autorize esse ultraje".53 Jesus se recusou a atendê-los.
Sua resposta ("Destruí este santuário", v. 19) foi uma
declaração enigmática que não serviu de resposta e que, por
eles não serem capazes de entendê-la, só os irritou ainda
mais. Ao que parece, Jesus não tem tempo para pessoas que
exigem feitos sensacionais para validar a verdade ou
confirmar a presença de Deus em seu meio.


C. H. DODD observa que "a expressão hebraica freqüente othoth vumoftim, mofet
(em grego, teras) significa algo esplêndido ou maravilhoso, um 'milagre' no sentido
exato. Mas oth (em grego, semeion) não conota necessariamente algo miraculoso.
O termo é usado sozinho para uma garantia ou penhor entre homem e homem ou
entre Deus e homem". The Interpretation of the Fourth Gospel.


Sem dúvida, os sinais e prodígios, os milagres e os
grandes feitos estão presentes na história; constituem parte
importante da história bíblica e de seu prosseguimento e sua
consumação na vida cristã; mas fora de contexto, sem a
revelação do próprio Deus em Jesus, desligados e afastados
de seu posicionamento orgânico na formação complexa e
detalhada do povo de Deus, não passam de coisas, produtos
miraculosos de consumo comprados e vendidos num
comércio religioso.


Há muito tempo, é hábito os leitores do evangelho de
João contarem sete sinais, atos de Jesus descritos com
certos detalhes pelos quais podemos reconhecer a revelação
de Deus em Jesus e crer nela. O verbo central é "crer". João
escreve seu evangelho para despertar a fé, ou seja, a
confiança e participação obedientes.


Os sete sinais mostram Jesus dando continuidade às
obras realizadas nos sete dias da criação em Gênesis. Seria
difícil narrar essas histórias sobre Jesus sem um sentimento
de assombro e espanto por nos ser permitido descobrir algo
extraordinário, a compreensão de que esses sinais são prova
de que Deus continua operando na criação, não o fazendo
apenas como engenheiro de manutenção. Ainda assim, João
atenua os elementos prodigiosos e deixa claro que nenhum
desses sinais foi compulsório, obrigando as pessoas a chegar
ao veredicto unânime: "Deus fez isso!".


Quando Moisés estava sendo preparado para confrontar o Faraó, Deus lhe deu
"sinais" confirmadores — na tradução grega de Êxodo (4:8-9), a mesma palavra
(semeiom) que João usa em seu Evangelho. Será que encontramos aqui um eco
daquele confronto? Talvez.


De acordo com uma regra das Escrituras ignorada com
freqüência, não podemos ser obrigados a crer. Por sua
natureza, a fé requer aquiescência e participação, confiança e
compromisso. Quando cremos, nos encontramos no
relacionamento mais pessoal e íntimo com o Outro. A fé não
pode ser forçada. Se formos ameaçados, seduzidos ou
manipulados para crer, a conseqüência não será a fé, mas
intimidação, violação ou abuso. Nós nos tornaremos menos
do que éramos, e não mais.
João preserva essa idéia de participação e liberdade
inserindo cada sinal num relato; o sinal não é algo
independente a ser estudado como um objeto em si, mas um
momento ou evento de conscientização: Jesus é Deus
operando aqui, agora. João também preserva essa idéia de
participação espontânea deixando claro que o sinal, em si,
não é compulsório; antes, é uma placa de sinalização que
aponta para além da pessoa, e pode ou não ser seguida.
Ao que parece, no primeiro sinal, a transformação da
água em vinho no casamento em Caná (Jo 2:1-11), a maioria
dos convidados nem ficou sabendo da ocorrência do milagre.
Os servos, a mãe de Jesus e os discípulos testemunharam o
prodígio, mas o texto menciona os discípulos apenas como
aqueles nos quais o sinal cumpriu seu propósito: eles
"creram nele [em Jesus]". O "mestre-sala", responsável pelo
bom andamento da festa, me dá a impressão de ser um
esnobe, arrogante em seu papel e indiferente com os servos.
Tudo indica que ele não se deu conta do milagre, pois
chamou o noivo de lado e, como especialista em vinhos finos
que era, comentou a prática incomum de guardar um vinho
tão bom para o final, quando os convidados nem teriam
condições de notar a qualidade.


O segundo sinal também começa em Caná, e termina
em Cafarnaum (4:46-54). Nele, encontramos tanto uma
crítica quanto uma corroboração dos sinais. Ele se inicia em
Caná quando um oficial, provavelmente nomeado por
Herodes Antipas, vem de Cafarnaum para pedir que Jesus o
acompanhe e cure seu filho. A resposta de Jesus é negativa:
"Se, porventura, não virdes sinais e prodígios, de modo
nenhum crereis" (v. 48). Não muito diferente da avaliação
desfavorável dos sinais relatada por Mateus (Mt 12-.39).54
Mas o pai não desiste e, em sua persistência, é como se
estivesse declarando: "Não me importo com sinais, quero que
você cure meu filho!". Então vem a parte interessante. Jesus
lhe ordena: "Vai [...] teu filho vive"; e "o homem creu" e
partiu, sem nenhuma prova da cura, ou seja,
independentemente de sinal ou milagre.


O pai creu em Jesus sem a ajuda de um sinal;
poderíamos até dizer: sem a distração de um sinal. Foi a
palavra de Jesus, e não o sinal, que formou a convicção do
homem. Só no dia seguinte, quando se aproximava de sua
casa — uma jornada de mais de 30 quilômetros separava
Cafarnaum de Caná —, é que o homem ficou sabendo que
seu filho havia se recuperado no dia anterior, exatamente na
mesma hora em que Jesus, em Caná, dissera que isso
aconteceria.


O terceiro sinal, a cura de um paraplégico, se dá no
tanque de Betesda (Jo 5:1-18). Esse sinal foi espetacular,
pois o homem havia passado 38 anos paralisado. O cenário
foi igualmente dramático: um tanque grande não muito longe
do átrio movimentado do templo no sábado. Na beira do
tanque, inválidos lotavam cinco pavilhões na expectativa de
ter a saúde restabelecida pelas águas supostamente
terapêuticas. Jesus curou o homem com uma pergunta
("Queres ser curado?") e uma ordem ("Toma o teu leito e
anda").


Seria de esperar que, ao verem o que Jesus havia feito
para restaurar essa preciosa, porém avariada, imagem de
Deus na criação as pessoas reagissem com uma fé grata e
reverente em Jesus. Afinal, aquele infeliz havia passado
tantos anos à beira do tanque quanto seus antepassados
passaram caminhando no deserto! Mas aqueles que se
consideravam a polícia religiosa atacaram Jesus, acusando-o
de profanar o sábado, uma investida que intensificou até se
transformar numa trama para assassiná-lo quando ouviram
Jesus "fazendo-se igual a Deus". Neste caso, o sinal — uma
janela que mostrou Deus operando em Jesus — provocou
hostilidade assassina, exatamente o oposto de fé.


Esta é a única vez que a expressão "sinais e prodígios" ocorre em João, talvez
ecoando as palavras de Deus a Moisés: "... multiplicarei na terra do Egito os meus
sinais e as minhas maravilhas. Faraó não vos ouvirá..." (Êx 7:3-4).


O quarto sinal, a alimentação dos cinco mil, se dá num
monte da Galiléia, no litoral norte do mar de Tiberíades, por
volta da época da Páscoa (Jo 6:1-15). É muito provável que
associações com o êxodo do Egito, a refeição salvadora da
Páscoa dos judeus e os anos de provisão miraculosa de maná
no deserto tenham vindo logo à mente das pessoas que
estavam sendo alimentadas. Lembrando-se de Deuteronômio
18:15, concluíram com entusiasmo que havia um novo
Moisés no meio deles: "Vendo, pois, os homens o sinal que
Jesus fizera, disseram: Este é, verdadeiramente, o profeta
que devia vir ao mundo" (v. 14).


Mas só entenderam parte do sinal. Perceberam
corretamente que Jesus vinha de Deus e os estava
conduzindo à salvação, fornecendo-lhes uma refeição
miraculosa. No entanto, interpretaram o sinal
incorretamente; "apropriaram-se dele" como ordem para
forçar Jesus a se tornar o rei político que os libertaria do
domínio romano. Jesus retirou-se para os montes. Não
podemos obrigar Jesus a fazer o que achamos que ele deva.
Um sinal não é um ingresso em aberto que podemos usar
para determinar as prioridades de Jesus segundo os nossos
interesses.


No dia seguinte, de volta a Cafarnaum (6:25-30), Jesus
tentou corrigir essa interpretação equivocada do sinal como
convite para eles obterem apenas o que desejavam para si
("comestes dos pães e vos fartastes") e não como revelação de
Deus operando em Jesus, um sinal indicando Deus dando de
si para eles (" [a comida] que subsiste para a vida eterna, a
qual o Filho do Homem vos dará"). Mas eles continuaram
sem entender e pediram outro sinal, "para que o vejamos e
creiamos em ti".


O mal-entendido levou ao discurso maravilhoso no
qual Jesus declara: "Eu sou o pão da vida" (v. 35-59), mas
também causou um bocado de murmúrio e controvérsia. Por
fim, resultou numa grande deserção de seguidores (v. 66). Os
sinais revelam Jesus como Deus operando entre nós, mas
também mostram como muitos de nós não estamos
preparados para aceitar e assumir a revelação e como
podemos nos tornar contenciosos quando Deus no céu,
aquele que adoramos, se mostra envolvido com os detalhes
de nossa vida aqui na terra de maneiras que não coincidem
com nossas posições preconcebidas.
No quinto sinal, inserido no contexto do quarto, Jesus
acalmou uma tempestade no mar enquanto os discípulos
remavam de volta para Cafarnaum na noite depois da
alimentação dos cinco mil (6:16-21). O sinal é diferente dos
outros sete, pois é o único que não apresenta ambigüidade.


Revela Jesus como soberano na criação, aceito e recebido
como tal de bom grado pelos discípulos. E, o que é mais
importante, a narração do sinal gira em torno da expressão
ego eimi no versículo 20: "Sou eu. Não temais!".
Essa é a forma do nome divino que Jesus emprega
para se identificar e que João entrelaça continuamente e com
grande habilidade em seu evangelho. Este sinal, que se passa
no contexto de outro que envolveu tantas reações
inapropriadas, serve de contraponto para o desejo do povo de
proclamá-lo rei da Galiléia ao asseverar a soberania absoluta
de Deus sobre toda a criação, fazendo por seus discípulos
aquilo que eles, com todo o esforço exaustivo de remar, não
podiam fazer por si mesmos, e levando-os aonde não eram
capazes de chegar sozinhos.
O sexto sinal, a cura de um homem cego de nascença,
ocorre em Jerusalém (9:1-41). O sinal revela Jesus como a
encarnação do Verbo de Gênesis: "Haja luz". Foi o primeiro
dia de luz para aquele homem que nasceu cego, mas a
comunidade de Jerusalém não apresentou um consenso
como o de Gênesis, de que isso "era bom". Como o terceiro
sinal junto ao tanque de Betesda, esse ocorreu num sábado.
Os especialistas religiosos da cidade entenderam a cura
exclusivamente como mais um caso de profanação do sétimo
dia e expulsaram da sinagoga o cego recém-curado.


O sinal também não foi entendido como tal pelos pais
do cego, que, preocupados com sua posição dentro da
instituição religiosa, não conseguiram ver Deus operando
diante deles. Naquele dia, Jerusalém estava repleta de
homens e mulheres cegos que " [amavam] mais as trevas do
que a luz" (3:19). Mas o cego de nascença viu. Ele não apenas
viu a cidade ao seu redor pela primeira vez, como também
viu o sinal para o qual todos os outros se mostraram cegos —
viu Deus presente e operando em sua vida, e creu. O verbo
"crer" ocorre três vezes em três orações e termina em
adoração: "... e o adorou" (9:35-38).


O sétimo sinal é a ressurreição de Lázaro na pequena
cidade de Betânia, próxima de Jerusalém (11:1-54). Trata-se
do sinal narrado em mais detalhes e com maior elenco —
membros da família, amigos entristecidos vindos de
Jerusalém, discípulos de Jesus e os principais sacerdotes e
fariseus reunidos em conselho. O texto traz o nome de cinco
membros desse elenco: Lázaro e suas irmãs Maria e Marta, o
discípulo Tomé e o sumo sacerdote Caifás. Trata-se de algo
incomum, pois os outros relatos de sinais não citam muitos
nomes além de Jesus. O primeiro sinal (água transformada
em vinho) fala de Maria, o quarto (a alimentação dos cinco
mil) menciona Filipe e André, mas é só.


Os sinais não são histórias comoventes sobre pessoas;
são relatos que revelam Deus. É evidente, porém, que, em
algum momento, exercem impacto sobre todas as questões
humanas. Assim, neste último sinal, depois de refrear nossa
curiosidade pelo tempo necessário para concentrar atenção
no que era revelado a respeito de Jesus, João apresenta uma
cena mais ampla mostrando toda uma gama de emoções e
reações humanas na ressurreição de Lázaro, o sinal da
"ressurreição e vida".


Ao descobrir que Jesus pretendia voltar para próximo
de onde eles haviam escapado recentemente de serem presos
e apedrejados (10:31-39; 11:7-8), Tomé pressupôs que todos
seriam mortos e convocou os outros discípulos para ficar
com Jesus e morrer com ele. O próprio Jesus chora de
compaixão pelos pranteadores e de amor por seu amigo
querido. O Mestre fica profundamente comovido. As irmãs
Maria e Marta expressam sua decepção por Jesus não ter
vindo quando mandaram avisá-lo da enfermidade do irmão
— será que detectamos um tom de repreensão na voz delas?
E Caifás? Para ele, esse sinal foi a gota d'água, levando-o a
pôr em ação o plano de matar Jesus.


NO EVANGELHO DE JOÃO, os sinais e ditos são
entrelaçados de modo a dar base abrangente para crer que
"Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo,
[tenhamos] vida em seu nome" (20:31). Ainda assim, os
sinais não são fáceis de interpretar e certamente não são
compulsórios — em vez de gerar fé, incitaram, com mais
freqüência, oposição. Deus se revela em Jesus, mas a
revelação raramente se encaixa em nossas expectativas.
Temos idéias tão estereotipadas a respeito do que Deus faz e
como o faz que, muitas vezes, interpretamos as placas
indicativas incorretamente.


À medida que João nos envolve intimamente nos sete
sinais descritos, percebemos como, freqüentemente, nossa
preocupação e nossa arrogância nos cegam para o que está
acontecendo (o mestre-sala no casamento); como nossa idéia
fixa do modo que Deus opera nos leva a desconsiderar o que
é absolutamente óbvio (as curas no sábado); como, num
derramamento de bênção, tentamos controlar Jesus e
recrutá-lo para nossas próprias causas (a alimentação dos
cinco mil); como a devastação, a morte ou seus equivalentes
emocionais e circunstanciais (as circunstâncias em torno da
morte e da ressurreição de Lázaro) empurram Jesus
rapidamente do centro para as margens enquanto tentamos
nos virar com aquilo que temos: coragem e resignação (como
Tomé), acusação e pranto (como Maria) ou retaliação até o
extremo do homicídio (como Caifás). Como o oficial de
Cafarnaum na passagem anterior do evangelho, Marta foi a
única do elenco da ressurreição de Lázaro que creu em Jesus
antes de ver o sinal (11:27).
Mas nem sempre é assim. Um sinal, aquele em que
Jesus acalma a tempestade, foi entendido pelos discípulos
sem confusão nem ambigüidade. Viram Jesus em toda a
soberania majestosa, ouviram-no proferir o nome que o
identifica com Deus e o receberam de bom grado.


"E, EMBORA TIVESSE feito tantos sinais na sua
presença, não creram nele" (Jo 12:37). João cita Isaías para
confirmar que isso não é novo. Nós somos assim. Não temos
facilidade de reconhecer os sinais da glória de Deus, nem de
recebê-lo nos termos em que vem até nós. Mas a boa notícia
é que os sinais estão por toda parte. Deus não é mesquinho
em sua revelação. No entanto, também não oferece atalhos
para nossa participação. Deus não interfere com nossa
liberdade ou dignidade usando sinais ameaçadores ou
intimidantes.


Não estamos acostumados com isso. Quando alguém
deseja que façamos ou compremos algo, estamos
acostumados a ouvir argumentos, a receber provas
irrefutáveis, promessas de benefícios, a ser bajulados e, por
vezes, até ameaçados. Quando uma dádiva ou bênção nos é
oferecida sem esses recursos aviltantes e métodos invasivos,
não sabemos muito bem o que fazer. Ao ficarmos na
companhia de João e seus irmãos e irmãs canônicas,
encontramos um modo de viver no qual a vida de Deus nos é
concedida à maneira de Deus, em Jesus, e pode ser recebida
somente mediante certas formas de fé e amor. Vamos levar
algum tempo, mas tendo em vista as condições da criação em
que existimos inescapavelmente, os sinais apontam o
caminho com clareza: sujeitar-nos e receber Jesus como ele é
relevado em qualquer momento e em qualquer lugar, segui-lo
e adorá-lo. E buscar a glória.


A glória

"Glória" é uma palavra cheia de luz transbordando de
esplendor extravagante que marca a presença de Deus entre
nós. Também é usada para atribuir honra, dignidade e "peso"
a montanhas, a condições do tempo e a homens e mulheres,
porém seu uso mais proeminente nas Escrituras se dá em
relação a Deus. "Ninguém jamais viu a Deus" (Jo 1:18), mas
vemos sua glória, o resplendor fulgurante que marca a
presença de Deus em nossa dimensão, aqui e agora: no
Sinai, no tabernáculo, no templo e, acima de tudo e de modo
mais pessoal, em Jesus: "E vimos a sua glória, glória como a
do unigênito do Pai" (1:14).


A predileção de João pelo termo "glória" ao recontar o
significado de nossa participação na criação é notável.
Palavra que se destaca ao longo de todas as Escrituras, não é
tão destacada em nenhum outro livro quanto no evangelho
de João. "Habitou entre nós", logo no início, é uma imagem
impressionante cuja descrição engloba todo o evangelho.
Dizer que Jesus, o Verbo que se fez carne, "habitou entre
nós" nos leva de volta à Bíblia hebraica, ao livro de Êxodo,
quando os hebreus recém-salvos foram instruídos a levantar
com todo esmero uma tenda que se tornou o lugar na terra
onde Deus se revelava e era adorado (Êx 25:8-9). Séculos
depois, Joel profetizou sobre um tempo vindouro: "Sabereis,
assim, que eu sou o SENHOR, vosso Deus, que habito em
Sião" (Jl 3:17; grifo do autor aqui e nas passagens seguintes).
Quando Israel voltou do exílio na Babilônia, ouviu um
sermão de Zacarias: "Canta e exulta, ó filha de Sião, porque
eis que venho e habitarei no meio de ti, diz o SENHOR" (ZC
2:10). Ao mostrar a Ezequiel a visão do templo acabado,
Deus lhe disse: "... este é o lugar do meu trono [...] onde
habitarei no meio dos filhos de Israel para sempre" (Ez 43:7).
Assim, quando João nos diz que Jesus, a carne e o
sangue do Filho de Deus que todos podem ver, habitou entre
nós, fica claro que sua intenção é nos fazer entender que
Jesus é o novo tabernáculo e o novo templo do povo hebreu.
Vocês desejam ver Deus em seu meio, desejam colocar-se na
presença de Deus e adorá-lo? Ele está aqui, vivendo no meio
de vocês: Jesus — armando sua tenda, construindo uma
casa, trabalhando.


É possível que essas palavras dêem espaço a outra
associação. Nos tempos rabínicos, muitos anos depois de a
Bíblia hebraica ter sido completada, o verbo hebreu "habitar"
recebeu uma forma substantiva, shekinah, que era
amplamente usada na comunidade religiosa hebraica para
caracterizar a presença de Deus, Deus habitando no meio de
seu povo acompanhado de uma demonstração visível de
glória resplandecente. Em várias ocasiões, as Escrituras
associam a presença com a glória de Deus (Êx 24:15-16 no
Sinai; Êx 40:34 com referência ao tabernáculo; lRs 8:10-11
no templo de Salomão; Ez 44:4 na visão do templo
restaurado). Shekinah tornou-se praticamente sinônimo de
Deus. Quando João coloca em seqüência direta "E o Verbo se
fez carne e habitou entre nós" e "e vimos sua glória...", é
possível que vários leitores, observando a referência
freqüente à glória (34 vezes) em relação a Jesus, tenham
ouvido ecos do shekinah, da glória que revela Deus, evidente
em Jesus (mas especialmente em suas orações: Jo 12:27-28;
17:1,4,5,10,22,24).
Por uma coincidência feliz, as consoantes do verbo
grego "habitar" — s, k e n (skenei) — são semelhantes às do
hebraico "habitar" — sh, k e n (shakan e shekinah). Os
termos em grego e hebraico não apenas tinham o mesmo
significado, mas também o mesmo som, as mesmas
associações reforçadoras entre o lugar onde o povo se reunia
e adorava a Deus e a pessoa de Jesus, na qual os fiéis se
encontravam com Deus e o adoravam.


Jesus é a pessoa na qual vemos Deus presente,
habitando entre nós, Deus aqui e agora. Jesus nos chama a
sair das bibliotecas, das salas de aula e auditórios onde
estudamos o passado rico e célebre da revelação de Deus;
Jesus desafia nossas preocupações obsessivas com imagens
de como e quando Deus finalmente realizará seus propósitos
para nós e para a humanidade. "Veja o que está bem diante
de você: Eu sou". Os sinais estão por toda parte, as palavras
ecoam em nossa mente e nosso coração. A glória.


Mas, uma vez que olhamos atentamente para Jesus
guiados por João, somos obrigados a reavaliar
consideravelmente o que entendemos como glória. Os trovões
e raios do Sinai, os rituais complexos, os tecidos e as
diretrizes para a adoração na tenda no deserto, os
esplendores arquitetônicos do templo de Salomão, a imagem
deslumbrante dos querubins giroscópicos do trono de
Ezequiel, a oração-poema estrondosa do salmo 29 que rege
toda a criação em harmonias sinfônicas — agora, tudo isso é
pano de fundo para a glória que vemos em Jesus.


Nada do esplendor transmitido nessas expressões
anteriores de glória pode ser desconsiderado ou minimizado
em qualquer sentido. Neste momento, porém, essa glória
deve ser reconceituada, recebida e assimilada conforme
Jesus a revela: um Jesus que pode ser ignorado, um Jesus
que não impressiona, um Jesus que sofre, é rejeitado,
escarnecido, pendurado numa cruz e — a afronta final e
irrefutável — morto e sepultado. Tudo isso está incluído no
conteúdo de "e vimos sua glória".


No eixo central de seu evangelho, João apresenta a
declaração mais expressiva e crítica, e também mais
desconcertante, sobre a glória. Jesus antevê sua morte
iminente. Ele diz: "É chegada a hora de ser glorificado o Filho
do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de
trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer,
produz muito fruto [...] Agora, está angustiada a minha alma,
e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente
com este propósito vim para esta hora. Pai, glorifica o teu
nome" (12:23-38).


Ao que parece, Jesus tem uma opção. Ele pode pedir
ao Pai que o salve da hora da morte. Ele pode pedir que Deus
o livre da fornalha ardente e da cova dos leões. Ele pode pedir
que o Pai glorifique o Filho em triunfo, como Moisés
atravessando o mar Vermelho, como a marcha de Josué ao
redor de Jericó, como a carruagem de fogo de Elias. Ele pode
pedir uma alternativa para a morte sacrifical. Ele considera
essa possibilidade ou, pelo menos, sabe que ela existe. Mas
não é isso que ele pede.


Essas palavras são suscitadas por Filipe e André, que
vão procurar Jesus e lhe dizer que alguns gregos desejam vêlo.
Jesus tem uma excelente oportunidade evangelística de
usar a curiosidade desses "interessados" para recrutar
seguidores gregos. Mas ele ignora o pedido, que
provavelmente chamaríamos de "oportunidade". É possível
que Jesus tenha percebido que os gregos eram turistas e que
só estavam em Jerusalém naquela semana de Páscoa para
ver as atrações da cidade, inclusive o Mestre nazareno.
Jesus começa e termina essa passagem com a palavra
"glória". A glória, o resplendor da presença de Deus bem aqui
em nossa terra sem dúvida tem algo, ou talvez tudo, a ver
com a morte e o sepultamento iminentes de Jesus. Para
entender isso, precisamos reaprender algumas coisas. Nesse
momento, os dicionários e estudos de palavras hebraicas e
gregas, as etimologias e definições de que gostamos tanto são
radicalmente relativizados. Jesus pega a palavra que define
resplendor em nosso vocabulário e a lança na cova mais
profunda da experiência, a morte violenta e excruciante.
Tudo o que sempre associamos a glória precisa ser
remodelado: entramos num mistério.


Mas não se trata de um mistério total. Todo jardineiro
entende um pouco desse assunto: a cada primavera,
enterramos sementes no jardim e, em poucas semanas,
desfrutamos as flores que se abrem e nos alimentamos dos
vegetais que crescem. A metáfora permite nossa participação.
Como fez em tantas ocasiões, Jesus usa uma experiência
conhecida — neste caso, plantar uma semente no solo —
para nos conduzir a algo desconhecido, o mistério que ele
deseja que adentremos: a glória.


A glória é o que buscamos. Não obstante o que a glória
possa ser, não é apenas mais um aprimoramento daquilo que
temos. Acaso supomos que a vida cristã é simplesmente
nossa vida humana, biológica, intelectual e moral,
desenvolvida e elevada alguns graus acima do nível comum?
Acaso imaginamos que a fé em Jesus é um tipo de
mecanismo, como o macaco do carro que usamos como
alavanca para alcançar um patamar superior de onde temos
acesso a Deus?


A figura de Jesus, em conjunto com seu sacrifício
imediatamente subseqüente, é totalmente contrária à nossa
cultura de buscar cada vez mais. Seria possível Jesus ter
deixado isso mais claro? Não nos tornamos mais; tornamonos
menos. Em vez de nos agarrarmos com mais força àquilo
que valorizamos, soltamos. "Quem perder a vida por causa de
mim e do evangelho salva-la-á". "Bem aventurados os
humildes de espírito", foi uma outra forma que Jesus usou
para expressar essa realidade.


A questão é que devemos deixar Jesus definir para nós
o que é glória, pois, de outro modo, será impossível entendêla.
Do nosso ponto de vista, o mais impressionante é que tão
poucas pessoas ao redor de Jesus "viram sua glória".
Estavam olhando diretamente para ela e não a enxergaram.
Detectaram em Jesus uma série de coisas, como ignorância,
falta de sofisticação, blasfêmia, desconsideração pela lei, uma
oportunidade imperdível de explorar outros, uma ameaça que
poderia destruir um modo de vida privilegiado e, por fim, na
crucificação, fracasso abjeto.


Um dos dados extraordinários do evangelho de João
está no fato de que, apesar de ele declarar explicitamente que
foi escrito para crermos em Jesus como Filho de Deus,
mostra poucas pessoas crendo nele de fato. Na presença de
todos esses sinais, apesar de todas as conversas, orações e
discursos nos quais Jesus se identificou repetidamente como
Palavra de Deus, ego eimi, fazendo a criação, a salvação e a
plenitude de vida existirem por meio de sua palavra, não
foram muitos os que viram sua glória.


UMA DIFICULDADE séria dentro da realidade da igreja
é a dissimulação da glória com substitutos respeitáveis, como
aceitação, honra, sucesso e "relevância". Tentamos
compreender, mas falhamos repetidamente. Os gregos não
compreenderam. Como turistas visitando os lugares sagrados
com suas câmeras prontas e guias de viagem na mão,
tentaram contratar Filipe como guia turístico para Jesus.
Mas Jesus não posou para as fotografias deles. Ele já estava
orando em preparação para a cruz. Havia tempo, vinha
fazendo alusões à glória que estava prestes a ser plenamente
manifestada ("É chegada a hora de ser glorificado o Filho do
Homem"), mas de uma forma que ninguém esperava: a morte
— uma morte terrível, porém escolhida voluntariamente.
"Diga aos gregos para voltarem para casa e
fotografarem o Partenon."
Poucas horas depois dessa justaposição chocante e
desconcertante da glória com a morte, Jesus ora por seus
discípulos, para que eles (e isso nos inclui) sejam glorificados
com a mesma glória: "Eu lhes tenho transmitido a glória que
me tens dado, para que sejam um, como nós o somos"
(17:22).


A glória com a qual Jesus foi glorificado e que, em sua
oração, pediu que Deus nos concedesse é muito diferente dos
tipos de glória que nos condicionamos a desejar e admirar.
Essa glória não é conspícua. Não é glamorosa. Não é a glória
que aparece nas revistas famosas ou em pôsteres de viagem.
Não é uma glória que os editores de moda podem ver. Não é
uma glória que satisfaz nossas cobiças e nosso ego.


Nem por isso deixa de ser glória. Uma vez que a
percebemos, essa glória é o esplendor que irradia de Deus
quando ele se muda para a nossa vizinhança. Os seguidores
de Jesus precisam reaprender repetidamente o significado de
palavras corrompidas por nossa cultura e depreciadas por
nosso pecado. Jesus é o dicionário no qual procuramos o
significado das palavras. Quando procuramos a glória em
Jesus, descobrimos — você está preparado? — obscuridade,
rejeição e humilhação, incompreensão e equívoco, vida
sacrificial e morte obediente: a presença esplendorosa de
Deus iluminando aquilo que o mundo despreza ou ignora.
Assim como a glória era evidente em Jesus para
aqueles que observavam os sinais e discerniam indícios com
base em suas palavras, também os seguidores
contemporâneos de Jesus podem ver esse resplendor. Nós,
cristãos, não precisamos esperar a morte para morrer. Não
precisamos esperar nosso funeral para entrar na glória.
Como Teresa de Ávila, uma das cristãs mais irreverentes e
audaciosas, costumava dizer: "A recompensa começa nesta
vida".


EIS MINHA TRADUÇÃO do versículo 14 do primeiro
capítulo de João:
A Palavra se tornou carne
E mudou-se para a nossa vizinhança. Vimos sua
glória com nossos próprios olhos,
A glória singular,
Tal Pai, tal Filho, Generoso por dentro e por fora,
Verdadeiro do começo ao fim.


"Mudou-se para a nossa vizinhança" evoca outra
memória da minha infância, quando tinha dez anos. Era fim
de agosto na pequena cidade de Montana, onde cresci. Um
caminhão de mudança chegou à nossa rua e parou na frente
da casa ao lado da nossa, que havia ficado vazia vários
meses. Esperamos o verão todo para ver se alguém se
mudaria, curiosos para saber quem seriam os nossos
vizinhos. Então, quando o caminhão chegou, tudo mudou.
Era de uma empresa de mudanças conhecida, pintado de
vermelho e branco, com um logotipo azul, um caminhão
enorme, com meia quadra de comprimento. Ocupou toda a
rua, trazendo consigo uma aura de expectativa na
vizinhança, a promessa de vida nova.


Em nossa cidade, quando alguém se mudava,
costumava telefonar para todos os conhecidos que tinham
picape e pedia ajuda. No dia da mudança, cinco ou seis
sujeitos com picapes paravam na frente da casa para fazer o
transporte. Eu participava da maioria das mudanças, pois a
picape vermelha de meu pai, com capacidade para meia
tonelada, era sempre muito requisitada. Carregar coisas de
casas que até então eu havia visto só por fora, descobrir
segredos de porões e sótãos, dar uma espiada nos bastidores
da vida das pessoas... tudo isso era uma grande aventura
para mim, e eu aproveitava cada instante. Avaliava a vida de
cada família de acordo com seus móveis e quadros, formava
opiniões com base na organização ou na bagunça dos
armários, vasculhava a tranqueira que jogavam fora à
procura de pistas que revelassem como viviam. As picapes
saíam lotadas. Minha impressão agora é que sempre havia
um colchão em cima de tudo e cadeiras da cozinha
amarradas lado a lado, a carga toda equilibrada
precariamente enquanto partíamos em caravana para a casa
nova do outro lado da cidade.


Mas essa experiência agora era inédita: um caminhão
de mudança levando mais do que oito ou dez picapes
poderiam carregar. Em nossa cidade, mudar era mais uma
questão de troca de residências entre pessoas que já
conhecíamos ou parentes delas; na maioria, tratava-se
apenas uma variação do tema de sempre. Mas aqui havia
algo promissor. Meus amigos Freddy e Bob e eu ficamos ali
parados, observando, cheios de expectativa, querendo saber
como nossa vida estava prestes a ser transformada.
Estávamos prontos para uma reviravolta. Com o tédio do fim
das férias, estávamos mais do que preparados para um
pouco de emoção.
Os novos proprietários da casa só chegariam dois dias
depois, de modo que as únicas evidências que tínhamos para
avaliá-los eram os objetos que víamos ser descarregados do
caminhão. Quem eram essas pessoas? Como seriam como
vizinhos? Não desgrudamos os olhos dos carregadores
enquanto trabalhavam, sempre alertas para sinais de como
nossa vida mudaria. Ficamos lá o dia todo, observando o que
saía do caminhão, fazendo deduções e conjeturas.


Logo no começo, os carregadores tiraram duas
bicicletas — isso significava que havia criança na família e
que teríamos novos amigos para brincar. Então, vieram os
esquis. Morávamos numa região com várias estações de
esqui, mas nenhum de nós havia esquiado; esse era um
esporte só para crianças ricas — era evidente que o nível de
nossa vizinhança estava subindo. Depois apareceu uma
moto. Eu nunca havia chegado perto de uma moto antes —
quem sabe nos levariam para dar umas voltas? Cada objeto
tirado do caminhão era uma pista do que poderíamos esperar
de nossos novos vizinhos. Quando um espelho enorme
apareceu, tivemos certeza de que a família era rica. Todos os
móveis pareciam caros. Havíamos ganhado a loteria. Só de se
mudarem para a nossa vizinhança, esses desconhecidos já
estavam transformando nossa vida. Nunca mais teríamos
tédio. Nunca mais seríamos gente comum.
Dois dias depois, os vizinhos chegaram: senhor e
senhora Tipton e seus dois filhos adolescentes, Billy e
Cynthia. O carro sofisticado tinha placas de Nova York. Era a
cereja do sundae: podíamos sentir a cultura e a celebridade
do leste passando para nós. De repente, nossa vizinhança
ficou melhor, mais interessante e importante. Mal podíamos
conter nossa empolgação e expectativa.


Quando João diz que Jesus "habitou entre nós", se
mudou para nossa vizinhança, ele nos prepara para nos
envolvermos num processo semelhante de observação:
procurar sinais, ouvir as palavras e interpretar o que vemos e
ouvimos. João desperta nossa curiosidade e nossa
expectativa. Queremos saber o que Deus está fazendo em sua
criação — somos todos olhos e ouvidos.


Mas naquele verão em que os Tiptons chegaram a
Montana, as coisas não deram muito certo. Billy e Cynthia
detestavam morar em nossa cidadezinha. Chamavam-na de
"vilarejo no meio do mato" e diziam que éramos "caipiras".
Nunca sequer chegamos perto daquela Harley Davidson
cromada, e a única coisa que eles nos ofereceram foi
desprezo. A julgar pelo que contavam, antes de se mudarem
sua vida se resumia a tomar sol na praia, assistir aos jogos
dos Yankees, andar nas carruagens do Central Park e
caminhar pela Broadway para ver gente famosa. O senhor
Tipton nunca falou conosco. Arrogante, ele ia e vinha sem
fazer caso de ninguém, sempre com um grande charuto preto
na boca, deixando um rastro de fumaça fedida na rua.


Alguns dias depois da chegada deles, nossas mães
prepararam pratos de biscoitos e meus dois amigos e eu
fomos entregá-los. A senhora Tipton abriu a porta, pegou os
biscoitos, agradeceu sem sequer sorrir e fechou a porta.
Esperávamos um convite para entrar, ver como aquela gente
rica e importante do leste vivia. Meus amigos e eu nos
vingávamos, imaginando que cachorro da vizinhança o
senhor Tipton havia seguido para pegar aquela coisa que ele
gostava tanto de fumar. Um acontecimento aparentemente
tão promissor não havia correspondido em nada às
expectativas. Foi pura decepção. Bateram a porta na nossa
cara. Descobrimos que havíamos interpretado todos os sinais
incorretamente.


Mas, no evangelho de João, as pessoas à procura de
pistas — os sinais e ditos para os quais o apóstolo chama
nossa atenção quando Jesus "se mudou para nossa
vizinhança" — viram-se dentro de uma nova criação. No fim
das contas, pelo menos alguns dos que observaram e
ouviram descobriram que não apenas a vizinhança, mas eles
próprios haviam mudado para sempre: tinham visto a glória.
COMENTAMOS SOBRE A expressão de Gênesis "no
princípio", usada por João para iniciar o evangelho no qual
ele reescreve a história da criação. Outra palavra próximo ao
fim do evangelho indica de forma semelhante uma
correspondência entre Gênesis e João, convidando a uma
reflexão contínua sobre como a criação se torna pessoal e
presente para nós ao seguirmos Jesus. Na noite de sua
ressurreição, Jesus aparece a seus discípulos — um grupo de
seguidores assustados, amontoados numa sala, escondendose
do mundo lá fora — e sopra neles dizendo: "Recebam o
Espírito Santo" (Jo 20:22).


A expressão usada, "soprou sobre eles" (em grego
enephusesen) é idêntica à de Gênesis 2, em que o SENHOR
Deus soprou vida em Adão, que se tornou, no mesmo
instante, "alma vivente". A expressão "no princípio" de
Gênesis, que inicia o evangelho de João, é complementada
por "soprou nas narinas o fôlego de vida" (Gn 2:7) quando
Jesus sopra seu Espírito criador de vida em seus discípulos.
O mesmo Espírito que se movia sobre o caos e que se tornou
articulado nos oito imperativos "Disse Deus..." que criaram
os céus e a terra agora se move nos discípulos para que
possam dar continuidade à obra de criação do "primogênito
da criação".


Não está claro, a esta altura, que, ao relatar a história
de Jesus, João reescreve a história da criação em Gênesis,
mostrando Jesus inserindo-se na criação nas mesmas
condições em que vivemos hoje? No tempo: sem pressa,
vagarosamente, na semana de Gênesis, em suas estações,
dias e anos (Gn 1:14), que ganham foco em "naquele dia" (Jo
14:20; 16:23), "o meu tempo" (7:6), "a minha hora" (2:4), "a
hora" (4:21; 5:25,28; 16:2,25), "esta hora" (12:27). E no lugar,
no jardim do Éden em Gênesis, com suas árvores e quatro
rios, estendendo-se agora a Caná e Betânia, Galiléia e
Jerusalém, Samaria e Betsaida, Siloé e Gólgota, Cafarnaum e
Cedrom — lugares onde Jesus andou, proferiu nomes, tocou
homens e mulheres, comeu e bebeu, foi julgado, morto e
sepultado.


Em momento algum Jesus se impacientou com as
limitações temporais e passou por uma dobra no tempo ou
evitou a espera. Em momento algum Jesus se irritou com as
limitações espaciais e substituiu o lugar específico por uma
"presença" etérea espiritual e generalizada. Tudo na criação
era oportunidade para a glória, a criação toda manifestando
a presença esplendorosa de Deus, mesmo e especialmente
nas ocasiões e lugares mais improváveis; a linha entre o
sobrenatural e o natural era sempre delineada. Ele era
verdadeiramente Deus nas coisas absolutamente comuns —
cântaros de água, lodo, pedaços de pão, bacia e toalha, os
153 peixes —, coisas que continuamos tocando e usando
onde quer que vivamos. E era verdadeiramente homem,
proferindo palavras simples que dão conteúdo à salvação —
vinho, porta, pastor, água, luz —, palavras que continuamos
a usar em nossas atividades diárias.


Os dois verbos principais empregados por João para
nos levar a participar da criação de modo voluntário e
obediente, a fim de que não sejamos apenas espectadores,
quer com aprovação, quer com descontentamento, são "crer"
e "amar". Ambos nos envolvem numa realidade maior e
diferente da nossa. Nenhum autor dos evangelhos usou esse
dois verbos com efeito mais intenso para nos inserir na obra
do Criador e da criação.


João usa "crer" somente em sua forma verbal (pisteuo), exceto em uma ocasião,
na qual emprega o termo como adjetivo. Essa palavra ocorre 90 vezes em seu
evangelho, em comparação com 34 vezes nos outros três evangelhos juntos. Outro
verbo para "amar" de uso comum na época (phileo) é usado pelo apóstolo 13
vezes, em comparação com 8 ocorrências nos outros três evangelhos.
Ouvi essa frase num sermão, mas não me recordo de quem o pregou.


Quando cremos, aceitamos o que não podemos ver, as
coisas do céu. A fé é praticada numa vida de adoração e
oração a Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Quando amamos,
aceitamos o que podemos ver, tocar e ouvir, as coisas da
terra. O amor é praticado numa vida de intimidade e cuidado
entre pessoas de nossa família, vizinhança e local de
trabalho.
O apóstolo João usa esses dois verbos habilidosamente
para cultivar em nós uma atitude responsiva, por meio de
Jesus, à toda a gama da obra da criação na qual nos
encontramos imersos pelo simples fato de termos nascido,
porém mais intensamente pelo fato de termos nascido de
novo.


Jesus é nosso acesso à criação como o tempo e o lugar
para crermos. Jesus nos insere em tudo o que é material,
desde cântaros de água no casamento em Caná até o corpo
fétido de Lázaro em Betânia. Coisas, substâncias, corpos são
sagrados. Ao pensarmos e agirmos de forma sacramental,
aprendemos a crer. Jesus nos conduz a uma consciência
universal do Espírito, treinando-nos para ser "detetives da
divindade",57 para interpretarmos os sinais e entendermos as
palavras como evidências da presença invisível, porém
inequívoca, de Deus. Aprendemos a reconhecer a glória.


Jesus Cristo é nosso acesso à criação como tempo e
lugar para amar: "Porque Deus amou ao mundo de tal
maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que
nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3:16). Crer
e amar — nossos caminhos de acesso à criação como seus
participantes.


CULTIVANDO O TEMOR-DO-SENHOR NA CRIAÇÃO: O SÁBADO E A
MARAVILHA

A comunidade cristã nunca supôs que seu trabalho
consistisse apenas em atentar para Gênesis e João e declarar
a criação como ela é revelada nesses textos. A comunidade
tem feito isso. Precisamos conhecer a realidade da criação na
qual fomos colocados. No entanto, também precisamos
cultivar um temor-do-Senhor apropriado e adequado a essa
realidade. Precisamos viver de maneira congruente com o
lugar em que nos encontramos. Citando Kierkegaard, Karl
Barth adverte contra a blasfêmia de usar o que sabemos
sobre Deus de forma indiscriminada para apoiar uma vida de
suposta retidão e piedade adaptada às nossas especificações
pessoais, "sem o tremor que é o primeiro requisito da
adoração".


O que devemos fazer, então, para desenvolver esse
"tremor", esse temor-do-Senhor, essa vida com atitude
responsiva diante de um Deus santo, com base nas
condições da criação? Como devemos viver de modo que a
admiração e o espanto, que muitas vezes nos ocorrem de
forma tão natural e espontânea, não sejam dissipados em
preocupações triviais?


Borgmann sugeriu a expressão "prática focal" para
nos conduzir a um envolvimento com a vida — o modo como
"nos relacionamos com o mundo", como ele diz — que não
reduza as complexidades a algo tacanho, que não as abstraia
a algo sem vida, que não as manipule de modo a servirem
aos nossos propósitos. Uma prática focal nos permite
permanecer pessoalmente envolvidos e socialmente
responsáveis numa cultura cada vez mais despersonalizada e
assustadoramente fragmentada. A prática focal que dá a
possibilidade de nos relacionarmos com a criação é a
observância do sétimo dia. A igreja primitiva colocou seu selo
sobre o mandamento mosaico declarando: "Guarda o Dia do
Senhor". Trata-se de uma prática clara, sucinta e inequívoca,
como toda prática focal deve ser.


Albert Borgmann é professor de filosofia na Universidade de Montana. Ver sua obra
Technology and the Character of Contemporary Life.

O sétimo dia
A mente que descansa é cuidada
De maneiras que não pode intentar:
É gerada, preservada e compreendida
Por aquilo que não pode divisar.
No teu sábado, ó Senhor, vem nos guardar
Tua vontade prevaleça. Convém, então,
Que nossa escolha seja uma: nos entregar
A esse descanso, ou dar-lhe nosso "não".
WENDELL BERRY


O mais impressionante sobre guardar o sétimo dia é
que essa prática começa com a decisão de não fazer nada. A
palavra hebraica shabbath, da qual vem "sábado" em nossa
língua, significa simplesmente "cessar [...] parar [...] fazer
uma pausa".


O termo, em si, não possui nenhum conteúdo religioso
ou espiritual: não importa o que você esteja fazendo, pare...
Não importa o que você esteja dizendo, cale-se... Sente-se e
olhe ao seu redor... Não faça nada... Não diga nada...
Descanse as mãos no colo... Respire fundo... A criação é tão
infinitamente complexa e tão intricadamente interligada que,
se não atentarmos com cuidado e profunda reverência para o
que está claramente muito além de nós, é provável que
acabemos interferindo — normalmente de modo prejudicial
— naquilo que Deus fez e está fazendo, por mais bemintencionados
que sejamos. Assim, comece fazendo nada:
observe, adore.


Não demora a ficar claro, porém, que essa prática
envolve mais do que simplesmente não fazer e não falar
nada. O termo "sétimo dia" aparece em Gênesis no contexto
da criação, Deus criando o céu a terra. Ao completar seu
trabalho, Deus descansou — parou de falar, parou de fazer
(Gn 2.1-4). Em outras palavras, o "não fazer" do sétimo dia 61
se dá num contexto repleto de atividades.


Na verdade, na prática de Israel, o sétimo dia nunca foi
apenas um dia de não fazer nada — o contexto não permite
essa idéia. A cessação das atividades humanas transformou
esse dia numa ocasião de honrar a Deus. Ele trabalhou na
criação, o que significa que todo o nosso trabalho é realizado
no contexto do trabalho de Deus. O sétimo dia é um ato
deliberado de interferência, uma interrupção semanal de
nosso trabalho, um decreto para não trabalharmos a fim de
podermos observar, ouvir e assimilar essa obra grandiosa e
majestosa de Deus, atentar para ela, nortear nosso trabalho
segundo o trabalho de Deus.


Uma leitura de Gênesis mostra como o sétimo dia é
descrito de maneira contrastante com os seis primeiros dias.
Na narrativa de cada um dos seis primeiros dias, a primeira e
a última linha são idênticas e pode-se observar repetições
freqüentes de palavras e orações conhecidas. Essas duas
características não aparecem na descrição do sétimo dia.
Aqui, o número do dia (sétimo) aparece duas vezes, o que não
acontece antes.


Temos a nítida impressão de que Gênesis "aponta para
o sétimo dia como pista para o significado da criação".62 As
evidências acumuladas mostram que, para vivermos a
realidade e o significado da criação, devemos nos envolver
inextricavelmente com a observância do sétimo dia. Nas
palavras de Peter Forsyth, "o tempo é um sacramento da
eternidade".63 Guardar o sétimo dia é um aprendizado para a
prática da eternidade. "A outra vida é, portanto, a outra vida
agora", como diz Forsyth.


Os mandamentos

Nosso envolvimento com a criação é explicitado no
mandamento do Sinai, para guardar o sétimo dia como
santo. O sétimo dia é o único de Gênesis, isto é, o único
elemento da criação, usado para constituir um mandamento
na revelação do Sinai dada a Moisés (Êx 20:8). O significado
imediato e óbvio disso é que o descanso sabático de Deus é
algo de que os seres humanos podem participar. Se Gênesis é
um texto que visa nos inserir na obra criadora de Deus como
participantes, o sétimo dia é nossa porta de entrada. O
estudioso judeu Jon Levenson ressalta esse fato: "Gênesis
acentua a possibilidade do acesso humano [por meio da
observância do sétimo dia] ao ritmo interno da própria
criação".


Aqui, é usado o verbo "descansar". O substantivo shabbath, o nome do sétimo
dia, só ocorre a partir de Êxodo 16:22-30.

LEVENSON, Creation and the Persistence of Evil.
Cit. RAMSEY, A. M. P. T. Forsyth: Período Crucem ad Lucem.


O mandamento do Sinai para guardar o sétimo dia
como dia santo é o quarto da lista de dez mandamentos
revelados a Moisés. É dado de duas formas, uma em Êxodo e
outra em Deuteronômio. Os mandamentos são praticamente
idênticos nas duas listas, mas são corroborados por razões
diferentes. De acordo com a razão dada em Êxodo, foi isso
que Deus fez; Deus trabalhou seis dias e cessou seu trabalho
no sétimo dia (Êx 20:8-11). De acordo com a razão dada em
Deuteronômio, quando o povo de Deus era escravo no Egito,
só trabalhava, trabalhava, trabalhava — sem cessar, sem
alívio; assim, eles próprios não deviam perpetuar essa
opressão; deviam parar de trabalhar a cada sétimo dia para
que seus servos, animais e filhos tivessem um dia de folga
(Dt 5:12-15). O motivo apresentado em Êxodo incentiva uma
vida de fé em Deus — guardar o sétimo dia é uma forma de
participar daquilo que Deus faz; o motivo de Deuteronômio
estimula uma vida de amor — guardar o sétimo dia é uma
forma de amar o seu próximo, um ato simples de justiça.
O mandamento de Êxodo para lembrar o sétimo dia é
corroborado pelo precedente de Deus, que descansou no
sétimo dia. Quando nos lembramos do sétimo dia e
repousamos, entramos no ritmo da criação e o mantemos.
Movemo-nos no compasso de Deus. A observância do sétimo
dia preserva e honra o tempo como a dádiva de descanso
sagrado concedida por Deus: ergue um baluarte semanal
contra a transformação do tempo num simples bem de
consumo; contra a redução do tempo a dinheiro, a aquilo que
podemos extrair dele; contra a falta de tempo para Deus,
para a beleza ou para qualquer coisa que não possa ser
usada ou comprada. É uma defesa contra a pressa que
profana o tempo.


O mandamento de Deuteronômio para observar o
sétimo dia é corroborado por uma consciência de justiça
social na comunidade. Lembramo-nos do sétimo dia e
descasamos nele para manter a liberdade da criação e
participar dela, para compartilhar a experiência de libertação
dos outros e o amor de Deus por eles. A observância do
sétimo dia preserva e honra o tempo como a dádiva de
liberdade sagrada concedida por Deus: ergue um baluarte
semanal contra a procrastinação letárgica que gera opressão,
que permite o crescimento da injustiça por não estarmos
cuidando com obediência sagrada e amor devoto das
pessoas, dos animais e das coisas que Deus colocou ao nosso
redor.


A PROEMINÊNCIA DO MANDAMENTO do sétimo dia é
reafirmada claramente por Jesus. No judaísmo do tempo de
Jesus, o sétimo dia era guardado meticulosamente, mas
havia sido removido do contexto da criação/salvação e
transformado num instrumento cruel de opressão. As
Escrituras registram cinco ocasiões (quatro delas de curas
miraculosas) em que Jesus condenou as distorções do sétimo
dia e o restaurou como uma dádiva para viver em obediência
livre diante de Deus e com ele (Mc 2:23-28; 3:1-6; Lc 14:1-6;
Jo 5:1-18; 9:1-41).


Adoração

Então, como incorporar esses ritmos da criação e da
observância do sétimo dia à nossa vida para podermos
trabalhar em harmonia com a atuação de Deus, de modo a
viver de maneira mais ou menos coordenada com Deus em
sua criação? A resposta óbvia (pelo menos, a julgar por sua
popularidade) pode ser pegar binóculos e começar a observar
os pássaros para conhecer melhor os hábitos extraordinários
e interessantes dos falcões e das andorinhas; ou pegar uma
vara de pesca e aprender a entender os rios, estudar quais
insetos os peixes preferem ou o modo correto de lançar a
linha de pesca suavemente sobre a água cheia de trutas; ou,
ainda, uma máquina fotográfica e uma porção de lentes
diferentes e fotografar flores e colibris.


Mas, neste caso, a resposta óbvia não é a certa. Não há
nada de errado em observar passarinhos, pescar salmões ou
fotografar orquídeas selvagens. Mas para Israel e a igreja, a
observância do sétimo dia deve inserir-se em atos semanais
de adoração na companhia do povo de Deus. Guardamos o
sétimo dia de modo mais adequado quando entramos num
lugar de adoração, nos reunimos com uma congregação,
cantamos, oramos e ouvimos Deus.


Essa é a sabedoria antiga que desconsideramos por
nossa própria conta e risco. Evidências amplas de várias
civilizações ao longo de muitos milênios associam a formação
do mundo, a criação com a construção de templos visando a
adoração. A criação e organização do mundo são vinculadas
continuamente à construção de um lugar de adoração e a
uma ordem de adorar nele. A construção dos lugares de
adoração visa "concretizar e estender a criação através da
representação humana".65 Isso se faz não apenas pela oração
e o louvor, mas também pela aceitação repetida dos
mandamentos, das promessas e das bênçãos a fim de
praticá-los na criação em que vivemos. Gosto do comentário
de Garrison Keillor: "O domingo é esquisito quando não
vamos à igreja pela manhã. É o momento da semana em que
acertamos nosso rumo. Quando deixamos de fazê-lo,
seguimos apenas o nosso próprio nariz".


Assimilamos os ritmos da criação por meio do ato de
adoração no lugar e no tempo. A adoração é o meio principal
pelo qual mergulhamos nos ritmos e nas histórias da obra de
Deus e aprendemos o conceito apropriado do trabalho, de
obra criadora. Nosso trabalho não deve ser uma
improvisação confusa; antes, deve ser congruente com a
maneira que Deus trabalha. E isso começa com a observância
do sétimo dia: o descanso, a bênção, a consagração, sem os
quais a semana da criação não está completa. Os ritmos da
criação de Deus, consumados nos mandamentos para
descansar no sétimo dia, são reproduzidos em nossa vida por
meio de atos de adoração numa estrutura, num lugar e num
tempo que permitem nossa participação.


Quando nos dirigimos ao nosso lugar de adoração,
adentramos, com uma visão nova e perceptiva e com o
coração transformado e obediente, um mundo no qual somos
a imagem de Deus participando de sua obra criadora. Tudo
que vemos, tocamos, sentimos e provamos traz dentro si os
ritmos de "Disse Deus...", "e assim se fez...", "era bom ...".
Adquirimos a aptidão de discernir os sinais de Jesus e captar
as palavras que revelam sua presença e sua glória. Mais do
que nunca, ficamos profundamente à vontade dentro da
criação.


A HISTÓRIA QUE NOS MOSTRA isso e, ao mesmo
tempo, associa criação e adoração se encontra no livro de
Êxodo.


Mais de três mil anos atrás, Moisés desceu do monte
Sinai carregando tábuas de pedra com os mandamentos de
Deus e trazendo nos lábios a palavra de Deus. Havia acabado
de receber a instrução sobre como conduzir os hebreus a
uma vida de liberdade madura, obediente e sagrada. Mas o
povo que pouco antes fora libertado de um mundo de
escravidão opressiva e agora vivia em liberdade — salvo e
livre — tinha uma identidade de escravo arraigada dentro de
si havia várias gerações. A tarefa não seria fácil e,
certamente, não seria rápida — nem mais fácil e, certamente,
nem mais rápida para eles do que para nós.


Ao descer do monte Sinai, Moisés transmitiu ao povo
uma síntese das instruções e dos mandamentos revelados
por Deus (Êx 20:1—24:11) e, depois, voltou ao monte para
receber outras prescrições, desta vez, uma série de diretrizes
complexas sobre o culto (Êx 24:12—31:18). Tudo foi
apresentado em detalhes: a estrutura do culto, os materiais,
os sacrifícios e a liderança para o culto. Essas instruções
foram apresentadas dentro de uma estrutura séptupla
semelhante à de Gênesis, com sete discursos de Deus a
Moisés (25:1; 30:11,17,22,34; 31:1,12). O sétimo e último
discurso trata do sétimo dia.


Moisés, porém, passou um longo tempo no monte,
quarenta dias e quarenta noites. Nesse ínterim, impaciente
para prosseguir com sua nova vida de liberdade, o povo
decidiu que queria desenvolver o próprio culto. Usando uma
expressão de nosso tempo, os israelitas queriam um culto
que "pudesse lhes oferecer alguma coisa". Assim,
convenceram seu co-pastor, Arão, a lhes proporcionar um
tipo de culto que satisfizesse seu desejo de novidade e
entusiasmo, algo que, no fim das contas, não passava de um
reflexo do mundo egípcio cheio de pompa e extravagância.
Como acontece com freqüência no meio dos excluídos e
marginalizados, o mesmo mundo onde sofria a opressão era
também objeto de desejo e inveja do povo oprimido.


Sabemos o que aconteceu (Êx 32—33). O bezerro de
ouro que eles próprios criaram e adoraram visando seus
interesses egoístas — recusando-se a esperar, desprezando o
descanso, recusando a contemplação — quase os destruiu.
Mas Moisés intercedeu por eles com imensa bondade, e o
povo teve a chance de recomeçar. Moisés subiu o Sinai
novamente (Êx 34) e, dessa vez, quando voltou, colocou o
povo para trabalhar, preparando-o para aquilo que se
tornaria o ato central de sua vida, a saber, o culto (Êx 35—
40).
Moisés deixa claro que a construção do tabernáculo
tem como fim primeiro e último a adoração. A primeira série
de mandamentos recebidos no Sinai termina com instruções
sobre a observância do sétimo dia; esta segunda série começa
com instruções sobre o sétimo dia. O culto é o modo
fundamental com que os membros do povo de Deus
acompanham o ritmo da criação e encontram seu lugar nela,
descobrem quem são e de onde vieram, internalizando as
cadências do Deus que fez os céus e a terra, que ordenou
"Haja luz", que criou homem e mulher, que disse "Sede
fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a", que
"viu... tudo quanto fizera, e eis que era muito bom", que
descansou no sétimo dia e o santificou.


O texto é inequívoco: lembrem-se do sétimo dia e
observem-no; apliquem a semana de Gênesis em sua vida
nessa prática sublime de contemplação; insiram a criação em
seu sistema nervoso; recebam os verbos momentosos da
criação em sua alma; façam amizade com este mundo de céu
e mar, peixes e aves, animais domésticos e plantas, homens e
mulheres.


Duas repercussões verbais de Gênesis nas instruções
de culto em Êxodo estabelecem um vínculo ainda mais
estreito entre a criação e a adoração. A primeira diz respeito
a Bezalel, o mestre de obras encarregado de preparar o local
e os utensílios para o culto. Em duas passagens, o texto diz
que "o Espírito de Deus encheu" Bezalel, primeiro quando os
planos para o culto são apresentados (Êx 31:3) e, depois, na
seqüência do desastre com o bezerro de ouro, quando os
planos são executados (35:31). Ruach elohim é uma
expressão idêntica àquela empregada no início da criação dos
céus e da terra: "... e o Espírito de Deus pairava por sobre as
águas" (Gn 1:2). Ao construir o lugar de adoração, Bezalel é
ligado à obra divina de criação dos céus e da terra.


A outra expressão do relato da criação em Gênesis que
ressoa na obra relacionada ao culto em Êxodo é "terminado a
sua obra". "Havendo Deus terminado [...] a sua obra" (Gn 2:2)
é retomado no final de Êxodo: "Assim Moisés acabou a obra"
(Êx 40:33). Mais uma vez, criação e adoração são colocadas
em paralelo.


A construção de um templo como participação na obra divina da construção do
mundo também fica evidente no templo de Salomão, a outra operação de
construção de grandes proporções apresentada nas Escrituras. Vários estudiosos
investigaram a fundo quão detalhadamente o templo de Salomão reflete e espelha
o mundo da criação e, então, recebe seu selo final de Gênesis na oração de
dedicação feita por Salomão e proferida na forma de sete petições (lRs 8:31-32,33-
34,35-36,37-40,41-43,44-45,46-51). Para um resumo, ver LEVENSON, Creation and
the Persistence of Evil.


Inúmeras propostas imaginativas associam a criação
em Gênesis ao ato de culto em comunidade, reafirmando e
aprofundando os elementos de correspondência entre a
criação e a adoração. Muitas dessas propostas são mais
fantasiosas do que exegéticas, mas, pelo menos, transmitem
a percepção correta de que devemos atentar com grande zelo
para nossa cidadania tanto na terra (o mundo da criação)
como no céu (o mundo da adoração).


Trabalho


Não podemos entender nem o caráter nem a relevância
do sétimo dia sem considerarmos o trabalho e o local onde o
realizamos. O trabalho não nos afasta de Deus; antes, dá
continuidade a sua obra por nosso intermédio. O sétimo dia e
o trabalho não são opostos; são partes integradas de um todo
orgânico. Um depende do outro.
A maneira mais óbvia de entender isso é observar que
logo na primeira página das Escrituras Deus aparece como
trabalhador. Vemos Deus em ação em seu local de trabalho
(que, aliás, é o nosso local de trabalho). E, ao longo da
narrativa lenta de seu evangelho, João mostra com repetida
insistência (27 vezes!) Jesus trabalhando: "Meu Pai trabalha
até agora, e eu trabalho também" (Jo 5:17).


Trata-se de um fato de suma importância. Jesus adota
a criação como seu lugar de trabalho; ele antevê sua
crucificação como o último retoque dessa semana de
trabalho: "[Eu consumei] a obra que me confiaste para fazer;
e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo" (Jo 17:4-5), em
paralelo com o sétimo dia de Gênesis: "E havendo Deus
terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera" (Gn 2:2).
Deus, em Gênesis, e Jesus, em João, não são abstrações
— "poder superior", "amor eterno" ou "ser puro" —, mas
trabalhadores com um nome, trabalhando num lugar onde
nós continuamos a trabalhar.


"A exegese de Fílon continua sendo uma das tentativas mais impressionantes
de realizar uma interpretação simbólica coerente, e sua influência na história
posterior dificilmente pode ser superestimada. Para Fílon, o tabernáculo era uma
representação do universo, com a tenda simbolizando o mundo espiritual e o
pátio, o material. Além disso, as quatro cores indicavam os quatro elementos do
mundo, o candelabro com suas sete lâmpadas representavam os sete planetas, e
os doze pães simbolizavam os doze signos do zodíaco e os doze meses do ano".
Brevard CHILDS, The Book of Exodus.


Nosso local de trabalho é a criação, que nos fornece a
luz para trabalhar, o solo sob nossos pés, o céu acima de
nós, as plantas e árvores que cultivamos, os ritmos do ano,
os peixes, as aves e os animais da cadeia alimentar. À
medida que Deus trabalha nos dias da semana e desenvolve
cada detalhe, um refrão se repete: "E viu Deus que isso era
bom". Bom... bom... bom. Sete vezes nos seis dias, ouvimos:
"E viu Deus que isso era bom". A sétima e última declaração
é superlativa: "E eis que era muito bom" (Gn 1:31). Bom
trabalho. Bom local de trabalho. Então, e só então, vem o
sétimo dia. Não podemos entender o sétimo dia corretamente
sem considerar o trabalho, assim como não podemos
entender o trabalho corretamente sem considerar o sétimo
dia. Wendell Berry cria um rito entre o dia de trabalho e o
sétimo dia em mais um de seus poemas sobre o sábado:
... o dia de trabalho
E o sábado vivem juntos em um só local.


Ainda que mortal e incompleta, essa harmonia,
É nossa única chance de paz real.69
O sétimo dia é o último de uma série de dias de
trabalho, cada um considerado por Deus como sendo bom. O
contexto de trabalho no qual o sétimo dia se encontra
inserido é enfatizado pela repetição tripla da expressão "a sua
obra que fizera...", "a sua obra que tinha feito...", "de toda
obra que, como Criador, fizera". Mas o caráter distintivo do
sétimo dia é transmitido por quatro verbos: "Deus terminou
sua obra... ele descansou... Deus abençoou o sétimo dia e o
santificou" (Gn 2:2-3).


Os quatro verbos nos levam para além do local de
trabalho em si. Há mais coisas envolvidas no trabalho além
de trabalhar — há Deus: Deus terminando, Deus
descansando, Deus abençoando, Deus santificando. Quase
todos nós passamos a maior parte do tempo no lugar onde
trabalhamos. Mas, sem o sétimo dia, no qual Deus vai além
do local de trabalho (mas não se separa dele), esse lugar onde
trabalhamos logo perde todo o sentido da presença de Deus,
e o trabalho torna-se um fim em si. É esse "fim em si" que
transforma um local de trabalho desprovido do sétimo dia em
terreno fértil para ídolos. Fazemos ídolos em nosso local de
trabalho quando reduzimos todos os relacionamentos a
funções que podemos gerenciar, às dimensões do nosso ego e
nosso controle.


Hoje em dia, o mundo dos negócios tem dedicado
atenção considerável à observância do sétimo dia. Descobriuse
que observar o sétimo dia gera benefícios no local de
trabalho no que diz respeito à saúde, relacionamentos e
produtividade. Isso pode ser verdade, mas não são esses os
motivos pelos quais guardamos o sétimo dia. Não estamos
interessados, primeiramente, numa vida mais longa, em
maturidade emocional, em mais atividade física ou
produtividade mais elevada; estamos interessados em Deus e
em Cristo ser formado dentro de nós; de igual modo, estamos
interessados na criação consumada na ressurreição.


O sétimo dia não diz respeito, em primeiro lugar, a nós
mesmos ou às formas como ele nos beneficia, mas a Deus e
como ele nos forma. Não diz respeito, em primeiro lugar, ao
que fazemos ou deixamos de fazer, mas a Deus terminar,
descansar, abençoar e santificar. Trata-se de coisas sobre as
quais não temos muito conhecimento; estão além de nós,
mas não além de nosso reconhecimento e participação.
No entanto, observar o sétimo dia significa, sim, parar
e se aquietar tempo suficiente para ver, com espanto, a
maravilha da ressurreição. Ao nos colocarmos em pé ou nos
assentarmos em atitude receptiva de surpresa e aberta para
o que está além de nós, para aquilo que não podemos
controlar, cultivamos o temor-do-Senhor. Nossa alma é
formada por aquilo que não podemos executar ou gerenciar:
respondemos e participamos daquilo que a ressurreição de
Jesus continua a realizar sobre os fundamentos da criação,
que é nosso trabalho e local de trabalho.


NA AUSÊNCIA DO SÉTIMO DIA — se não há
interrupção regular e ordenada do trabalho e das palavras —,
não demoramos a nos envolver completamente com aquilo
que estamos fazendo e dizendo, e a obra de Deus é esquecida
ou marginalizada. É quando trabalhamos que somos mais
semelhantes à divindade, o que significa que é em nosso
trabalho que temos mais facilidade para desenvolver
pretensões à divindade. Sem o sétimo dia, nosso trabalho
torna-se o contexto total dentro do qual definimos nossa
vida. Perdemos a consciência de Deus, a percepção de Deus,
as visões extraordinárias da ressurreição. Perdemos a
capacidade de cantar: "Este é o mundo de meu Pai", e
acabamos cantarolando uma porção de canções egocêntricas
sobre aquilo que nós fazemos e sentimos.


Trata-se do mandamento mais difícil de ser guardado,
do exercício mais difícil de ser cultivado. É uma das práticas
mais abusadas e distorcidas da vida cristã. Ao longo dos
séculos, não foram poucos os que sofreram sob regimes
opressivos de observância do sétimo dia. Também não são
poucos aqueles dentre nós que servem de opressores. Hoje
em dia, é difícil reunir uma congregação de cristãos que não
tenha em seu meio tanto opressores quanto oprimidos. João
relata duas curas de Jesus realizadas no sétimo dia (caps. 5
e 9) que servem de advertência severa contra práticas
superficiais, legalistas ou opressivas relacionadas ao sétimo
dia. Em várias ocasiões, Jesus manifestou posição contrária
a pessoas que tinham idéias equivocadas acerca da
observância do sétimo dia. (Ver também Mc 3:1-6; 3:23-30;
Lc 14:1-6). E um fator que contribuiu para esses conceitos
errados foi o rompimento do vínculo entre o sétimo dia e o
trabalho.


Não vejo, porém, uma forma de contornar essa
questão: a fim de viver corretamente dentro da criação, é
necessário guardar o sétimo dia. Devemos parar de correr de
um lado para o outro o tempo suficiente para ver o que Deus
fez e está fazendo. Devemos nos calar o tempo suficiente para
ouvir o que ele disse e está dizendo. Todos os nossos
antepassados concordam que, sem silêncio e quietude, não
há espiritualidade, não há como levar uma vida atenta e
responsiva diante de Deus.


OS CRISTÃOS ORIENTADOS pela observância do
sétimo dia podem começar a reconceituar, reestruturar e
restaurar o dia do Senhor como um dia que desenvolve o
não-fazer e o não-falar — liberando as pessoas ao nosso
redor para não fazer nada nesse dia. A reunião dominical
para o culto tem uma tradição longa e honrada em nosso
grupo e, para a maioria de nós, proporciona a melhor
maneira de ouvir e adorar o Jesus ressuscitado. É preciso,
porém, manter a simplicidade.


Pastores e líderes de igrejas costumam abarrotar o dia
do Senhor de atividades: comitês, reuniões, projetos,
missões, atividades sociais. O excesso de trabalhos e
palavras perturba o silêncio e a tranqüilidade do sétimo dia.
Muitas vezes, por saberem que os membros de suas
congregações terão esse tempo disponível para eles no
domingo, os líderes conspiram para levá-los a se envolver em
tudo que supostamente seja salutar para a alma desses
membros e proveitoso para a igreja. Esses líderes podem ser
bem-intencionados, mas estão redondamente enganados. A
única coisa que fazem é ocupar as pessoas para o Senhor a
tal ponto de elas deixarem de ter tempo para o Senhor, e
sobrecarregá-las de informação sobre Deus a ponto de não
terem nenhuma oportunidade de ouvir Deus.


Se levamos a sério nosso objetivo de viver bem na
criação de Deus, podemos começar limpando o entulho dos
domingos e, então, nos envolver em formas conjuntas de
fazer nada e dizer nada: "Em vos converterdes e em
sossegardes, está a vossa salvação; na vossa tranqüilidade e
na confiança, a vossa força" (Is 30:15). Cultive a solitude.
Cultive o silêncio. Não há nada de novo nesse conselho; é a
recomendação central daqueles que vêm nos conduzindo a
uma vida obediente e fiel de missão e oração nos últimos
vinte séculos. Não tenho nada de novo a dizer sobre esse
assunto; porém, estou convencido de que é essencial dizer
isto de novo, dizê-lo com urgência, dizê-lo em nome de Jesus,
corroborado pela autoridade de Moisés: guarde o sétimo dia
— atente para a criação... adore o Criador.


Se nosso desejo é fazer mais do que simplesmente
contribuir com uma dimensão religiosa para a desintegração
do nosso mundo, mais do que nos juntarmos às multidões
que profanam a criação com sua pressa e inquietação
frenética e ruidosa, devemos atentar para as dádivas que
recebemos e para quem concede essas dádivas. Um passo
enorme para a renovação da criação hoje, esse campo no
qual o Cristo ressuscitado atua com tanta exuberância, é não
dar o passo seguinte: permanecer onde estamos, ouvir nosso
Senhor: atentar... adorar.


A maravilha

O que aconteceu, de fato, durante os últimos sete
dias e noites? Sete vezes fomos dissolvidos em
escuridão como seremos dissolvidos no pó; tanto
quanto sabemos, nosso próprio ser foi apagado do
mundo das coisas vivas. Sete vezes fomos
ressuscitados como Lázaro e descobrimos, com a
chegada do dia, que todos os nossos membros e
sentidos se encontram inalterados.


G. K. CHESTERTON
A atenção e a adoração que a observância do sétimo
dia desenvolve geram em nós a capacidade de nos
maravilharmos com as condições da criação que permeiam
os dias da semana. A ressurreição de Jesus é a narrativa
exemplar para vermos esse processo em funcionamento e o
colocarmos em prática.


Quando João reescreve Gênesis, a ressurreição de
Jesus completa o relato da criação. A semana da criação em
Gênesis se consumou quando Jesus descansou ("foi
sepultado") no sétimo dia, sábado. Então, Jesus se
apresentou vivo para os seus amigos logo cedo na manhã no
dia seguinte. Com o passar do tempo, eles perceberam que
haviam se tornado parte de uma nova criação, marcada por
essa ressurreição no "oitavo dia". Aos poucos, as tradições e
os preceitos associados ao sétimo dia foram transferidos para
o domingo, chamado de "primeiro dia" (Mc 16:2 e Jo 20:19) e
"dia do Senhor" (Ap 1:10).


A maravilha da ressurreição

Os quatro evangelistas completam suas narrativas do
evangelho com um relato ou relatos da ressurreição de
Jesus. Abordam o acontecimento por ângulos diferentes e
fornecem detalhes diversos, mas apresentam um elemento
em comum: todos transmitem uma sensação de maravilha,
espanto, surpresa. Apesar das várias alusões espalhadas
pelas Escrituras hebraicas e das três declarações explícitas
de Jesus prenunciando sua ressurreição, quando ela
aconteceu, todos foram pegos de surpresa — ninguém fazia
idéia de que haveria uma nova criação. As primeiras pessoas
envolvidas na ressurreição de Jesus também tiveram de lidar
com sua morte; viram-se obrigadas, então, a dar meia-volta e
lidar com a vida, e o fizeram profundamente maravilhadas.


AO MEDITARMOS SOBRE os quatro relatos da
ressurreição, nossa maravilha diante da criação (agora sob a
forma de maravilha diante da ressurreição) se acumula. As
quatro histórias são sucintas, compactas e narradas com
parcimônia. Desse substrato de austeridade narrativa,
alguns dados surgem com clareza, dados importantes para
nós ao refletirmos sobre o desenvolvimento da maravilha
inerente a uma vida correta dentro da criação.


Em primeiro lugar, por mais numerosas que tenham
sido as "alusões seguidas de conjecturas"71 nos séculos
anteriores a esse acontecimento, aqueles que estavam mais
próximos do fato e melhor preparados para ele quando
ocorreu foram pegos inteiramente de surpresa. De modo
geral, desconhecemos como o Espírito de Deus forma nossa
vida nas condições da criação. Nada aqui é exatamente
análogo aos termos que usamos para entender a nós mesmos
— desenvolvimento psicológico, por exemplo, ou metafísica
moral. Vivemos dentro de um mistério e não devemos fingir
que sabemos muita coisa.


Em segundo lugar, é evidente que nenhuma das
pessoas envolvidas nas aparições depois da ressurreição
procurou se preparar para o que, de fato, aconteceu. Não
"tomaram providências" antes de se maravilhar. Os dois
grupos religiosos judeus — os fariseus e os essênios — que,
na época, se mostravam mais diligentes na preparação do
cenário messiânico para algo como esses "novos céus e nova
terra" que Jesus trouxe consigo estavam olhando para o
outro lado e perderam sua manifestação.


Em se tratando da ressurreição de Jesus, todos são
novatos. Não há especialistas. Tendo em vista a forma que,
em nossos afazeres em geral, nos dedicamos a preparar e a
planejar qualquer acontecimento grande e importante, esse é
um fato extremamente desconcertante. A maravilha do
sétimo dia, a maravilha da criação, a maravilha da
ressurreição — não são algo em que nos tornamos peritos.
Não são fatos sobre os quais temos algum tipo de controle.
Os budistas falam de cultivar a "mente iniciante". Jesus disse
que só podemos entrar no reino "como uma criança" (Mc
10:15).


Em terceiro lugar, nos relatos da ressurreição, pessoas
de importância secundária (neste caso, as mulheres)
desempenham um papel de destaque em termos de
percepção e reação, apesar de líderes reconhecidos como
Pedro e João não ficarem de fora. Maria Madalena, talvez a
mais marginal dentre todos os primeiros seguidores de
Jesus, é a principal testemunha da ressurreição e a única
pessoa a aparecer nos quatro relatos. O único fato que
sabemos acerca de Maria Madalena antes de passar a seguir
Jesus é que fora possuída por "sete demônios" e liberta deles.
Essa expressão pode ser referência a uma vida moral
completamente devassa ou a uma forma extrema de doença
mental. Uma dessas condições, ou ambas, presentes antes
de ela conhecer Jesus, juntamente com o fato de ser mulher
numa sociedade patriarcal, a colocam no círculo de
marginalidade mais distante.


A expressão primorosa de T. S. Elliot para as evidências sempre presentes,
porém imprecisamente observadas de Deus operando em nossa dimensão em
"The Four Quartets", em The Complete Poems and Plays, 1909-1950.


Tendo em vista a importância que damos em nossa
sociedade a tudo que as celebridades apóiam, precisamos
prestar mais atenção em outras vozes. É provável que os
homens e mulheres que se mostrarão mais valiosos para nós
no desenvolvimento da maravilha decorrente do temor-do-
Senhor sejam pessoas à margem da respeitabilidade: os
pobres, as minorias, os sofredores e rejeitados, os poetas e as
crianças.


Em quarto lugar, a ressurreição foi um acontecimento
discreto que se deu num lugar tranqüilo, sem publicidade e
sem espectadores. É claro que houve muita energia e emoção
(lágrimas e correria, espanto, confusão e alegria), mas nada
visando chamar a atenção dos que estavam de fora. (Uma
exceção parcial é o terremoto relatado em Mateus, mas o
texto diz que as únicas pessoas afetadas foram os soldados
romanos que acabaram inconscientes devido a essa
ocorrência.)


Considerando a maneira como estamos acostumados a
cercar acontecimentos importantes de publicidade para
chamar a atenção e, também, a importância deste
acontecimento para o evangelho e tudo o que se relaciona a
ele, essa discrição é uma grande surpresa. Luzes intensas e
amplificação não são acessórios para o cultivo da maravilha.
E, em quinto lugar, o mais importante: a reação à
ressurreição mencionada com mais freqüência é o temor.
Experimentamos temor quando somos pegos de surpresa e
não sabemos o que fazer. Experimentamos temor quando
nossas pressuposições e conjecturas não são mais capazes
de explicar o que estamos enfrentando e quando não
sabemos o que está acontecendo conosco. Experimentamos
temor quando, sem nenhum aviso, a realidade se mostra
mais ou diferente do que pensávamos. O temor-do-Senhor
não tem o elemento do pânico. Assim, é acompanhado com
freqüência da injunção tranqüilizadora: "Não temas". O "não
temas" não resulta numa ausência de temor, mas na
transformação em temor-do-Senhor. No entanto,
continuamos sem saber o que se passa. Continuamos sem o
controle. Ainda estamos mergulhados em mistério.


Nos quatro relatos da ressurreição encontramos seis
ocorrências de diferentes formas do radical "temor" (phobos):
duas vezes como palavra que expressa terror — dos guardas
romanos diante do anjo resplandecente no túmulo vazio (Mt
28:4) e dos discípulos perplexos correndo para longe do
mesmo túmulo (Mc 16:8); Lucas conta que as mulheres se
assustaram, mas que, no mesmo instante, foram
tranqüilizadas na presença do anjo no túmulo (Lc 24:5); em
Mateus, primeiro o anjo e depois Jesus dizem: "Não temais",
para acalmar as testemunhas assustadas (28:5,10); colocado
no contexto dessas palavras tranqüilizadoras, o termo
"temor" transmite a idéia de uma alegria reverente (28:8). É
acompanhado de várias palavras que evocam
maravilhamento: surpreendidas e atemorizadas (exethanbethesan,
ekthambeisthe, Mc 16:5-6); temor e assombro (tromos
e ekstasis, Mc 16:8); perplexas (aporeisthai, Lc 24:4);
possuídas de temor (emphobon, Lc 24:5); maravilhado
(thaumazon, Lc 24:12).
A facilidade que esse mesmo radical (primeiro, como
substantivo, e depois, como verbo) pode ser usado de forma
tão diferente, mas sem confusão no contexto, fica evidente na
referência de Mateus: "E os guardas tremeram espavoridos e
ficaram como se estivessem mortos. Mas o anjo, dirigindo-se
às mulheres disse: Não temais" (Mt 28:4-5).


Essas seis referências ao temor ocorrem numa tradição
de relatos (a cultura hebraica e as Escrituras) em que a
palavra "temor" é usada com freqüência de uma forma que
significa muito mais do que simplesmente ficar com medo.
Porém, é interessante observar que ela inclui todas as
emoções que acompanham o medo — desorientação, não
saber o que vai acontecer comigo, perceber que há muito
mais coisas envolvidas que eu imaginava. E esse "algo mais e
diferente" é Deus. Quando isso acontece, começamos a
experimentar o temor-do-Senhor.


O temor-do-Senhor é a consciência que desenvolvemos
do "algo mais e diferente" que a presença ou revelação de
Deus introduz em nossa vida: não sou o centro de minha
existência; não sou o total final daquilo que importa; não sei
o que vai acontecer em seguida.


O temor-do-Senhor nos mantém alertas para a criação
ao nosso redor, mantém nossos olhos abertos — algo está
acontecendo e eu não quero perder. O temor-do-Senhor nos
impede de pensar que sabemos tudo e, desse modo, de fechar
nossa mente ou nossos sentidos para o novo. O temor-do-
Senhor nos impede de agir presunçosamente e, portanto,
destruir ou profanar algum aspecto da beleza, da verdade ou
da bondade que não reconhecemos ou não entendemos.
Por mais que viajemos pela criação, por mais que
fotografemos flores e montanhas, por mais conhecimentos
que adquiramos, se não cultivarmos a maravilha, corremos o
risco de perder o cerne daquilo que está se passando.


ESSES RELATOS DA RESSURREIÇÃO são permeados
pela maravilha cultivada na observância do sétimo dia. Os
cinco elementos de surpresa aqui presentes — o despreparo,
a inutilidade dos especialistas, a proeminência de
companheiros marginais, a excepcionalidade e o temor —
conferem uma textura rica à maravilha. A maravilha não
segue as linhas das nossas expectativas, especialmente as
que se referem a algo que consideramos importante e
transformador em nossa vida. E se a ressurreição de Jesus
ocupa o centro da obra formativa do Espírito em nossa vida,
e estou convicto disso, então uma sensação de maravilha é
parte considerável do que acontece: surpresa, perplexidade,
espanto — Deus operando. E bem aqui — em Jesus, em você,
em mim!
Sem a maravilha, encaramos a vida como um projeto
de auto-ajuda. Empregamos técnicas; analisamos talentos e
potenciais; estabelecemos alvos e avaliamos a evolução. A
formação espiritual é reduzida a processo cosmético.
Sem a maravilha, as energias motivadoras para viver
bem são sobrepujadas pela ansiedade e pela culpa. Ambas
restringem; nos fecham em nós mesmos; nos isolam em
sentimentos de inadequação ou indignidade; nos reduzem ao
pior. Em vez de sermos formados pelo Espírito que pairava
sobre a face das águas e que ressuscitou Jesus dos mortos,
somos malformados em uma vida de egomania moral ou
atletismo piedoso.


A desintegração da maravilha

Infelizmente, não vivemos num mundo que promove ou
incentiva a maravilha. Essa capacidade de nos
maravilharmos é natural e espontâneo em todos nós. Quando
éramos crianças, estávamos sempre maravilhados — o
mundo era novo e vinha ao nosso encontro com profusão.
Vivíamos cada dia em estado de surpresa, acariciando,
olhando, provando. As palavras eram maravilhosas. Correr
era maravilhoso. Toque, sabor, som. Vivíamos num mundo
de maravilhas. Tornamo-nos cristãos e, para nosso deleite,
descobrimos que tudo isso é confirmado em Gênesis e em
João (e tantas outras partes das Escrituras), e percebemos
que a maravilha é profunda e eterna, que fazemos parte de
uma criação "muito boa".


Mas, aos poucos, essa sensação de maravilha é
espremida para fora de nós. Isso se dá por vários motivos,
mas, geralmente, a extinção da maravilha ocorre quando nos
desenvolvemos em competência e adquirimos controle sobre
nós mesmos e sobre o ambiente ao nosso redor.
O local de trabalho é onde essa diminuição da
maravilha se dá de maneira mais constante e completa. É
difícil cultivar uma sensação de maravilha no local de
trabalho, onde a informação e a competência são
valores-chaves. Não queremos nenhuma surpresa. Não
queremos perder tempo simplesmente olhando para algo,
imaginando o que pensar daquilo. Somos treinados e depois
pagos para saber o que fazemos.


Alguns de nós temos um trabalho que nos empolga; ele
exige o nosso melhor e nos recompensa com reconhecimento
e satisfação — estamos realizando algo importante que faz
diferença, que faz do mundo um lugar melhor, que aumenta
a qualidade de vida das pessoas, que nos torna úteis, que
nos dá dinheiro para cuidarmos de nós mesmos e de nossos
dependentes. O trabalho é maravilhoso. Envolvemo-nos
diretamente na obra de criação de Deus e entre as criaturas
de Deus. Mas, depois de algumas semanas, meses ou, às
vezes, anos fazendo esse trabalho, os sentimentos, as
convicções e as idéias reunidos em torno da nossa
transformação em cristãos passa a ocupar o segundo plano,
dando lugar ao drama central do nosso trabalho com suas
exigências exaustivas, estímulos que nos enchem de energia
e satisfações deliciosas.


Ao longo do caminho, a primazia de Deus e sua obra
em nossa vida dão lugar sutilmente à primazia de nossa obra
no reino de Deus, e começamos a pensar em maneiras de
usar Deus naquilo que fazemos. É uma mudança que mal
pode ser percebida, pois continuamos a usar o vocabulário
de nossa nova identidade; continuamos a crer em verdades
idênticas; continuamos a buscar alvos nobres. Normalmente,
demora um bom tempo para aparecer a importância dessa
mudança. Mas, quando isso acontece, fica claro que, na
verdade, não estamos adorando a Deus, mas recrutando-o
como um assistente confiável e valioso.


Ao trabalhar, estamos lidando com aquilo que nós
sabemos, com o que fazemos bem e sabemos ser o nosso
trabalho. Por que não pedir a Deus que nos ajude em nosso
trabalho? Afinal, ele não nos convidou a fazê-lo quando disse:
"Pedi, e dar-se-vos-á..."? É verdade. Mas o problema é que, ao
ser removida do contexto da maravilha da
criação/ressurreição, qualquer oração se transforma
rapidamente em ato de idolatria, reduzindo Deus a alguém
que posso usar para meus propósitos, por mais nobres e
úteis que sejam.


Raramente nos ocorre chamar esse comportamento
aparentemente inocente e natural de idolatria. Não
pensaríamos em colocar uma Nossa Senhora de Aparecida no
painel do nosso carro para evitar acidentes, nem construir
um santuário para um Buda barrigudo em nossa sala para
fazer cessar nossa busca frenética por ilusões, nem
tampouco plantar árvores para a deusa cananéia da
fertilidade Asserá em nosso quintal para ter tomates maiores
em nossas hortas e mais bebês em nossos berçários. Mas,
ainda assim, é idolatria — usar Deus em vez de adorar a
Deus. A princípio, pode não ser uma idolatria completamente
formada, mas é uma semente do tipo de idolatria que floresce
no local de trabalho.


Para outros, o trabalho diário é lida penosa, um
emprego enfadonho e sem graça no qual nos arrastamos dia
após dia, semana após semana. Ao adquirirmos uma
identidade cristã, nossa nova criação toma o lugar do tédio
no local de trabalho. Sob a superfície de nossas palavras,
orações murmuram como um córrego nas montanhas; em
nossa imaginação, cânticos de louvor ressoam alegremente;
vemos tudo e todos com outros olhos — somos novas
criaturas inseridas em um mundo de maravilhas.
Então, um dia, percebemos que todas as coisas novas
que Cristo nos apresentou não incluem o nosso local de
trabalho. Ainda estamos atolados no mesmo emprego de dez,
vinte, trinta anos atrás. Com nova energia e a idéia de
identidade e propósito singulares despertada por nossa
conversão, olhamos ao redor e procuramos saída;
fantasiamos sobre empregos nos quais poderíamos trabalhar
com dedicação total, usando a frase maravilhosa: "Para a
glória de Deus".


Algumas pessoas arriscam tudo e largam o emprego
enfadonho. A maioria de nós, não: temos de pensar nas
prestações da casa e na faculdade dos filhos; não temos o
treinamento ou nível de instrução necessário; nosso cônjuge
está satisfeito com a situação atual e não deseja colocar em
risco a segurança do que já é conhecido. E, assim, aceitamos
o fato de que estamos empacados e voltamos a labutar na
lama e no tédio diário de nossa rotina.


Mas, além disso, olhamos ao redor e buscamos formas
de afirmar e desenvolver nossa nova vida em Cristo fora do
lugar de trabalho. E, para nossa alegria, descobrimos logo
que temos várias opções. Há um vasto mercado religioso
dedicado a satisfazer as necessidades e fantasias de pessoas
exatamente como nós. Temos congressos e encontros criados
sob medida para nos dar o ânimo de que precisamos. Livros,
vídeos e palestras prometem nos revelar o "segredo" cristão
daquilo que sentimos falta em nossa vida: segurança
financeira, filhos bem-comportados, o peso ideal, sexo
exótico, viagens a lugares sagrados, cultos empolgantes,
mestres famosos. Esses bens e serviços são sempre
promovidos por pessoas bonitas e sorridentes. É óbvio que
elas não estão entediadas.


Em pouco tempo, estamos na fila para comprar seja lá
o que for. E, uma vez que nada que adquirimos corresponde
às expectativas, pelo menos não por muito tempo, logo
estamos à procura de outra coisa, e mais outra. Criamos um
vício e nos tornamos consumidores de espiritualidades
industrializadas.
Isso também é idolatria. Nunca pensamos no termo
desse modo, uma vez que tudo o que compramos ou por que
pagamos é definido pelo adjetivo "cristão". Mas não deixa de
ser idolatria: Deus vendido como produto; Deus
despersonalizado e disponibilizado como técnica ou
programa. O mercado cristão de ídolos nunca esteve mais
aquecido ou foi mais rentável do que hoje.


TODO CRISTÃO QUE SE levanta pela manhã e vai
trabalhar entra num mundo no qual a idolatria é a principal
tentação, visando seduzi-lo para longe da nova vida que está
sendo formada à semelhança de Cristo pela ressurreição.
Os ambientes de trabalho "bons" e "maus" que acabei
de descrever apresentam inúmeras variações e combinações,
mas as possibilidades — aliás, as probabilidades — de
idolatria estão sempre presentes. Se trabalhamos, como é o
caso da maioria (as exceções óbvias são as crianças, os
idosos, os incapacitados e os desempregados), passamos a
maior parte dos dias e a maior parte das horas desses dias
num mundo permeado pela criação e aquisição de ídolos.
Quase todos nós passamos tempo considerável no
trabalho. Isso significa que, grande parte do tempo, nossa
identidade cristã está sendo formada em condições
impróprias ou mesmo hostis — ou seja, condições
caracterizadas pela intolerância ao mistério (informações e
know-how são requisitos básicos no local de trabalho), em
que a competência e o controle são altamente valorizados (os
comportamentos incompetentes e descontrolados garantem
uma demissão quase instantânea) e nas quais os
relacionamentos pessoais são subordinados e adaptados à
natureza do trabalho a ser realizado.


A tecnologia é uma das principais fomentadoras de
idolatria nos dias de hoje. Que ironia, não? A idolatria que,
pelo menos na imaginação popular, é associada à superstição
— à mente não esclarecida, não instruída, primitiva e
infantil, com seus mitos e idéias absurdas —, ganha nova
força com a ajuda da tecnologia, associada à pesquisa
científica prática e eficiente, ao uso da linguagem pura da
matemática para criar um mundo de computadores que
dominam o lugar de trabalho. Quase todo mundo está se
curvando respeitosamente diante da tecnologia, diante dos
computadores — diante de coisas impessoais que dominam
nosso tempo e nossa imaginação, que fazem promessas
extravagantes de controle e conhecimento e que arrancam
toda a idéia de mistério, maravilha e reverência de nossa
vida.


O local de trabalho sempre foi uma ameaça para a
mentalidade do sétimo dia, pois é o lugar onde não nos
maravilhamos com muita coisa; em princípio, a maravilha foi
praticamente banida. Em nosso local de trabalho, ou
sabemos e somos competentes, ou estamos entediados e
desatentos. Mas, na cultura de hoje, a ameaça representada
por uma vida cada vez mais incapaz de se maravilhar é
imensamente mais séria.


Por isso, a formação cristã exige vigilância incessante.
O local de trabalho é o ambiente onde a idolatria é sempre
reconfigurada, ao nos colocar na posição de controle e
oferecer objetos e sistemas que permitem usar habilidades e
implementar estratégias no mundo.
A maravilha, aquela disposição abismada de parar o
que estamos fazendo, aquietar-nos, olhos e mãos abertos,
prontos para receber "algo mais e diferente" não é estimulada
no local de trabalho.


A maravilha no local de trabalho
Isso significa que a formação espiritual é "suspensa"
durante as horas de trabalho e retomada depois do
expediente e nos fins de semana?
Creio que não, pois há algo impressionante a ser
considerado: a cena inicial da ressurreição de Jesus ocorre
num local de trabalho. Maria Madalena e as outras mulheres
estavam a caminho de seu local de trabalho quando
encontraram e aceitaram a realidade da ressurreição de
Jesus. A meu ver, o principal lugar de formação espiritual é o
local de trabalho.


Então, como nós, que trabalhamos para sobreviver e,
portanto, passamos um bocado de nosso tempo todas as
semanas num local de trabalho inamistoso ao "maravilharse",
podemos cultivar a maravilha da ressurreição na qual
floresce a formação espiritual?


OS PRIMEIROS PARTICIPANTES do dia da ressurreição
— Maria Madalena e a outra Maria, Joana, Pedro, João e
Cléopas, e os outros seguidores de Jesus cujos nomes não
são citados (Lc 24:10,18; Jo 20:1-10) — haviam,
supostamente, guardado o dia anterior, o sábado. Afinal,
eram judeus devotos, e é pouco provável que tivessem
abandonado os hábitos de uma vida inteira. Na noite de
sexta-feira, pouco antes de Jesus ser tirado da cruz e
colocado no sepulcro de José, judeus devotos de Jerusalém e
Nazaré, de Belém e Cafarnaum, de Alexandria e da Babilônia,
de Atenas e Roma, acenderam duas velas para receber o
sábado, recitando: "Bendito sejas tu, nosso Deus eterno, rei
do Universo, que nos santificastes com teus mandamentos e
nos ordenaste acender as velas de shabbath".


Uma vela era acesa em memória da ordem de Êxodo:
"Lembra-te do dia do sábado, para o santificar [...] não farás
nenhum trabalho [...] porque, em seis dias, fez o SENHOR os
céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia,
descansou" (Êx 20:8-11). A outra vela era acesa em memória
da ordem de Deuteronômio: "Guarda o dia de sábado, para o
santificar [...] não farás nenhum trabalho [...] lembrarás que
foste servo na terra do Egito" (Dt 5:12,14-15). Ao pôr do sol
de sábado, a oração era repetida, as velas eram acesas
novamente e a oração final, a Havdalá, era proferida,
encerrando o dia de descanso.


Não é absurdo imaginar os amigos e seguidores de
Jesus passando as 24 horas do descanso de Jesus no túmulo
também descansando — lembrando e observando. Como a
cidade toda, é bem possível que eles estivessem, igualmente,
guardando o sétimo dia. A meu ver, é pouco provável que
tenham ido à sinagoga ou ao templo, arriscando a vida ao
cultuar com os líderes religiosos que haviam conspirado na
crucificação de Jesus. Só sabemos com certeza que, naquele
sábado, não fizeram justamente o que eles, ou pelo menos as
mulheres em seu meio, mais desejavam fazer, isto é,
embalsamar o corpo de Jesus. Não o fizeram porque estavam
guardando o sétimo dia, lembrando e observando a obra da
criação de Deus e sua libertação da escravidão. Não creio que
conversaram ou oraram sobre essas coisas formalmente,
realizando um estudo bíblico ou algo do gênero.
Imagino, porém, que uma vida toda de observância do
sábado atuou no subconsciente deles, dando-lhes percepção
subjacente da imensidão da obra de Deus operando no
mundo e da proximidade pessoal de Deus operando neles e
por meio deles. A meu ver, a observância do sétimo dia os
colocou dentro de um contexto muito maior do que o relatado
sobre a crucificação na sexta-feira ou do que seus
sentimentos de desolação. A catástrofe, o horror e a decepção
enormes da crucificação sedimentaram-se no contexto maior
da obra de Deus na criação do mundo e na salvação que gera
almas. Nada do que pudessem ou quisessem fazer era
importante o suficiente para ter precedência sobre aquilo que
Deus havia feito e estava fazendo na criação, dentro do
enfoque dos mandamentos de Êxodo e Deuteronômio
internalizados na observância fiel do sétimo dia.
Imagino o efeito que toda uma vida de observância do
sábado teve sobre aquelas mulheres ao voltarem para casa
no fim do sétimo dia, levantarem-se na madrugada seguinte,
no primeiro dia da semana, e saírem para embalsamar o
corpo de Jesus. Será inacreditável crer que, no meio da
angústia de sua desolação, também havia um instinto
profundamente desenvolvido de buscar a Deus, uma
capacidade de reagir maravilhadas aos mistérios que
estavam além delas, uma disposição de se surpreender com
aquilo que não entendiam e não podiam prever?
Sua observância do sétimo dia era uma limpeza geral
semanal. No dia depois de guardar o sábado, puseram-se a
trabalhar sem o impedimento de ídolos — sem aquelas
tentativas sutis, porém obsessivas que se infiltram em nossa
vida de servir a um deus, rotina ou programa que pode ser
manuseado e controlado. A observância do sétimo dia
provocou um distanciamento da maneira mundana de fazer
as coisas e de suas próprias compulsões de assumir o
controle de tudo. O sábado era dia de resistência deliberada e
consagrada à realização de qualquer tipo de trabalho,
visando dar liberdade para ver Deus como ele é e o que está
fazendo, e responder a ele. A observância do sábado era
fundamental para a vida de mulheres e homens que
encontraram Jesus vivo no primeiro dia da semana da nova
criação.
A capacidade de ver Deus operando em nosso lugar na
criação (nosso local de trabalho) e de responder com a
maravilha que a ressurreição nos proporciona exige um
distanciamento do local de trabalho. Como podemos cultivar
esse distanciamento? Repito: guardando o dia de descanso.
William Willimon expressa a idéia de forma apropriada:
Guardar o sétimo dia é demonstrar publicamente
que confiamos que Deus cuida do mundo e,
portanto, não precisamos fazê-lo. Deus aceita o
trabalho humano, mas nossas contribuições para o
mundo têm seus limites. Se até mesmo Deus
confiou na criação a ponto de saber que o mundo
continuaria funcionando enquanto ele descansava,
devemos fazer o mesmo".

Acervo da Teologia

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