"AO CONTRÁRIO DE MUITOS, NÃO NEGOCIAMOS A PALAVRA DE DEUS VISANDO A ALGUM LUCRO; ANTES, EM CRISTO FALAMOS DIANTE DE DEUS COM SINCERIDADE, COMO HOMENS ENVIADOS POR DEUS". 2 Coríntios 2. 17



quinta-feira, 29 de setembro de 2016

* Hipólito de Roma ( 170 - 236) / Biografia & Obras

Hipólito de Roma

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Santo Hipólito
O martírio de Santo Hipólito
De acordo com a versão lendária de Prudêncio (Paris, séc. XIV)
Mártir
Nascimentocerca. 170 em Roma
Morteca 236 (66 anos) em Sardenha
Veneração porIgreja Católica
Igreja Ortodoxa
Festa litúrgicaIgreja Católica13 de agosto
Igreja Ortodoxa30 de janeiro
PadroeiroBibbienaItália; cavalos; carcereiros; policiais carcerários; funcionários de prisão
Gloriole.svg Portal dos Santos
Hipólito de Roma foi o mais importante teólogo do século III na Igreja antiga em Roma, onde ele provavelmente nasceu.
Fócio o descreveu em sua Biblioteca (cód. 121) como sendo um discípulo de Ireneu, que acredita-se ter sido discípulo de Policarpo e, pelo contexto da passagem, supõe-se que o próprio Hipólito assim se considerava. Porém, é duvidoso se esta afirmação de Fócio seja verdadeira.
Ele entrou em conflito com os papas de sua época e parece ter sido líder de um grupo cismático como um bispo rival de Roma. Por isto, ele é considerado como o primeiro Antipapa. Ele se opôs aos bispos de Roma que afrouxaram as regras de penitência para acomodarem um grande número de novos convertidos da religião pagã. Porém, muito provavelmente ele já estava reconciliado com a Igreja quando morreu como mártir.
Ele é a pessoa que usualmente chamamos de Santo Hipólito. Porém, iniciando no século IV, várias lendas surgiram sobre ele, identificando-o como um padre do cisma novaciano ou um soldado convertido por São Lourenço. Ele também é muitas vezes confundido com um mártir de mesmo nome.

Vida

Como um presbítero da Igreja em Roma sob o Papa Zeferino (r. 199–217), Hipólito se destacou por sua erudição e eloquência. Foi nesta época que Orígenes, então um jovem, o ouviu pregar.
Ele acusou o Papa Zeferino de modalismo, a heresia que ensinava que Pai e Filho eram apenas nomes diferentes para o mesmo sujeito. Hipólito, por sua vez, defendia a doutrina do Logos dos apologistas gregos, que distinguia o Pai do Logos ("Verbo"). Um conservador do ponto de vista ético, ele se escandalizou quando o Papa Calisto I(r. 217–222) estendeu a absolvição aos cristãos que tinham cometidos pecados graves, como o adultério. Foi nesta época que é possível que ele tenha se permitido ser eleito como um rival do bispo de Roma, além de continuar atacando os papas Urbano I (r. 222–230) e Ponciano (r. 230–235).

Antipapa e o cisma                                                                                    

Hipólito e seu grupo entraram em conflito com o Papa Calisto I (217-220), pôr pensar que o novo Pontífice, ao relaxar a legislação demasiado dura sobre o casamento e a penitência, estava abandonando a tradição católica. Justificando, com este motivo, sua posição irredutível, Hipólito escreveu o tratado sobre A Tradição Apostólica, fonte de primeira importância, para conhecermos a Igreja de seu tempo. Queixou-se também, de Calisto, de que tivesse este papa sendo condescendente quanto ao fato de se cometer um pecado mortal, não ser razão suficiente para depor um bispo, como alegava o contrário a Hipólito. Reclamava também, do fato que o Papa tivesse admitido às ordens a quem se tinha casado duas ou três vezes e que tivesse reconhecido a legitimidade dos matrimônios entre os escravos e mulheres livres, o que estava proibido pela lei civil. Combateu as mais variadas heresias, e foi grande defensor da sã doutrina e disciplina. 
Hipólito era um homem pouco dado ao perdão. E suas atitudes pouco conciliatórias só poderiam causar problemas no seio da Igreja. Suas “implicâncias” eram tão “ferozes”, suas críticas tão “ácidas”, seu palavreado tão propenso à discussão, que começaram a “minar” a autoridade papal com grandes recriminações que atingiam com francas e amplas censuras diretamente ao papa Zeferino, pôr ser, em sua opinião, não suficientemente preparado para detectar e denunciar a heresia. Por ocasião da escolha de São Calisto I, ele interrompeu as relações com a Igreja de Roma, e, reunindo seus inúmeros seguidores, consentiu ser ordenado Bispo de Óstia, e em ser colocado como antipapa; opositor ao Papa, fundando uma igreja própria, arrastando no cisma parte do clero e do povo de Roma. Sua postura intransigente, acrescentando-se suas divergências pessoais de oposição, e, a não disfarçada inveja, porque Calisto fora o preferido pelo clero a ele como sucessor do Papa Zeferino, fizeram nascer um cisma que durou vinte anos, e, continuou durante o pontificado de Ponciano, que contudo conseguiu, com a sua magnanimidade reconduzir Hipólito e o seu grupo à unidade da Igreja.

Martírio                                                                                                            

Na perseguição aos cristãos do imperador Maximino Trácio, Hipólito e Ponciano foram exilados juntos em 235. para a Sardenha e é muito provável que lá, antes de sua morte, ele tenha se reconciliado com seus adversários em Roma, pois já sob o Papa Fabiano (r. 236–250) seu corpo e o de Fabiano foram trazidos para Roma. Pelo Catalogus Liberianus é possível verificar que em 13 de agosto, provavelmente de 236, eles foram enterrados em Roma, sendo Hipólito no cemitério na Via Tiburtina e Ponciano, nas Catacumbas de São Calisto. Este documento também indica que, por volta de 255, Hipólito já era considerado um mártir cristão e lhe atribui a posição de padre e não a de bispo, mais uma indicação de que antes de sua morte ele já tinha sido recebido novamente no seio da Igreja.

Lendas

Tanto os fatos sobre a sua vida quanto as suas obras foram logo esquecidos no ocidente, talvez por causa de suas atividades durante o cisma e também por ele ter escrito em grego.

Hipólito padre no cisma novaciano                                                           

Papa Dâmaso I dedicou a ele um de seus famosos epigramas, fazendo assim dele um padre durante o cisma novaciano, uma visão posteriormente compartilhada por Prudêncio em sua obra do século V, "Paixão de Santo Hipólito".

Hipólito soldado                                                                                       

Nos martirológios dos séculos VII e VIII, "Santo Hipólito" aparece como um soldado convertido por São Lourenço, uma lenda que sobreviveu por um longo tempo no breviário romano. Segundo esta versão, Hipólito seria cidadão romano, nascido na capital, Roma e preparado por sua família para uma carreira das honras. Entretanto, preferiu a carreira da espada: a militar. Recusou ser questor na cidade de ostia, e em ser nomeado edil na cidade de Prato, para ser soldado pretoriano. Sempre demonstrou predileção às jornadas bélicas às ofertas de seu tio Cláudio, que era Cônsul em Roma para que participasse mais ativamente da vida pública, e dos pedidos de seu pai, Valério Quinto, que frequentasse mais o Fórum. Foi de seu agrado ser nomeado centurião da 3ª Legião de Félix, acantonada na cidade de Arpino, no Lácio, onde sua família tinha uma grande propriedade rural. Uma queda do seu cavalo força-lhe a se imobilizar pôr alguns meses, o que repousa a contra gosto e passa o tempo em apraz estudar. Alguns cronistas afirmam que sua simpatia pela causa cristã vem da época das campanhas que participou em Agrigento, onde lado a lado, esteve com vários adeptos desta seita que crescia até entre os soldados. Seu tutor de nome Orestes de Corinto, também era cristão. Sua relação com os cristãos se estreita quando uma vez batizado por Lourenço, é acolhido como igual pela jovem comunidade da Sicília e seus membros no exílio.
Martirológio Romano classifica este Hipólito como o mesmo mártir citado nos "Atos de São Lourenço" (hoje perdidos). Segundo este documento, Hipólito era o oficial encarregado de tomar conta de Lourenço, quando este estava na prisão, sendo por ele convertido e batizado. Ele presenciou o enterro do mártir, e, por assim ter agido, foi intimado a comparecer perante o imperador, que o censurou por desonrar o uniforme imperial e a missão a ele confiada, mediante uma “conduta inconveniente a um oficial e a uma pessoa distinta”, e ordenou que fosse açoitado. Ao mesmo tempo, Santa Concórdia, enfermeira de Hipólito, e mais dezenove outros foram espancados até a morte com açoites providos de bolas de chumbo. O próprio Santo Hipólito foi sentenciado a ser despedaçado pela força de cavalos. A sentença do imperador só não foi plenamente cumprida, pelo seu desígnio de atender aos apelos da influente família do condenado, composta de membros ilustres da sociedade romana, sendo que apenas deveria ser açoitado e enviado a uma província distante para onde continuaria prestando serviço a Roma.
Hoje, sabe-se que o local designado pelo imperador, foi a Sicília. Na antiga cidade de Agrigento ou Acragas, conhecida na época como Porto Empédocles, costa sul da ilha (hoje porto de Agrigento), local quente e que vivia sua população a provocar tumultos onerosos a Roma, que atendia pelo sugestivo nome de “Molo di Girgenti”. O imperador o enviou para tomar parte no bloqueio a que estava sendo vítima, e que se esforçavam os soldados para tomá-la. Esta cidade só foi submetida pelas tropas romanas em 210.

Hipólito mártir em Porto                                                                          

Ele também já foi confundido com um mártir homônimo que está enterrado em Porto (na região do Lácio, na Itália), de onde acredita-se que tenha sido bispo. Prudêncio parece ter se inspirado na história do Hipólito mitológico ao descrever a morte do santo, mostrando-o sendo arrastado até a morte por cavalos, na cidade de Óstia Antiga. Ele descreve a catacumba onde estaria enterrado Hipólito e conta que ele viu lá uma figura representando a execução do santo. Ele também confirma o dia 13 de agosto como a data em que Hipólito seria celebrado.
Esta versão levou Hipólito a ser considerado o padroeiro dos cavalos. Durante a Idade Média, cavalos doentes eram trazidos até IppollittsHertfordshireInglaterra, onde uma igreja fora dedicada a ele.

Obras

São Hipólito foi um dos maiores e mais destacados escritores da Igreja de Roma dos primeiros séculos. Pode muito bem ser comparado a Clemente de Alexandria ou Orígenes. Grande parte de seus escritos foram em grego, e, pelo fato de adotar esta língua (ele a escolheu, porque era uma língua mais difundida na época do que o latim), contribuiu para que a sua memória ficasse bastante diminuída até obscurecer-se quase pôr completo ao latinizar-se a Igreja ocidental a partir do século IVSão Jerônimo o chamava de o “homem mais santo e eloqüente”. Os extensos escritos de Hipólito, que pela variedade de assuntos podem ser comparados aos de Orígenes, abarcam as esferas da exegesehomiléticaapologética e polêmicacronografia e direito canônico. Hipólito preservou também a primeira liturgia conhecida sobre a Virgem Maria, como parte da cerimônia de ordenação de um bispo.
Porém, infelizmente, a maior parte de suas obras chegou até nossos dias em uma condição fragmentada e é difícil obter delas qualquer noção exata de sua importância intelectual e literária.

Refutação de todas as Heresias                                                                


Sua obra Refutação de todas as heresias (Philosophumena) é um livro conhecido por dar uma descrição do gnosticismo e das sociedades secretas da época e demonstra bastante conhecimento da filosofia gregaG. H. Pember chegou a sugerir que fosse convertido de uma dessas sociedades. Considerada a principal obra de Hipólito, de seus dez livros, o primeiro é o mais importante. Ele é conhecido há muito tempo e foi publicado sob o nome de Philosophumena entre as obras de Orígenes. Os livros II e III se perderam, sendo que os livros IV até X sobreviveram, sem o nome do autor, num mosteiro em Monte Atos em 1842. E. Miller os publicou em 1851 sob o título de Philosophumena, atribuindo-os incorretamente à Orígenes, algo que desde então já foi corrigido.

Comentários sobre o "Cântico dos Cânticos"                                             

Das obras exegéticas usualmente atribuídas à Hipólito, as melhor preservadas são "Comentários sobre o profeta Daniel" e "Comentários sobre o Cântico dos Cânticos", sendo esta a versão mais antiga interpretação claramente cristã dos Cânticos, cobrindo os três primeiros capítulos até Cânticos 3:7. Esta obra interpreta os Cânticos como se referindo a uma complicada relação entre Israel, Cristo e os gentios da Igreja. Cristo, como o Logos, é representado de diversos modos ricamente simbólicos: como a feminina Sophia("Sabedoria"), que era o agente de Deus na criação e que depois teria vivido com Salomão e inspirado os profetas, sendo a genitora do vinho (como Dionísio) que alimenta a Igreja com seus seios (a Lei e os Evangelhos), e como o vitorioso Hélio que corre pelo céu e junta as nações. O comentário retorna frequentemente ao tópico da unção do Espírito Santo e foi escrito originalmente como uma mistagogia, uma instrução aos novos cristãos. Estudiosos assumiram que esta obra foi originalmente escrita para ser utilizada durante a Pessach, época preferida pelos cristãos ocidentais da época para batismos. O comentário sobre o Cânticos sobreviveu em dois manuscritos geórgios, uma epítome grega, um florilégio paleo-eslavônico e fragmentos em armênio e siríaco, assim como em muitas citações patrísticas, especialmente na obra de Ambrósio de Milão, "Exposição sobre o Salmo 118 (119)". 
Diferentemente de Orígenes, que interpretava os Cânticos como sendo principalmente uma alegoria da alma e de Cristo, Hipólito interpretava o livro como sendo um tratamento tipológico dado à relação entre a Igreja da circuncisão, tipificada por Israel e substituída pela Igreja composta tanto por judeus convertidos quanto cristãos gentios. Hipólito interpretou os Cânticos utilizando-se de um recurso comum da retórica chamado écfrase, uma forma de persuasão empregada pelos retóricos da segunda era sofista, que consistia em se utilizar de temas bem conhecidos originados em representações populares comuns às paredes de casas (como murais) e, na forma de mosaicos, nos pisos. Ele também forneceu seu comentário com uma introdução bem desenvolvida conhecida como schema isagogicum, indicando seu conhecimento das convenções retóricas dos que discutiam as obras clássicas. Orígenes acreditava que o livro de Cânticos deveria ser reservado aos que já estavam espiritualmente maduros e que estudá-lo poderia ser prejudicial aos novatos. Nisto, ele seguiu as tradições interpretativas judaicas do século III, enquanto que Hipólito as ignorou.

Outras obras                                                                                             

É impossível formar uma opinião sobre Hipólito como pregador, pois as "Homilias sobre a Festa da Epifania", tradicionalmente atribuída a ele, não é dele.
Das obras dogmáticas, "Sobre Cristo e o Anticristo" sobreviveu completa. Entre outras coisas, ela inclui um relato vívido dos eventos que precedem o fim do mundo e foi escrita provavelmente durante as perseguições de Sétimo Severo, por volta de 202
A influência de Hipólito foi sentida principalmente em suas obras sobre cronografia e direito canônico. Sua crônica do mundo, uma compilação abarcando todo o período desde a criação do mundo até o ano de 234, é a base de muitas obras cronográficas tanto no oriente quanto no ocidente.
Nas grandes compilações de leis eclesiásticas que surgiram no oriente desde o século IV, as Antigas Ordens da Igreja, muitos cânones são atribuídos à Hipólito, como osCânones de Hipólito ou a epítome das Constituições Apostólicas. Quanto deste material é de fato de sua autoria, quanto foi retrabalhado e quanto foi erroneamente atribuído a ele não pode mais ser determinado sem sombra de dúvida mesmo pela mais profunda investigação. Uma grade parte destas obras foi incorporada no Fetha Negest, que uma vez já serviu como a base constitucional da lei na Etiópia - onde Hipólito ainda é lembrado como Abulides.

Ver também


    Revisão: Flávia Rossane 

                                            HISTÓRIA ECLESIÁSTICA ARTIGOS 
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                                               JOÃO CRISÓSTOMO BIOGRAFIA  

* João Crisóstomo (347-407) / Biografia & Obras



João Crisóstomo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
São João Crisóstomo
Mosaico bizantino de São João Crisóstomo na Basílica de Santa SofiaIstambul
No oriente: Grande Hierarca;Professor Ecumênico
No ocidente: Patriarca de Constantinopla e Doutor da Igreja
Nascimentocerca. 347 em AntioquiaSíria (província romana)
Morte14 de setembro de 407 em Comana PônticaPonto (província romana)
Veneração porIgreja Católica
Comunhão Anglicana
Igreja Luterana
Igreja Ortodoxa
Festa litúrgicaNo oriente: 14 de setembro (morte);13 de novembro (ascensão ao patriarcado), 30 de janeiro (Três Grandes Hierarcas) e 27 de janeiro(traslado das relíquias)
No ocidente: 13 de setembro
AtribuiçõesVestido como bispo, segurando um evangelho ou rolo, mão direita erguida abençoando. Ele é mostrado sempre muito magro por causa dos jejuns, uma testa alta, cabelos escuros com sinais de calvície e uma barba curta. Símbolos: colmeia, uma pomba branca, uma frigideira, cálice sobre uma Bíblia, pena e tinteiro
PadroeiroConstantinopla; Educação; epilepsia; palestrantes e pregadores
Gloriole.svg Portal dos Santos
João Crisóstomo (cerca. 347Antioquia14 de setembro de 407Comana Pôntica) foi um arcebispo de Constantinopla e um dos mais importantes patronos do cristianismo primitivo. Ele é conhecido por suas poderosas homilias e por sua habilidade oratória, por sua denúncia dos abusos cometidos por líderes políticos e eclesiásticos de sua época, por sua "Divina Liturgia" e por suas práticas ascetas. O epíteto Χρυσόστομος ("Chrysostomos"aportuguesado como "Crisóstomo") significa "da boca de ouro" em língua grega e lhe foi dado por conta de sua lendária eloquência. O título apareceu pela primeira vez na "Constituição" do papa Vigílio em 553 e ele é considerado o maior pregador cristão da história.
As igrejas ortodoxas e católicas orientais veneram-no como santo e como um dos Três Grandes Hierarcas, juntamente com Basílio, o Grande e Gregório Nazianzeno. A Igreja Católica também o proclamou Doutor da Igreja. As igrejas de tradição ocidental, incluindo a católica, algumas províncias da Comunhão Anglicana e partes da Igreja Luterana comemoram sua festa em 13 de setembro. As restantes igrejas luteranas e províncias anglicanas o fazem na data tradicional no oriente ortodoxo, 27 de janeiro. A Igreja Ortodoxa Copta de Alexandria também reconhece Crisóstomo como santo.
Entre suas homilias, oito dirigidas aos cristãos judaizantes ainda geram controvérsia por causa do impacto que provocaram no desenvolvimento do antissemitismo cristão.

Biografia

Primeiros anos e educação

João nasceu em Antioquia em 349 (ou 347) de pais greco-sírios. Diferentes estudiosos afirmam que sua mãe, Antusa, era ou pagã ou cristã. Seu pai era um oficial militar de alta patente de nome desconhecido e morreu logo depois do nascimento de João.
Seu batismo ocorreu em 368 (ou 373) e ele foi tonsurado leitor (uma das ordens menores da Igreja). Por conta dos contatos de sua mãe, que era influente na cidade, João iniciou seus estudos sob a influência do famoso professor pagão Libânio. Com ele, João aprendeu muitas das ferramentas que futuramente utilizaria em sua carreira como retórico e também adquiriu sua paixão pelo grego e sua literatura.
Porém, Crisóstomo foi se tornando cada vez mais dedicado ao cristianismo conforme crescia e, ainda jovem, foi estudar teologia com Diodoro de Tarso, o fundador da reconstituída Escola de Antioquia. De acordo com o historiador cristão Sozomeno, Libânio teria dito, em seu leito de morte, que João teria sido seu sucessor "se os cristãos não tivessem roubado-o de nós". João já vivia em extremo ascetismo e, por volta de 375, tornou-se eremita. Nesta época, passou dois anos continuamente em pé, dormindo muito pouco e decorou a Bíblia. Como consequência disso, seu estômago e seus rins foram danificados permanentemente e sua saúde se deteriorou tanto que ele acabou sendo forçado a voltar para Antioquia.

Antioquia

João foi ordenado diácono em 381 por Melécio de Antioquia, que, na época, não estava em comunhão com Alexandria e Roma. Depois da morte de Melécio, João se distanciou de seus seguidores, mas não se juntou a Paulino, seu adversário no cisma que dividia a Igreja de Antioquia. Em 386, depois da morte de Paulino, foi ordenado presbítero por Evágrio, sucessor dele. Foi João que, depois disso, conseguiu reconciliar Flaviano I de Antioquia, o indicado por Roma e Alexandria, os sucessores de Melécio e os de Paulino, unificando novamente a sé de Antioquia sob uma única liderança depois de quase setenta anos do chamando "cisma meleciano".
Em Antioquia, num período de doze anos (386-397), João ganhou enorme popularidade por causa da eloquência de seus discursos na "Igreja Dourada", a catedral da cidade, especialmente suas iluminadoras aulas sobre passagens da Bíblia ou ensinamentos morais. Sua obra mais valiosa desta época é "Homilias", que versa sobre os vários livros da Bíblia. Ele enfatizava a caridade e se mostrava sempre preocupado com as necessidades materiais e espirituais dos pobres. Falava também contra o abuso da riqueza e das propriedades pessoais:

Você deseja honrar o corpo de Cristo? Não o ignore quando ele está nu. Não o homenageie no templo vestido com seda quando o negligencia do lado de fora, onde ele está malvestido e passando frio. Ele que disse "Este é o meu corpo" é o mesmo que diz "Tu me vistes faminto e não me destes comida" e «quantas vezes o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mateus 25:40)... Que importa se a mesa eucarística está lotada de cálices de ouro quando seu irmão está morrendo de fome? Comeces satisfazendo a fome dele e, depois, com o que sobrar, poderás adornar também o altar.
— João Crisóstomo, Comentário sobre Mateus.

Sua compreensão simples e direta das Escrituras — contrária à tendência alexandrina de utilizar interpretações alegóricas — implicava que os temas de seus discursos eram práticos, explicando como a Bíblia poderia ser utilizada na vida cotidiana. Este tipo de pregação é que tornou João tão popular. Ele fundou ainda muitos hospitais em Constantinopla para tratar dos pobres.
Um incidente ocorrido durante uma de suas missas em Antioquia ilustra bem a influência alcançada por suas homilias. Quando Crisóstomo chegou em Antioquia, o bispo da cidade teve que intervir junto ao imperador bizantino Teodósio I em nome dos cidadãos que, enfurecidos por um discurso de João, saíram pela cidade mutilando estátuas do imperador e de sua família. Na mesma época, durante a Quaresma de 387, João pregou vinte e uma homilias nas quais convidou seus ouvintes a meditarem sobre seus próprios erros. De grande impacto na população, muitos pagãos se converteram ao cristianismo e, por conta disso, a vingança de Teodósio, um devoto cristão, não foi tão severa quanto poderia ter sido.

Arcebispo de Constantinopla


Crisóstomo e a imperatriz bizantina Élia Eudóxia, esposa de Arcádio, uma de suas grandes adversárias. Depois de condená-lo ao exílio, Eudóxia se arrependeu e convenceu o marido a trazê-lo de volta com medo de uma punição divina.
cerca. 1880. Por Jean-Paul Laurens.
No outono de 397, João foi nomeado arcebispo de Constantinopla sem que o poderoso eunuco Eutrópio ficasse sabendo. Curiosamente, ele teve que deixar Antioquia escondido porque se temia que a despedida de alguém tão popular pudesse provocar uma revolta.
Durante seu mandato como arcebispo, João teimosamente recusou participar ou realizar festas e banquetes luxuosos, o que tornou-o muito popular entre o povo, mas também valeu-lhe muitos inimigos na aristocracia local e no clero. Não ajudou também sua reforma clerical, que obrigava que todos os sacerdotes regionais deixassem a corte (e seus prazeres) e retornassem para suas igrejas, que era onde deveriam estar servindo, e, para piorar, sem receber nada em troca.
O período que Crisóstomo passou em Constantinopla foi ainda mais tumultuado que o anterior, em Antioquia. Teófilo, o patriarca de Alexandria, queria colocar a sé de Constantinopla sob sua esfera de influência e não apoiou a nomeação de Crisóstomo. Num episódio local, Teófilo havia disciplinado quatro monges egípcios (que passaram a ser chamados de "os Altos Irmãos") por apoiarem as doutrinas de Orígenes. Sentindo-se injustiçados, eles fugiram para Constantinopla e foram recebidos por João, dando a Teófilo o pretexto que precisava para acusar João de ser partidário de Orígenes, cuja doutrina era condenada na época.
Outro inimigo de João era Élia Eudóxia, esposa do imperador Arcádio, que assumiu (provavelmente com razão) que a fúria do arcebispo contra a extravagância das roupas femininas era um ataque direto a si. Eudóxia, Teófilo e outros adversários realizaram um sínodo em 403 (o chamado "Sínodo do Carvalho") para acusar João de ser um origenista e conseguiram depô-lo e bani-lo.
Não demorou muito e Arcádio teve que chamá-lo de volta, pois o povo se revoltou com sua partida. Além disso, um terremoto ocorrido na noite de sua prisão convenceu Eudóxia da insatisfação divina e ela pediu ao marido que chamasse João de volta. Porém, a paz durou pouco. Uma estátua de prata de Eudóxia foi erigida no Augusteu, perto da catedral. João, implacável, denunciou as cerimônias dedicatórias e acusou a imperatriz em termos duros: "Novamente, Herodíades se regojiza; novamente se preocupa; novamente dança; e, novamente, deseja receber a cabeça de João numa bandeja", uma alusão aos eventos da morte de São João Batista. Mais uma vez João foi banido, desta vez para a Abecásia, no Cáucaso.
Por volta de 405, Crisóstomo passou a apoiar, moral e financeiramente, os monges cristãos que estavam aplicando as leis imperiais contra os pagãos, destruindo templos e santuários na Fenícia e regiões vizinhas.

Morte e canonização

Imagens da vida de João Crisóstomo
Exílio de São João Crisóstomo. Foi durante a sua viagem à Abecásia, para onde havia sido exilado, que João morreu em 14 de setembro de 407.
Transporte das relíquias de São João para Constantinopla. Um discípulo de João, São Proclo, que era então o arcebispo de Constantinopla, cuidou para que a transferência fosse realizada durante o reinado do filho de Élia Eudóxia, Teodósio II
Tendo que enfrentar o exílio, Crisóstomo apelou a três grandes nomes da Igreja: o papa Inocêncio I, o bispo de Mediolano,Venério, e o bispo de AquileiaCromácio. Inocêncio protestou contra o banimento, sem sucesso. Em 405, enviou uma delegação que tinha por objetivo interceder em nome de Crisóstomo, liderada por Gaudêncio de Bréscia, mas ele e seus dois companheiros enfrentaram muitas dificuldades na viagem e não chegaram a Constantinopla.
Mesmo exilado, as cartas de João ainda exerciam grande influência em Constantinopla e, por isso, ele foi exilado para uma região ainda mais longínqua que o Cáucaso (onde ele esteve entre 404 e 407), a cidade de Pítio (moderna Bichvinta), na Abecásia, onde um túmulo é ainda hoje visitado por peregrinos como sendo de João. Porém, João não chegou lá e faleceu em Comana, no Ponto, em 14 de setembro de 407, durante a viagem. Suas últimas palavras foram δόξα τῷ θεῷ πάντων ἕνεκεν ("Glória a Deus por todas as coisas").

Obras

Homilias

Homilia Pascoal

A mais conhecida de suas muitas homilias, a famosa "Homilia Pascoal" (Hieratikon), é bastante breve. Na Igreja Ortodoxa, ela é geralmente lida anualmente durante a cerimônia Divina Liturgia (eucarística) da Páscoa depois das orthros da meia-noite (ou matinas).

Demais

Conhecido como o "maior pregador da Igreja primitiva", as homilias de João são, sem dúvida, seu maior e mais duradouro legado. A homilética ainda existente de João é vasta, incluindo muitas centenas de homilias exegéticas tanto sobre o Novo Testamento (especialmente as obras de São Paulo) quanto o Antigo (particularmente sobre o Gênesis). Entre elas estão sessenta e sete sobre o Gênesis, cinquenta e nove sobre os Salmos, noventa sobre o Evangelho de Mateus, oitenta e oito sobre o Evangelho de João e cinquenta e cinco sobre os Atos dos Apóstolos. Elas foram geralmente anotadas por estenógrafos já com o objetivo de serem circuladas depois e revelam um estilo que tendia a ser direto e muito pessoal, mas influenciado pelas convenções retóricas de sua época e do local onde pregava. De maneira geral, sua teologia homilética revela uma característica influência da Escola de Antioquia, privilegiando uma interpretação mais literal dos eventos bíblicos, mas Crisóstomo também utiliza, quando necessário, interpretações alegóricas, uma técnica associada à rival Escola de Alexandria.
O mundo social e religioso de João era fortemente influenciado pela contínua e penetrante presença do paganismo na vida urbana. Por isso, um dos assuntos mais frequentes em suas homilias era o paganismo na cultura de Constantinopla, geralmente condenando as diversões populares ligadas aos pagãos: o teatro, as corridas de bigas e as festas populares nos feriados. Crisóstomo criticava principalmente os cristãos que participavam destas atividades:
Se você perguntar [a um cristão] quem é Amós ou Obadias, quantos eram os apóstolos ou os profetas, ficam mudos; mas se perguntar-lhes sobre cavalos ou jóqueis, responder-te-ão de forma mais solene que sofistas ou retóricos.
— João Crisóstomo.
As homilias de João sobre as epístolas paulinas seguem uma estrutura linear, tratando os textos de forma metódica, verso por verso, geralmente entrando em grande nível de detalhe. Ele se preocupava em ser compreendido por leigos, utilizando para isso divertidas analogias ou exemplos práticos. Outras vezes, comentava em profundidade, claramente com o objetivo de endereçar as sutilezas teológicas de uma interpretação herética ou revelar a presença de um tema mais profundo no texto.
Uma das características mais recorrentes das homilias de João é sua ênfase no cuidado com os necessitados. Ecoando temas do Evangelho de Mateus, ele exorta os ricos a abandonarem o materialismo para ajudar os pobres, empregando todas as suas habilidades retóricas para envergonhar os ricos e obrigá-los a abandonar o consumismo mais conspícuo:
Honras de tal forma teus excrementos a ponto de recebê-los em vasilhas de prata quando outro homem criado à imagem de Deus está morrendo de frio?

Homilias sobre judeus e cristãos judaizantes

Durante seus dois primeiros anos como presbítero em Antioquia (386-387), João denunciou judeus e cristãos judaizantes numa série de oito homilias que pregou aos cristãos de sua congregação que participavam de festivais judaicos e de outras observâncias judaicas, mas não se sabe ao certo qual dos dois grupos era o alvo principal.
Um dos objetivos destas homilias era evitar que os cristãos continuassem praticando hábitos judaicos e, assim, evitar o que Crisóstomo percebia como uma erosão de seu rebanho. Nelas, ele criticava os "cristãos judaizantes" que participavam dos festivais ou que observavam outros costumes, principalmente o sabá, a circuncisão e a peregrinação aos lugares santos judaicos. João afirmava que nos sabás e nos festivais, as sinagogas se enchiam de cristãos, especialmente as mulheres, que amavam a solenidade da liturgia judaica, gostavam de ouvir o shofar no Rosh Hashaná e aplaudiam os pregadores mais famosos, como pedia o costume na época. Uma teoria mais recente defende que ele estaria tentando persuadir os judeo-cristãos, um grupo que, por séculos, mantinha relações com os judeus e o judaísmo, a finalmente escolherem entre este e o cristianismo. Na língua grega, as homilias são chamadas de "Kata Ioudaiōn" (Κατὰ Ιουδαίων), que se traduz como "Adversus Judaeos" em latim e "Contra os Judeus" em português. O primeiro editor medieval das homilias, o beneditino Bernardo de Montfaucon, acrescenta a seguinte nota ao título: "Um discurso contra os judeus; mas que foi pregado contra os que judaizavam e que jejuavam com eles [os judeus]".
De acordo com os estudiosos patrísticos, a oposição a qualquer ponto de vista no final do século IV era geralmente expressada de uma determinada maneira, principalmente utilizando uma forma retórica conhecida como psogos (culpa, censura) que vilificava os oponentes de maneira inflexível; assim, tem-se argumentado que chamar Crisóstomo de "antissemita" seria empregar uma terminologia anacronística de uma maneira incongruente com o contexto e o registro histórico. Porém, esta interpretação não evita que se alegue que a teologia de Crisóstomo fosse uma forma de supersessionismo anti-judeu ou que sua retórica fosse contrária ao judaísmo.
Além de suas homilias, diversos outros tratados de João foram muito influentes. Um deles é um de seus primeiros e chama-se "Contra os Oponentes da Vida Monástica", escrito quando ele ainda era um diácono (algum momento antes de 386), dirigido aos pais, pagãos e cristãos cujos filhos contemplavam seguir a vocação monástica. O livro é um afiado ataque aos valores da classe alta urbana antioquena escrita por alguém que era membro dela. Nesta obra percebe-se que, já no tempo de Crisóstomo, era costumeiro para os antioquenos enviarem seus filhos para serem educados por monges.
Outros importantes tratados escritos por João incluem "Sobre o Sacerdócio" (escrito em 390/1, traz, no livro I, um relato de seus primeiros anos e uma defesa de sua fuga da ordenação pelo bispo Melécio de Antioquia, e, nos livros seguintes, sua compreensão sobre o sacerdócio), "Instruções ao Catecúmenos" e "Sobre a Incompreensibilidade da Natureza Divina". Além disso, Crisóstomo escreveu também uma série de cartas à diaconisa Olímpia, das quais dezessete sobreviveram.

Liturgia 

Além de sua pregação, o outro duradouro legado de João foi sua influência sobre a liturgia cristã. Duas de suas obras sobre o tema são particularmente importantes. Ele harmonizou a vida litúrgica da igreja ao revisar as orações e rubricas da Divina Liturgia e, até hoje, a Igreja Ortodoxa e as Igrejas Católicas Orientais, que seguem o rito bizantino, celebram a "Divina Liturgia de São João Crisóstomo" como a liturgia eucarística normal, mesmo que a ligação exata desta com Crisóstomo seja tema de debate entre os especialistas.

Legado e influência


"O Perdão de São João Crisóstomo". Cena popular na arte cristã no início do século XVI, retrata o perdão da princesa que teria tido o filho de João que, para se penitenciar, teria passado anos "rastejando como um animal".
ca. 1640. Por Mattia Preti, atualmente no Museu de Arte de Cincinnati, em CincinnatiEstados Unidos.

Urnas contendo as relíquias de São Gregório de Nazianzo e São João Crisóstomo na Igreja de São Jorge, em Istambul.

Manuscrito iluminado de uma das homilias de Crisóstomo.
Séc. XV.
Numa época que o clero urbano era alvo de duras crísticas pelo luxuoso estilo de vida que levava, João estava determinado a reformá-lo em Constantinopla. Seus esforços foram recebidos com poderosa resistência e tiveram sucesso limitado. Ele era um excelente pregador cujas homilias e outras obras são ainda hoje estudadas e citadas. Como teólogo, ele foi e ainda é muito importante para o cristianismo oriental e ele é geralmente considerado como o mais importante doutor da Igreja Grega, apesar de sua importância menor para o cristianismo ocidental. Suas obras que sobreviveram são muito mais numerosas que as de qualquer outro dos Padres Gregos. João rejeitava a tendência de sua época em relação à interpretação alegórica, utilizando, em vez disso, um estilo direto que aplicava as passagens bíblicas e suas lições à vida prática do ouvinte. Seu exílio demonstrou a rivalidade que existia entre Constantinopla e Alexandria pelo reconhecimento como sé mais importante do oriente, enquanto a primazia do papa no ocidente permanecia inquestionável.

Influência no Catecismo da Igreja Católica e seu clero

A influência de João nas doutrinas da igreja está presente por todo o moderno "Catecismo da Igreja Católica" (rev. 1992), no qual ele é citado em dezoito seções, principalmente por suas reflexões sobre o objetivo das orações e o significado do Pai Nosso.

Considere como [Jesus Cristo] ensina-nos a sermos humildes ao ensinar que nossa virtude não depende de nossas obras apenas, mas da graça do Altíssimo. Ele comanda cada um dos fieis que ora que o faça universalmente, pelo mundo inteiro. Pois ele não disse "seja feita Sua vontade em mim ou em nós", mas "na terra", toda a terra, para que o erro seja banido dela, a verdade possa se enraizar, todos os vícios sejam destruídos nela, a virtude floresça nela e a terra não seja mais diferente do céu.
— João Crisóstomo, Homilia sobre Mateus.

Clérigos cristãos, como R.S. Storr, consideram Crisóstomo como "um dos mais eloquentes pregadores a terem trazido, depois da era apostólica, as novas divinas de verdade e amor" e John Henry Newman, no século XIX, descreveu João como "uma alma brilhante, alegre e gentil; um coração sensível.".

Música e literatura

O legado litúrgico de João inspirou diversas composições musicais. Particularmente notáveis são a "Liturgia de São João Crisóstomo", Op. 31, de Sergei Rachmaninoff, composta em 1910, uma de suas duas grandes composições para corais desacompanhados; a "Liturgia de São João Crisóstomo", Op. 41, de Pyotr Tchaikovsky; e a "Liturgia de São João Crisóstomo" do compositor ucraniano Kyrylo Stetsenko.
A novela "Ulisses", de James Joyce, inclui um personagem chamado Mulligan que fez outro personagem, Stephen Dedalus, lembrar-se de Crisóstomo relacionando sua obturação de ouro e seu dom de papear, que lhe valeram o mesmo título que João recebeu, mas por sua pregação, "boca de ouro": "[Mulligan] espiou de lado para cima e assobiou longa e gravemente e então parou absorto, seus dentes iguais brilhando aqui e ali com pontos de ouro. Crisóstomo."

A lenda da penitência de São João Crisóstomo

A lenda, registrada na Croácia no século XVI, apesar de não aparecer na Legenda Áurea, relata que, quando João Crisóstomo era um eremita no deserto, foi encontrado por uma princesa real em perigo. O santo, pensando que ela fosse um demônio, a princípio se recusou a ajudá-la, mas a princesa convenceu-o de que era cristã e que seria devorada por feras selvagens se ele não permitisse que ela ficasse em sua caverna. Assim, ele admitiu-a, dividindo cuidadosamente a caverna em duas partes, uma para cada um.
Apesar destas preocupações, o pecado da fornicação foi cometido e, numa tentativa de escondê-lo, o consternado santo agarrou a princesa e atirou-a de um precipício. Em seguida, foi a Roma implorar por absolvição, que lhe foi recusada. Percebendo a natureza atroz de seus crimes, Crisóstomo fez um voto de que não se ergueria do chão até que seus pecados fossem expiados e, por anos, viveu como um animal, rastejando e andando de quatro, alimentando-se de gramíneas e raízes. Depois disto, a princesa reapareceu, viva e amamentando um filho do santo, que, milagrosamente, pronunciou que seus pecados teriam sido perdoados.
Esta última cena tornou-se muito popular no início do século XVI como tema para gravuras e pintores e existem versões feitas por Albrecht DürerHans Sebald Beham e Lucas Cranach, o Velho, entre outros.

Veneração e relíquias 

João Crisóstomo morreu na cidade de Comana, em 407, durante a viagem que o levaria ao ponto final de seu exílio, e passou a ser venerado como santo quase que imediatamente. Três décadas depois, alguns de seus aliados em Constantinopla continuavam cismáticos. São Proclopatriarca de Constantinopla (r. 434-446), numa tentativa de reconciliação com os chamados "joanistas", pregou uma homilia elogiando seu predecessor na Basílica de Santa Sofia que dizia: "Ó João, sua vida foi cheia de tristezas, mas sua morte foi gloriosa. Seu túmulo e sua recompensa são grandes, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, cheio de graça que conquistou os grilhões do tempo e do espaço! O amor conquistou o espaço, a memória inesquecível aniquilou os limites e o lugar não diminui os milagres de um santo". Estas homilias ajudaram a mobilizar a opinião pública e o patriarca foi autorizado pelo imperador Teodósio II, filho de Élia Eudóxia, a retornar as relíquias de Crisóstomo para Constantinopla para serem colocadas num santuário na Igreja dos Santos Apóstolos em 28 de janeiro de 438. As relíquias de João foram saqueadas pelos cruzados durante o saque de Constantinopla em 1204 e levadas para Roma, mas alguns ossos foram devolvidos para a Igreja Ortodoxa em 27 de novembro de 2004 pelo papa João Paulo II. Eles foram depositados num santuário na Igreja de São Jorge, em Istambul, a sede do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.
Porém, a caveira de São João não estava entre as relíquias saqueadas pelos cruzados, pois estava no Mosteiro de Vatopedi, em Monte Atos, no norte da Grécia. Em 1655, a pedido do tsar Aleixo I, ela foi levada para o Império da Rússia em troca de um pagamento. Em 1693, depois de receber um pedido do Mosteiro de Vatopedi requisitando a devolução da caveira de João, Pedro, o Grande, ordenou que ela deveria permanecer na Rússia, mas que o mosteiro fosse recompensado.
Ela foi mantida no Kremlin, na Catedral da Dormição da Theotokos, até por volta de 1920, quando foi confiscada pelos sovietes e levada para o Museu das Antiguidades de Prata. Em 1988, em conexão com o milésimo aniversário do Batismo da Rússia, a caveira, juntamente com outras importantes relíquias, foi devolvida à Igreja Ortodoxa Russa e foi abrigada na Catedral da Epifania até que a Catedral de Cristo Salvador terminasse sua reforma.
Porém, atualmente, o Mosteiro de Vatopedi abriga uma caveira e alega ser a de São João Crisóstomo, a qual é venerada pelos peregrinos que visitam o mosteiro. Além disso, dois outros lugares santos na Itália reivindicam a posse da caveira de São João: a Basílica de Santa Maria de Fiore, em Florença, e a Capela dal Pozzo, em Pisa. A mão direita de São João está em Monte Atos e diversas outras relíquias menores estão espalhadas pelo mundo.
Revisão: Flávia Rossane 

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João Crisóstomo, Comentário sobre Mateus

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♛ Uma das características mais recorrentes das homilias de João Crisóstomo (347-407) é sua ênfase no cuidado com os necessitados. Ecoando temas do Evangelho de Mateus, ele exorta os ricos a abandonarem o materialismo para ajudar os pobres, empregando todas as suas habilidades retóricas para envergonhar os ricos e obrigá-los a abandonar o consumismo mais conspícuo:


“Honras de tal forma teus excrementos a ponto de recebê-los em vasilhas de prata quando outro homem criado à imagem de Deus está morrendo de frio?”


— João Crisóstomo